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Carta & Crônica
Henry Galsky
24 de Julho - Segunda-feira - 16:40

Ainda relacionado ao meu texto mais recente sobre a crise política interna palestina, temos agora uma situação com grande capacidade explosiva: o Monte do Templo, como os judeus o chamam, ou o Nobre Santuário (Haram al-Sharif), nome dado ao mesmo lugar pelos muçulmanos. Nas oportunidades recentes em que esta pequena localidade sagrada de Jerusalém esteve no centro dos acontecimentos na disputa entre israelenses e palestinos, uma onda de protestos e violência tomou a região. Importante dizer que as supostas alegações religiosas sempre estão na base para a concretização de realizações políticas.

A disputa interna entre Hamas, em Gaza, e o Fatah, do presidente palestino Mahmoud Abbas, na Cisjordânia, contribui diretamente para o início desta crise atual. Vamos aos fatos em ordem cronológica: na sexta-feira, dia 14 de julho, três árabes com cidadania israelense armaram um plano de usar o espaço sagrado da Mesquita de Al-Aqsa (parte do complexo onde está a mesquita e o santuário islâmico do Domo da Rocha) para transportar armamento. Na saída, atiraram e mataram dois policiais israelenses. O ato recebeu a resposta institucional de Israel: o complexo foi fechado e as autoridades de segurança instalaram detectores de metal na entrada. Até aí, aparentemente nada de mais grave, certo? Errado.

Nesta parte do mundo, as sensibilidades e suspeições são tão exacerbadas que sobre determinações simples já há uma série de teorias. Muitas delas infundadas. Em primeiro lugar, é preciso dizer que aparelhos de detecção de metal são aplicados em muitos dos principais centros de peregrinação religiosa ao redor do planeta. Ali ao lado mesmo, no Muro Ocidental, lugar mais sagrado do judaísmo em todo o mundo (que por aqui é mais conhecido como Muro das Lamentações), todos os visitantes – independente de suas crenças – são submetidos aos procedimentos de segurança. Mesquitas em muitos países usam essas mesmas ferramentas de controle, ainda mais em períodos históricos tão instáveis quanto o que vivemos.

A questão envolvendo os detectores de metal no complexo do Monte do Templo / Nobre Santuário está relacionada a um misto de paranoia, teorias da conspiração e, acima de tudo, embate geopolítico exacerbado fruto do impasse permanente que cerca o complicado e estagnado processo de paz entre israelenses e palestinos. 

Para muitos muçulmanos – muitos deles incentivados por líderes políticos e religiosos – o estabelecimento por Israel de medidas de segurança no Monte do Templo / Nobre Santuário marcaria a alteração do status-quo. Ou seja, a soberania israelense – em vigor em Jerusalém desde a vitória na Guerra dos Seis Dias, em 1967 – significaria também que os judeus iniciariam a retirada dos templos muçulmanos do local para a reconstrução do Grande Templo judaico da cidade.

O Grande Templo (daí o nome Monte do Templo) era o principal e mais sagrado local de culto religioso judaico até ser destruído pela segunda vez e de maneira definitiva até os dias de hoje no ano de 70 da Era Comum pelos romanos (o Muro Ocidental ou Muro das Lamentações é a única parte que restou do templo). A ideia de que o Estado de Israel moderno deseja alterar a configuração para a construir o Terceiro Templo é bastante difundida por clérigos muçulmanos, muito embora haja poucas evidências de que isso irá acontecer. Principalmente porque os atores envolvidos sabem do enorme potencial catastrófico que uma decisão como esta poderia causar.

O fato é que sempre há quem faça uso deste tipo de teoria como forma de manobra política. Como escrevi em meu texto anterior, este é um momento de enfraquecimento do Hamas em função da realidade maior do cenário geopolítico regional. Acelerar para criar uma nova Intifada seria um passo para novamente acenar com protagonismo político – a razão permanente de disputa e atuação do Hamas. A ideia seria criar um problema não apenas a Israel, mas ao presidente palestino Mahmoud Abbas, que passou a sufocar o Hamas em Gaza com o corte quase total de fornecimento de energia à região. Abbas pretendia provavelmente forçar o Hamas a um novo enfrentamento com Israel, como escrevi, que por sua vez responderia com ampla força militar, enfraquecendo novamente o grupo.

Iniciar uma nova Intifada que se espalhasse não somente por Gaza, mas também pela Cisjordânia, significaria devolver a crise para o quintal de Abbas, desgastando ainda mais o presidente já sem grande legitimidade interna. É claro que todos esses passos não foram necessariamente esquematizados, mas essas podem ser facetas reais da crise atual. Além de testar a capacidade de resposta de Trump e do eixo sunita num cenário novo e desconhecido (eixo aliás que se opõe à Irmandade Muçulmana e ao próprio Hamas). O sucesso do grupo neste momento pode se resumir ao enfraquecimento – e quem sabe à queda – de Mahmoud Abbas.

Por trás dos detectores de metal, a geopolítica local e regional. A soberania e o status-quo de Jerusalém são questões centrais do conflito entre israelenses e palestinos. Na prática, por mais que, como escrevi, Israel tenha soberania sobre ambas as partes de Jerusalém (oriental e ocidental) desde 1967, este é um assunto de extrema sensibilidade aos dois lados do conflito. Qualquer movimentação israelense – especialmente no Monte do Templo / Nobre Santuário – é interpretada com enorme suspeição pelos palestinos. O tênue equilíbrio alcançado entre Israel e Jordânia (responsável por administrar o local como representante dos interesses islâmicos) está sempre por um fio. E é exatamente isso o que está acontecendo agora..

