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Carta & Crônica
Henry Galsky
25 de Maio - Quinta-feira - 13:30

Comentei sobre o projeto regional iraniano. É importante deixar claro que os Estados nacionais procuram pôr em prática estratégias de reafirmação de interesses próprios no campo internacional. Esta não é uma particularidade do Irã, mas, na medida em que a República Islâmica é um dos principais atores regionais, é relevante entender as particularidades do confronto entre as duas principais potências muçulmanas do Oriente Médio: o próprio Irã e a Arábia Saudita.

Arábia Saudita e Irã controlam, respectivamente, a segunda e a quarta maiores reservas de petróleo do mundo. Tenho o costume de evitar entrar neste assunto por considerá-lo uma armadilha que leva a lugares-comuns quando se trata de Oriente Médio. Mas mencionar esta informação permite compreender o início da aproximação ocidental com ambos os países.

As administrações americanas mantinham relação próxima com Irã e Arábia Saudita até 1979, ano que marca uma virada no jogo regional a partir da Revolução Iraniana que alterou o sistema político do país. No lugar da monarquia autocrática comandada pelo xá Reza Pahlevi, o atual sistema que tem como autoridade máxima o aiatolá Ali Khamenei, oficialmente chamado de líder supremo da revolução islâmica do Irã.

Em 1979, o aiatolá Khomeini iniciou o processo de mudança completa do sistema político que alterou não apenas os costumes e possibilidades de comportamento da sociedade iraniana, mas também as fidelidades internacionais do governo. As potências ocidentais de maneira mais ampla – e os EUA, particularmente – passaram a inimigas da República Islâmica em virtude da sustentação concedida à família real Pahlevi e à monarquia.

A partir deste rompimento, as administrações americanas posteriores se aliaram mais intensamente ao pilar de sustentação que lhes restava, a Arábia Saudita. Esta pequena história que contei explica parcialmente a situação, mas é preciso lembrar também das diferenças étnico-religiosas entre sauditas e iranianos; enquanto os sauditas são árabes, a maioria dos iranianos é persa. Mais além, os dois países são representativos também em suas divergentes fidelidades religiosas.

Enquanto o Irã é o maior país xiita do mundo, a Arábia Saudita é um dos principais atores do chamado eixo sunita. Além disso, os sauditas reivindicam a liderança político-religiosa entre os muçulmanos, em virtude, em parte, de os dois principais locais sagrados e de peregrinação islâmica no mundo estarem em seu território: Meca e Medina (foto).

A rivalidade entre xiitas e sunitas é entrave muito relevante dentro do mundo muçulmano. E as divergências quanto à interpretação religiosa se ampliaram também para a geopolítica. Importante lembrar que os sunitas representam entre 85% e 90% de toda a comunidade muçulmana mundial.

A disputa entre sunitas e xiitas está consolidada na realidade geopolítica do Oriente Médio. É muito difícil que este impasse termine e as distintas visões de mundo de ambas as correntes cheguem a um consenso. Irã e Arábia Saudita estão cada vez mais em rota de colisão, e os acontecimentos, disputas e acordos deste momento refletem em boa medida a situação.

O príncipe Mohammed bin Salman, filho do rei Salman, da Arábia Saudita, deixou claro o que pensa a respeito dos movimentos internacionais do Irã.

“Não vamos esperar até que a batalha ocorra na Arábia Saudita, mas vamos trabalhar para que ela aconteça no Irã”.

Este é o tom da animosidade entre os dois países, que já estão em combates indiretos no que se convencionou chamar de “guerra por procuração”. Iraque, Barein, Iêmen e Síria são palcos da disputa interna entre sunitas e xiitas. Enquanto o Irã trabalha na sustentação de Bashar al-Assad na Síria e apoia milícias xiitas no Iêmen, no Barein e no Líbano, os sauditas estão fechados no eixo sunita apoiado pelos EUA e que teme principalmente o patrocínio iraniano a estes atores xiitas não-estatais, caso do Hezbollah, por exemplo. O eixo xiita é amparado pela Rússia e contava com oposição americana até a posse de Donald Trump.

