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Carta & Crônica
Henry Galsky
19 de Setembro - Terça-feira - 14:00

Há um evidente processo de escalada no confronto retórico entre o regime norte-coreano e os inimigos regionais – Japão e Coreia do Sul, especificamente – e distantes – em especial e fundamentalmente, os EUA. Kim Jong-Un lançou um míssil sobre o Japão e conduziu seu teste nuclear mais poderoso no último dia 3 – o sexto teste realizado.

O presidente americano, Donald Trump, prometeu responder com “fogo e fúria”. O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, publicou um texto duro no New York Times defendendo mais do que a aplicação de sanções à Coreia do Norte, deixando claro também o alinhamento à posição dos EUA de que “todas as opções estão sobre a mesa”, menção clara à possibilidade de conduzir um ataque militar.

“Considerando sua história e a continuidade de testes nucleares e lançamento de mísseis, (o estabelecimento de) mais diálogo com a Coreia do Norte teria resultados inócuos. Pyongyang interpretaria (a proposta de) mais diálogo como prova de que outros países sucumbiram ao sucesso de seu lançamento de mísseis e testes nucleares”, escreve o primeiro-ministro Abe.

São palavras duras e que deixam pouca margem de interpretação. Estrategicamente, este é um posicionamento também de uma liderança regional que busca rearmamento e fortalecimento das instituições militares – assunto delicado no Japão que, a partir da redação da constituição na esteira da derrota na Segunda Guerra Mundial, passou a ter poderio apenas de defesa (artigo 9 da constituição japonesa).

A crise na Coreia do Norte envolve muitos aspectos e, claro, é indiscutível que o território japonês está sob ameaça direta. A subida no tom, inclusive com o discurso muito claro de Trump na Assembleia Geral da ONU (“se for necessário, vamos destruir a Coreia do Norte”), é um ponto coletivo e de união entre Japão e a principal cadeia de comando político e militar americano.  

Diante da falta de perspectivas reais para solucionar a crise, parece-me que a assertividade do discurso se transformou na própria estratégia. Nikki Haley, embaixadora dos EUA na ONU, disse que o Conselho de Segurança esgotou as opções para conter o programa nuclear norte-coreano e que o assunto seria repassado ao secretário de Defesa, James Mattis. O general H.R. McMaster, conselheiro de segurança nacional do presidente Trump, também afirma que a opção militar deve ser considerada.

Aviões bombardeiros B-1B americanos e caças F-35 realizaram exercícios em conjunto com a Coreia do Sul. Temos, portanto, um cenário onde exercícios militares e escalada no discurso compõem os dois pilares da estratégia de Washington para se opor às ações práticas do regime norte-coreano. A questão é que nada aparenta ter o potencial de interromper o projeto do país asiático. E a cada novo discurso de autoridades americanas e a cada novo teste conduzido por Kim Jong-Un a chamada linha vermelha vai sendo traçada, apagada e redesenhada um pouco mais para trás.

Lembrando sempre que Trump foi crítico da estratégia do antecessor Barack Obama de estabelecer linhas vermelhas e redesenhá-las, situação que ocorreu de forma bastante constrangedora após os ataques com armamento por Bashar al-Assad contra a própria população civil da Síria, em agosto de 2013. Obama caiu na própria armadilha ao perceber que o limite estabelecido o empurrou a um beco sem saída.

O Impasse atual na Coreia do Norte pode ter um desfecho catastrófico justamente em função dessas questões; principalmente porque, aparentemente, Donald Trump não encontra uma saída honrosa capaz de solucionar a crise e, ao mesmo tempo, evitar comparações com o desafeto Barack Obama. Temos, portanto, um cenário onde evitar uma guerra nuclear depende quase que exclusivamente da capacidade de Trump de, institucionalmente, distanciar-se da tentação de agir de modo diferente de seu inimigo político doméstico. Não é exatamente uma situação animadora.

15 de Setembro - Sexta-feira - 10:17

Na foto, o chefe do Hamas, Ismail Haniyeh, em encontro com o Líder Supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei


Como tenho escrito ao longo do tempo por aqui, a situação no Oriente Médio é de tensão profunda. As autoridades de Israel, de maneira aberta, não estão satisfeitas com o modo como a Guerra Civil na Síria está se resolvendo. Com olhar apenas geopolítico, está evidente que os inimigos regionais dos israelenses estão obtendo ganhos estratégicos relevantes. Na prática, a alteração do tênue equilíbrio é uma ameaça não apenas à maneira como Israel se percebe no Oriente Médio, mas também ao posicionamento das monarquias sunitas do Golfo, daí os embates recentes envolvendo esses países árabes e o Catar, cada dia mais aliado ao Irã.

Os planos desses eixos são exatamente opostos. No entanto, Israel está se expondo mais em seu giro internacional de forma a tentar convencer americanos e russos de que o resultado lhe é bastante prejudicial. No mês passado, Washington e Moscou acordaram o formato do estabelecimento das chamadas “zonas de segurança” nas fronteiras entre Síria e Israel e entre Síria e Jordânia. Enquanto Rússia e EUA concordaram que ao longo de 20 quilômetros “forças armadas de elementos estrangeiros” seriam impedidas de entrar nessas regiões, para Israel o texto é frágil. A posição israelense é que não há menção explícita a Irã e Hezbollah.

