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Carta & Crônica
Henry Galsky
24 de Novembro - Sexta-feira - 11:05

Desde que foi eleito presidente da Rússia, em março de 2000, Vladimir Putin se reveza na liderança do país. Os cargos variaram um pouco neste século, mas o fato é que, como primeiro-ministro ou presidente, Putin é o homem forte da Rússia há 17 anos. E agora, graças à sagacidade das alianças que costurou, conseguiu restaurar a atividade imperial russa com a qual sempre sonhou. Mas não se confudam. Não estamos assistindo ao renascimento da União Soviética. Putin não coloca os aliados contra a parede para que escolham entre comunismo e capitalismo. A dicotomia não existe mais. A expansão imperial russa é inclusiva, desde que todos aceitem o projeto de Putin.

A vitória sobre o Estado Islâmico é um aspecto fundamental neste processo. Com Donald Trump isolado em seu nacionalismo vazio, é Putin quem dá as cartas no Oriente Médio. Quando a Rússia aderiu ao esforço de manutenção de Bashar al-Assad na presidência síria, em novembro de 2015, o Kremlin entendeu que os grandes gastos e o risco de perdas militares consideráveis carregavam um propósito final. Hoje, estamos assistindo ao início da vitória e da colheita.

Putin recebeu Bashar al-Assad em Sochi, balneário russo. Foi a primeira viagem internacional do ditador sírio desde 2015. O presidente russo recebeu também dois de seus principais aliados – e beneficiários – neste redesenho das forças do Oriente Médio: o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o presidente iraniano, Hasssan Rohani. Mas Putin está disponível para todos os atores regionais: conversou com o presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sissi, com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e com o Rei Salman, da Arábia Saudita. Também se reuniu com facções palestinas, grupos curdos e líbios.

Por mais que esteja evidente que Putin está de um lado desta balança regional (o mesmo lado de Irã, Turquia, Hamas, Hezbollah e Síria), o líder russo entende que é chegado o momento de criar de fato o novo Oriente Médio. E, para que isso aconteça, é preciso dialogar com todas as partes envolvidas. E, muito em função de sua atuação na vitória sobre o EI, mas também em graças à forma como construiu a Rússia desde março de 2000, todos os atores regionais conferem a Putin alguma forma de legitimidade. A mesma legitimidade que este grupo tão diverso jamais irá conferir a Donald Trump.

O primeiro aspecto tem a ver com reconhecimento mútuo. Assim como muitas das lideranças regionais, Putin acumula poder e não dá sinais de que irá deixar a presidência russa num futuro próximo. O líder russo é espelho e aspiração. Há 17 anos no trono, é, na prática, um ditador como muitos dos que se espalharam e mantiveram seus reinados pelo Oriente Médio.

Outro ponto de interesse mútuo tem a ver como a maneira como trata imprensa e oposição. Sem temor de censuras e sanções internacionais, Putin e seus aliados perseguem jornalistas e opositores sem constrangimento. Para os ditadores do Oriente Médio e para os que pretendem permanecer em seus cargos sem prazo de validade, o presidente russo é “um dos nossos”. E, mais além, “é um dos nossos” com capacidade militar e armamento similar aos americanos. E, para a sorte desses ditadores, sem as exigências morais e escrutínios aplicados pelo governo dos EUA e principalmente pela imprensa americana.

A Rússia quer agora estabelecer novos parâmetros e soluções políticas. Este é o pulo do gato da política externa do país. Não basta apenas vencer no campo de batalha. É preciso ser considerado um centro articulador em tempos de pacificação. Para isso, Putin quer realizar o que chama de “Congresso do Povo Sírio” em paralelo à Conferência de Paz liderada pela ONU em Genebra.

O “Congresso do Povo Sírio” pretende amarrar ou ao menos começar a redigir o futuro político da Síria. Importante lembrar sempre que, naturalmente, a visão do presidente russo exclui automaticamente os grupos de oposição a Bashar al-Assad. Estes estavam reunidos sob os auspícios da Arábia Saudita numa conferência em Riad denominada de Alto Comitê de Negociações (HNC, em inglês). A liderança do grupo estava a cargo de Riyad Hijab, ex-primeiro-ministro da Síria e que se opunha frontalmente a que Bashar al-Assad ocupasse qualquer cargo no país após o fim da guerra civil. Hijab pediu demissão do HNC, deixando dúvidas sobre o futuro da organização. É possível que o grupo simplesmente perca valor e se desmanche, fortalecendo ainda mais a posição da Rússia.

É preciso também abordar algumas diferenças práticas entre Rússia e EUA que favorecem Moscou a partir da visão dos atores regionais. Enquanto as sucessivas administrações americanas criam planos para o Oriente Médio com o propósito de estabelecer soluções definitivas num ambiente muito complexo, as ambições russas são mais modestas, sob a avaliação das partes envolvidas.

Os russos colocam em prática zonas de segurança e interrupção de conflitos (graças a elas conseguiram vencer o EI) e entendem as demandas particulares de cada um: os russos se apresentam como intermediários razoáveis capazes de sinalizar positivamente aos planos de expansão do Irã, mas sem fechar as portas ao diálogo com os israelenses; estão de forma evidente no barco do eixo xiita, mas continuam a receber os sauditas em busca de equilíbrio. Enquanto Washington está distante e – quando se mostra disponível – apresenta projetos muito ideológicos, Putin teve sucesso ao se consolidar como liderança pragmática. Por isso encontrou eco regional e, também por isso, está conseguindo cada vez mais substituir os EUA no Oriente Médio.

21 de Novembro - Terça-feira - 13:25

Depois de sua longa viagem à Ásia, o presidente americano, Donald Trump, assiste às consequências de sua atuação pouco estratégica também no comércio internacional, setor de extrema relevância a todos os presidentes dos EUA. O setor não é apenas uma peça-chave no desenvolvimento econômico doméstico, mas também no processo que culminou na liderança global, uma vez que os americanos possuem o principal mercado consumidor do mundo, ponto fundamental na interação geopolítica. 

Seguindo a linha de “coerência” de seu slogan ainda um tanto vazio de “America First”, Trump optou por retirar os EUA do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica, projeto conhecido pela sigla em inglês TPP. Outros 11 países faziam parte do acordo: Japão, Austrália, Canadá, México, Peru, Chile, Malásia, Vietnã, Nova Zelândia, Cingapura e Brunei. Se antes, com os EUA, a cooperação respondia por 40% da economia mundial, depois que Trump anunciou a saída do país em janeiro, este dado caiu para 15%.

