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Carta & Crônica
Henry Galsky
17 de Abril - Terça-feira - 10:00

O ataque à Síria coordenado pelos EUA tem sucesso entre os atores ocidentais e mesmo entre opositores explícitos a Donald Trump – como o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan – porque parece limitado a um ponto consensual e ao mesmo tempo muito superficial: o uso de armamento químico em confrontos e, ainda mais grave, contra a própria população civil.

Os elogios e manifestações de apoio de lideranças internacionais se encerram justamente nesta última linha de discussão. Depois disso, não há mais consenso. Se a ideia é estabelecer este limite – a punição ao uso de armamento químico –, a operação obtém sucesso.

Para além deste aspecto, não há mais denominadores comuns em larga escala. Há muitas perguntas em jogo: Assad permanece presidente da Síria, o Irã e a Rússia podem transformar o país em base de influência e ações regionais, os iranianos podem seguir com o projeto de hegemonia regional e conexão contígua entre seu território e o Mediterrâneo, a Turquia irá permitir a criação de um estado curdo no norte na Síria?

Todas essas questões abrem outras tantas linhas de raciocínio e argumentação que se multiplicam em novos dilemas internacionais e discordâncias excludentes numa região já instável. Aliás, as dúvidas descritas acima representam exatamente algumas das muitas consequências geopolíticas da guerra civil síria – isso sem falar dos dilemas humanitários que envolvem, por exemplo, o destino dos sírios exilados na Europa e nos campos de refugiados do Oriente Médio.

Por enquanto, de todas as possibilidades que passaram a existir a partir da operação ocidental, são os iranianos quem devem estar se perguntando como será o futuro a partir de agora.

Depois de sete anos investindo no regime de Bashar al-Assad com algo entre 8 e 12 bilhões de dólares por ano (transferência de armamento para as milícias xiitas menores, para o Hezbollah e a criação de forças especiais para lutar na Síria), graças ao ataque com armas químicas do dia 7 de abril, Teerã passou a enfrentar crise existencial: deixou o estado de absoluta confiança no sucesso de seu plano regional e passou para a completa dúvida quanto a suas possibilidades.

Como já escrevi por aqui, o acordo sobre o programa nuclear do Irã está por um fio. Se a administração em Washington já não nutria nenhuma simpatia por esta herança de Obama, a ascensão de opositores explícitos ao tratado a cargos de primeiro escalão no governo Trump deixa a situação ainda mais complicada aos iranianos.

Quando menciono os opositores ao acordo, refiro-me especificamente a Mike Pompeo, ex-diretor da CIA escolhido por Trump para ser o novo secretário de Estado, e John Bolton, assessor de segurança nacional, o terceiro a ocupar o cargo na administração Trump.

Com ainda mais “falcões” a seu redor, o presidente americano pode incluir no pacote da ação na Síria danos à infraestrutura iraniana construída no país. Se isso acontecer, os iranianos podem se sentir tentados a reagir, muito embora este tampouco seja o interesse do

presidente russo, Vladimir Putin. O Irã deve aos russos não apenas obediência, mas a possibilidade de construir instalações na Síria.

E aqui reside a chave da situação. Putin pode sacrificar conquistas do aliado Irã em nome de não elevar ainda mais as tensões. É quase certo que uma resposta iraniana – ou do Hezbollah – ocorreria sobre Israel. Se os EUA permanecerem presentes na Síria (menos em razão de seus poucos 2 mil soldados em solo, mas em função da coalizão que realizou os ataques aéreos), podem se decidir por causar ainda mais perdas materiais ao Irã.

Para os russos, é melhor impedir esta escalada. Há pouca gente se dando conta disso, mas o foco de Putin neste momento é resolver a situação na Síria – ou continuar na trilha da vitória com Assad como presidente e manter as instalações militares russas resguardadas – e partir para a Copa do Mundo. O país sedia o segundo maior evento esportivo do planeta em junho, investiu cerca de R$ 40 bilhões na construção de estádios grandiosos (o Brasil gastou R$ 25,5 bilhões) e quer usar o futebol para mostrar um país moderno e próspero na maior jogada de propaganda da gestão Putin.

Imaginem o estrago que seria sediar a Copa enquanto luta uma guerra no Oriente Médio? Imaginem se França e Inglaterra – duas potências da Otan, do futebol e atores da coalizão de Trump – decidissem boicotar o show de Putin na Copa?

Não se podem prever acontecimentos de maneira definitiva. E a política tem uma história de grandes reviravoltas. Mas me parece que, para salvar sua Copa do Mundo, Putin estaria disposto a continuar com algumas concessões. E entre elas pode estar incluída parte da infraestrutura e das conquistas geopolíticas obtidas pelo Irã na Síria.

14 de Abril - Sábado - 00:35

Há diferenças significativas entre a ação conduzida pelos EUA, França e Grã-Bretanha nesta sexta-feira e o ataque pontual lançado pelos americanos no ano passado. O ponto mais óbvio é justamente a realização de uma ofensiva em conjunto, uma evidente preocupação do presidente Donald Trump em mostrar não apenas sua capacidade de liderança – muito contestada, especialmente em assuntos internacionais –, mas também do interesse em decidir e atuar de maneira multilateral. Ao longo da semana, foram os franceses que fizeram questão de afirmar que tinham provas concretas de que o regime de Bashar al-Assad de fato teria feito uso uma vez mais de armamento químico contra a própria população civil.

No ano passado o ataque conduzido apenas pelos EUA pode ser considerado uma resposta pontual ao uso de armas químicas por Bashar al-Assad. Naquele momento, parecia tão somente uma tentativa de Trump de se diferenciar de seu antecessor e eterno rival (pelo menos sob o ponto de vista do presidente atual) Barack Obama. Por mais que a ação naquele momento tenha representado uma novidade em relação ao governo americano anterior, não passou disso, basicamente. A ordem política e militar na Síria não se alterou; a Rússia permaneceu no comando do novo Oriente Médio e, mais importante, Bashar al-Assad continuou a ser o presidente da Síria.

O ataque pontual americano realizado no ano passado não mudou a realidade do conflito. A tal ponto que, se a versão francesa, americana e britânica estiver correta, Assad teria se sentido confortável o bastante para novamente fazer uso de armamento químico contra a população civil.

É possível que tudo isso – o cenário de permanência e a sensação de impunidade usufruída pelo regime de Assad – tenha motivado a mudança de postura de Trump. E faço esta referência porque, de acordo com as declarações oficiais do general americano Jospeh Dunford e do secretário de Defesa dos EUA, James Mattis, os alvos dos ataques dos três aliados ocidentais são as instalações e centros de pesquisas relacionados diretamente ao desenvolvimento de armas químicas de Bashar al-Assad.