19 de Julho - Quarta-feira - 11:40

As peças no tabuleiro do Oriente Médio são movidas de acordo com a temperatura política local. A luta de algumas dessas peças não necessariamente é por movimentação, mas por permanência. Este é o jogo, por exemplo, do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Também é a preocupação do grupo terrorista palestino Hamas. Em 2007, na esteira de uma vitória nas urnas em eleições parlamentares palestinas, o Hamas tomou a Faixa de Gaza do Fatah, grupo ao qual pertence o presidente palestino, Mahmoud Abbas. A guerra entre os dois grupos rivais dividiu a luta maior palestina, a pelo estabelecimento de seu Estado. Hoje, na prática, há duas entidades distintas – e semiautônomas – sob as quais vivem os palestinos, uma em Gaza (sob controle do Hamas) e outra na Cisjordânia (sob controle do Fatah, facção que determina os rumos da Autoridade Palestina, AP).

Esta realidade não apenas impede a consolidação dos planos nacionais palestinos, mas também cria uma condição muito frágil à população comum. A disputa entre os rivais Hamas e Fatah vitima hoje diretamente os palestinos de Gaza, que sofrem com cortes no fornecimento de energia porque o presidente Mahmoud Abbas decidiu parar de pagar pela eletricidade de forma a estrangular o governo do Hamas. A manobra política expressa um desejo de vingança pelos acontecimentos dos últimos dez anos, mas também as ambições de Israel, dos EUA e – agora cada vez mais claro – das monarquias sunitas do Golfo Pérsico, que decidiram acelerar nas pretensões regionais, como se vê no caso da crise entre esses países e o Catar.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, fez uma análise muito simplória deste cenário, esquecendo-se do ponto principal: o sacrifício pesa diretamente sobre seus compatriotas palestinos – que no inverno rigoroso sofreram com a crise energética provocada pelo governo palestino baseado na Cisjordânia e, se o impasse permanecer, continuarão a sofrer também no verão. No Oriente Médio, crises de abastecimento podem se transformar em confrontos regionais, especialmente quando o governo de Gaza é controlado pelo Hamas.

Abbas está correndo para retomar Gaza do Hamas, imaginando que os palestinos da faixa costeira irão afundar a legitimidade do grupo terrorista local, abrindo caminho para a retomada do território pelo Fatah. A verdade é que o Hamas está enfraquecido pelo isolamento regional, em função diretamente da crise no Catar – fornecedor e garantidor financeiro do grupo – e das perspectivas alteradas pela luta contra o Estado Islâmico.

Se antes havia uma espécie de abraço ideológico permanente e disponível aos palestinos, existe neste momento um olhar mais pragmático. Os países do Golfo consideram o projeto regional iraniano uma ameaça gravíssima às sobrevivências das monarquias sunitas. Por isso também encaram a adesão russa ao lado dos iranianos na luta pela manutenção de Bashar al-Assad na Síria como uma aliança cada vez mais perigosa.

A busca hegemônica do Irã conta agora com a parceria da Rússia estabelecida no Oriente Médio. E Putin parece ter comprado uma passagem apenas de ida para a Síria, ainda mais no momento em que a Casa Branca é ocupada por um presidente que no discurso está focado na política doméstica americana. De forma pragmática, as monarquias do Golfo estão separando os atores regionais. E o Hamas caiu na conta do Catar. E do Irã.

Por análise de experiências anteriores, Abbas fez uma leitura simplória (mas não totalmente equivocada) sobre os passos seguintes. Enforcar Gaza levará o Hamas a uma nova guerra contra Israel – que, por sua vez, enfraquecerá ainda mais o Hamas. No entanto, Israel não parece interessado num novo e custoso (sob todos os aspectos) conflito em Gaza. Por isso, vejam só, negocia diretamente com o Hamas uma troca de prisioneiros. A ideia não é fortalecer o Hamas, mas dar algo em troca ao grupo. Nas circunstâncias atuais, a troca de prisioneiros amenizaria o cenário em Gaza, mantendo a legitimidade do Hamas e adiando um novo conflito. O que Mahmoud Abbas não levou em consideração foi justamente uma peça distante deste tabuleiro. Ela atende pelo nome de Mohammed Dahlan (foto), ex-membro do Fatah, ex-inimigo do Hamas e que lutou na guerra entre os dois grupos pelo controle de Gaza, em 2007.

Dahlan era o responsável pelo aparato de segurança em Gaza pelo Fatah. Em 2011, foi expulso da facção sob alegação de corrupção. Hoje, vive no exílio nos Emirados Árabes Unidos, onde desenvolveu laços de amizade importantes com os príncipes locais, entre eles o saudita Mohammed Bin Salman, e com membros relevantes da aliança sunita, entre eles o presidente egípcio, o general Abdel Fatah al-Sissi. Dahlan continua a ser odiado pelo Hamas, mas pode surgir como parte de um acordo maior justamente porque é um dos herdeiros políticos do líder Yasser Arafat e, portanto, rival direto do atual presidente palestino Mahmoud Abbas.