Ao mesmo tempo em que as monarquias sunitas do Golfo Pérsico temem os ganhos que o Irã tem obtido, na prática é Israel quem está comprando essa briga abertamente – até por razões óbvias já explicadas no texto anterior. Com Donald Trump na Casa Branca e Putin muito interessado em recompensar aliados em sua virada de jogo regional, o governo de Jerusalém está apresentando demandas que já não são tão consideradas como em outras administrações dos EUA.

A verdade é que há uma enorme diferença conceitual em jogo entre EUA e Rússia e, de outro lado, Israel. Para russos e americanos, o projeto de vitória na Síria tem dois grandes objetivos claros: derrotar o Estado Islâmico e interromper a Guerra Civil, mesmo que, para isso (e Trump também resolveu fechar os olhos neste caso), Bashar al-Assad continue a ser o presidente da Síria. Portanto, de maneira pragmática, a situação na Síria caminha para a vitória sob a perspectiva do Kremlin e da Casa Branca. Para Donald Trump, isso tem enorme valor, na medida em que não vê a hora de apresentar este resultado supostamente “positivo” em oposição às empreitadas no Oriente Médio de seu antecessor – e com o qual alimenta eterna rivalidade – Barack Obama.

Para Israel a leitura é completamente diferente. O resultado na Síria impacta nas fronteiras e, portanto, na forma como o país se relaciona com atores regionais com os quais mantém relação abertamente hostil, como Hezbollah, Irã e Hamas (agora reconciliado com o Irã). Portanto, o que Rússia e EUA encaram como competição e vitória estratégica os israelenses entendem como questão básica de segurança interna. O mesmo vale em relação às monarquias sunitas do Golfo, que igualmente percebem o projeto geopolítico iraniano como ameaça potencial.

O fato é que é impossível descontextualizar os resultados da Guerra Civil Síria das disputas regionais. E por isso os eventos recentes devem ser compreendidos como tijolos que fazem parte do processo de construção permanente do Oriente Médio. A renovação da presença das Forças de Paz da ONU estacionadas no sul do Líbano (UNIFIL) e a incapacidade que este contingente militar de 10,5 mil soldados demonstra de frear a transferência de armamento do Irã para o Hezbollah acaba por servir de exemplo aos demais participantes do concerto de forças. Desta forma, em função deste dado, a Jordânia corre para acertar com Washington e Moscou que as milícias aliadas ao Irã em atuação na Síria estejam obrigatoriamente distantes da fronteira entre Síria e Jordânia ao menos 40 quilômetros. Os jordanianos entendem a partir do que ocorre na fronteira entre Líbano e Israel que a presença de forças internacionais como a UNIFIL não é suficiente para garantir estabilidade.

Ao mesmo tempo, o olhar iraniano é distinto, claro. Teerã não abre mão de seu projeto de expansão regional, o que chamo de ligação direta e terrestre entre Irã e Líbano. O país está conseguindo estabelecer posições relevantes no Iraque, na Síria, no Líbano e, claro, em Gaza, além do pacto com importantes atores, como Rússia, Turquia e Hezbollah. De acordo com Uri Savir, um dos fundadores do Peres Center for Peace, a estratégia iraniana também se aproxima dos palestinos na Cisjordânia, ou seja, da liderança institucional palestina, não apenas do Hamas, em Gaza.

Segundo o oficial da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) ouvido por Savir, houve aproximação entre Hamas e Hezbollah com o propósito de iniciar uma grande campanha contra Israel inspirada pelo Irã. De acordo com a avaliação deste oficial da OLP, a ideia dos iranianos é, por meio de uma nova onda de ataques a Israel, punir a administração Trump e a coalizão reforçada pelo presidente americano com os países sunitas (Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Barein, Kuwait e Omã). Se isso tomar corpo e a ofensiva contra Israel se concretizar, a Autoridade Palestina (AP) formaria um governo de coalizão com o Hamas, isolando ainda mais Israel e assumindo institucionalmente a pauta regional do Irã.

Pode até parecer fácil, mas romper com os EUA desta maneira – e ainda por cima deixar evidente a “compra” do projeto regional do Irã – não é exatamente uma decisão simples de ser tomada. Até porque corresponde a um novo alinhamento que pode reduzir benefícios, ganhos políticos e ajuda financeira que a AP recebe dos americanos. Uma declaração de guerra aberta a Israel também coloca os palestinos em Gaza e Cisjordânia no alvo. O Hamas costuma fazer isso sem maiores questões, mas a AP não. Este tipo de posicionamento do oficial da OLP, se de fato corresponder aos caminhos adotados pela AP, pode ser também um balão de ensaio de forma a pressionar os governos de Israel e EUA em virtude do estado de impasse no qual se encontra o processo de paz – situação que, por ora, parece bastante confortável ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

No final das contas, há uma situação limite na região e que é insustentável no médio prazo. A maneira como o Irã e Israel percebem a geopolítica regional não é apenas oposta, mas a posição que prevalecer corresponde ao fracasso e exclusão da outra. A vitória do projeto expansionista iraniano necessariamente implica na derrota israelense. Ao mesmo tempo, eventual vitória de Israel representa obrigatoriamente a interrupção do projeto de reorganização regional que tem sido levado adiante pelo Irã. Portanto, cedo ou tarde, essas duas narrativas (e a de Israel corresponde também à maneira como as monarquias sunitas entendem o Oriente Médio) caminham para entrar em confronto. 