Já se sabe neste momento que há coordenação com Moscou para evitar que alvos russos sejam atingidos. E esta é uma informação das mais relevantes. Por mais que Vladimir Putin tenha dado cobertura a seu aliado sírio a ponto de sustentá-lo no cargo, existe um esforço das potências para evitar confrontos na Síria.

A dúvida inicial quanto às intenções da Rússia de responder a ataques contra o território sírio parece estar respondida pelo menos por enquanto. Como venho escrevendo desde que os russos entraram na Síria, seu foco de atuação é a manutenção das próprias instalações militares e interesses regionais, sustentando Assad na presidência e evitando o esfacelamento do país diante de rebeldes e do Estado Islâmico. A partir do momento em que russos e sírios viraram o jogo, a vitória estava encaminhada.

A Rússia agora parece estar disposta a fazer certas concessões ao Ocidente, desde que suas conquistas não sejam perdidas durante este processo. Muito embora não haja garantias de que uma ofensiva ocidental prolongada não reverteria todo o trabalho de varredura executado desde 2015 por russos e sírios, inclusive com o estabelecimento de zonas de exclusão no país.

Ao longo desta última semana, é provável que oficiais russos e americanos tenham trocado informações e alcançado alguma forma de acordo. A ofensiva atual pode adquirir formato específico, configurando uma espécie de meio do caminho entre o ataque pontual e ineficaz realizado no ano passado e uma nova guerra aberta no Oriente Médio.

Os aliados ocidentais podem trabalhar com ondas de ataques contra alvos específicos – como ocorreu nesta sexta – deixando explícito que pretendem acabar com todas as instalações de desenvolvimento de armas químicas. A Rússia parece ter acatado a este formato. Resta saber se os russos conseguiram transmitir este raciocínio aos seus próprios aliados e se eles irão se submeter à determinação de Putin.

Se Assad optar por resistir, EUA, França e Grã-Bretanha têm a capacidade militar de acabar com a força aérea e baterias antiaéreas da Síria. Se os demais pilares de sustentação do presidente sírio partirem para o contra-ataque, aí sim teremos um cenário de guerra aberta. A Rússia provavelmente usou este tempo de uma semana desde o ataque com armas químicas por Assad para ordenar a Hezbollah e Irã a não se envolverem militarmente.

Sob o ponto de vista político, Donald Trump nunca esteve tão próximo de conquistar uma vitória importante; pode tornar prática a ameaça jamais concretizada pelo antecessor Barack Obama quando Assad usou armamento químico pela primeira vez em 2013. Se conseguir acabar com todos os centros de pesquisa e desenvolvimento químico da Síria, terá obtido uma conquista internacional inquestionável.

A posição britânica também está ligada às armas químicas; em março deste ano, um ex-agente russo e sua filha sofreram um ataque com envenenamento em solo britânico. Ao participar da ação, a primeira-ministra Theresa May responde aos russos, aliados de Bashar al-Assad e suspeitos do ataque na Grã-Bretanha.

Para Emmanuel Macron, o presidente francês, responder a ataques químicos na Síria é cumprir uma promessa de campanha. Para os três países ocidentais é também uma reafirmação do compromisso e da força da Otan, que, apesar das discussões internas e do grande questionamento de repasses financeiros conduzido por Donald Trump, volta novamente a demonstrar seu poder de fogo e ação conjunta.

11 de Abril - Quarta-feira - 10:20

Há uma possibilidade de correlação entre o ataque com armamento químico contra os próprios civis realizado aparentemente pelo governo de Bashar al-Assad na Síria e o ataque aéreo supostamente realizado por Israel contra a base aérea Tiyas (conhecida como T-4) localizada entre as cidades de Homs e Palmira, em território sírio.

Apenas para deixar claro, na medida em que a imprensa internacional tem falhado nesta comunicação, houve dois ataques: o primeiro (atribuído ao governo sírio), que vem causando indignação em todo o mundo, foi mais uma ofensiva com gás tóxico contra rebeldes e que vitimou civis. O segundo (atribuído a Israel) se trata de um ataque a uma base operada por militares iranianos na Síria.

Os EUA sabiam da ação de Israel contra a base militar. De acordo com fontes do governo americano ouvidas pela imprensa internacional, Israel teria feito a comunicação antes de levar a ofensiva adiante. Mesmo que o ataque sírio com armamento químico não tenha sido o fator central da tomada de decisão israelense, a data escolhida pode querer deixar claro que se trata de uma resposta de Israel.

Tal sincronia pode estar relacionada também a uma conversa tensa entre o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente americano, Donald Trump. Apesar da harmonia entre as lideranças, há relatos de que, por razões óbvias, Bibi estaria desapontado com a eventual retirada americana da Síria.

Por mais que esteja evidente que os russos são os novos patrões do Oriente Médio, a saída em definitivo dos EUA deixa os caminhos ainda mais livres a Bashar al-Assad e – de forma ainda mais grave para os israelenses – ao Irã. Se a ideia do líder israelense é deixar claro que o país não irá tolerar a presença avançada iraniana na fronteira norte de Israel, o ataque poderia ter esta mensagem como um de seus propósitos.

E aqui vale uma explicação; este é um período decisivo para a região. Não apenas pelos acontecimentos na Síria, mas também em função das ambições iranianas e da percepção de Israel sobre elas.

Existe a possibilidade real de que no próximo mês de maio o presidente Donald Trump anuncie a retirada americana oficial do acordo nuclear assinado entre as potências internacionais e o Irã. Se o compromisso de fato ruir, é possível que Teerã adote posturas mais assertivas. E considerando a presença de tropas do país na Síria, o resultado desta equação fica claro.

Como de costume, Israel não comenta nem admite oficialmente ter atacado a base militar em território sírio. A política do país é de reduzir ao máximo as tentativas de transferência de armamento a seus inimigos. As estimativas apontam que, desde 2012, o país já tenha alvejado mais de cem comboios, a maioria deles transportando arsenal militar e armamento à milícia xiita libanesa Hezbollah.

Neste episódio específico da empreitada israelense contra a base militar operada majoritariamente pelo Irã a novidade ficou por conta das declarações oficiais russas. Havia um acerto de bastidores entre Moscou e Jerusalém sobre incursões na Síria de forma a evitar embates entre as forças russa e israelense. As ações de Israel no território não geravam muitos comentários das autoridades da Rússia. Desta vez, no entanto, a situação mudou a ponto de os russos terem criticado os israelenses publicamente. A crítica não veio do baixo escalão, mas do próprio ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov.

Talvez Israel tenha coordenado todos os elementos sobre os quais escrevi e decidido agir neste momento. Para o estado judeu, não é ruim que o ataque seja entendido como resposta ao novo uso de armamento químico pela Síria contra a população civil. De qualquer maneira, é importante ter em mente o primeiro episódio do embate direto entre Israel e Irã.