No cenário político atual, o retorno de Dahlan poderia ser aceito pelo Hamas por significar a queda de Abbas. Ao mesmo tempo, o novo líder seria alguém com livre acesso aos membros mais importante do eixo sunita e, claro, com acesso aos EUA – que não querem a eclosão de um novo conflito entre Hamas e Israel porque a situação representaria um problema internacional com o qual não querem líder. Donald Trump esteve na Arábia Saudita, fez negócios e comprou explicitamente a teoria local das monarquias do Golfo. No momento em que o presidente Trump se mostra muito interessado em costurar um acordo entre os países árabes e Israel e também encontrar alguma forma de acomodação entre israelenses e palestinos (para obter uma vitória grandiosa sobre seu antecessor Barack Obama), Mohammed Dahlan pode ser a peça que faltava no tabuleiro regional. 

12 de Julho - Quarta-feira - 10:30

Há setores da imprensa americana que estão esquecendo de fatos importantes ao analisar os caminhos que Donald Trump tem seguido em suas incursões internacionais. Há um ponto chave na estratégia externa do atual presidente e sobre o qual insisto por aqui: a oposição permanente a todas as determinações de Obama, o que agora é interpretado corretamente como a morte do universalismo promovido pelo presidente anterior. Até aqui, faz sentido. A análise mais comum sobre o atual ocupante da Casa Branca começa a perder lastro quando se inicia um juízo de valor (normalmente positivo) sobre os significados da presidência de Trump.

E aí considero importante citar alguns exemplos. Na National Review Magazine, revista fundada em 1955, o advogado e analista David French conclui que a Primavera Árabe recebeu interpretação equivocada pelo Ocidente porque a ideia do universalismo considera que os valores humanos são comuns às diferentes culturas, incluindo o que ele chama de “anseio pela liberdade”.

“Pessoas inteligentes consideravam que emergia o ‘anseio pela liberdade’ em oposição à ambição pelo poder e sede de vingança. (...) a Primavera Árabe conduziu a Irmandade Muçulmana (ao poder) no Egito, o Estado Islâmico (ao poder) na Síria, e a uma guerra cruel na Líbia”, escreve.

Listei aqui as conclusões de French porque elas resumem parte do pensamento atual da ala intelectual mais conservadora nos EUA e que é bastante representativa de parte da sociedade. Há conclusões corretas – a ruína de Estados nacionais tornou a situação em Egito, Líbia e Síria muito pior do que durante o período ditatorial nesses países –, mas, acima de tudo, um caminho que aponta equívocos de interpretação importantes.

O ponto fundamental é a conclusão simplória e enganosa de que povos e culturas de determinadas regiões do planeta não anseiam por liberdade. Esta afirmação é perigosa porque atribui características inatas a grupos populacionais inteiros. E, ainda mais grave, conclui que o fracasso da Primavera Árabe constitui o destino manifesto do Oriente Médio. Além da simplificação, essas conclusões desconsideram fatos importantes que implicam as chamadas potências ocidentais nos acontecimentos recentes que culminaram no cenário atual.

A avaliação de parte dos setores mais conservadores americanos simplesmente elimina o longo histórico de ditaduras no Oriente Médio e o apoio que receberam das potências ocidentais. A Primavera Árabe e suas consequências não podem ser examinadas sem que esses fatores sejam levados em conta.

Um ponto fundamental é que nas sociedades sob ditadura no Oriente Médio não havia movimentos de oposição organizados constituídos pela sociedade civil. Se existiam, eram ignorados pelas democracias ocidentais. Décadas de ditaduras militares sufocaram qualquer tentativa de oposição. O caso específico da Irmandade Muçulmana representa a mais absoluta exceção. O grupo inclusive foi o primeiro a chegar ao poder após a queda de Hosni Mubarak justamente porque era o único movimento organizado e que permaneceu clandestino durante a ditadura de Mubarak. As análises precisam olhar a história como ela é, não como alguns grupos gostariam que fosse.

As democracias liberais do Ocidente jamais tentaram entender o jogo político interno nesses países porque não precisaram. De forma pragmática, relacionavam-se com os ditadores (o que ainda acontece, caso por exemplo da relação com a Arábia Saudita). Quando as lideranças caíram no Egito e na Líbia, não havia nenhuma rede de contato disponível, o que também contribuiu para o fracasso da Primavera Árabe nesses países.

Este caminho interpretativo – que ignora todos esses acontecimentos – procura dar significado à política externa de Donald Trump, como se a oposição entre os dois presidentes americanos mais recentes criasse uma espécie de vantagem ideológica ao atual ocupante da Casa Branca. O que existe no momento é o desmonte da estratégia internacional promovida por Obama. A morte do universalismo é a consequência mais evidente da política externa de Donald Trump, mas a estratégia do atual presidente deve provocar outros resultados que ainda são desconhecidos. 

06 de Julho - Quinta-feira - 11:10

Hoje, há uma situação muito específica na Ásia. No futebol, seria chamada de nó tático. Mas o termo esportivo é aplicado quando existe a vitória em campo de um time sobre o outro. O cenário atual na Ásia-Pacífico apresenta uma realidade muito particular e, por isso, distinta em relação a paralelos anteriores. Os dois principais atores da disputa enfrentam dilemas muito específicos, mas que no quadro amplo entram inevitavelmente em rota de colisão. 