A questão é que Trump imaginava que a decisão americana teria o poder de decretar o fim do TPP. Mas aí, justamente em reunião paralela ao encontro da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), cúpula da qual os EUA fazem parte, os 11 países órfãos anunciaram que pretendem seguir com o TPP, tendo inclusive acordado aspectos fundamentais do novo tratado. O processo de construção do novo TPP segue seu curso, mas há um tanto de capital simbólico nesta decisão. O foco principal está na adaptação. Se Washington sob a liderança de Donald Trump quer assumir uma posição de isolamento, as demais economias planetárias têm capacidade e interesse de seguir adiante.

E estamos falando de países com extenso histórico de alianças com os EUA, casos de Canadá, Japão, Chile, México e Austrália, por exemplo. Outro item importante tem a ver com o rompimento de um fundamento da política externa americana. Como escrevi, o comércio é ponto central da construção de alianças internacionais. Ou alguém imaginava que os EUA teriam alcançado a posição de liderança global apenas em função de seu incontestável poderio militar? Na verdade, comércio e agenda de segurança caminham lado a lado.

Sem as alianças comerciais, os EUA colocam em xeque um ponto muitas vezes esquecido, mas que é base de sua presença global: o controle dos mares. Isso porque as autoridades americanas monitoram os oceanos do planeta também em função do comércio marítimo. Reduzir seu volume – ou, ainda mais grave, alijar-se voluntariamente de um projeto grandioso como o TPP – significa pôr em risco um dos pilares da presença internacional dos EUA. Com a intenção declarada de os 11 países restantes em seguir adiante mesmo sem os americanos, os EUA passam a depender de maneira mais contundente de seus aliados, especialmente do Japão – o principal interessado na contenção da expansão regional e naturalmente global da China.

E, claro, vale lembrar que, como escrevi, a construção de alianças militares em todas as partes do mundo sempre se deveu à capacidade americana de trocar benefícios e cortejar os demais países com a possibilidade de comércio. Dar fim a esta prática pode trazer consequências temerárias à segurança interna americana e a sua presença internacional.

Pouca gente se deu conta, mas a sucessão de equívocos comerciais com seu “America First” é mais um dos capítulos do processo de desmonte promovido por Donald Trump do status alcançado pelos EUA ao logo do século 20. 

16 de Novembro - Quinta-feira - 12:10

Este é um momento muito delicado no Oriente Médio. Tenho debatido por aqui a grande movimentação interna e externa da Arábia Saudita. É importante ter em conta que todo este conflito doméstico é apenas um sintoma da grande reviravolta que se espalha pela região. Ela está relacionada a dois fatores principais: o redesenho do equilíbrio de forças histórico e a vitória sobre o Estado Islâmico (EI). Ambos os fatos, inclusive, estão relacionados entre si.

O ponto fundamental é a ausência de estratégia internacional americana. Em função das suspeitas relações com a Rússia, há um distanciamento histórico entre Washington e o Oriente Médio. É claro que seria ingênuo culpar apenas Donald Trump. O governo de Barack Obama, ao entender que seria impossível avançar nas negociações de paz entre israelenses e palestinos, preferiu se dedicar a assuntos nos quais pudesse conquistar resultados práticos. E, de forma a ser justo, é importante também levar em consideração a incapacidade das potências ocidentais de reajustar e reconstruir alianças durante e após a Primavera Árabe.

Durante o processo de questionamento interno pelas populações árabes, os ocidentais – históricos aliados das ditaduras locais – se perderam pelo caminho. Os europeus se fecharam, rezando para que o fenômeno passasse rapidamente e os países encontrassem por si só uma maneira de se reconstruir. Isso não aconteceu e as consequências deste isolamento europeu são sentidas até agora, com milhões de refugiados chegando a pé ou em balsas ao continente, transformando de maneira drástica o próprio cenário político interno. Este é um ponto.

Em outro aspecto, além da estagnação do processo de paz entre israelenses e palestinos, Obama – igualmente estupefato pela incapacidade de interpretar e construir alianças após a Primavera Árabe – teve de lidar com dois grandes desafios (ambos originados justamente a partir da Primavera Árabe na Síria que culminou na Guerra Civil local): o fortalecimento e ganho territorial do Estado Islâmico; e os ataques com armamento químico promovidos pelo ditador sírio Bashar al-Assad contra a própria população civil.

Diante desses dois acontecimentos, Obama preferiu sair em busca de duas vitórias capazes de conferir sucesso histórico à política internacional de seu governo: a aproximação com Cuba e a assinatura do acordo sobre o programa nuclear do Irã. Em ambos os casos, o ex-presidente americano obteve sucesso.

No entanto, todo esse distanciamento permitiu que o Oriente Médio ganhasse um novo patrão: Vladimir Putin, que apostou e conseguiu manter Bashar al-Assad na Síria e, ao mesmo tempo, derrotou o EI (mesmo com o auxílio de forças americanas que lutaram em conjunto com os guerrilheiros curdos, sempre é importante mencionar). Outra aposta bem-sucedida da Rússia foi a candidatura de Donald Trump. O improvável candidato venceu a corrida interna do Partido Republicano e, posteriormente, conquistou a Casa Branca, numa campanha pesada contra a Democrata Hillary Clinton – campanha esta objeto de investigação das agências de segurança dos EUA em virtude de sinais cada vez mais claros de interferência de Moscou em favor de seu candidato.

Considero fundamental traçar este breve histórico de modo a deixar claro que o cenário atual é resultado de todas as ações e omissões listadas acima.

No Oriente Médio dos dias atuais, a Rússia dá as cartas e premia aliados, notadamente o Irã. A movimentação em curso promovida pelo príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman (MBS) está profundamente relacionada a este histórico recente. No campo externo, MBS considera fundamental conter o sucesso da estratégia iraniana. Para MBS, o sucesso do eixo xiita do qual o Irã é protagonista precisa ser revertido. E aí nasce a improvável convergência de preocupações e interesses entre Arábia Saudita e Israel, países que não mantêm qualquer relação.

Nos escombros da Síria, o Irã luta para firmar posições no território. O fato novo recente é a denúncia da BBC de que o país estaria construindo uma base militar no país. Como foco permanente de preocupação do governo de Israel, a presença iraniana em sua fronteira é o que se chama de “linha vermelha”. Não apenas o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, nem qualquer chefe de governo israelense iria considerar a possibilidade de conviver com a Guarda Revolucionária Iraniana instalada na fronteira do país.