Nesta recente visita do presidente dos EUA ao Oriente Médio assistimos ao reforço da política externa tradicional americana com amplo apoio aos atores estatais sunitas. Na medida em que isso acontece, é provável que o Irã se distancie ainda mais de qualquer possibilidade de aproximação com os EUA. Resta saber agora como esta injeção de armamentos americanos na Arábia Saudita e a declaração explícita de antítese ao regime iraniano irão influenciar esta oposição estabelecida entre sunitas e xiitas no Oriente Médio.

23 de Maio - Terça-feira - 13:40

Em sua primeira viagem internacional como presidente, Donald Trump não deu qualquer margem de dúvidas para interpretações sobre sua visão de política internacional. De maneira bastante direta, ele elegeu um lado: os países sunitas, especialmente as monarquias do Golfo Pérsico. A ideia não era apenas retomar a velha política externa americana, mas deixar muito evidente o fim da Era Obama nas relações internacionais dos EUA.

A visão de do ex-presidente americano Barack Obama e do ex-secretário de Estado John Kerry privilegiava a retomada de relações de longo prazo e investimento pesado dos organismos multilaterais. Foram esses os pilares que justificaram o acordo sobre o programa nuclear iraniano assinado em 2015. Trump se mostrou contrário ao acordo quando ainda não era candidato. Sua rivalidade histórica com a família Obama alimenta em boa medida a estratégia internacional do governo. Sem muita sofisticação, Trump imagina-se como um “demolidor”. Se Obama fez, ele irá desfazer.

É claro que não se trata apenas disso, mas o histórico de oposição entre o presidente e o ex-presidente contribui decisivamente para as resoluções atuais.

Trump também quer provar que Obama estava errado, tendo inclusive obtido pouco resultado no Oriente Médio, o palco mais importante das Relações Internacionais. Depois de dois mandatos, Obama conquistou a reabilitação parcial do Irã, mas não conseguiu qualquer progresso nas negociações de paz entre israelenses e palestinos e teve poucos ganhos na luta contra o Estado Islâmico (EI). Trump quer ir além, muito além.

Em sua primeira viagem internacional, simbolicamente fez o primeiro voo direto entre Riad, na Arábia saudita, e Tel Aviv, em Israel. Por mais que as negociações entre israelenses e palestinos ainda estejam emperradas, o presidente americano e o primeiro-ministro de Israel costuram um acordo amplo entre o Estado judeu e os países árabes sunitas do Golfo Pérsico. Este acordo não resolve a questão entre israelenses e palestinos, mas contribui decisivamente na construção de um novo Oriente Médio.

No centro deste acordo estão alguns pontos comuns; entre Trump e Benjamin Netanyahu, a rejeição a Barack Obama; entre Israel e os países árabes do Golfo, o grande interesse na contenção do projeto regional iraniano. Todos esses elementos convergem para a concretização deste pacto. Isso sem falar nas ambições pessoais do primeiro-ministro israelense.

Político que ocupa o cargo durante mais tempo na história de Israel, Netanyahu quer chancelar seus anos como mandatário do país com um acordo amplo com os árabes capaz de elevá-lo ao patamar de grande estadista. Quer ser lembrado como um dirigente firme e pragmático, da mesma maneira como Menachem Begin, primeiro-ministro de Israel que assinou o acordo de paz com o Egito em março de 1979.

Ao mesmo tempo, Trump e Netanyahu continuarão a expor Barack Obama, uma liderança mais progressista que emergiu como fenômeno internacional, mas que teve pouca chance de sucesso no Oriente Médio.

Na sequência da viagem de Trump, uma reviravolta na política externa americana. Existe a possibilidade de formação de uma espécie de “Otan” árabe. Apoiada pelos EUA e até mesmo discretamente por Israel, a cooperação poderia servir de base para contenção do Irã e do EI. A assinatura de um acordo comercial prevendo a compra de armamento americano pelos sauditas no valor de 110 bilhões de dólares pode estar diretamente relacionada a este projeto regional.

Esta “Otan” árabe poderia iniciar uma retomada do Oriente Médio pelos americanos em oposição ao eixo xiita liderado pela Rússia. Esta medida seria efetiva no combate ao EI, o que poderia provocar um reconhecimento constrangido por parte das democracias liberais europeias e, ao mesmo tempo, pôr em dúvida a aliança entre o próprio presidente americano e seus correligionários com o governo de Vladimir Putin, uma vez que os EUA reafirmariam sua posição de liderança histórica regional.