 
China e EUA têm objetivos que se aproximam e que também se afastam completamente na crise com a Coreia do Norte. O objetivo de médio prazo chinês é a alteração da ordem regional, o que inevitavelmente implica no questionamento à histórica diretriz global norte-americana. A partir do comércio e do poderio militar, Beijing pretende consolidar seu poder hegemônico na Ásia-Pacífico, o que, por conceito, resulta na exclusão dos EUA. 
 
Os EUA, por seu lado e apesar do volumoso comércio mantido com a China, mantêm objetivos históricos globais: a liderança do comércio global, o que implica, naturalmente, no controle das rotas marítimas. Imaginar que Washington abriria mão da liderança nas principais rotas globais seria bastante ilusório. Importante sempre deixar claro que este é um daqueles aspectos que ultrapassam políticas partidárias. A liderança comercial e o controle dos mares são prioridades da política externa americana que independem de presidente ou partido a ocupar o Salão Oval.  Não se trata tampouco de conspiração, mas de uma linha de raciocínio que sustenta a posição de liderança militar, econômica e hegemônica global. 
 
Estão, portanto, explicados os principais pontos de afastamento entre Beijing e Washington na Ásia-Pacífico. No entanto, há um aspecto fundamental a unir os dois países. Nem EUA, nem a China imaginam a possibilidade de colapso da Coreia do Norte. Por razões diferentes, claro. 
 
Os EUA temem que Kim Jong-Un dispare seu míssil intercontinental, se estiver sob ameaça. Trump não pode sustentar seu America First iniciando um conflito regional com potencial global – para completar, os americanos ainda têm a memória da Guerra da Coreia (1950-53). Uma nova guerra envolvendo Coreia do Norte, Coreia do Sul, Japão e China colocaria diretamente sob ameaça populações que somam 1,2 bilhão de habitantes. Isso se desconsideramos a população americana (320 milhões de pessoas). 
 
A China teme que, a partir de eventual queda do regime norte-coreano, a Coreia do Sul reivindique toda a Península Coreana. Neste cenário, os sul-coreanos e seus aliados mais importantes, justamente os EUA, estariam finalmente posicionados na fronteira chinesa. Este é um ponto fundamental; a sobrevivência da Coreia do Norte e sua relação estratégica com a China derivam, entre outros, desta realidade ameaçadora aos chineses. 
 
A China responde por 90% das relações comerciais da Coreia do Norte. A chave para resolver o impasse nuclear de Pyongyang está num acerto pragmático entre americanos e chineses. O problema é que os dois países têm visões distintas sobre comércio global, hegemonia e a região Ásia-Pacífico. A situação é ainda mais complicada em virtude de Donald Trump, presidente que em menos de seis meses de mandato mostrou pouca habilidade diplomática. Considerando que a premissa de Trump é nunca mostrar fraqueza (e ele inclui flexibilidade em sua visão conceitual de fraqueza), a situação tende a se agravar.
04 de Julho - Terça-feira - 15:18

Ninguém espera mais o encontro do G20 do que o presidente americano, Donald Trump. Isso não necessariamente é positivo ao líder dos EUA, até porque ele chega à Alemanha pressionado por todos os demais participantes relevantes. Para completar ainda mais sua gastrite, há a grande expectativa de uma aparição pública ao lado do presidente russo e seu patrocinador eleitoral, Vladimir Putin. Trump está colhendo os frutos públicos de suas promessas de campanha e de um início de mandato ao estilo pé-na-porta que lhe é particular.

Em ambientes como o G20, as ideias do atual presidente americano são rechaçadas com muita força. Não apenas pelos manifestantes que acorrem a Hamburgo, onde o encontro é realizado, mas principalmente a partir das posições que os representantes oficiais das democracias ocidentais defendem. Isolacionismo e o rompimento com o Tratado de Paris (sobre clima e aquecimento global) são dois pilares da política de Trump que não encontram eco entre a maior parte das lideranças presentes.

O presidente americano agora está ele mesmo isolado. Na política doméstica, membros dos dois partidos organizam no Senado novas sanções para punir a Rússia pela interferência nas eleições presidenciais do ano passado. A própria investigação sobre a relação entre membros da campanha presidencial de Trump e a alta cúpula de Moscou não morreu. O presidente ainda enfrenta uma grande polêmica com a imprensa e um índice de 36% de popularidade com os eleitores.

Na Alemanha, irá encontrar os europeus que caminham para se unir contra as posições recentes de Washington. França e Alemanha – sob as lideranças de Emmanuel Macron e Angela Merkel, respectivamente – apontam para um divórcio dos americanos em função de Donald Trump. Merkel já deu o recado:

“Qualquer um que acredite na solução dos problemas mundiais com isolacionismo e protecionismo está cometendo um grande engano”, disse Merkel.

Em paralelo, Trump e Putin têm muitos assuntos a tratar num momento de péssimas relações entre Washington e Moscou (e da desconfiança nos EUA sobre a manipulação russa das eleições do ano passado).

Mas Rússia e EUA têm mesmo muitas arestas a aparar: a crise na Síria, ciberterrorismo, Estado Islâmico, a crise no Golfo Pérsico, o desequilíbrio permanente no Oriente Médio. Um dos aspectos mais delicados tem a ver com a Crimeia, região ucraniana invadida por Moscou em 2014.