A guerra contra o Hezbollah, em 2006 (milícia xiita armada pelos iranianos), é um aspecto fundamental da história recente. Se Israel não pode eliminar o grupo terrorista libanês, precisou aprender a lidar com a ameaça permanente à porção norte de seu território. A inclusão de uma base do Irã neste cenário certamente não será algo que os israelenses aceitarão passivamente. Mas aí é preciso lembrar, como escrevi, que há um novo patrão regional. E ele pensa e age de maneira distinta aos interesses conjuntos de Israel e Arábia Saudita.

O acordo trilateral entre Rússia, Jordânia e EUA estabeleceu distancias mínimas entre os iranianos e as fronteiras de Israel e Jordânia (a Jordânia, também parte do eixo sunita, também considera se considerada ameaçada pela expansão iraniana). A questão é que este acordo é frágil. Em alguns pontos do mapa, ele determina que a Guarda Revolucionária Iraniana (GRI) e os demais grupos xiitas que operam em conjunto com a República Islâmica na Síria mantenham-se distantes no mínimo a 20 quilômetros da fronteira. No entanto, em outros locais, esta distância cai para apenas cinco quilômetros.

Inicialmente, a posição de Israel era de que o Irã e seus aliados deveriam deixar por completo o território sírio. Como isso é improvável, a demanda israelense havia caído, em setembro, para algo entre 50 e 60 quilômetros. Agora, a realidade no solo mostra que a Guarda Revolucionária Iraniana e seus aliados estão quase que formalmente autorizados a estacionar nas fronteiras de Israel.

É bastante improvável que o governo de Israel aceite esta situação de maneira passiva. E, graças à inexistência de estratégia internacional da administração Trump, o rompimento prático do acordo sobre o programa nuclear iraniano acaba por reforçar a realidade atual do Oriente Médio; não há contatos entre as autoridades de EUA e Irã.

No momento em que a Arábia Saudita quer mesmo empurrar os israelenses para atuar na contenção do projeto regional expansionista do Irã, Jerusalém pode se ver envolvida em mais um conflito, desta vez contra o Hezbollah e, como fato novo, diretamente com a Guarda Revolucionária Iraniana. Para evitar este desastre – que certamente trará muitos prejuízos humanos e materiais – existe por ora apenas uma figura capaz de negociar com todas as partes envolvidas: o presidente russo, Vladimir Putin. Além de reorganizar o equilíbrio de forças regional, cabe agora a Putin decidir se haverá guerra ou paz. Seu plano está funcionando perfeitamente. 

13 de Novembro - Segunda-feira - 12:23

Mohammed Bin Salman, conhecido também apenas pela sigla MBS, é o nome da vez não apenas na Arábia Saudita, mas no Oriente Médio. O príncipe herdeiro do reino se consagrou ao prender opositores que são membros da família real e fazem parte de uma coalizão muitas vezes tribal que sustenta historicamente o poder na Arábia Saudita. Conhecido pela pouca movimentação de forças e pela estabilidade na região mais instável do planeta, o país está em rota de mudanças profundas graças às ambições de MBS.

Se tudo isso pode parecer muito positivo, é preciso fazer algumas reflexões.Bin Salman excluiu a oposição. Como representante do poder e fruto desta chamada “Geração Y”, MBS olha a realidade como se nada do que foi feito anteriormente fizesse sentido. Tudo, portanto, deve e será alterado de modo definitivo. Aos 32 anos, conta com amplo apoio de mais da metade da população que tem até 25 anos de idade. O fenômeno global de subversão por parte da juventude também se manifesta nesta região do planeta. Mas MBS não quer levar democracia, imprensa livre, eleições ou independência dos poderes aos sauditas. Nada disso. Quer mudar o equilíbrio de forças internamente para se apropriar de forma unilateral do poder decisório. E tem obtido sucesso neste objetivo até o momento.

A urgência e a ganância estão relacionadas ao cenário mais amplo do Oriente Médio. Com a derrota do Estado Islâmico (EI) na Síria, a estratégia do eixo xiita de oposição às monarquias do Golfo Pérsico (lideradas justamente pela Arábia Saudita) também tem se consagrado como vitoriosa. A aposta de Rússia e Irã na manutenção de Bashar al-Assad na presidência da Síria se mostrou acertada. Ao derrotarem o EI, mudaram também o equilíbrio de forças regional.

A ascensão de Donald Trump nos EUA e sua política de America First deixaram o território livre para as novas potências se apropriarem e redesenharem a região premiando os aliados Hamas e Hezbollah. Como sempre escrevo, os acontecimentos posteriores também incluíram neste eixo a Turquia e o Catar.

Mohamed Bin Salman e o Rei Salman não estão satisfeitos com todas essas mudanças. Por isso cobraram – e ganharam, mesmo que tardiamente – apoio mais efetivo do governo Trump.

Encarregados hoje de alterar esta realidade, dois rapazes sem nenhuma experiência política: o próprio MBS e o genro de Trump e conselheiro sênior da presidência americana, Jared Kushner. Certamente, MBS tem mais poder e suas decisões têm mais impactos regionais do que Kushner. Mas esta parceria entre ambos – MBS e Kushner – é bastante representativa deste momento histórico e da fragilidade da estratégia internacional deste governo americano. De um lado, Vladimir Putin, Bashar al-Assad, Recep Tayyip Erdogan (presidente da Turquia), o xeque Hassan Nasrallah (líder do Hezbollah) e o aiatolá Ali Khamenei (líder supremo do Irã). Correndo atrás do prejuízo, Jared Kushner e MBS.

Aliás, é preciso deixar claro que MBS está com o poder interno controlado neste momento. Mas, ao alijar completamente os aliados históricos que mantinham o equilíbrio na Arábia Saudita, certamente passou a colecionar inimigos.  Mesmo passando a dominar diretamente todos os mecanismos de poder coercitivo do reino (exército, polícia e Guarda Nacional), não há qualquer garantia de que toda esta movimentação criada por Bin Salman não venha a ser confrontada pelos poderosos excluídos do processo decisório.