19 de Maio - Sexta-feira - 11:39

É o fim de um governo que alcançou o poder com três grandes objetivos: o primeiro deles, conter a Operação Lava Jato e salvar os membros da velha política; realizar as reformas trabalhista e previdenciária que jamais conquistariam a chancela popular em eleições diretas; e interromper o desenvolvimento de um ciclo de política internacional que procurava criar novas articulações e transformar o país em protagonista e líder de um novo eixo de poder global.

A disputa entre Polícia Federal e classe política continua a ser vencida pelos policiais, muito embora a PF seja subordinada ao Ministério da Justiça e, portanto, ao Poder Executivo.

Sempre escrevo por aqui uma velha máxima do sábio Ulysses Guimarães: “o que mete medo em político é o povo na rua”. A rua hoje está em toda a parte, inclusive nos telefones celulares. As velhas oligarquias políticas bastante representadas pelo atual governo de senhores brancos simplesmente falharam porque não conseguem compreender que as velhas táticas de alijamento, exclusão e disfarce não funcionam mais. Este é o grande recado do momento.

Este governo se apoderou dos cargos imaginando ser possível interromper as investigações. E por isso recebeu apoio irrestrito do Congresso mais corrupto da história brasileira. Não foi possível. O senador Romero Jucá – membro da cúpula do PMDB – deixou isso muito claro em seu diálogo com o ex-diretor da Transpetro Sérgio Machado:  “Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel... É botar o Michel, num grande acordo nacional (...), é, delimitava onde está, pronto”.

Funcionou por pouco tempo. E, naturalmente, já em perspectiva, a este governo está destinado o lixo da história do país.  O acordo de Jucá não vingou porque a velha política imaginava que satisfazer a sanha contra Dilma, Lula e o PT seria o bastante para angariar a simpatia da classe média. E, já no poder, frear a Lava Jato seria simples. Mas, neste mundo hiperconectado, ninguém queria ser o portador desta notícia à sociedade. Era preciso interromper as investigações sem se expor. Mas como não se expor hoje? Como não se expor depois de tantas articulações e acordos firmados na calada da noite?

Temer se precipita a caminho da queda vítima do próprio veneno e até de certa inocência (inexplicável a alguém que habilmente derrubou a companheira de chapa). Usou a Lava Jato, grampos e vazamentos seletivos para trair Dilma. Acabou morto pelas próprias armas.

17 de Maio - Quarta-feira - 11:00

Parece cada vez mais evidente o empenho do governo Trump em interromper as investigações sobre as relações entre membros da administração atual e a cúpula governamental russa. Já escrevi bastante sobre o assunto, inclusive a respeito de cada um dos acusados.

Jeff Sessions, o nome escolhido pelo presidente Trump para ocupar o cargo de procurador-geral (e supervisor do trabalho de investigação do FBI), teria discutido assuntos de interesse nacional com o embaixador russo em Washington e mentido ao Congresso quando questionado sobre o assunto. Michael Flynn, ex-conselheiro de Segurança Nacional, foi forçado a se demitir depois que o Washington Post revelou a conversa entre ele e o embaixador russo sobre as sanções aplicadas pelos EUA a Moscou.

Tem sido difícil distanciar a atual administração da Casa Branca das acusações. Agora, o próprio presidente parece implicado de vez depois que novas denúncias dão conta de que ele teria pressionado o agora ex-diretor do FBI James Comey a interromper as investigações sobre Flynn, e por consequência sobre a campanha presidencial do presidente. Comey foi demitido por Trump na semana passada.

A pressão sobre o presidente tende a crescer cada vez mais. A cada revelação, novos indícios de que Donald Trump tem bastante interesse em manter segredo sobre seu relacionamento com a Rússia.

O problema para a Casa Branca é que as informações estão se acumulando e já há quem enxergue o quadro como tentativa de obstrução de Justiça – que pode acarretar na abertura de processo de impeachment.