11 de Setembro - Segunda-feira - 13:00

O suposto ataque aéreo israelense a instalações de desenvolvimento de armas químicas na Síria deve ser entendido dentro do contexto amplo de alteração de equilíbrio regional. No cenário atual – em que o Irã tem demonstrado grande ampliação em seu quadro de aliados –, a situação de Israel é de fragilidade. Em todos os momentos em que isso aconteceu, o Estado Judeu viveu dias de tensão e dúvida sobre a própria existência. Os eventos ocorridos em 1948, 1967 e 1973 (Guerra de Independência, Guerra dos Seis Dias e Guerra do Yom Kippur) moldaram a política de defesa israelense. O momento atual guarda semelhanças com os três fatos históricos que menciono acima.

Nas três principais guerras travadas entre Israel e seus inimigos regionais, a posição israelense era de defesa e obrigação de vitória em nome de sua existência. As análises sobre esses conflitos levaram Jerusalém a estabelecer marcos e doutrinas que independem da coalizão de partidos à frente do governo. Sejam lideranças de esquerda ou direita, a premissa a balizar as decisões militares do país é clara: nenhum dos adversários regionais pode estar em situação de superioridade ou igualdade com Israel porque em todas as ocasiões em que houve esta percepção por parte dos inimigos o Estado Judeu foi confrontado. Todas as vitórias israelenses garantiram a continuidade de existência do país e moldaram esta prerrogativa de defesa suprapartidária.

Hoje, a ascensão regional do Irã e a alteração do frágil equilíbrio regional (além das escolhas equivocadas das monarquias do Golfo Pérsico sobre as quais comentei por aqui) empurram Israel a novamente debater sua premissa defensiva e o que irá fazer a partir disso.

No final de agosto, Benjamin Netanyahu esteve na Rússia e se encontrou com Vladimir Putin. A pauta do líder israelense tinha como único objetivo apresentar as demandas do país a partir do novo quadro em formação no Oriente Médio. Na sequência do encontro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas votou a renovação do mandato das Forças de Paz no Sul do Líbano (UNIFIL). Israelenses e americanos pressionaram para que a redação mencionasse explicitamente as atividades da milícia xiita libanesa Hezbollah em desacordo com a resolução 1701 que encerrou a guerra entre Hezbollah e Israel em agosto de 2006. A Rússia se opôs à posição, garantindo que a nova resolução excluísse seus parceiros xiitas. Para os israelenses, esta posição foi entendida como a resposta oficial de Moscou às demandas apresentadas por Netanyahu durante o encontro com o presidente Putin.

O jornalista Ben Caspit cita no Al-Monitor encontro entre oficiais de segurança de Israel e EUA no qual os israelenses foram claros sobre como entendem o momento atual e as responsabilidades das potências diante das mudanças regionais:

“O que quer que aconteça depois da guerra na Síria irá moldar o Oriente Médio – e talvez todo o mundo – por gerações. Se o cessar-fogo não incluir um recuo xiita (...), um desastre irá acontecer. Vocês estão alterando o delicadíssimo equilíbrio na região. O preço imediato será pago por aqueles que vivem aqui, mas no final a conta será enviada a vocês”.

Esta declaração explica de maneira clara como os israelenses percebem a mudança do jogo. E pode esclarecer as razões pelas quais a base de produção de armamento químico da Síria foi atacada. Pode ser um recado de Israel sobre como irá reagir se os EUA, mas principalmente a Rússia – a nova detentora de poder regional – não considerarem as posições de Jerusalém.

Do ponto de vista das alianças, hoje existe um cenário muito desfavorável a Israel. Com Donald Trump na Casa Branca, havia a expectativa, pelo menos por parte de Benjamin Netanyahu, de estreitamento de laços entre os países depois de oito anos em que o primeiro-ministro israelense trocou farpas com o desafeto Barack Obama (a recíproca também era verdadeira). Mas, ao contrário de Trump, Obama entendia a institucionalidade do cargo e sempre conseguiu separar as desavenças pessoais com Netanyahu da aliança entre EUA e Israel (tanto que a cooperação na área de segurança entre os países nunca foi tão estreita quanto durante os oito anos do antecessor de Trump).

Agora a situação é muito diferente. Apesar do discurso muito favorável a Israel, a prática da política externa é ambígua. Não apenas o presidente americano está dedicado à política interna (onde inclusive mantém posições muito controversas em relação ao apoio recebido pelos movimentos nazistas e certamente antissemitas), como também, externamente, tem na prática deixado o caminho aberto para Putin no Oriente Médio. Talvez bem silenciosamente Netanyahu esteja sentindo falta de Obama, principalmente porque hoje no Oriente Médio Israel vive situação de bastante isolamento. 

O acordo amplo com as monarquias do Golfo ainda não aconteceu e o governo russo deixa claro que está disposto a recompensar seus aliados Hezbollah e Irã. O termo eixo xiita cada vez faz menos sentido, na medida em que os iranianos estão colocando no bolso atores regionais sunitas muito relevantes, como o Catar, a Turquia e agora o Hamas, grupo terrorista palestino com o qual se reconciliou após anos de afastamento em virtude do apoio que Teerã confere ao governo de Bashar al-Assad na Síria (o que inclui a chancela aos ataques com armamento químico promovidos por Assad contra a própria população síria).