A chance de Trump resolver todos esses assuntos e ainda agradar aos europeus é muito pequena. Os europeus esperam posicionamento a favor da Otan. Mas, se isso acontecer, os russos ficarão ainda mais contrariados. E sabe-se lá o que Putin faria a partir disso. Exporia Trump ainda mais? Vazaria por meio do WikiLeaks todas as informações sobre as eleições americanas de 2016? O ponto principal é que resolver todas essas pendências exigiria uma grande capacidade de articulação.

O presidente americano não tem este perfil e hoje ocupa o cargo em boa parte por isso. Isolacionismo e protecionismo – termos que enfraquecem Trump no G20 – estão na origem de sua vitória doméstica. É impossível conciliar o sucesso eleitoral de 2016 com um mandato positivo na política externa. O encontro do G20 apenas expõe esta situação contraditória, o cobertor curto com o qual o presidente americano terá de conviver ao longo dos próximos quatro anos (situação que ele mesmo criou, apenas para deixar claro).

Pé de página

Vai ser curioso ver a atuação internacional de Michel Temer. Se foi num encontro do G20 em 2009 que Lula virou “o cara” de Obama, a situação atual é completamente diferente. O Brasil não apenas se escondeu na política externa – e voltou a negociar debaixo da mesa, como de costume –, mas o cenário brasileiro é de difícil compreensão por parte das grandes lideranças globais.

Há, no entanto, um constrangimento institucional permanente, já que está claro que o presidente brasileiro se cercou de um Congresso formado por investigados da Lava Jato para derrubar Dilma Rousseff. Em função disso, as principais lideranças globais preferem não emprestar prestígio ou estarem associadas ao presidente Temer. Ao contrário dos políticos brasileiros, os de fora temem o julgamento da História. Num mundo hiperconectado, não querem correr o risco de terem biografias pessoais manchadas por emprestar minimamente alguma legitimidade a um presidente que não tem nenhuma legitimidade interna.

30 de Junho - Sexta-feira - 10:10

Na disputa atual no Oriente Médio – especialmente em relação à ruptura entre as monarquias sunitas e o Catar – é importante sempre ter em mente os temores e objetivos finais dos atores envolvidos. O grupo sunita comandado pela Arábia Saudita não apenas considera-se ameaçado pela parceria entre Catar e Irã, mas enxerga em algumas características do emirado – e suas ações no passado mais remoto e mais recente – fontes permanentes de preocupação.

Num passado um pouco mais distante, a Arábia Saudita foi frustrada em sua tentativa de moldar os destinos do país, de certa forma. Em 1995, o xeque Hamad bin Khalifa Al Thani (emir do Catar até 2013) aplicou um golpe no próprio pai, o então emir Khalifa bin Hamad al-Thani.

A Arábia Saudita percebeu no movimento uma ameaça à própria monarquia, imaginando que o golpe de Hamad poderia encorajar outros similares entre as demais monarquias do Golfo. Por isso, tentou apoiar o contragolpe do pai contra o filho. Não funcionou e Hamad bin Khalifa Al Thani permaneceu como emir até ceder o cargo ao filho, o xeque Tamim bin Hamad Al Thani, atual emir do Catar.

Num mundo hiperconectado e onde a vitória pelo discurso muitas vezes é mais eficiente do que pelas armas, a rede de notícia Al-Jazira é parte fundamental do arsenal catari. O canal de televisão, que alcançou fama internacional especialmente na esteira dos atentados de 11 de Setembro de 2001, representa um bem muito valioso do emirado. É, também por isso, considerado parte do instrumento da política externa de Doha. Principalmente porque o discurso diversificado apresentado no canal inclui a participação dos inimigos das monarquias regionais, como membros importantes do chamado eixo xiita: Hezbollah, Irmandade Muçulmana (que é um grupo sunita, mas de oposição ao governo egípcio), a Síria do ditador Bashar al-Assad e, claro, fontes oficiais iranianas.

A ideia de jornalismo em si e, ainda mais perigosa, a prerrogativa de um canal de televisão que concede espaço aos mais diversos atores regionais representam, na prática, foco permanente de tensão com as demais monarquias do Golfo Pérsico. Isso sem me aprofundar – já feito no texto anterior que trata da crise com o Catar – na parceria econômica entre o emirado e o Irã a partir do campo de gás que exploram em conjunto.

Em função de todos esses elementos, as monarquias do Golfo lideradas pela Arábia Saudita apresentaram uma lista de 13 pontos com os quais o Catar deverá se comprometer para que a crise seja encerrada. Lembrando que a situação representa também isolamento geográfico, uma vez que o Catar divide fronteira terrestre apenas com o território saudita. Entre as 13 exigências há, adivinhem só, a determinação do emirado de encerrar as atividades da Al-Jazira e romper todas as relações com o Irã e Irmandade Muçulmana. O Catar tem até o dia 3 de julho para responder.

Não acredito que o emirado irá ceder às exigências, uma vez que, na prática, estaria abrindo mão de fontes importantes de recursos e, ao fim, da própria soberania. A determinação das monarquias do Golfo também estabelece que o Catar deverá se submeter a inspeções periódicas pelos próximos dez anos.