A incapacidade de gestão do governo já começa a formar uma onda que inclui representantes Democratas e Republicanos. A ideia a partir das novas acusações contra membros do governo pode ser estabelecer um aparato de investigação independente para examinar as teorias em torno do relacionamento com a Rússia. Se isso acontecer, será muito difícil segurar Trump na presidência. Conspiração com um inimigo histórico dos EUA e obstrução de Justiça compõem um cenário difícil de ser revertido.

Ex-membros do setor de inteligência do país já manifestam abertamente desconfiança em relação ao governo atual. Casos do agora demitido James Comey – o principal fornecedor das acusações contra Trump – e de James Clapper, ex-diretor de Inteligência Nacional. Em entrevista à rede de notícias CNN, Clapper declarou que as instituições do país estão sob assalto.

Para completar, o presidente também teria repassado informações sigilosas obtidas pelo serviço de inteligência de Israel ao ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov (foto). Neste momento de redesenho do Oriente Médio – assunto que abordo com frequência por aqui –, repassar informações do serviço secreto de Israel aos russos é não reconhecer a configuração geopolítica regional. E ainda colocar em risco a vida de um agente secreto de um país aliado, uma vez que o espião israelense estaria atuando como infiltrado no Estado Islâmico.

A Rússia é a principal interessada no fortalecimento de sua aliança estratégica no Oriente Médio. Os membros desta aliança são amplamente conhecidos: Bashar al-Assad, ainda presidente da Síria, cada vez mais a Turquia (interessada mais em combater os Curdos na Síria do que o Estado Islâmico), a milícia xiita libanesa Hezbollah (o exército de maior capacidade militar para combater Israel) e o Irã, o ator regional que aposta todas as suas fichas na reconstrução desta aliança regional e na parceria com os russos para pôr em prática seu projeto hegemônico.

Portanto, de maneira pragmática, Trump teria fornecido informações colhidas por membros dos serviços de inteligência de Israel a todos os atores acima. Definitivamente, não é algo banal. Principalmente, no momento em que se pretende mediador da retomada do processo de paz entre israelenses e palestinos e às vésperas de sua primeira viagem internacional – cujo destino é justamente o Oriente Médio.

Mais além, ao vazar informações sigilosas, Trump põe em risco as alianças americanas na obtenção de dados secretos, uma vez que deixa claro que trata este tipo de informação sem o devido cuidado.

No final das contas, o atual governo americano parece especializado na criação de crises e no fornecimento de elementos a seus críticos internos mais empenhados. Se a sociedade americana e seu corpo político entenderem que a situação atual coloca em xeque a posição estratégica, a segurança do país e de forças aliadas, o caminho para o processo de impeachment pode estar se pavimentando.

16 de Maio - Terça-feira - 12:55

Há um quadro que se forma no Oriente Médio capaz de consolidar o eixo de Estados sunitas e inclusive estabelecer relações formais com Israel. A cooperação entre os EUA e esses países sunitas, especialmente as monarquias do Golfo Pérsico, é antiga e vital para a política externa americana no Oriente Médio. E o desenvolvimento dessas relações em face aos muitos e novos desafios regionais caem neste momento como uma luva para as pretensões internacionais de Donald Trump.

Ainda em busca de superar as esparsas conquistas do governo Barack Obama na região – e de expor suas conquistas em contraponto às do antecessor e rival –, o atual presidente americano parte em sua primeira viagem internacional focado em resultados práticos e rápidos. Trump irá participar da chamada Conferência Árabe, Islâmica e Americana na Arábia Saudita e, na sequência, viaja a Israel e aos territórios palestinos.

A ideia é criar efeitos imediatos – mas que não irão resolver todas as questões complexas da disputa entre israelenses e palestinos – entre Israel e os Estados sunitas da região, especialmente os países árabes do Golfo Pérsico. A proposta já menciona o estabelecimento de linhas de telecomunicações entre os países, autorização para que aviões comerciais israelenses possam sobrevoar o espaço aéreo no Golfo e permissão para que empresários de Israel possam fazer negócios com parceiros árabes. A concretização deste projeto pode marcar o início de relações diplomáticas normalizadas entre as partes.