Diante deste quadro amplo, parece que aos israelenses restará confiar na capacidade russa de segurar os ímpetos de seus aliados contra Israel (especialmente Irã e Hezbollah) e, enquanto não conseguir convencer Putin, pontualmente realizará ações para impedir que seus inimigos regionais adquiram ainda mais capacidade militar. A pergunta que fica a partir disso é em relação ao próximo passo: Israel irá assistir passivamente à alteração do cenário regional e de sua premissa de defesa? Eu apostaria que não. Resta saber agora quando os israelenses decidirão alterar a realidade que, querendo ou não, estabeleceu de vez o Irã nas colinas do Golan, no sul do Líbano e em Gaza (ou seja, em três das portas de entrada de Israel). 

05 de Setembro - Terça-feira - 13:15

A situação de impasse na Península Coreana é apresentada ao Ocidente de modo maniqueísta. A teoria é até muito simples: os únicos aliados ao regime norte-coreano são os chineses, com os quais Pyongyang realiza 90% de suas trocas comerciais. Sem a China, não há Coreia do Norte. Dado concreto.

Ao mesmo tempo, a China tem pedido calma às partes envolvidas. Estamos tratando da China, o mesmo país que não possui imprensa livre, democracia e poderes independentes entre si. O gigante econômico que possui PIB correspondente a 18% da economia mundial, o chão de fábrica do planeta que, entre 1989 e 2017, cresceu anualmente a uma média de 9,71%. São índices tão absurdos que se traduzem em ausência de legislação trabalhista ou direitos mínimos. Isso sem entrar no terreno das muitas outras restrições.

A China, que mantém a Coreia do Norte de pé, não tem qualquer interesse numa guerra nuclear. O mesmo vale para os vizinhos e adversários poderosos Japão e Coreia do Sul. Os EUA, distantes, também estão no alvo de Kim Jong Un, que, apenas neste ano, testou mais mísseis do que seu pai e antecessor Kim Jong Il durante todo o seu mandato (1994 a 2011).

A aliança entre EUA, Japão e Coreia do Sul e mais a chancela da China já seriam suficientes para dobrar os norte-coreanos e levá-los a interromper a escalada de testes. Mas isso não acontece basicamente porque Ocidente e Oriente estão divididos. Além disso, Coreia do Sul e Japão também têm suas próprias diferenças.

China e EUA estão em desacordo em alguns pontos. O primeiro deles é que os chineses entendem que americanos e sul-coreanos devem interromper os exercícios militares de forma a abrir caminho para a diplomacia. Mas Washington pensa que, se Beijing aprovar sanções na ONU, os EUA não precisariam enviar equipamentos e armas à Península Coreana. Estão em lados opostos sobre a melhor maneira de convencer Kim Jong Un a interromper seus testes.

China e EUA entendem a situação de maneiras absolutamente distintas. Matéria muito importante assinada por Lyle J. Goldstein no National Interest mostra o ponto de vista dos teóricos chineses. São muito diferentes dos ocidentais.

Três teóricos apresentam aspectos fundamentais que explicam o impasse entre Beijing e Washington: entre a desmobilização nuclear e a preservação da estabilidade, os EUA optaram pelo primeiro, mas os chineses priorizam o segundo aspecto.

Outro ponto apresentado é muito relevante: os chineses aceitam que os norte-coreanos desenvolvam energia nuclear, ao contrário dos americanos. O terceiro teórico cita a desconfiança mútua entre EUA e China como uma das razões pelas quais a parceria é frágil, algo que se reflete diretamente no impasse na Coreia do Norte.

Este é um cenário que realmente não inspira grandes expectativas de que as duas potências poderão solucionar a questão sozinhas. Mesmo na aliança mantida pelos EUA com Japão e Coreia do Sul, Donald Trump tem relegado os sul-coreanos a segundo plano. E Japão e Coreia do Sul tampouco têm posições unânimes, especialmente em relação ao plano japonês de aumentar seu poderio militar. Especificamente sobre as estratégias para conter Kim Jong Un, os aliados asiáticos também discordam: enquanto o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, tende a favorecer o diálogo com a Coreia do Norte, o presidente do Japão, Shinzo Abe, dá preferência a demonstrações de poderio militar.

Para ler o texto completo de Lyle J. Goldstein, clique aqui

01 de Setembro - Sexta-feira - 11:52

Foto: Os miniistros das Relações Exteriores de Irã e Turquia, respectivamente Mohammad Javad Zarif e Mevlüt Çavuşoğlu

O novo Oriente Médio imaginado pelo Irã está saindo do papel e se transformando em realidade. A estratégia de expansão e alteração do equilíbrio de forças está em funcionamento pleno. Basta conectar os pontos. Os iranianos têm sido muito habilidosos por algumas razões: entenderam a nova configuração política global muito antes dos demais atores e também conseguiram aliados a partir de oportunidades que têm surgido ao longo do tempo.