Na política externa, MBS está pisando em falso: não tem conseguido vencer os rebeldes xiitas houthis no Iêmen (armados e financiados pelo Irã) e não conseguiu conquistar a opinião pública libanesa, mesmo depois de ter exigido a renúncia do primeiro-ministro libanês e aliado Saad Hariri. A demanda da Arábia Saudita para que o Líbano realize a deposição das armas do Hezbollah é compreendida pela população libanesa como irreal, na medida em que hoje o estado nacional libanês tem menos poder de fogo que o próprio Hezbollah.

Fora isso, ao pressionar o Catar, conseguiu não apenas a mudança de fidelidade do ex-aliado (tornando-o claramente parte do eixo xiita a partir da mão estendida em auxílio pelo Irã), mas também a “implosão” do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, em inglês), grupo forte na região sustentado pela própria Arábia Saudita, além de Emirados Árabes Unidos, Barein, Kuwait, Omã e Catar.

Na prática, sob o ponto de vista americano, os EUA estão empenhando todo seu posicionamento histórico no Oriente Médio em Mohammed Bin Salman.  Isso se deve, em boa medida, à falta de estratégia internacional do governo Trump. Ao apostar apenas em MBS, o presidente americano tem a expectativa de que a jovem e errática liderança saudita consiga criar um cenário em que seja possível não apenas confrontar os inimigos regionais de Washington, mas principalmente construir uma nova realidade em que os sauditas passem a agentes e fiadores da retomada do processo de paz entre palestinos e israelenses. Esta é a ambição de Trump, considerando como ponto central de seu pensamento a permanente obsessão em apresentar resultados superiores aos do antecessor Barack Obama.

O problema para a Casa Branca é que esta promessa não realizada deixou os EUA num lugar de profunda insegurança estratégica.  Por enquanto, para ser muito claro, os americanos ainda não obtiveram qualquer ganho no Oriente Médio, muito pelo contrário. MBS está conseguindo a proeza de transformar a Arábia Saudita num território imprevisível e, ao mesmo tempo, causando perdas sucessivas aos americanos e seus aliados regionais. Enquanto isso, o plano de expansão iraniana vai sendo consolidado sem maiores dificuldades, inclusive com a criação de uma base militar da República Islâmica em território sírio. Veja a reportagem da BBC.

09 de Novembro - Quinta-feira - 10:15

A Arábia Saudita está em movimentação. Esta novidade é realmente relevante, considerando-se principalmente a dificuldade do país em realizar mudanças. A nova onda saudita atende pelo nome de Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro do reino e protagonista deste processo. Como é comum no Oriente Médio, a linha que divide os assuntos domésticos dos regionais é muito tênue. Por isso é impossível não estabelecer conexões entre os grandes eventos internos sauditas e a construção do novo equilíbrio de forças em curso na região.

Mohammed bin Salman tem apenas 32 anos e assumiu a liderança de um excepcional Comitê Anticorrupção já responsável pela prisão de 11 príncipes, além de ministros e ex-ministros. Um desses príncipes é Alwaleed bin Talal, cuja fortuna está estimada em 17 bilhões de dólares e que é conhecido investidor em empresas do porte de Apple e Twitter. Quando uso o termo “excepcional” acima o faço pela raridade de um acontecimento como este.

O príncipe herdeiro é o agente de mudanças importantes do país. Criou um plano de modernização de nome “Visão 2030” que pretende implementar reformas e alguma forma de alteração social. Por mais romântico que este projeto possa parecer, o foco está na antecipação de problemas econômicos cujos sintomas são percebidos já nos dias de hoje. De acordo com relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado em julho, o PIB saudita apresentará ao final deste ano déficit de 9,3%. O desemprego já atingiu a marca de 12,3%.

Como é claro para qualquer governante que tenha vivido este século 21, é cada vez mais difícil manter uma ditadura. É mais difícil manter um ambiente absolutamente fechado. E este é um cenário ainda mais problemático em eventuais períodos de crise econômica. É claro que o conceito de crise na Arábia Saudita tem interpretação distinta, mas é bem possível que a família real saudita esteja percebendo os sinais e fazendo conexões até bastante simples. Enquanto o Irã estabelece bases por toda a região e a guerra que os sauditas travam com os iranianos por procuração no Iêmen (por meio de combate aos rebeldes xiitas houthis) não apresenta quaisquer resultados positivos, é possível que a família real saudita esteja em busca de novos parceiros e comunicação interna e externa.

Mais da metade da população do reino tem menos de 25 anos de idade. E é justamente entre esta camada que o jovem príncipe herdeiro encontra mais apoio. Mostrar que o país está em busca de novas fontes de recursos além do petróleo (base do projeto Visão 2030) e que combate a corrupção interna são maneiras de vincular a família saudita – por meio de seu jovem príncipe – à população comum que irá construir o futuro.

E aí incluo a política externa neste momento de mudança. Com a vitória do eixo xiita na Síria, os sauditas precisam impedir o avanço dos houthis no Iêmen. Ao mesmo tempo, parecem dispostos a mudar para continuar ocupando o espaço de protagonistas no jogo regional. Contemporâneos, o príncipe Mohammed bin Salman e o genro e conselheiro sênior do presidente Trump, Jared Kushner (foto), engataram relação de proximidade neste ano. No final de outubro, Kushner esteve na Arábia Saudita pela terceira vez apenas em 2017.

Depois que Trump demonstrou amplo apoio ao eixo sunita, a amizade entre Kushner e Bin Salman pode ter outros significados. Como numa relação simbiótica, americanos e sauditas podem ter muito a ganhar, mas também muito a perder. Uma das interpretações sobre esta simultaneidade de movimentos na Arábia Saudita é de que pode estar em curso uma grande disputa de poder interno. Se a Salman sair vitorioso e de fato seguir adiante com reformas mantendo-se alheio a eventual resistência de seus “opositores”, os EUA estarão garantidos. Mas, se a “resistência” conseguir desfazer os atos de Salman e a fricção com a família real for grande o bastante para iniciar um processo de alteração de regime, aí os EUA perdem.

No entanto, é preciso fazer duas observações: a primeira é que é muito improvável que a “oposição” derrube a família real; e a segunda é que, mesmo neste remoto cenário, é igualmente improvável que se inicie um rompimento com os americanos. A não ser que um “terremoto” de mudanças estabeleça uma dinastia aliada ao Irã, por exemplo, o que não deve ocorrer.