Em 10 de fevereiro deste ano, o confronto seguiu a seguinte ordem sequencial: de acordo com a posição israelense, o Irã infiltrou um drone sobre a região norte do país. Para provar a acusação, as autoridades israelenses permitiram que o drone voasse por pouco mais de um minuto antes de ser abatido. Logo depois, caças israelenses atacaram esta mesma base T4 na Síria.

Entre os militares iranianos mortos nesta ação mais recente há um oficial sênior do programa de desenvolvimento de drones do país. Está claro que Israel prosseguiu com investigações sobre a missão do primeiro drone iraniano lançado sobre seu território, em 10 de fevereiro. E está claro que considera que o Irã tem projetos que os israelenses julgam importante interromper. Basta ligar os acontecimentos e, de maneira não ocasional, os dois ataques de Israel à mesma base militar.

Muito possivelmente, a intenção também seja a de deixar claro os limites que os russos devem estabelecer à atuação de seus aliados na Síria. Esta me parece ser a posição mais ampla de Israel.

Com as ameaças americanas explícitas ao governo sírio e às autoridades russas, fica evidente a gravidade da situação e a possibilidade real de alteração estrutural do cenário atual. Inclusive com eventuais confrontos diretos paralelos entre russos e americanos e iranianos (somados a Hezbollah e milícias xiitas) e israelenses.

Rússia e Irã prometeram respostas a Israel. Talvez os russos permitam a seus aliados uma contraofensiva. Que poderá ser realizada em maior ou menor escala. Talvez ela ocorra não por meio dos iranianos diretamente, mas a partir do Hezbollah no Líbano ou mesmo de milícias xiitas pulverizadas no lado sírio das Colinas de Golan. De qualquer maneira, este é um momento de grandes movimentações estratégicas e de política de bastidores.

09 de Abril - Segunda-feira - 10:35

Se ao longo deste século o Hamas iniciou três conflitos com Israel, os acontecimentos na fronteira entre a Faixa de Gaza e o estado judeu mostram que há uma mudança de percepção interna na alta-cúpula do grupo palestino. A ideia de burlar a cerca que separa os dois territórios está sendo colocada em prática pelo Hamas em função de suas derrotas. Para Israel, este é o momento da pós-vitória. Como resultado da experiência de três conflitos (2008/09, 2012 e 2014), os israelenses conseguiram neutralizar as ações do grupo terrorista palestino.

Os confrontos até agora obedeceram a uma sequência relativamente repetitiva de eventos: o Hamas lançava mísseis sobre Israel, Israel revidava, os mísseis continuavam a ser lançados, Israel aprofundava a ofensiva invadindo Gaza. Guerra aberta, número alto de civis mortos – especialmente palestinos –, negociações indiretas de bastidores e, por fim, cessar-fogo. Até que o novo ciclo se iniciasse novamente tempos depois.

Esta ordem improdutiva mantém a situação de impasse no conflito israelense-palestino. Ela representa de certa maneira uma resposta que o Hamas ainda não consegue apresentar para justificar ou alterar sua razão de existência. Preciso retornar um pouco no tempo, especialmente até 11 de novembro de 2004, a data de morte de Yasser Arafat.

Arafat não foi apenas o presidente palestino até morrer, mas o fundador da ideia de uma nação palestina. Graças a ele, esta demanda passou a protagonizar os principais fóruns internacionais.

Em 1993, Arafat assinou os Acordos de Oslo com Israel e se reinventou como figura política depois de décadas de ações terroristas. O caminho da governança transformou o projeto palestino em Autoridade Palestina (AP), a entidade que, graças aos acordos, passou a responder e a centralizar a vida política palestina cujo propósito final era e continua a ser a criação de um estado independente em Gaza e na Cisjordânia capaz de conviver pacificamente ao lado de Israel.

A ausência de Arafat desarticulou os palestinos. Em 2006, as eleições legislativas deram a vitória justamente ao Hamas, grupo de oposição ao Fatah – o movimento de sustentação de Arafat fundado por ele e aliados no final dos anos 1950 – e naturalmente também de oposição à AP. Ao mesmo tempo, as potências internacionais e a ONU impuseram condições para aceitar o novo governo formado majoritariamente pelo Hamas: renunciar ao uso da violência, reconhecer o estado de Israel e se comprometer com os acordos previamente assinados. Entre declarações contraditórias por parte da cúpula do grupo e ameaças israelenses, o impasse persistiu.

O Hamas não se deu por satisfeito apenas em derrotar o Fatah nas urnas. Numa guerra interna, expulsou os membros do Fatah da Faixa de Gaza. O argumento do grupo de luta contra a ocupação israelense estava fragilizado. Um ano antes, em 2005, Israel havia desmantelado todos os assentamentos judaicos em Gaza. Não restava nenhum soldado israelense no território. A soberania foi repassada integralmente à Autoridade Palestina. Naquele momento, havia expectativa de uma mudança no quadro do conflito. Pela primeira vez, os palestinos tinham a oportunidade de governar toda a extensão da faixa costeira.

No entanto, o cenário mudou rapidamente. Depois de expulsar a AP, o Hamas também cancelou todos os acordos de passagem de fronteira com Israel. Assim nascia o bloqueio a Gaza. Ainda em 2006, o Hamas atuou contra Israel durante a Segunda Guerra do Líbano, cuja frente de batalha era o norte do território israelense e o sul do território libanês. Graças a uma rede de túneis até então desconhecida, membros do grupo entraram no território israelense e sequestraram o soldado Gilad Shalit – cinco anos depois, o soldado seria libertado em troca de 1.027 prisioneiros palestinos, reforçando ainda mais a posição do grupo diante da sociedade palestina.

Este momento marca a reafirmação do Hamas como entidade terrorista. Ao contrário do que ocorreu com outras facções e grupos armados em diversas partes do mundo (inclusive com a figura central da narrativa palestina, Yasser Arafat), a governança não suavizou suas posições. Havia em 2006/2007 a possibilidade real de transformação. O Hamas poderia ter investido todo o orçamento recebido na construção de uma realidade alternativa em Gaza.Poderia ter adotado uma posição mais pragmática. Poderia, mas não fez.

Os anos seguintes marcam um aprofundamento do discurso que isolou não apenas o grupo, mas os quase 2 milhões de palestinos que vivem em Gaza. Três conflitos depois – o momento atual – moldaram o cenário atual. O Hamas se associou ao eixo xiita – apesar da grande maioria populacional palestina sunita – e se encaixou como parte de um esforço de reconstrução regional capitaneado pelos russos e operado por Irã, Síria, Turquia e Hezbollah.