O ponto fundamental está relacionado ao programa nuclear. Constituído como parte deste esforço regional de alteração de forças e estabelecimento hegemônico, o Irã conseguiu reorganizar-se mesmo depois das sanções ocidentais. Se o projeto nuclear tinha como objetivo evidente a adesão ao clube dos países detentores de arsenal atômico, depois da aproximação com o ocidente e do acordo de abertura a inspeções periódicas, a função das usinas na estratégia regional do país foi revista.

Vejam bem, a função deste grande aparato tecnológico foi revista, mas não seus objetivos regionais. É importante fazer esta observação porque são questões bem distintas.

O Irã entendeu corretamente que se o programa nuclear representa um aspecto evidente de fortalecimento de suas posições, ele também é um ponto de vulnerabilidade. Num ambiente em que construiu inimigos poderosos (Arábia Saudita, os demais membros do eixo sunita e Israel com ou sem o apoio dos EUA), proceder com a busca por arsenal atômico sem fazer qualquer concessão certamente levaria o país a enfrentar – talvez de forma precipitada – exércitos mais poderosos que o seu. E a derrota quase certa colocaria fim aos planos estratégicos de médio e longo prazos.

E aí Teerã deu o pulo do gato. Cedeu aos anseios da comunidade internacional – e principalmente dos EUA – e assinou o acordo sobre seu programa nuclear em julho de 2015. Em vigor há mais de dois anos, é preciso dizer que os iranianos têm cumprido o que foi combinado. Com isso, o país afastou por prazo indeterminado qualquer possibilidade de ataque a seu território.

O Irã perdeu a possibilidade de obtenção de arsenal atômico no curto prazo (mas não em médio), mas, em compensação, passou a costurar com empenho suas alianças regionais. Mais ainda, iniciou um relacionamento estreito com a Rússia desde que o país decidiu intervir militarmente na Guerra Civil Síria, em setembro de 2015 (portanto, dois meses após o acordo sobre o programa nuclear do Irã). A aliança com a Rússia pela manutenção de Bashar al-Assad permitiu aos iranianos negociar a presença na Síria após a o fim da guerra civil. Com isso, além da aliança ainda mais próxima com Assad, ganharam a confiança da Rússia e a possibilidade de estabelecer bases no território sírio.

Se num primeiro momento havia acusações que partiam mesmo de outros atores regionais em relação aos atos de violência (inclusive o uso de armamento químico contra os próprios civis) cometidos pelo regime de Assad com a complacência russa, a situação hoje é muito diferente. A fragilidade dos civis sírios e suas trágicas histórias pessoais não foram apagadas, mas há um silêncio pragmático; a guerra civil está chegando ao fim, a estratégia russa, síria, iraniana e do Hezbollah deverá sair vencedora e, portanto, já se imagina o dia seguinte. E quando isso acontecer é muito provável que Bashar al-Assad permaneça no cargo de presidente do país.

O jogo proposto pelos iranianos e suas apostas foram igualmente vencedoras: o cumprimento do acordo reintroduziu o país na comunidade internacional especialmente sob o aspecto econômico e afastou a possibilidade de um ataque militar em curto prazo; a aproximação com a Rússia deu certo e, para completar, o eixo do qual o país é um dos protagonistas ganhou dois atores de peso a partir da miopia dos eixo sunita liderado pela Arábia Saudita: a Turquia, cujo foco da política externa é impedir a criação de um Estado curdo, passou a contar com auxílio iraniano para atingir este propósito e, assim, Ancara pulou de vez no barco do eixo xiita (apesar de sua população ser majoritariamente sunita).

O Catar, depois do bloqueio e isolamento empreendidos pelo eixo sunita, também mudou de lado, apelando ao Irã que lhe estendeu a mão. E assim, o Oriente Médio mudou de vez, transformando-se num ambiente onde a Rússia dá as cartas, mas é o Irã quem usufruirá de benefícios no longo prazo.

29 de Agosto - Terça-feira - 10:45

A reaproximação formal entre Irã e Catar é mais uma rodada do jogo regional que está alterando o equilíbrio de forças entre sunitas e xiitas. Em 5 de junho deste ano, Arábia Saudita, Barein e Emirados Árabes Unidos (EAU) decidiram isolar o Catar a partir de denúncias de que o país financiava terroristas e se aproximava dos iranianos. A ideia era mesmo a de sufocar o emirado, cortando suprimentos alimentícios, impedindo transações comerciais e fluxo de entrada e saída de pessoas, até porque sua única fronteira terrestre é justamente com a Arábia Saudita.

O movimento ganhou corpo não apenas pelo dano que a estratégia poderia causar, mas também porque parece ter sido fruto de uma interpretação muito específica da visita de Donald Trump em 20 de maio à Arábia Saudita, quando o presidente americano deixou evidente que abraçava plenamente a narrativa do eixo sunita. Em parte pela chancela americana, em parte para testar a nova administração em Washington, as monarquias sunitas tomaram a decisão de pôr em prática o plano de isolamento. O objetivo não era apenas realinhar a política externa independente do Catar, mas estabelecer uma espécie de código de conduta definitivo.

O propósito era impedir qualquer relação entre Catar e Irã, inclusive porque o Gulf Cooperation Council (GCC, em inglês) – composto por Emirados Árabes Unidos, Barein, Kuwait, Omã, Arábia Saudita e Catar – encara a rede de notícias catari Al-Jazira como ameaça comum a todos esses países. Tanto que exigiu o fechamento do canal de televisão como parte da lista de demandas que deveriam ser cumpridas até o dia 3 de julho passado em troca do fim do bloqueio. O governo de Doha não acatou as exigências e certamente será expulso do GCC em breve.