De qualquer forma, este é um período importante. A Arábia Saudita é protagonista regional e atua em muitas frentes. Diante disso, neste plano de redirecionamento promovido pelo príncipe, é possível que a amizade com Jared Kushner acabe por influenciar no processo de paz entre israelenses e palestinos. Trump deixou claro que pretende incluir novos atores. E os sauditas não devem ficar de fora deste projeto ambicioso. A proximidade entre Kushner e Salman pode render resultados, especialmente diante de acusações cada vez mais graves em relação à influência russa nas eleições americanas. A saída internacional – e uma saída como esta – certamente renderia a mudança de foco de que o governo americano deixa claro precisar.

Como mais um elemento nesta análise, vale dizer que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, viajou à Arábia Saudita nesta semana justamente para discutir questões regionais e a estagnação do processo de paz entre palestinos e israelenses. A aliança entre Abbas e os sauditas é uma oposição à relação entre o Hamas, que até bem pouco tempo controlava com exclusividade a Faixa de Gaza, e o Irã. No jogo regional do Oriente Médio, nenhum ator ou conflito fica de fora neste momento de reconfiguração. 

06 de Novembro - Segunda-feira - 10:20

Há muito tempo analiso a divisão sectária do Oriente Médio. A macrodisputa regional entre sunitas e xiitas é a principal força motriz deste embate – ele mesmo ainda é resultado das divisões imperiais criadas por britânicos e franceses no século 20. Mais um capítulo desta história está sendo escrito a partir da renúncia do primeiro-ministro libanês, Saad Hariri. Pela televisão, já em território saudita, Hariri informou à população libanesa que pedia renúncia do cargo. E aí a disputa regional entra no foco; o primeiro-ministro culpou o Irã pela decisão, afirmando que a República Islâmica “espalha caos, conflito e destruição por todo o Oriente Médio”.

De acordo com Hariri, a renúncia e a consequente fuga do Líbano se devem a um plano iraniano para assassiná-lo. O pai de Hariri, Rafik, também ocupava o cargo de primeiro-ministro do país em 2005 quando foi morto num atentado à bomba na capital Beirute em circunstâncias jamais plenamente esclarecidas. A suspeita sobre o assassinato recai sobre a milícia xiita Hezbollah, de oposição a Hariri (o clã político sunita mais influente do Líbano) e abertamente aliada justamente ao Irã. Saad Hariri culpa os iranianos também por interferência na política interna libanesa.

Todo este quadro serve para expor de maneira indiscutível a disputa política sectária que envolve hoje todo o Oriente Médio.

A renúncia do primeiro-ministro libanês acontece no momento em que a guerra contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque vem chegando ao fim com resultados muito favoráveis à aliança xiita sustentada por Rússia, o presidente sírio, Bashar al-Assad, a milícia xiita libanesa Hezbollah, a Turquia (que não é xiita mas passou a ser aliada ao grupo) e, claro, o próprio Irã. Este último é certamente o principal interessado em pôr em prática sua visão política regional que define como premissa a expansão entre o território iraniano e o Mar Mediterrâneo – ou seja, o sucesso do plano internacional do Irã depende necessariamente do apoio libanês.

É importante ter muito claro que os acontecimentos em curso a partir de agora – a partir da derrota do Estado Islâmico – estão relacionados ao processo de reorganização política, econômica e energética do Oriente Médio. O que ninguém imaginava há dois anos aconteceu: com a adesão da Rússia à guerra contra o EI, não apenas o grupo terrorista foi derrotado, mas Assad se manteve à frente da Síria e seus principais aliados (russos e iranianos) se consideram como os legítimos herdeiros não apenas dos territórios sírio e iraquiano, mas do poder de dividir e determinar os rumos de toda a região, o que inclui também premiar aliados e excluir inimigos e desafetos.

E é por isso que o Líbano voltou a ficar no foco das atenções das potências mundiais interessadas em manter ou alterar o equilíbrio de forças regional. Ao contrário do século 20, este papel não cabe mais à Grã-Bretanha ou à França, mas a EUA e Rússia e, ao lado desses dois atores protagonistas, todos os seus muitos aliados. E aí a disputa sunita-xiita é a marca desta segunda década de século 21.

Em sua primeira incursão internacional, o presidente Donald Trump pulou de vez no barco das potências sunitas, ou seja, as monarquias árabes sunitas do Golfo Pérsico cuja liderança incontestável fica a cargo da Arábia Saudita. Barack Obama, seu antecessor, ainda tentou um equilíbrio, premiando o Irã com o retorno à comunidade internacional em troca da assinatura do acordo de congelamento temporário do programa nuclear.

Mas Trump não é adepto a tais sutilezas, preferindo descredenciar o acordo e iniciar o processo de exclusão iraniana. Com isso, permitiu também ao Irã acelerar naquilo que faz de melhor: obter aliados fragmentados nas lutas que patrocina por toda a região; Iraque, Iêmen, Líbano, Síria e Gaza. Em todos os territórios, os iranianos formaram pequenos Estados, minando o poder central e criando uma grande rede de relacionamento a partir de treinamento e envio de armamento a milícias xiitas que travam guerras por procuração.

Ninguém em todo o Oriente Médio trabalhou esta capacidade com mais afinco e por prazo tão extenso quanto o Irã. O pedido de renúncia de Saad Hariri no Líbano está inserido neste contexto. Ao culpar os iranianos, busca dar o troco na disputa regional em nome de americanos e sauditas. O Líbano é o palco da vez da macrodisputa e da guerra por procuração entre os eixos sunita e xiita.

31 de Outubro - Terça-feira - 13:45

E mais uma vez a sombra de aproximação entre membros do alto-escalão da campanha presidencial de Donald Trump e do governo da Rússia volta a ocupar o centro do debate político americano. Paul Manafort e seu ex-sócio Rick Gates foram indiciados por lavagem de dinheiro, evasão fiscal e acusações de lobby internacional contra os EUA. O desenvolvimento das investigações é o pesadelo do presidente Trump porque, em último caso, pode resultar num processo de impeachment.

Paul John Manafort foi chefe da campanha de Donald Trump. Mas tem extensa carreira internacional e suas conexões com os russos – e posteriormente com Trump – têm como origem sua experiência na Europa oriental e também na Rússia. Para entender essa história, é preciso voltar um pouco tempo.