Ao mesmo tempo, o grupo hoje se depara com uma realidade que supera suas possibilidades militares de momento: os mísseis lançados sobre Israel são interceptados pelo escudo antimísseis conhecido como Domo de Ferro, a fronteira tem se mostrado impenetrável, a rede subterrânea de túneis foi descoberta. Nem Israel, nem o Egito dão mostras de disponibilidade em levantar o bloqueio ao território. Há um ciclo terrorismo-bloqueio-terrorismo sem perspectivas de encerramento.

É neste cenário que nascem os protestos orquestrados na fronteira. O raciocínio do grupo é até bastante simples: se a guerra real não pode ser vencida pelos meios práticos, que a guerra de mídia seja capaz de isolar os israelenses. Ao mesmo tempo, o Hamas não volta atrás em sua carta de fundação. A ideia de destruir Israel é reafirmada.

Em maio de 2017, um novo documento político parecia aceitar a ideia real de um estado palestino estabelecido em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Mas o mesmo documento deixava claro o compromisso com a violência e a criação de um estado palestino no território integral entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo – como escrevi no último texto, este é o território israelense.

E esta é a contradição do grupo. A dicotomia e a incapacidade – e a falta de interesse – de se reinventar como organização pragmática está levando milhares de pessoas à fronteira com Israel. E criando a ilusão de que elas poderão destruir a fronteira e marchar até Jerusalém. Se o objetivo é inalcançável, o Hamas sabe que, pelo menos, reforça suas pequenas vitórias na guerra da mídia e na disputa interna contra a AP. Mesmo que isso custe a vida dos palestinos.

02 de Abril - Segunda-feira - 10:30

A realização dos protestos em massa na fronteira de Gaza com Israel é considerada um caso de sucesso pelos proprietários do território costeiro palestino, o grupo terrorista Hamas. Depois de três confrontos diretos travados com os israelenses quase em sequência (2009, 2012 e 2014), seus membros decidiram investir numa nova forma de estratégia. Aliás, uma estratégia que deu certo em todas as oportunidades de guerra aberta com Israel e que passou a representar o caminho de sucesso internacional do grupo.

Nos confrontos diretos com Israel, a estratégia de provocar dano à própria população comum palestina em troca do isolamento internacional israelense tem funcionado. O lançamento de mísseis a partir de escolas, hospitais e áreas residenciais palestinas é uma fórmula de uso contínuo ao longo do século 21. O revide israelense – e a consequente morte de civis palestinos – causa comoção internacional, condenações de chefes de estado e dos organismos multilaterais, como a ONU.

Desta vez, o Hamas se apropriou de uma manifestação anual na fronteira de Gaza com Israel para promover a chamada “Grande Marcha do Retorno”. Ao contrário de eventos similares em anos anteriores, agora houve adesão significativa. Mais de 30 mil pessoas se posicionaram nas proximidades da cerca que separa Gaza de Israel.

A partir deste ponto, há um confronto violento que envolve não apenas as pessoas comuns, o Hamas e as Forças de Defesa de Israel (FDI), mas a disputa pela hegemonia de narrativa ainda em curso nas redes sociais e na imprensa tradicional.

O discurso oficial do Hamas – com rápida adesão pelos países árabes e por parte da imprensa internacional – estabelece que manifestantes que protestavam contra os israelenses de maneira pacífica foram alvejados pelas FDI.

Para Israel, o pacifismo da marcha era uma armação e as FDI alvejaram pontualmente os principais instigadores de atos violentos, muitos deles membros do Hamas e de sua ala militar, as brigadas Izz ad-Din al-Qassam.

Isolado no mundo árabe – em virtude de sua associação ao eixo xiita regional não-árabe – , o Hamas rapidamente obteve sucesso a partir da ação. Depois de praticamente quatro anos fora da pauta principal das discussões, Gaza retomou seu protagonismo perdido.

No mesmo dia, a oposição interna ao Hamas (a Autoridade Palestina, entidade reconhecida internacionalmente como a legítima representante dos palestinos) conseguiu realizar sessão no Conselho de Segurança da ONU de forma a condenar Israel.

Israel argumenta que protege a sua população. E a cerca que separa o território israelense de Gaza é a barreira que separa a população de Israel do próprio Hamas, entidade que controla a faixa costeira desde 2007 e cujo objetivo abertamente não é a construção de um estado palestino que possa conviver pacificamente ao lado de Israel, mas a destruição do estado judeu.

Durante a manifestação na fronteira, o chefe do Hamas, Yahya Sinwar, fez questão de repetir os objetivos do grupo:

“A Marcha do Retorno vai continuar até removermos esta fronteira temporária. Nosso povo não pode desistir de uma polegada sequer da terra da Palestina. Vamos comer seus fígados (dos israelenses)”, disse.

Quando Yahya Sinwar faz uso do termo Palestina ele não se refere à Gaza e Cisjordânia (territórios que os acordos internacionais assinados – inclusive pela Autoridade Palestina – deixam claro que servirão de base para a criação de um futuro estado palestino). Sinwar se refere ao território integral entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo – Israel, portanto.

A própria ideia de organizar uma “Marcha de Retorno” parte do princípio de inexistência de Israel. É pouco provável que uma manifestação criada a partir desta lógica tenha como propósito final a construção de um ambiente pacífico ou que minimamente sustente a ideia de dois estados para dois povos – a base de todos os acordos assinados entre Israel e a Autoridade Palestina desde os Acordos de Oslo de 1993.

Há algumas ideias do Hamas para fazer uso deste novo-velho modo de operação: a reocupação do espaço de mídia perdido nos últimos quatro anos – especialmente em função do agravamento da Guerra Civil Síria e das demais disputas entre xiitas e sunitas em todo o Oriente Médio.

A incapacidade de sucesso da coalizão palestina entre o próprio Hamas e o Fatah (grupo de sustentação da Autoridade Palestina) e da unificação de discursos, projetos e práticas entre as duas alas rivais.

A nova diretriz internacional e unilateral de Donald Trump, que “pula” a discussão sobre temas complexos, superando-os com o estabelecimento de fatos no solo. No caso do conflito entre palestinos e israelenses, esta lógica pode ser aplicada ao reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e à transferência da embaixada americana para a cidade. Apesar dos protestos de países árabes, a decisão da Casa Branca não encontrou pontos de resistência reais.

Mesmo a partir dos protestos, a Autoridade Palestina não conseguiu reverter a decisão de Trump. O Hamas percebe esta realidade como oportunidade. Ao contrário da AP, o Hamas produz seus mártires em confrontos com Israel de forma a alçar a luta palestina novamente ao centro das discussões internacionais.

A promessa do grupo é que este movimento representa apenas o início de uma nova onda de protestos que chegarão ao seu ponto máximo no dia 15 de maio, o dia seguinte à declaração de independência de Israel – data que os palestinos chamam de Nakba, a catástrofe. E justamente neste ano Israel celebra seus 70 anos de independência. E com a promessa da transferência da embaixada americana para Jerusalém.