O Catar sentiu o golpe desta grande movimentação regional; os bancos do país perderam 7,5 bilhões de dólares em retiradas de clientes estrangeiros, e as importações caíram 38% em junho. A lista enviada pelo GCC para o restabelecimento de relações é complexa e exige na prática não apenas que o país abra mão de sua soberania, mas o fim de sua principal fonte de receitas, o campo de gás South Pars-North Field (foto) operado em conjunto justamente com o Irã.

Está claro que a ideia não era realinhar o Catar, mas de fato expulsá-lo do bloco de países sunitas sobre o qual tratei tantas vezes por aqui.

O que aconteceu a partir disso seguiu um caminho até bastante óbvio e que culminou com o restabelecimento de relações plenas entre Catar e Irã; os iranianos aproveitaram a oportunidade e estreitaram a parceria com Doha, fornecendo alimentos e rotas alternativas de comércio e tráfego aéreo. Com isso, Teerã ganhou mais um aliado importante em seu propósito de estender presença e poderio internacional entre o Golfo Pérsico e as fronteiras com Israel. Como parte do eixo xiita (e aí é importante observar que cada vez mais esses termos estão distanciados de seu propósito religioso original), o Irã agora tem como parceiros Rússia, Iraque, Hezbollah, Hamas, Turquia, Catar e a minoria xiita Houthi que combate a Arábia Saudita no Iêmen.

Se a situação parece estar muito clara no Oriente Médio a partir de todas essas movimentações, vale dizer que a decisão do GCC de isolar o Catar e testar o comprometimento de Donald Trump por enquanto trouxe apenas prejuízo ao grupo e um ganho concreto para as ambições regionais da República Islâmica do Irã. 

25 de Agosto - Sexta-feira - 10:40

De certa forma contrariado, o presidente Donald Trump anunciou a permanência de ao menos 8.400 combatentes americanos no Afeganistão, uma vez que, 16 anos após a invasão do país pelos EUA (e três mandatos presidenciais depois), o território ainda permanece em disputa, especialmente entre as forças armadas americanas e terroristas do Talibã. O incômodo da decisão está relacionado às promessas de campanha, principalmente ao slogan “America First” a partir do qual o então candidato denunciava as empreitadas internacionais como fonte permanente de gastos a drenar os impostos dos cidadãos americanos.

A Casa Branca fez questão de deixar claro que o presidente foi convencido pelos generais de que a permanência no território era necessária de forma a evitar que o esforço empreendido ao longo de todo este século fosse perdido e o território pudesse ser retomado pelo Talibã e pela Al-Qaeda. Diante deste entendimento, Trump foi a público justificar a decisão e expor mais uma vez sua visão muito particular sobre política externa. Em mais um capítulo repleto de novidades, o presidente optou por vincular a estratégia militar internacional do país a trocas comerciais, tornando evidente que a linha a separar o cargo público que exerce e sua história de vida empresarial é muito tênue, quase invisível.

No discurso, houve espaço para a exposição de como ele define a vitória que encerraria a guerra no Afeganistão:

“Nossas tropas vão lutar para ganhar. A partir de agora, vitória vai ter uma definição clara: atacar nossos inimigos, eliminar o Estado Islâmico, esmagar a Al-Qaeda, prevenir o Talibã de tomar o país e impedir ataques terroristas contra americanos”.

Esta definição torna a possibilidade de vitória real muito improvável, além de esvaziar o histórico de estratégia internacional dos EUA. Resumir a política externa americana ao combate direto contra inimigos é caminho contrário ao seguido por todos os seus antecessores, não apenas Barack Obama (contra quem Trump, como um Dom Quixote, continua a lutar até hoje). Não que derrotar grupos terroristas seja uma novidade ou objetivo ignorado pelos demais presidentes, mas todos imaginavam um cenário capaz de incrementar a realidade local justamente de forma a evitar que, no dia seguinte ao encerramento do confronto, a total falta de perspectivas se transformasse em território fértil para o nascimento de novos inimigos.

Outro aspecto importante do discurso sobre o Afeganistão tem a ver com as alianças regionais americanas até hoje. O presidente mudou o eixo ao fortalecer a Índia e denunciar o Paquistão.

“É hora do Paquistão demonstrar seu comprometimento com a civilização, ordem e paz (...). Nós não podemos mais permanecer em silêncio sobre os portos seguros (concedidos pelo) Paquistão às organizações terroristas”.

A denúncia ao Paquistão faz sentido sim, mas Trump faz questão de associar o fracasso do país no combate ao terrorismo ao fortalecimento das relações entre EUA e Índia, inimiga histórica dos paquistaneses. Mais do que isso, é parte do projeto mais amplo desta administração americana de questionamento das relações internacionais e do sistema de alianças forjado por sucessivos presidentes americanos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Com olhar empresarial, Trump prefere não enxergar quaisquer benefícios neste complexo sistema internacional mantido por todos os presidentes do país até agora e está focado no corte de gastos.