A crise ucraniana de final de 2013 e início de 2014 teve como ponto de partida a recusa do então presidente do país, Viktor Yanukovych (aliado de Vladimir Putin e na foto ao lado do presidente russo), de assinar o acordo de associação à União Europeia (UE). A partir disso, a população tomou as ruas – especialmente da capital, Kiev – e expulsou Yanukovych do cargo. Os EUA apoiaram o movimento popular.

Yanukovych se refugiou na Rússia. Paul Manafort, chefe da campanha de Donald Trump, também foi consultor da campanha presidencial de Viktor Yanukovych, o aliado de Putin que caiu para impedir que a Ucrânia passasse a membro da UE.

No foco do inquérito conduzido nos EUA pelo procurador especial Robert Mueller III está a interferência da Rússia nas eleições presidenciais americanas de 2016. As agências de inteligência dos EUA concluíram, ainda no ano passado, que o governo russo agiu diretamente para minar a candidatura de Hillary Clinton e eleger Donald Trump. Por si só, esta conclusão já justificaria qualquer investigação, mas o cenário mais amplo é ainda mais estranho: como no caso de Paul Manafort, há outras figuras-chave da campanha de Trump que mantiveram contatos diretos e frequentes com membros do governo russo.

Michael Flynn, conselheiro de Segurança Nacional, foi forçado a pedir demissão depois que o Washington Post revelou que ele também teria se encontrado com o embaixador russo na capital americana e que ambos teriam discutido as sanções aplicadas ao governo da Rússia. 

Jeff Sessions, o nome indicado pelo presidente americano para ocupar a procuradoria-geral (aprovado e atual ocupante do cargo), teria se encontrado com o embaixador russo em Washington, Sergey Kislyak. 

George Papadopoulos, conselheiro de política externa na campanha de Trump, declarou-se culpado por ter mentido sobre os contatos que estabeleceu com a Rússia. Ele admitiu ter se encontrado com um russo conhecido apenas como “Professor”, que lhe ofereceu vasto material contra a então candidata Hillary Clinton.

Sempre vale lembrar que, em dezembro do ano passado, o então presidente Barack Obama expulsou do país 35 russos acusados de espionagem no território americano ainda em função da repercussão da influência de Moscou no processo eleitoral.

Por enquanto, Donald Trump segue com a mesma estratégia de sempre; negar qualquer conspiração com os russos, qualificando como farsa todas as associações que vinculam sua campanha a Moscou. O problema para ele é que a cada novo resultado de investigação um nome de seu ciclo político de confiança é exposto. Paul Manafort, Michael Flynn, Jeff Sessions, George Papadopoulos. Está ficando mais difícil negar a relação com os russos.

James Clapper, um dos mais emblemáticos críticos da administração Trump e ex-diretor de Inteligência Nacional, faz uma análise sobre a estratégia e vitória de Moscou a partir da campanha e, posteriormente, da eleição de Donald Trump:

“O primeiro objetivo foi semear descontentamento, discórdia e ruptura na nossa vida política. E eles (os russos) tiveram sucesso. Eles aceleraram, amplificaram a polarização neste país e derrubaram nosso sistema democrático”, disse em entrevista a Susan B. Glasser, no portal Politico.

A bola agora está com Trump, que deve continuar simplesmente a negar toda a sorte de teorias ou então desviar o foco do debate para outro ponto. E isso não me surpreenderia. Quem sabe a Casa Branca busque a construção de um fato novo para além de suas fronteiras. 

27 de Outubro - Sexta-feira - 17:40

A Catalunha pode representar o ápice de uma crise existencial europeia que já vem se desenhando ao longo do século 21. Primeiro, a partir da crise econômica iniciada em 2007. Agora que Madri optou por invocar o Artigo 155 de sua constituição e intervir na região, o olhar da Europa se volta para a Espanha.  Isso porque, neste mundo hiperconectado, os passos dados pelo governo central espanhol e suas consequências certamente serão observados e podem vir a servir de base a uma espécie de manual de instruções a todos os demais movimentos separatistas, em especial aos já existentes e que ganham mais força na Europa.

A Corte Europeia de Justiça determinou que o Artigo 1 da Carta de Fundação da ONU que garante o direito à autodeterminação a estados não-independentes deve ser interpretado como direito legalmente elegível. Na Europa, isso deve provocar ainda mais embates jurídicos e não faltam exemplos de regiões que buscam autonomia (casos de Lombardia e Vêneto, na Itália) ou independência (caso da própria Catalunha). É claro que, a partir da situação espanhola, o debate deve ganhar detalhamento jurídico, mas minha intenção é dar sequência a uma análise política e histórica. Especialmente sobre a crise existencial europeia em vigor desde 2007.

Todos esses movimentos nacionais têm como fundamento a clareza de que as formas de organização tradicional da sociedade – e sua expressão política – deram errado. Alguns optam por culpar o poder central, a corrupção praticada e sua interferência nos rumos das regiões. Outros movimentos seguem o caminho mais óbvio, fácil e antiquado: culpam o poder central pela absorção de imigrantes. E o perfil mais comum de discurso é aquele que culpa todas essas possibilidades ao mesmo tempo.

Na essência de tudo isso – e aí não importa o discurso local e suas supostas razões – está a certeza da distopia. Há neste momento da humanidade o senso comum de que os governos e associações políticas existentes foram incapazes de produzir riqueza e distribuí-las na mesma proporção. Como lembra Paul Manson em artigo publicado no Guardian, os setores ideológicos mais à esquerda na Europa tendem a se distanciar de qualquer movimento de emancipação nacional porque o foco da discussão – para os grupos de esquerda – tem como origem a luta de classes, não o conceito de nação.

Este posicionamento ainda é resultado do século 20 e de sua luta principal, especialmente na Europa. Em suas versões mais extremas, esquerda e direita entraram em disputa sob duas bandeiras: a luta de classes e o nacionalismo (que está na raiz do nazi-fascismo). Hoje, em tempos de profunda polarização – e este não é um sintoma restrito ao Brasil, muito pelo contrário –, há grande dificuldades para analisar as reivindicações de cada movimento emancipatório. Há um temor – bastante justificado, inclusive – de que a chancela a determinadas lutas nacionais possa ser entendida como abertura a partidos ou grupos de tendências nazi-fascistas.

No entanto, a relação que vem sendo estabelecida não conseguiu até agora impedir que partidos e grupos nazi-fascistas deixem o esgoto por onde andaram nos últimos 70 anos e passem a ocupar palcos na Europa e nos EUA inimagináveis até bem pouco tempo atrás. O nazi-fascismo retornou ao centro do poder decisório em muitas das mais importantes arenas internacionais, mesmo com a oposição da sociedade maior.