Há alguns pontos que serão respondidos até maio: o Hamas está disposto a declarar e manter uma nova guerra com Israel (o confronto anterior, em 2014, durou 50 dias e custou a vida de 2.100 palestinos)? A ideia é que os protestos se avolumem de modo a provocar uma nova intifada? E se o propósito do Hamas for mesmo o de iniciar uma nova guerra com Israel, haverá desta vez a participação direta do Irã, cada vez mais assentado e fortalecido na Síria?

Tudo isso está em jogo a partir dos novos acontecimentos planejados pelo Hamas. Eles podem se esgotar em si, mas também podem significar a faísca de um incêndio de grandes proporções.

29 de Março - Quinta-feira - 16:10

Depois do envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal e de sua filha Yulia caírem definitivamente na conta de Vladimir Putin, parte considerável dos países ocidentais optou por tomar uma atitude que mostra unidade – algo raro quando se trata de confrontar e isolar um país estrangeiro, especialmente no caso da Rússia. Há um movimento crescente de expulsão de diplomatas do país.

No dia 14, a primeira-ministra britânica, Theresa May, mandou 23 membros do corpo diplomático da Rússia alocados no Reino Unido de volta para casa. Na sequência, ela e os líderes de EUA, França e Alemanha fizeram uma declaração condenatória e igualmente rara em conjunto. E eis que há uma escalada na reação internacional; já são quase 140 russos expulsos de uma variedade de países, incluindo EUA, 17 países-membros da União Europeia, Canadá, Albânia, Austrália e outros.

Havia na administração russa uma espécie de conforto e sensação de segurança. A guerra na Geórgia, em 2008, a interferência nas eleições americanas de 2016, a adesão ao governo de Bashar al-Assad na Síria – a proteção ao ditador local mesmo depois de dois ataques com armamento químico contra a própria população civil – e a construção de uma nova rede de alianças práticas no Oriente Médio encheram os russos de confiança.

Os europeus podiam reclamar quanto quisessem, o FBI e a CIA podiam investigar a interferência nas eleições. Nada disso alterava a realidade dos fatos. Escrevi sobre isso no texto de 19 de março, logo na sequência de mais uma vitória eleitoral e incontestável de Putin, consolidando-se em mais um mandato e distribuindo seus espiões pelo mundo. Sem causar grande comoção ou reações.

Na ocasião, reproduzi o raciocínio de Anne Applebaum, colunista do Washington Post:

“A verdadeira questão para a Grã-Bretanha – bem como para a França, a Alemanha e os Estados Unidos – é se estamos dispostos a acabar completamente com a relação financeira. Poderíamos proibir os paraísos fiscais nas Ilhas Virgens, bem como em Delaware e Nevada; poderíamos tornar impossível comprar propriedade anonimamente; poderíamos banir empresas russas com origens duvidosas de nossas bolsas de valores”.

Não me parece que este é o caminho. Por enquanto. Mas o Kremlin está experimentando um tipo de reação incomum. E que pode ter consequências reais sobre a forma como atua no exterior. A rede de relacionamento que a Rússia criou com partidos e movimentos de extrema-direita europeia e grupos de supremacia branca nos EUA, por exemplo, pode ser abalada.

Se a escalada diplomática seguir adiante, as alianças construídas pelos agentes russos estabelecidos em território estrangeiro correm perigo.

E mais: o protagonismo de Moscou e de seus robôs nos processos eleitorais internacionais – de modo a influenciar diretamente esses países – pode e deverá ser alvo de novas medidas regulatórias. A ideia de que a internet é um território livre de modo permanente é ilusória. Principalmente quando os processos democráticos de grandes potências estão ameaçados.

A questão é entender como Putin irá reagir para além da formalidade de dar o troco expulsando diplomatas internacionais.

Uma das possibilidades está no Oriente Médio. Depois que fincou bandeira na região – e se tornou a liderança local de fato –, Putin tem um poderoso time de aliados no bolso. Irã, Síria, Turquia, Hezbollah, Hamas e todas as milícias xiitas afiliadas a Teerã estão à disposição. Não me espantaria se o presidente russo optasse por fazer uso dessas alianças.

Permitir que o Irã, por exemplo, se aproxime ainda mais da fronteira de Israel levando o estado Judeu a reagir é uma arma poderosa de Putin. Rapidamente, este conflito tem potencial para causar ainda mais instabilidade numa região historicamente instável. O presidente russo pode usar a velha estratégia de criar um grande problema de forma a aparecer como o único capaz de resolvê-lo.

Lembrando sempre que estamos tratando de uma liderança internacional que silenciou a oposição no país e anda em busca de vingança de ex-agentes aposentados no exterior. E, vale também lembrar, é o ponto de apoio de um ditador do Oriente Médio que não pensou duas vezes antes de atacar a própria população civil com armamento químico.

27 de Março - Terça-feira - 11:40

Há no Brasil dados alarmantes sobre analfabetismo. Não me refiro apenas à capacidade de ler e escrever, mas principalmente de interpretar textos jornalísticos e artigos de opinião. De acordo com estudo realizado pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa, apenas 8% de todos os brasileiros podem ser considerados proficientes. Ou seja, conseguem interpretar textos e se expressar por escrito de maneira clara. Considerando-se a população atual do país – pouco mais de 207 milhões de pessoas – há, portanto, tão somente cerca de 16,5 milhões de brasileiros proficientes.

Realizar esta grande lacuna educacional é por si só entender a dimensão e dificuldade do imenso trabalho a ser feito. No entanto, o ano eleitoral brasileiro apresenta desafios básicos de comunicação. Esses números configuram grandes possibilidades de sucesso para grupos interessados na disputa política. E aí retomo parte da análise que escrevi sobre a Cambridge Analytica, a “consultoria” política que passou de case de glória cujos executivos eram aplaudidos em congressos de publicidade a protagonista do maior escândalo de fraude de dados e manipulação no ambiente digital.

Como escrevi, as matérias do Channel 4, Guardian e Observer que revelaram o modo de atuação da CA apresentaram também um aspecto de grande interesse por aqui. Abertamente, um dos executivos flagrados dizia que a consultoria estava a caminho do Brasil.

Em outubro de 2017, a Cambridge Analytica estabeleceu parceria formal no Brasil. O marqueteiro baiano André Torreta anunciou o nascimento da Cambridge Analytica Ponte, que unia a CA britânica à Ponte Estratégia, a agência de marketing político de Torreta.