Os EUA mantêm relações com os atores envolvidos nesta crise – pelo lado do eixo sunita. Inclusive tem uma base militar no Catar. Diante disso, Trump poderia trabalhar para acalmar os ânimos e dar prosseguimento ao processo de reintrodução iraniana na comunidade internacional. O gesto poderia restabelecer a liderança regional americana e evitar a evolução do conflito. Mas isso não irá acontecer, afinal de contas a tentativa de aproximação diplomática com os iranianos é herança do governo anterior. E a política externa da gestão atual tem como ponto de partida o rompimento definitivo com toda e qualquer iniciativa de Barack Obama. 

27 de Junho - Terça-feira - 11:05

A grande disputa entre xiitas e sunitas no Oriente Médio é o principal agente de desestabilização regional, entre os vários fatores que causam a crise permanente nesta parte do planeta. O conflito já se moldou das mais distintas maneiras, mas agora existe um claro caminho de acirramento de hostilidades.

Além da presença russa para manter seus pontos de apoio e se solidificar como a principal força da região, as diretrizes internacionais do governo Donald Trump, nos EUA, estão contribuindo para o agravamento das tensões e, possivelmente, a escalada rumo ao conflito entre as muitas forças atuantes.

Tendo como norte permanente em sua estratégia a oposição ao antecessor Barack Obama, a administração atual da Casa Branca é um imã aos muitos atores internos da política americana que permaneceram à margem durante os oito anos de mandato do ex-presidente Democrata.

O site norte-americano Politico obteve um dos relatórios encaminhados à Casa Branca. Preparado pela Foundation for the Defense of Democracies (FDD), um centro de análise privada de Washington, o texto estabelece que a política americana para o Oriente Médio deve priorizar a mudança de regime no Irã. O documento defende que o governo americano precisa fomentar agitação popular naquele país cujas ações culminariam, cedo ou tarde, na queda do regime clerical que comanda a política nacional.

Não se sabe se o relatório passou ou passará a contribuir decisivamente para as diretrizes americanas no Oriente Médio, mas não custa lembrar que os EUA já fizeram isso no passado. Em 1953, a CIA apoiou um golpe que, no final das contas, acabou se mostrando um fiasco, uma vez que a interferência americana acabou por prover instrumentos retóricos para a construção do discurso e das ações da Revolução Iraniana de 1979 que culminou com a queda do xá Reza Pahlevi, aliado do ocidente, e com a tomada do poder justamente pelos clérigos que, desde então, comandam a República Islâmica.

Há, portanto, um lastro histórico evidenciando que a interferência internacional não obteve sucesso na construção de um Irã democrático, muito pelo contrário. Hoje, num país que a muito custo – graças às diretrizes de Barack Obama, importante dizer – iniciou um processo muito lento e desconfiado de reaproximação com o ocidente, a ideia de que os EUA estariam novamente dispostos a participar de um processo de mudança de regime de fora para dentro tem chance nula de dar certo. A tendência é que a principal liderança do país, o aiatolá Ali Khamenei, use esta informação como forma de fechar ainda mais o Irã e, claro, silenciar a oposição interna.

Isso sem falar que mesmo um ambiente de crise política e sublevação nacional não trariam quaisquer garantias de estabilidade doméstica ou regional em médio prazo. As crises recentes na Síria, na Líbia e no Iraque mostram que a desconstrução de Estados nacionais (mesmo os totalitários, praticamente regra no Oriente Médio) não resulta na construção de novos Estados nacionais organizados e democráticos, mas na criação de espaços de vazios de poder que passam a ser disputados pelos atores regionais contemporâneos – importante dizer, com a participação decisiva dos diversos grupos terroristas locais.

A única explicação para uma eventual decisão americana de provocar instabilidade no Irã seria, portanto, a diretriz permanente de Trump de ainda disputar com seu antecessor. O discurso de campanha do então candidato Trump pretendia convencer o público interno (discurso que se mostrou vitorioso) de que empreitadas internacionais para mudar regimes e reconstruir países eram dispendiosas e injustificadas. Optar por fazer exatamente o oposto justamente num dos atores mais problemáticos do Oriente Médio acaba por ser o ápice da contradição teórica.

No entanto, este movimento pode estar diretamente relacionado à primeira visita internacional do presidente Trump justamente ao Oriente Médio e, ainda mais circunstancial, ao reforço da aliança com os principais adversários do regime iraniano, as monarquias sunitas do Golfo Pérsico. É provável que este grupo de países tenha oferecido garantias ao presidente americano ou convencido-o quanto às ameaças estratégicas representadas por Teerã. A dúvida que se apresenta é a seguinte: o que acontece no dia seguinte ao início do processo de mudança do regime iraniano? E mais, assim como na Primeira Guerra Mundial, quais acordos secretos e que alianças irão ser colocados em prática a partir do início de um novo conflito regional? 

13 de Junho - Terça-feira - 12:45

O jornal israelense Haaretz revela com exclusividade uma operação recente que quase culminou com o início de um processo de paz realmente sério. De acordo com a publicação, em abril de 2016 o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o líder da oposição Isaac Herzog deixaram o país secretamente durante a noite num avião privado rumo ao Egito. Lá, encontraram-se com o presidente do país, general Abdel Fatah al-Sissi, e com outras lideranças árabes definidas por Herzog como “jamais vistas por qualquer israelense”.