O ponto central é que o jogo político europeu está em desarranjo e reconstrução. E a grande artífice deste processo é a própria União Europeia (UE). Ou, para ser mais exato, a quebra do “contrato” imaginário que ela propôs aos cidadãos dos países-membros.

Como costumo escrever por aqui, a UE nasceu aportando garantias a um continente mais acostumado a períodos de guerra do que de paz. Ao contrário da impressão generalizada, o século 20 foi de guerra na Europa. Depois dos dois conflitos mundiais em território europeu, a disputa contra o comunismo até o início da década de 1990 esteve no centro político do continente. A criação da UE marca o início de um período que se supunha de paz, estabilidade e prosperidade. Mas aí vieram todas as muitas complexidades do século 21, que inclusive evidenciaram que a política externa estaria disposta a chegar aos europeus a nado ou caminhando.

Os movimentos reivindicatórios por autonomia e o renascimento pulverizado de nacionalismos precisa ser compreendido como mais um capítulo também da disputa interna europeia. Tanto que, nos escombros do fim da União Soviética, imaginava-se que o destino político europeu seria determinado a partir da organização supranacional recém-fortalecida. O tempo estaria a favor da UE que, naturalmente, colecionaria adesões.

O século 21 chegou para acabar com esta certeza, muito embora a UE continue a ocupar papel central no jogo europeu. De um lado, sendo abandonada e culpada pelos fracassos domésticos, como fizeram os britânicos no Brexit. De outro lado, usada como alavanca de legitimidade, como ocorre com os movimentos nacionalistas que quererem aderir à UE, casos de Catalunha e Escócia. Este é um momento de reconstrução não apenas das instituições europeias, mas das fronteiras nacionais e da forma como as sociedades se organizam. O resultado desta grande movimentação na Europa pode abrir um novo capítulo em todo o mundo. 

24 de Outubro - Terça-feira - 09:40

Na última semana, uma delegação do comitê político do grupo terrorista palestino Hamas esteve em Teerã. Na pauta do encontro, o processo interno palestino de reconciliação entre Hamas e Fatah. O Fatah, a facção que responde pela Autoridade Palestina (AP), foi expulsa de Gaza pelo Hamas em 2007 e nos últimos dez anos seu governo esteve relegado à Cisjordânia. Durante este período, qualquer possibilidade de retomada das negociações com Israel foi ilusória. O presidente Barack Obama deixou o cargo sem atingir seu objetivo principal de política externa.

A reconciliação palestina pode não garantir o início de novas negociações, mas certamente movimenta a política regional. Donald Trump disse claramente que pretende ser o artífice de um acordo definitivo entre israelenses e palestinos, por mais incoerente que isso possa soar. O atual mandatário americano quer triunfar onde Obama não obteve sucesso. Um acordo de paz seria sua grande resposta ao antecessor por quem nutre profunda obsessão.

Trump quer envolver os atores regionais. E por isso a Casa Branca atual viu com bons olhos esta reconciliação palestina mediada pelo Egito. No jogo regional, o Egito é parte da aliança sunita (cujo significado religioso original perde cada vez mais sentido, importante deixar claro). O presidente palestino, Mahmoud Abbas, aposta neste mesmo raciocínio. Funcionários de seu governo já manifestaram anteriormente impaciência com a interferência do Irã nos assuntos domésticos palestinos. Para Abbas e o Fatah, a ideia de unificação palestina mediada pelo Egito pressupunha que o Hamas se afastasse dos iranianos, não apenas baixando as armas, mas entregando Gaza em sua plenitude ao Fatah e à Autoridade Palestina.

No tênue equilíbrio de forças do Oriente Médio, toda esta movimentação desagradou ao Irã, o fornecedor de armamento ao Hamas. No encontro em Teerã, a mensagem clara: se os membros do grupo terrorista assumirem a reconciliação em todas as suas variáveis, não receberão mais armamento.

Os iranianos esperam do Hamas o mesmo tipo de relação que mantêm com o Hezbollah. Isso já acontece em Gaza, mas a perspectiva de um olhar regional sobre o território e, ainda mais, a possibilidade de que eventuais conversações de paz passem a contar com os demais estados da região impõem aos iranianos um desafio numa de suas principais frentes.

Para ser claro, os EUA conduzirão o processo como de costume, mas, desta vez, a ideia é colocar sobre a mesa o conflito entre palestinos e israelenses como mais um item da agenda regional que negociará a paz definitiva entre Israel e seus vizinhos árabes – especialmente as monarquias do Golfo aliadas historicamente aos EUA e que representam, ao lado de Israel, claro, os principais entraves ao projeto de expansão hegemônica do Irã no Oriente Médio.

O que beneficia as possibilidades de um acordo mais amplo é que este momento histórico corresponde a uma janela de oportunidade criada pelas próprias ambições do Irã. As monarquias do Golfo – e em especial a Arábia Saudita – consideram a rivalidade com os iranianos uma ameaça existencial. O discurso contra Israel acaba por ser flexibilizado neste cenário. E aí é muito possível que os americanos surfem nesta onda. A reconciliação palestina tal como imaginada pelo presidente palestino e certamente por Egito e EUA passa por este ponto; dar um nó tático no projeto regional iraniano. Não é de se esperar mesmo que Teerã assista a todo este movimento passivamente.

O encontro dos iranianos com a liderança política do Hamas tem exatamente o objetivo de deixar isso claro. Até porque Israel demanda como pré-condição de diálogo que os palestinos agora unificados politicamente cortem relações com o Irã. Sem armas e sem reforçar o discurso da “resistência” contra os israelenses, o Hamas perde a própria razão de existir. E daí o encontro com o Irã ter este sentido de sobrevivência ao grupo terrorista palestino.

O Canal 2 israelense divulgou neste domingo que a administração Trump irá apresentar em breve um plano de paz formal a partir do que chama de “arranjo regional abrangente”. E aí retorno ao que escrevi. Este plano considera certamente que os demais países do Oriente Médio – para ser mais exato, aqueles países com os quais os EUA mantêm relações diplomáticas – serão os fiadores do processo. Não imagino a possibilidade que o Irã não intervenha. E aí é possível que, em troca da aliança, financiamento e armamento, os iranianos exijam que o Hamas inicie novos ataques com mísseis a Israel, provocando uma resposta do Estado judeu e o recomeço do conflito armado. O mesmo pode vir a ser exigido do Hezbollah, no Líbano, na fronteira norte de Israel.