Em troca disso, os árabes pedem que Israel congele a construção de assentamentos na Cisjordânia, relaxem restrições comerciais na Faixa de Gaza e inicie esforços para retomar o estagnado processo de paz com os palestinos.

É uma oferta viável e sedutora. Mais para Donald Trump do que para Benjamin Netanyahu.

Não há dúvidas de que o primeiro-ministro israelense teria grande interesse em formalizar relações com os países árabes. É bom para a economia do país, muito positivo para sua imagem de estadista e reforça a posição de Israel como parte da construção de um novo Oriente Médio. A aliança estratégica entre israelenses e os países sunitas do Golfo Pérsico já existe na prática de maneira silenciosa. Esta aliança pragmaticamente teme a assertividade do Irã e a ambição da República Islâmica xiita de conquistar a hegemonia na região.

A assinatura de um amplo acordo entre Israel e os países árabes do Golfo é uma medida de contenção ao projeto iraniano. As demandas dos países do Golfo são bastante razoáveis e até mesmo produtivas a Israel. Quanto mais os palestinos perceberem que obtêm vantagens práticas a partir do processo político – especialmente quando capitaneado pelos países árabes do Golfo – mais distantes eles estarão do Irã.

O problema disso tudo, no entanto, reside no sistema político israelense. Na medida em que o parlamentarismo reflete a sociedade com fidelidade, a ideia de congelamento das construções israelenses na Cisjordânia será objeto de debate e oposição, mesmo que minoritária. Os cerca de 420 mil judeus que vivem no território estão amplamente representados politicamente na coalizão que mantém o primeiro-ministro Netanyahu no cargo. É pouco provável que esta população enxergue positivamente o acordo com os árabes uma vez que ele afeta o aspecto que lhe é mais sensível. E aí existe a possibilidade real de que essas 420 mil pessoas emperrem o projeto – para azar dos outros oito milhões de israelenses.

Na cola de Netanyahu está o seu ministro da Educação, membro da coalizão e rival político, Naftali Bennet. Grande defensor dos assentamentos dentro do governo de Israel, Bennet mira o cargo de primeiro-ministro. Se Benjamin Netanyahu sinalizar o congelamento das construções israelenses na Cisjordânia, seu rival político irá trabalhar ainda mais pesado para isolar o primeiro-ministro. O governo poderá cair e é possível que novas eleições sejam convocadas.

A situação de Benjamin Netanyahu não é confortável. Seu governo conta com uma coalizão que soma 61 deputados de um total de 120 cadeiras no Knesset, o parlamento israelense. Se os partidos que compõem a sua base entenderem que um acordo amplo com os países árabes não vale a pena – já que existe a demanda pelo congelamento dos assentamentos –, podem se retirar do governo.

E talvez por todo este quadro a presença de Donald Trump na região passa a ser fundamental. Durante o governo Barack Obama, havia impasse flagrante entre a direita israelense e o então presidente americano. Agora, a partir da eleição de Trump, a direita israelense – que é governo – perdeu os argumentos para não cooperar com as iniciativas regionais dos EUA. Houve um total esvaziamento do discurso do próprio Netanyahu em relação à interação com a liderança americana.

De certa maneira, este talvez seja o principal trunfo do próprio primeiro-ministro israelense para se manter no cargo. Se a sua coalizão decidir inviabilizar um projeto de pacificação comandado por um governo em Washington abertamente pró-israelense, que tipo de relação os partidos de direita do cenário político de Israel pretendem construir com os EUA?

Esta é a situação que se apresenta ao primeiro-ministro de Israel. Para Trump, é muito favorável. Se conseguir em apenas uma semana apresentar uma alternativa para movimentar positivamente o conflito árabe-israelense, poderá superar o rival Obama. E é por tudo isso que o presidente americano deve acabar por exercer pressão sobre o aliado israelense no encontro entre os dois líderes em Jerusalém.

12 de Maio - Sexta-feira - 12:05

O resultado eleitoral na França é muito mais surpreendente do que ele aparenta. Emmanuel Macron jamais havia ocupado um cargo político executivo. O seu partido, que se pretende distante das divisões tradicionais entre esquerda e direita, foi fundado no ano passado. Agora, Macron foi eleito presidente e existe a possibilidade de o Em Marcha conquistar metade dos assentos na Assembleia Nacional francesa.