No ano passado, o marqueteiro brasileiro falou abertamente à edição brasileira do jornal espanhol El País. Na ocasião, havia orgulho quanto às ferramentas da CA de construção de perfis de eleitores e criação de campanhas customizadas. É provável que o próprio sócio brasileiro desconhecesse os métodos de coleta de dados revelados na última semana. E, para deixar claro, em função da descoberta integral da forma como a Cambridge Analytica trabalhava, André Torreta se comunicou com os veículos de imprensa para anunciar que a parceria entre a Ponte Estratégia e a CA havia sido desfeita.

E quanto aos planos da CA no Brasil durante o processo eleitoral? Também serão suspensos ou, como a reportagem do Channel 4 revela, a empresa atuará nas sombras com contratos terceirizados e empresas fictícias? E, se isso acontecer, quem será sua contratante?

O fundador da CA, Robert Mercer, é um entusiasta e financiador de movimentos de extrema-direita e supremacia branca. Foi Mercer quem ajudou a reerguer o Breitbart News, o site da nova extrema-direita americana. Steven Bannon, ex-estrategista chefe da Casa Branca e ex-vice-presidente da CA, assumiu a chefia do Breitbart News depois que a família Mercer passou a financiar o site.

No Brasil, as fake news ganharam força durante o processo de impeachment. Mas não há um movimento de extrema-direita notório, apesar de novos candidatos interessados em ocupar este nicho de mercado. Com a direita de roupa nova em todo o mundo – e, como escrevi em meu último texto, obtendo resultados cada vez mais significativos –, este cenário está para mudar. Por aqui, a possibilidade de ocupação desta lacuna atende pelo nome de Movimento Brasil Livre (MBL).

Em outubro de 2017, o jornalista da Piauí Bruno Abbud conseguiu acesso a conversas de um grupo de Whatsapp chamado MBL Mercado – dedicado a unir membros do movimento e executivos do mercado financeiro. A estratégia seria apresentar as pautas dos executivos no mundo político em troca de financiamento do MBL. Pelas conversas, o jogo brasileiro ainda é muito tímido quando comparado a países onde a nova direita está estabelecida e conta com amplos recursos financeiros, casos de Europa e EUA.

No entanto, as conversas deixam claro que a garotada do MBL considera políticos tradicionais do PSDB como velhos e ultrapassados. Esta análise interna ocorre justamente porque esses jovens querem a construção de um novo cenário mais à direita. Em certos momentos, membros do MBL chegam a classificar certos nomes do partido como de esquerda, caso do senador José Serra, por exemplo.

O MBL se consolida como movimento abertamente de direita que não se envergonha de defender o livre mercado, a redução do papel do Estado na economia e nas políticas sociais. Quer ser a manifestação brasileira de correntes políticas europeias e da direita reformada americana. Não quer ser o partido Republicano tradicional, mas sua ala mais conservadora e voraz, como o próprio presidente Trump.

E o que tudo isso tem a ver com a Cambridge Analytica? Da mesma maneira como a “consultoria” política britânica, o MBL ganhou força e venceu campanhas graças às redes sociais. Assim como a CA, o MBL cresce a partir de jornadas que trabalham com o medo de parte da população.

De acordo com estudo do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, o site Ceticismo Político e o MBL foram os dois principais compartilhadores do grande volume de notícias falsas que circularam em grupos de Whatsapp em todo o país na sequência da execução da vereadora Marielle Franco.

Questionado, o MBL disse apenas que “compartilha o que bem entende e prefere acreditar na mídia independente”.

A resposta do movimento me faz retornar à abertura deste texto; num ambiente de extrema precariedade educacional, o MBL se sente plenamente à vontade para amenizar a divulgação de mentiras e difamação classificando-as como “mídia independente”.

Para deixar claro, não há como afirmar que a CA irá mesmo se envolver na campanha eleitoral brasileira. Mas há hoje no país um terreno fértil para a atuação da “consultoria”. Não apenas existe um grupo local com afinidade à nova direita mundial – inclusive desqualificando os partidos de direita e centro-direita brasileiros –, mas que também manipula com desenvoltura bancos de dados e faz uso de compartilhamento de notícias falsas.

Some-se a tudo isso um país muito polarizado, violento e hiperconectado em redes sociais. A maior parte de sua população é incapacitada para interpretar textos mais complexos – e certamente não detém ferramentas para distinguir jornalismo sério de boataria e propaganda disfarçada.

Ao longo deste ano, a população estará no alvo – pode não ser objeto da atuação da Cambridge Analytica, mas já há muita gente hábil que conhece e replica seus métodos de trabalho por aqui.

22 de Março - Quinta-feira - 11:12

Foram os britânicos do Observer que iniciaram as investigações sobre o escândalo envolvendo a empresa Cambridge Analytica. A história se espalhou e agora é objeto de incontáveis matérias ao redor do mundo. No centro da história – tão ou mais grandiosa do que os sucessivos segredos revelados pelo WikiLeaks – está um jovem canadense, Christopher Wylie, que afirma ter “quebrado” o Facebook a mando de Steve Bannon, ex-estrategista chefe da campanha de Donald Trump.

A Cambridge Analytica era parte da campanha de Trump. Também atuou de maneira fundamental durante o referendo que culminou com a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE), o chamado Brexit. A CA coletou informações de mais de 50 milhões de pessoas no Facebook, levando a gigantesca rede social a ser acusada de violação de dados. O foco da CA – durante a campanha eleitoral americana e o Brexit – era construir um software capaz de influenciar os votos de milhões de eleitores. Nessas duas situações, a empresa conseguiu obter os resultados que buscava.

Sobre a CA pesam acusações de que, desde o início de 2014, teria acessado informação sem autorização prévia de modo a traçar perfis de eleitores e, assim, produzir anúncios e material de campanha precisamente direcionados – o que tem sido chamado de “microtargeting”.

A violação sistemática dos perfis foi realizada com sucesso a partir de Aleksandr Kogan, acadêmico de origem russa que trabalhava na Universidade Cambridge, no Reino Unido. Um aplicativo criado por ele no Facebook pagou a centenas de usuários para que se submetessem a um teste psicológico e também liberassem seus dados virtuais.

A empresa de Kogan, a Global Science Research (GSR), em associação com a Cambridge Analytica, conseguiu autorização dos usuários que fizeram o teste para que tivessem acesso estendido aos dados de seus amigos no Facebook. É este o ponto de discórdia entre Facebook, GSR e CA. O Facebook considera como violação de sua política de privacidade a divulgação de dados de terceiros.

A discordância entre as três empresas não impede que os fatos tenham ocorrido. CA e GSR conseguiram manipular diretamente duas das maiores disputas políticas contemporâneas, espalhando notícias falsas e conteúdo personalizado. CA e GSR, empresas privadas, têm em seu poder os perfis psicológicos de 230 milhões de americanos. Este é um dado concreto.