Por mais que todo este processo seja uma repetição do que já ocorreu ao longo deste século em diferentes momentos, temos aqui algumas novidades: a primeira delas, a presença de um novo presidente americano que irá trazer alguns novos atores para este reforço do processo de paz. Como será que a Arábia Saudita e as demais monarquias do Golfo Pérsico irão reagir? Mais ainda, como Trump irá atuar – se todas essas etapas vierem a ocorrer de fato – sabendo que os iranianos, por meio de seus aliados nas fronteiras israelenses, poderão sabotar seu principal projeto internacional? E como a Rússia, a nova mandatária da região, irá responder, na medida em que é a única a manter relações com todos esses atores (inclusive com Irã e Israel)?

Pode não parecer num primeiro momento, mas a reconciliação palestina carrega intrinsecamente todo este grande potencial de movimentação regional. 

19 de Outubro - Quinta-feira - 11:35

Diante da claudicante política externa americana, é preciso dizer que, sim, os EUA acertaram em uma avaliação recente sobre as consequências do referendo pela independência da região curda no norte do Iraque, o chamado Curdistão Iraquiano. Washington sabia que os eventos seguintes poderiam iniciar uma onda de movimentações imprevisíveis com potencial de alterar o cada vez mais frágil mínimo equilíbrio de forças regional.

Desde o dia 25 de setembro, quando os curdos levaram adiante seu referendo em busca de independência, a análise americana – apesar de correta – está sendo superada pelos eventos em solo. O primeiro-ministro do Iraque, Haider al-Abadi, iniciou um processo de retomada de Kirkuk, de forma a impedir a independência do Curdistão. Este era um dos acontecimentos óbvios, mas no jogo de bastidores estão algumas das potências regionais em busca de construção de alianças e desmonte do projeto curdo.

O foco da política externa americana era evitar a dispersão da luta contra o Estado Islâmico. Este sempre foi o ponto principal no Iraque. E aí a independência curda surgiu como um desafio a Washington. Primeiro pelo o que era óbvio. Já se sabia que a criação de um novo estado nacional no Oriente Médio não seria considerado razoável pelos atores regionais.

Como tenho escrito, os curdos representam a mais significativa população mundial sem estado em todo o mundo. Espalhados por Iraque, Irã, Turquia e Síria, os curdos compõem o principal foco de preocupação do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Ele teme que um Curdistão Iraquiano acabe por promover novos levantes curdos na Turquia. Os iranianos, por outro lado, perceberam na preocupação de Erdogan um aspecto de reforço de sua aliança com Ancara, prometendo impedir o Curdistão Iraquiano em troca de mais um jogador de peso em sua busca por hegemonia regional. Este raciocínio iraniano tem funcionado.

Mas o posicionamento do Irã sobre o nascimento de um Curdistão ali ao lado de seu território não está relacionado apenas à Turquia, mas a Israel. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, foi o único líder mundial a publicamente se manifestar de maneira favorável ao Curdistão. Para Bibi, seria muito positivo abrir uma frente diplomática com um novo estado da região. Também corresponderia a um contra-ataque de Jerusalém. Enquanto o Irã abre frente e postos avançados em três das fronteiras israelenses (Gaza, sul do Líbano e Colinas de Golan), o estado judeu não é capaz de manter qualquer posicionamento mais próximo ao Irã. Mesmo que Israel não estabeleça de fato uma base no Curdistão (parece-me muito improvável que se concretize), a simples perspectiva de um país aliado a Israel em sua fronteira já corresponderia a um fato novo e motivo de preocupação a Teerã.

Voltando aos EUA, o governo Trump se movimentou pouco sobre a questão curda. Seus apelos para que o referendo não fosse realizado não foram suficientes. Depois disso, os americanos estão apenas assistindo ao desenrolar de consequências. Enquanto Washington observa, o jogo regional está em curso. Como parte de seu modo de operação regional, os iranianos já despacharam para o Curdistão Iraquiano lideranças de suas milícias xiitas, as chamadas Hashd al-Shaabi, Unidades de Mobilização Popular (PMU, em inglês). Dois de seus líderes estiveram em Kirkuk possivelmente para negociar com lideranças curdas de oposição ao presidente Masoud Barzani, o movimento União Patriótica do Curdistão (PUK, em inglês). Como em qualquer jogo político, os curdos não são unitários e há diferenças e disputas políticas.

As duas forças políticas mais importantes do Curdistão Iraquiano são o Partido Democrático do Curdistão (KDP), do presidente Barzani, e o PUK. As milícias xiitas enviadas à região pelo Irã podem estar em busca de costurar alianças com a oposição curda. Dois dos líderes do PMU, Haidi al-Amiri e Abu Mahdi al-Muhandis, são próximos a Qassem Suleimani, comandante da Força Quds –  braço da Guarda Revolucionária Iraniana (GRI) responsável pelas operações externas do grupo. A Força Quds é fundamental para o projeto de expansão regional iraniano. De acordo com oficiais americanos e argentinos, a Força Quds foi a responsável pelos ataques terroristas à embaixada de Israel em Buenos Aires, em 1992, e ao centro judaico AMIA, dois anos depois também na capital argentina. Ambos os ataques deixaram 114 mortos.

Enquanto os EUA assistem a tudo isso à distância, os iranianos estão tratando de redesenhar o Oriente Médio. Curiosamente, apesar disso, no caso do Curdistão, formalmente EUA, Turquia e Irã estão do mesmo lado, mesmo que por motivos distintos. Do lado oposto, está Israel.

EUA, Turquia e Irã não querem um Curdistão independente, também por razões diferentes. Por ora, na prática os americanos optaram por não interferir diretamente nos rumos desta disputa. No entanto, como sem a força dos guerrilheiros curdos Peshmerga a guerra contra o Estado Islâmico não teria sido vencida, os americanos vão ter de, cedo ou tarde, adotar uma posição mais assertiva.

O tempo não está a favor de Washington. Enquanto o governo Trump prefere se manter alheio, o Irã, ao contrário, preferiu não esperar. Pode não parecer, mas esta já é uma batalha estratégica travada sobre os escombros do fim da guerra contra o EI e, de forma mais ampla, mais um capítulo no processo de realinhamento de forças no Oriente Médio.

 

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