O envolvimento de figuras inéditas da região e o entendimento dessas lideranças árabes das nuances da política israelense (a ponto de compreender que Netanyahu não teria forças internas em sua coalizão para seguir adiante com compromissos) é claramente uma novidade no Oriente Médio. Muito embora essas negociações não tenham seguido adiante, há a possibilidade de interpretação de que existe um conjunto de forças locais para além das fronteiras israelenses que compreendem a centralidade da solução de dois Estados para o encerramento do conflito israelense-palestino.

Talvez o próprio Netanyahu tenha um desejo genuíno na construção de um plano de paz definitivo. Os documentos obtidos pelo Haaretz deixam evidente que ele imagina realizar este objetivo apesar de sua coalizão de governo, não com ela. E aí está consolidado um exemplo muito claro das contradições do parlamentarismo. É um sistema político de muitas entradas e saídas onde as ideologias e pragmatismos se encontram e se distanciam a todo o momento.

Para ser mais claro: Netanyahu é um político de direita sob todos os aspectos (em Israel esta divisão tem muita força e causa profundas cisões quando o assunto é o conflito com os palestinos). Mas Netanyahu sabe o que é preciso fazer – sob a ótica israelense – para alcançar um acordo.

O líder de esquerda, Isaac Herzog, do partido União Sionista, explicitou as razões que impediram o progresso das negociações de abril de 2016:

“Eles faziam demandas a Israel: permissão para construções significativas nas cidades palestinas da Área C, congelamento de construções israelenses fora dos blocos de assentamentos, reconhecimento de vários elementos do plano de paz árabe e outros itens”, explicou.

Após os históricos Acordos de Olso de 1993, a Cisjordânia foi dividida em três principais áreas que seriam destinadas ao Estado Palestino à medida que a Autoridade Palestina (AP) desse passos concretos em direção ao apaziguamento com Israel: Área A; onde há total controle palestino. Área B; sob administração palestina, mas segurança israelense. Área C; a maior parte da Cisjordânia sob status “a ser negociado”. A área C corresponde a cerca de 60% da Cisjordânia.

Em qualquer situação envolvendo um acordo definitivo a Cisjordânia será parte de um Estado palestino. A esquerda israelense sabe e concorda com isso. A sociedade israelense sabe disso. Parte concorda, parte discorda. A coalizão política que sustenta Netanyahu no cargo sabe, mas não concorda. Netanyahu é pragmático e sabe disso, mas não admite publicamente porque quer se manter como primeiro-ministro.  Esses são os dilemas principais em todos os seus espectros sociais e políticos em Israel. Não haverá qualquer acordo com os palestinos sem que esta complexa equação interna da sociedade israelense seja solucionada. 

A publicação dos documentos pelo Haaretz mostra, no entanto, que há um consenso regional quanto ao caminho de saída. Faltam líderes israelenses e palestinos com força interna para seguir adiante. A reportagem do jornal reabilita de certa maneira o líder de esquerda Isaac Herzog, que se envolveu pessoalmente nas negociações e fez questão de se encontrar com todas as partes. Talvez as revelações possam marcar o início de seu retorno político em busca da liderança do país. 

08 de Junho - Quinta-feira - 00:00

No momento em que os EUA anunciam o início de operações militares para retomar o controle da capital do Estado Islâmico, Raqqa, a Arábia Saudita aprofunda a crise com o Catar. E isso acontece menos de três semanas depois da visita do presidente Trump ao Oriente Médio. Este não é um resultado positivo aos americanos, por mais que a Casa Branca tuíte o contrário.

Há rumores de possibilidade de invasão ao Catar por parte dos sauditas. A análise é de Ali Ahmed, do Instituto de Estudos do Golfo Pérsico, em matéria publicada no site Sputnik. Se isso realmente acontecer – e o Oriente Médio é o campo onde o improvável costuma virar realidade –, haverá retrocesso nos planos regionais elaborados por Washington. Se Trump deixou a Arábia Saudita tendo no horizonte a criação de uma “Otan” local para combater o terrorismo, este projeto pode sofrer revés por período indeterminado no caso de invasão ao Catar.

Um conflito entre o Catar e as monarquias do Golfo apoiadas pelo Egito seria prejudicial sem nenhuma dúvida à configuração regional imaginada pelos EUA. E muito provavelmente incluiria outros atores. O Irã poderia se sentir estimulado a reforçar seu posicionamento e sair em defesa do Catar de forma a transformar o emirado em zona de influência entre as monarquias sunitas.

Um eventual mergulho iraniano na Península Arábica poderia trazer para o conflito os demais aliados do eixo xiita: Rússia, Hezbollah e Hamas em enfrentamento direto com os países-membros do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC).

Algumas considerações: o Hamas não é um grupo terrorista xiita, mas sunita apoiado e financiado por Catar e Irã (os iranianos têm interesses profundos na manutenção de um braço militar na fronteira com Israel). A Síria não está mencionada acima propositadamente. Bashar al-Assad tem problemas suficientes para se manter no cargo e encara pesadíssima ofensiva interna. Por isso, pode ser que opte por ficar de fora deste eventual conflito – muito embora possivelmente acabe engolido por ele em algum momento dadas as suas proporções e implicações.