Em 2010, Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, zombou da revista Time quando a publicação elegeu como personalidade do ano e estampou em sua capa Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook. Na ocasião, Assange mandou um recado que se aplica bem à situação atual: “vocês estampam como personalidade do ano alguém que recolhe suas informações e dados e os vende a empresas privadas. Eu investigo e coleto dados que os governos não querem que sejam conhecidos e os revelo para o mundo todo”, disse.

Assange não é um exemplo de altruísmo, pelo contrário. Ele mesmo elege alguns aliados para poupar, caso do presidente russo, Vladimir Putin. Mas o paralelo que ele fez em 2010 vale para os dias de hoje. Estamos diante de um desses casos que mudam a história.

Há políticos e governos interessados nesta parceria com empresas de análise e manipulação. Steve Bannon, ex-aliado de Donald Trump (homem forte da campanha presidencial e ex-estrategista chefe do governo) é a conexão entre esses dois mundos. Seu sucesso é, de certa maneira, retrato de um tempo que acaba de nascer.

Bannon participou da fundação do Breibart News, site que está no centro da reverberação do discurso da extrema-direita e de sua nova roupagem. Primeiro os EUA, depois o mundo.

Antes de estar formalmente na campanha de Trump e posteriormente com acesso ilimitado às decisões da Casa Branca, Bannon foi vice-presidente, vejam só, da própria Cambridge Analytica.

Bannon é um especialista no cruzamento entre dados obtidos nas redes sociais e a política. Mais ainda, é um entusiasta do que chama de ideias “populistas” – o nome que tem usado para descrever os movimentos nacionalistas; a extrema-direita. O valor de tê-lo na equipe está nas narrativas de sucesso recentes que apresenta: eleição americana e o Brexit; a vice-presidência da Cambridge Analytica. Ele é a ponte que transforma grande volume de dados em sucesso eleitoral. É o nome que cunhou uma nova forma de manipulação. É a chave que promete ampliar globalmente o velho nacionalismo renovado.

Em março, foi recebido pelos principais nomes da extrema direita europeia – o movimento que se identifica como parte de uma causa única e que já conseguiu obter votações expressivas – ou mesmo a vitória – na França, Itália, Alemanha, Áustria e Hungria. Bannon quer criar sites como o Breitbart e ensinar suas técnicas de sucesso eleitoral em todo o mundo.

No século 21, a extrema-direita está dando passos cada vez mais acelerados para ser protagonista nos centros decisórios mais importantes. Não faz muito tempo, os resultados eram tímidos; a presença de Marine Le Pen no segundo turno nas eleições presidenciais francesas; a ascensão de Viktor Orban como primeiro-ministro da Hungria, em 2010. Em curto prazo, sucesso nos EUA e na Itália.

Ninguém sabe se o plano continuará a ter sucesso, mas está claro que, em vez de acabar com regimes democráticos, basta ter nas mãos as ferramentas de manipulação corretas. Esta foi a invenção de Steve Bannon e da Cambridge Analytica, que se orgulha de criar matérias e acusações falsas para derrotar a oposição ao seu cliente. Bannon e a CA aplicarão suas técnicas sempre que forem requisitados. Justamente por perceberem esta oportunidade, os políticos de extrema-direita foram um a um prestar homenagens a Bannon e a cortejá-lo em sua passagem pelo continente.

O Channel 4 britânico investigou a fundo a CA. Inventou um cliente falso e conseguiu se aproximar do alto escalão da empresa. Nas reuniões filmadas com câmera escondida, conseguiu obter as informações que estão sendo divulgadas sobre a forma como a Cambridge Analytica atua. Uma das revelações é que a empresa está a caminho do Brasil.

O caso Marielle mostra o poder das notícias falsas na tentativa de manipular a opinião pública. Nas eleições presidenciais de outubro – se elas realmente ocorrerem – as fake news serão usadas amplamente na disputa. Se de fato a CA colocar à disposição de algum candidato suas ferramentas de “trabalho”, teremos por aqui um ambiente ainda mais explosivo do que o atual.

19 de Março - Segunda-feira - 13:20

Mais seis anos de Putin reinando na Rússia. O resultado não é nem um pouco surpreendente, principalmente porque o presidente russo é o homem forte do país não apenas em seu executivo, mas é também uma espécie de sócio-fundador de um clube particular. Desde 2000 no poder, Putin estará à frente do país pelo menos até 2024. É, portanto, o homem que moldou a Rússia no século 21 – não sabemos quem será seu sucessor e isso não vem ao caso neste momento.

O presidente Putin tem a situação nas mãos: a oposição está presa ou morta. Os adversários com alguma relevância são banidos do processo eleitoral. Os jornalistas que o denunciam são calados também com prisão ou morte. Ao mesmo tempo – e apesar disso – é amado por boa parte da população. A taxa de aprovação ao presidente está na casa dos 80%. A fórmula de que faz uso é conhecida e tem como origem sua carreira de sucesso na KGB, o serviço secreto da extinta União Soviética.

Para o público interno, Putin tem se valido de duas narrativas principais: a primeira delas, a de que há uma série de conspirações internacionais para impedir que a Rússia retome o protagonismo perdido depois do fim da Guerra Fria. Um momento para a verdade é que, depois da queda da União Soviética, em 1991, havia a impressão de que os EUA haviam vencido a disputa contra o comunismo. Esta interpretação histórica – até parte de um senso comum – ganharia ainda mais força no ano seguinte, quando os europeus ocidentais fundaram formalmente a União Europeia. Os russos estariam, portanto, oficialmente superados.

Toda essa história verdadeira ganhou muita força a partir da ascensão de Putin, em 2000. A promessa de segurança, força e retorno ao cenário mundial estão na base do discurso e do sucesso do presidente russo. Assim, mesmo as sanções internacionais e o isolamento provocado pelos europeus funcionam como lenha da locomotiva russa. Putin e sua casta de oligarcas e burocratas são a força que permite o retorno do país. Quanto mais são acusados pelas lideranças estrangeiras – especialmente americanas e europeias – , maior é o sucesso diante do público interno. Este é um lado da história.

A outra narrativa de sucesso é mais palpável sob aspectos numéricos, muito embora tenha grande relação com a disputa entre russos e os inimigos europeus e americano; depois da grave recessão enfrentada entre 2014 e 2017 (cuja origem são a queda do preço do petróleo e justamente as sanções internacionais aplicadas depois que a Rússia anexou o território ucraniano da Crimeia, em 2014), a administração em Moscou está conseguindo tirar o país da crise. A projeção é de crescimento de 1,7% em 2018 e 1,8% no ano que vem. O desemprego – que chegou a 9,5% em 2009 – tem caído sucessivamente, alcançando 5,2% em janeiro deste ano. Como comparação, a taxa de desemprego oficial no Brasil é de 12,2%.