Para Trump, assim como já fez ao apresentar seu olhar sobre a Otan, os EUA arcam com todos os custos, enquanto os aliados apenas “usufruem” do benefício pago pelos contribuintes dos EUA. A insatisfação com o Paquistão está relacionada também a este pensamento fundamental do diretriz atual em Washington. E de forma a deixar isso claro acirrou ainda mais as rivalidades entre Índia e Paquistão.

Aos indianos, apesar das críticas de Trump aos paquistaneses, o presidente também fez cobranças.

“A Índia ganha bilhões de dólares em comércio com os EUA e nós queremos que eles nos ajudem mais no Afeganistão, especialmente nas áreas de assistência econômica e desenvolvimento”.

A Índia já é o principal doador regional no Afeganistão. No caso do relacionamento comercial com os EUA, os americanos importaram, apenas em 2016, 72.8 bilhões de dólares. Trump está vinculando este sucesso indiano – e o acesso ao mercado americano – a uma participação mais assertiva no Afeganistão.

O alijamento do Paquistão mostra a face de gestão empresarial do presidente americano. No Afeganistão e na parte mais nevrálgica do sudeste asiático, Trump age como um chefe que em determinados ambientes corporativos opta por jogar um funcionário contra o outro em busca de produtividade. No entanto, no caso de Índia e Paquistão, os “funcionários” estão em rota de colisão desde a fundação da “empresa”. O aprofundamento desta rivalidade não representa qualquer garantia de sucesso.

22 de Agosto - Terça-feira - 12:25

Talvez um dos grandes vencedores depois do fim da guerra civil síria venha a ser o Irã. Nas frentes diplomáticas, a Rússia está disposta a proteger seus fiadores regionais, e certamente o regime iraniano é um dos principais aliados no projeto de alteração do equilíbrio e do status quo promovido por Moscou no Oriente Médio.

O problema para russos e iranianos é que esta empreitada já enfrenta resistências, como não poderia deixar de ser. Além de Israel, preocupado com a presença do Irã em sua fronteira norte, as monarquias sunitas do Golfo Pérsico se opõem a Teerã – a disputa entre esses países e a república islâmica representa o principal foco desestabilizador regional, a cisão entre sunitas e xiitas e suas muitas projeções geopolíticas por todo o Oriente Médio (assunto recorrente por aqui).

Por tudo isso, a corrida para vencer embates e conquistar aliados em diversas frentes se intensifica a cada dia.

Reportagem do Haaretz informa que agora é o Egito que busca relevância na Síria, atuando inclusive como mediador em negociações de cessar-fogo no país. A presença egípcia na Síria é encarada de forma positiva pelo chamado eixo sunita, composto, além do próprio Egito, por Jordânia e pelas monarquias do Golfo Pérsico.

Este grupo de países pode ser resumido pela sua organização mais formal, o chamado Gulf Cooperation Council (GCC, em inglês) cujos membros são Emirados Árabes Unidos, Barein, Kuwait, Omã, Arábia Saudita e Catar. A situação do Catar é muito específica e o emirado não pode mais ser encarado como parte desta aliança, pelo menos até que o jogo mude novamente.

De maneira muito discreta, a visão pragmática tem colocado do mesmo lado adversários históricos. Tanto Israel quanto as monarquias do Golfo e mais Egito e Jordânia interpretam o projeto de expansão e liderança regional do Irã como sua principal fonte de preocupação em curto prazo. Por isso, minimizar os ganhos que os iranianos têm obtido na Síria é considerado objetivo urgente.

Se inicialmente os países se contrapunham a qualquer solução que mantivesse o ditador Bashar al-Assad na presidência do país, novamente o olhar pragmático tem deixado evidente que isso está distante de acontecer. Com o apoio da Rússia, do Hezbollah, do Irã e agora da Turquia, a tendência é que a solução encontrada por Moscou prevaleça.

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas deu ainda mais força às expectativas de Vladimir Putin. Por mais que a visão internacional do presidente russo seja alvo de protestos por parte dos israelenses, a atuação de Trump até agora não permite concluir que Washington irá conter o projeto mais amplo que seu aliado no Kremlin imaginou para si e seus parceiros regionais.

Desta maneira, as ambições do Irã também parecem bem encaminhadas, a ponto inclusive de, igualmente de maneira pragmática, Teerã se alinhar a Ancara em suas disputas particulares. Irã e Turquia enxergam no nacionalismo curdo ponto concreto de ameaças domésticas. Assim, os dois países já pensam detalhes de ofensivas conjuntas contra a minoria.

Isso deve acontecer nas montanhas de Qandil, exatamente na fronteira entre Irã e Iraque e onde se concentram as atividades do Partido da Vida Livre do Curdistão (PJAK), grupo militar curdo no Irã e associado ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que representa o principal foco de instabilidade ao governo do presidente Recep Tayyip Erdogan na Turquia. No país, os curdos compõem entre 15% a 20% da população. No Irã, entre 11% a 15%.

A complexidade é tamanha que, no projeto de estabilização da Síria, todos esses fatores têm sido considerados. E, como os russos precisam premiar seus aliados, os curdos acabaram por entrar na conta. Na complicação regional, é sempre válido mencionar que são justamente os grupos armados curdos – as Unidades de Proteção do Povo (YPG) – que atuam com apoio dos EUA na linha de frente do combate ao Estado Islâmico.