Ao mesmo tempo, é provável que o eixo xiita acione o Hamas em Gaza, que iniciaria ataques contra Israel. A estratégia seria muito similar à adotada por Saddam Hussein na chamada Primeira Guerra do Golfo. Quando uma coalizão de países, inclusive árabes, se posicionou ao lado dos EUA, o ditador iraquiano optou por lançar mísseis scud contra Israel. A ideia era incluir o Estado judeu no conflito de forma a desestabilizar a coalizão, uma vez que seria improvável assumir que os países árabes lutassem ao lado dos israelenses. Na ocasião, Jerusalém se manteve de fora da ofensiva apesar dos ataques iraquianos.  

Outro aspecto é a potencialidade de danos causados por esta guerra que acabaria por envolver todos os principais atores estatais e não-estatais do Oriente Médio. A semana marca os cinquenta anos da Guerra dos Seis Dias, conflito que moldou a região de muitas formas. Em junho de 1967, Israel atacou preventivamente depois que exércitos árabes posicionaram milhares de tropas em suas fronteiras, o Egito expulsou as forças de paz da ONU e o então presidente Gamal Abdel Nasser fechou o estreito de Tiran à navegação israelense.

Esses três itens foram responsáveis pela guerra que redesenhou a região. A situação atual guarda alguma semelhança com os eventos de 50 anos atrás, período em que não havia entes não-estatais e conflitos armados eram travados entre forças armadas uniformizadas e identificadas sob o olhar imaginário mas presente da Convenção de Genebra.

A tensão está estabelecida e há movimentações militares em curso. A guerra se inicia a partir do primeiro passo de qualquer um dos envolvidos. Um conflito envolvendo todos os países e atores não-estatais na situação de desordem atual certamente teria consequências desastrosas. 

05 de Junho - Segunda-feira - 13:15

Arábia Saudita, Barein, Egito e Emirados Árabes Unidos (EAU) cortaram relações com o Catar. Acusam o país de apoiar o terrorismo e desestabilizar a região. O gesto, seguido também por Iêmen e Líbia, pode iniciar um tremor na configuração do chamado eixo sunita. Escrevi um longo texto após a visita de Donald Trump ao Oriente Médio em que expliquei as divergências entre xiitas e sunitas e como as diferentes interpretações religiosas acabaram por se consolidar também nas questões geopolíticas.

A decisão capitaneada pela Arábia Saudita busca isolar o Catar. Não é a primeira vez. Em 2014, os sauditas foram seguidos por Barein e EAU na aplicação de sanções econômicas. Agora, A Arábia Saudita pode estar fazendo uso do grande acordo militar e da promessa de investimentos econômicos vultosos nos EUA como forma de acelerar em busca da liderança regional. O Catar é alvo por algumas razões – não apenas por uma delas, mas pelo conjunto.

A primeira é que Arábia Saudita e Egito – duas das principais potências sunitas, mas que concorrem entre si – precisam isolar o Irã, a maior ameaça ao projeto sunita. O Catar abriga em seu território a Irmandade Muçulmana, grupo rival do general Al-Sissi no Egito e cujo líder o atual presidente retirou do cargo para assumir em seu lugar.

A Arábia Saudita já está em combate indireto com o Irã, especialmente no Iêmen onde os países do Golfo sustentam o governo em sua guerra contra rebeles houthis xiitas apoiados pelos iranianos. A decisão de romper com o Catar isola o país inclusive fisicamente, uma vez que o país faz fronteira terrestre apenas com a Arábia Saudita.

Teoricamente, algumas declarações do Emir catari, o xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, foram elogiosas ao Irã. Supostamente, Al-Thani teria dito que o país “é um grande Estado que contribui para a estabilidade regional”. O Emir nega e afirma que o site foi hackeado. Um dos sites onde a declaração teria sido publicada é justamente o da rede de notícias do Catar, a Al-Jazira.

A informação está no centro do mundo e a geopolítica não considera este item acessório. A Al-Jazira é acusada pelos sauditas de espalhar a ideologia iraniana pelo mundo. Nem Irã, nem Catar e, ainda menos, a Arábia Saudita podem ser considerados exemplos democráticos e de liberdade de informação. Mas a Al-Jazira incomoda bastante, especialmente as monarquias do Golfo onde é sempre mais fácil encontrar petróleo do que jornalismo independente.

No final das contas, a aliança que Trump firmou com as monarquias do Golfo parece ter preço alto. De maneira ainda preliminar, parece que os sauditas buscam estabelecer limites em troca do apoio na luta para conter as ambições regionais iranianas. Talvez exijam a inserção do Catar na lista de países patrocinadores do terrorismo, algo complicado em termos econômicos e militares aos americanos. É no Catar que se encontra a base aérea Americana de Al Udeid, onde trabalham e vivem cerca de 11 mil militares dos EUA.

A política internacional também representa uma relação de troca. Os sauditas compraram 300 bilhões de dólares em armamento dos EUA. Agora querem a recompensa política. Isolar o Catar – que inclusive divide com o Irã o reservatório de gás offshore conhecido como North Field-South Pars – talvez seja uma espécie de prova de comprometimento exigida por Riad. Se os EUA querem formar uma aliança para combater os iranianos, que deixem claro que a Arábia Saudita tem a liberdade para estabelecer limites regionais.