Os episódios recentes apenas reforçaram as duas narrativas complementares. A Grã-Bretanha acusa a Rússia de estar por trás do envenenamento de um ex-espião russo e de sua filha em Salisbury, no sul da Inglaterra. Sergei Skripal e Yulia Skripal estão internados em estado grave. Na quarta-feira, 14 de março, a primeira-ministra britânica, Theresa May, expulsou 23 diplomatas russos do país como retaliação ao ataque. O governo russo seguiu o mesmo caminho, ordenando a expulsão de 23 diplomatas britânicos da Rússia.

A crise resume o modo de atuação de Putin. O presidente russo nega participação. Da mesma forma, negou a presença de tropas do país na Crimeia, em 2014, também negou o doping sistemático de atletas e, seguindo esta linha de negativas, ironiza as acusações de interferência no processo eleitoral americano de 2016. A posição permanente de Moscou é de acusar as acusações e tomá-las como parte das sucessivas tentativas de minar o poder do país.

A Rússia não apenas faz uso constante desta estratégia como também adicionou elementos que só há pouquíssimo tempo o mundo passou a conhecer; os exércitos de robôs, a fabricação e ampla divulgação de notícias falsas e a adoção do discurso que está sendo chamado de “pós-verdade”. Todo este escopo conceitual é aplicado no dia a dia da política externa russa. E este arsenal carrega respostas sistemáticas para as ações e acusações internacionais.

Por isso, a declaração conjunta das lideranças de EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha – por mais rara que seja – não altera a realidade que confere status, permanência e estabilidade ao Kremlin. Pelo contrário. Além da expulsão de diplomatas, as retaliações britânicas são simbólicas e com pouco efeito prático: incluem o cancelamento da visita do ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov ao Reino Unido, além do anúncio de que ministros e membros da família real não estarão presentes na Rússia durante a Copa do Mundo.

Consigo imaginar o volume do riso de Putin diante disso. Os simbolismos não causam incômodo a uma hierarquia política que joga a estratégia do inimigo externo. Neste momento, inclusive, os russos apresentam os números que mencionei acima, deixando evidente a recuperação da economia do país. Moscou superou as sanções. Há apenas um caminho que pode colocar Putin em xeque. E concluo com o raciocínio de Anne Applebaum, colunista do Washington Post:

“A verdadeira questão para a Grã-Bretanha – bem como para a França, a Alemanha e os Estados Unidos – é se estamos dispostos a acabar completamente com a relação financeira. Poderíamos proibir os paraísos fiscais nas Ilhas Virgens, bem como em Delaware e Nevada; poderíamos tornar impossível comprar propriedade anonimamente; poderíamos banir empresas russas com origens duvidosas de nossas bolsas de valores”.

15 de Março - Quinta-feira - 11:17

O Brasil vive dois movimentos de países distintos. O primeiro deles – o oficial – é a síndrome do eterno retorno. A narrativa construída desde o processo de redemocratização estabelecendo a busca permanente pela caça aos marajás; a luta contra a corrupção. Há símbolos distintos deste Brasil: Fernando Collor de Mello, no momento seguinte à reabertura; o ex-juiz Joaquim Barbosa, que ocupou este lugar entre as manifestações de junho de 2013 e o impeachment da presidente Dilma Rousseff; e, finalmente – até agora –, o juiz Sérgio Moro, protagonista da busca implacável ao ex-presidente Lula.

Este é o país de um extrato da população. Esta é a obsessão de parte do Brasil, de uma parcela representada pela Avenida Paulista lotada de uma multidão vestida com camisas da confederação de futebol cujos dirigentes ou estão presos ou não podem pôr os pés fora do país. A confederação em permanente investigação – pelas polícias e departamentos de justiça da Suíça ou dos EUA, não os daqui.

Este é o Brasil desta multidão metalinguística de patos que tiram selfies de patos. Parte desta turma hoje olha para trás e, se não está arrependida, pode estar envergonhada. Este Brasil é o que caiu no conto do país a ser consertado pelo projeto político que – com o voto do Brasil por inteiro – tem sido derrotado nas urnas sucessivamente ao longo do século 21 até tomar a presidência na mão grande.

O Brasil do mundo da fantasia é um país que repete mil vezes – para ver se vira verdade – que a crise está terminando, que os empregos estão sendo retomados, que o PIB de 1% é sinal de recuperação e de que vivemos todos numa democracia.

O Brasil da fantasia é governado pelo presidente-investigado (ou investigado-presidente) que usufrui do cargo e da faixa, mas é o presidente mais impopular da história. Apesar disso, é o símbolo máximo de sucesso de um partido, o MDB (que, fantasticamente, quer dizer, apesar da realidade dos fatos, Movimento “Democrático” Brasileiro). Este país da fantasia tem cargo, voz e um líder do governo autor de um clássico democrata recente: “é preciso botar o Michel lá. Fazer um acordo com o supremo, com tudo”.

Há, no entanto, um outro Brasil. O Brasil da realidade. Um país que, ao contrário deste aí de cima, vive uma outra síndrome do eterno retorno; a da falta de representatividade.

De vez em quando, este Brasil reaparece. Na maior parte das vezes, aparece e morre. Foi este Brasil que morreu mais uma vez com a execução da vereadora do PSOL Marielle Franco.

A terrível efeméride fez com que Marielle fosse assassinada 30 anos depois de Chico Mendes. Chico e Marielle, dois símbolos do Brasil real, dois mortos no processo de disputa pela manutenção do Brasil da fantasia. Do Brasil dos muitos patos da Avenida Paulista.

É claro que Marielle foi assassinada. Chamar de opositores seus algozes é apequenar o significado não apenas do ato, mas da vida de Marielle. Como Chico Mendes em sua luta por um país que dependia da sobrevivência da Floresta Amazônica, Marielle morreu não apenas pelas denúncias contra a violência policial ou pelo olhar atento em relação à intervenção militar. Marielle morreu como parte do processo permanente de disputa entre esses dois Brasis: o da fantasia e o da realidade.

Marielle é símbolo de uma realidade alternativa em que mulheres negras e pobres ascendem graças ao esforço próprio em busca de educação. Marielle cometeu a audácia de se formar na universidade, de fazer mestrado e, pior, de conseguir ter voz, representatividade política. O Brasil da síndrome do eterno retorno, da “ponte para o futuro”, da luta permanente para pôr Lula na cadeia amanhã (e que julga e condena o ex-presidente na velocidade da luz enquanto permite que os processos contra representantes dos demais partidos prescrevam) não perdoa. Mariele recebeu a pena de morte.

Sua execução é parte da luta permanente entre os dois Brasis. Não chamem de opositores seus assassinos, é muito pouco. A cada 30 anos o Brasil é acordado de sua matrix pelo assassinato de Chico Mendes ou de Marielle. Mas depois volta a dormir e a sonhar abraçado com um pato.