18 de Agosto - Sexta-feira - 10:30

A situação de escalada dos discursos hostis entre EUA e Coreia do Norte é tão imprecisa que não se sabe nem o que se imagina como vitória na concepção americana. Ou melhor, a derrota sobre o regime norte-coreano de acordo com a premissa de Donald Trump não deve se concretizar. Presidentes americanos têm se sucedido na Casa Branca e, sempre que possível, procuram em algum momento de seus mandatos acabar com o programa nuclear do país asiático. Este é o conceito de vitória ideal, mas não aconteceu até hoje e é improvável que venha a se tornar realidade no futuro próximo.

No entanto, quando a liderança americana é personificada por Donald Trump, é possível imaginar que as divergências entre os dois países se aprofundem. Não apenas por Trump ser um presidente imprevisível e mandar recados a um regime que por definição é imprevisível, mas porque a questão norte-coreana demanda mais do que qualquer outra diretrizes e análises muito claras. Não é o que acontece sob esta presidência americana.

Para ser justo com a atual administração em Washington, confusão, imprecisão, imprevisibilidade e falta de clareza não são características destinadas apenas à crise com a Coreia do Norte, mas, de forma coerente, estão presentes em todas as áreas do governo.

Na situação específica das ameaças da Coreia do Norte a Guam, território americano no Pacífico, há ainda mais motivos para confusão – muitos desses motivos provocados pelo regime de Kim Jong Un. A ideia era lançar mísseis que sobrevoassem o Japão por pouco mais de um segundo e caíssem entre 30 e 40 quilômetros de distância da costa de Guam.

Se a intenção era mandar um recado aos americanos, talvez Kim Jong Un tenha alcançado seus objetivos: alarmar os aliados dos EUA na Ásia (Japão e Coreia do Sul) e reafirmar a indisposição de interromper ou abrir mão de seu programa nuclear. O problema para os norte-coreanos é que eles podem ter decidido apostar alto, principalmente quando os americanos têm um presidente pouco disposto a interpretar mensagens subliminares.

A configuração internacional – especialmente na Ásia e no Oriente Médio – está tão alterada que coube ao governo russo pedir razoabilidade na busca por soluções. Diante da improbabilidade de consenso, a tendência é que os envolvidos baixem o tom e tentem cada um a seu modo encontrar o que se chama de saída honrosa.

Kim Jong Un tem controle da comunicação e da opinião pública. E vai dizer que venceu os adversários ao provocar temor nos americanos. Trump, por sua vez, parece achar seu caminho de saída por meio do Twitter ao dizer que Kim Jong Un “tomou uma decisão muito sábia e fundamentada” ao optar por não lançar os mísseis em direção a Guam. No final, pelo menos até o momento, a disputa entre EUA e Coreia do Norte é um jogo de soma zero. 

15 de Agosto - Terça-feira - 11:15

“Quando um ônibus espacial explode, um estudante entra atirando numa escola, um terrorista joga um avião contra um prédio e um furacão inunda uma cidade – quando este tipo de evento acontece – recai sobre o presidente (a responsabilidade de) expressar algo sobre a alma da nação”. Este é um trecho do texto do Michael Gerson no Washington Post. O parágrafo define bem não o que Donald Trump fez, mas o que deveria ter feito no primeiro momento ao se posicionar sobre a marcha nazista e as mortes que seus manifestantes causaram no estado americano da Virginia.

Por mais que, nesta segunda-feira, o presidente tenha volta atrás ao decidir mostrar revolta e nomear diretamente os movimentos nazistas e de supremacia branca como culpados pela violência, é difícil apagar as marcas da fria reação inicial aos acontecimentos em Charlottesville.

O primeiro posicionamento de Trump sobre os acontecimentos foi tão absurdo porque ressalta o abismo entre o ocupante atual da Casa Branca e a maior parte da população americana. Ao dizer que a violência “veio de muitos lados”, o presidente americano chutou na arquibancada um pênalti sem goleiro. Condenar a violência causada por grupos nazistas dentro do território americano contra população americana certamente seria a tarefa mais simplória e óbvia de todo o seu governo (e ainda faltam três anos para o fim do mandato). Mas o presidente preferiu a cautela (ou covardia) ao optar por não ferir os sentimentos de parte de seu eleitorado.

A situação se tornou mais um constrangimento em Washington; por que proteger os movimentos de supremacia branca se não há identificação ou nada a temer? Se a ideia foi não demonstrar traição a parte do eleitorado de classe média branca trabalhadora, como explicar ao restante do país esta estratégia? Ao não condenar explicitamente a supremacia branca, racista e antissemita, o governo se enrola ao levantar a hipótese de que está em dívida com a chamada ALt-Right (que nada mais é do que, como de costume, um nome novo para o velho preconceito).

A Casa Branca tentou mostrar um distanciamento descabido para a gravidade da situação. Quando um motorista atropela manifestantes contrários ao nazismo, não há dúvidas sobre qual lado deve ser protegido e qual deve ser denunciado. Quando manifestantes marcham com suásticas e agridem opositores, não é apenas grave, mas traição à história americana.

Se Donald Trump tentou proteger aliados já pensando nas eleições de 2020, ele cometeu no mínimo um erro grave de avaliação. Sua administração acabou por criar mais um entre tantos pontos de vulnerabilidade a um governo que a cada dia aprofunda e multiplica suas crises.