Por mais que a Frente Nacional da família Le Pen tenha alcançado número recorde de votos, a novidade é Macron. O reduto político do nazismo e do antissemitismo já existe desde os anos 1970. Diferente mesmo é assistir aos dois principais partidos franceses serem derrotados por uma legenda criada há um ano e capitaneada por alguém que se define como a superação das amarras e definições entre esquerda e direita.

Macron é um presidente que se pretende diretor de empresa. E quer realizar reformas tão impopulares como essas em curso no Brasil de hoje: flexibilização da legislação trabalhista, sobreposição de acordos firmados diretamente entre patrões e empregados, redução de gastos governamentais etc.

É curioso notar que esta é a agenda conservadora no Brasil. Macron está embalado em novidade, juventude e na vitória sobre partidos tradicionais. Mas propor a revisão de direitos trabalhistas não é intrinsecamente novo como plataforma política.

A grande análise sobre a chancela ao projeto do Em Marcha fica para as eleições legislativas de junho. A vitória sobre Le Pen na disputa presidencial tem mais a ver com o desenho Caverna do Dragão do que com as reformas trabalhistas.

Nos anos 1980, a série mostrava um grupo de jovens que, depois de entrar no brinquedo Caverna do Dragão num parque de diversões, vai parar num mundo encantado. Lá, recebem armas para se defender do grande vilão local, o Vingador.

A eleição presidencial francesa é análoga a esta situação, especialmente Eric, o personagem que ganha uma arma pragmática, um escudo mágico. Na eleição presidencial francesa, Eric era a própria sociedade; Macron, seu escudo; Le Pen e a Frente Nacional eram, bem, o Vingador.

O debate começa agora e pode resultar em três caminhos: Macron obtém maioria absoluta na Assembleia Nacional e inicia suas reformas com a chancela da sociedade; Macron é derrotado amplamente por outro partido e passa a dividir poder num sistema que os franceses chamam de “coabitação”. A terceira opção é o Em Marcha não obter maioria e iniciar um processo de coalizão governamental com outros partidos.

O problema disso tudo tem a ver com a intenção do eleitorado. Se a ideia era implodir o sistema político aplicando essa derrota aos partidos tradicionais, o projeto está concluído e bem-sucedido. A questão é que esta vitória de Macron implica na aprovação das mudanças trabalhistas. Um não existe sem o outro. A chance de equilibrar os dois é evitar que o Em Marcha obtenha vitória esmagadora na Assembleia Nacional.

08 de Maio - Segunda-feira - 13:55

Benoit Hamon, candidato socialista derrotado, resumiu com perfeição o voto no agora presidente eleito, Emmanuel Macron: a distinção entre adversário político e inimigo da República. Para a maioria do eleitorado francês que elegeu o jovem presidente, Le Pen era a inimiga da República a ser batida. E aí a situação está temporariamente resolvida, mas não pacificada.

Este é o retrato do momento: o alto índice de desemprego entre os jovens (cerca de 25%) é um dos muitos desafios do novo presidente. A França e o restante da Europa atravessam uma época de reexame da própria identidade e de suas aspirações nacionais ao mesmo tempo em que se deparam com o lugar-comum da frustração dos cidadãos pela incapacidade da União Europeia em prover prosperidade generalizada. A derrota da extrema direita pode ser momentânea. Não me parece que o movimento esteja silenciado, muito pelo contrário.

Marine Le Pen esticou demais a corda no debate com Macron. Ela imaginou – e agora se sabe que equivocadamente – que o sucesso no primeiro turno representava a chancela a todo o escopo ideológico da Frente Nacional. Errou na estratégia e, por isso, ao admitir a derrota para Macron, disse estar disposta a reconstruir o partido.

O voto em Macron foi pragmático, como bem definiu Benoit Hamon. Nos próximos dias 11 e 18 de junho, as eleições legislativas irão determinar o quadro político real. São 577 cadeiras da Assembleia Nacional em disputa. Pesquisa da OpinionWay-SLPV apontava que o Em Marcha, partido criado pelo presidente Macron em abril de 2016, poderia conquistar até 286 assentos, praticamente a metade das vagas.

Se isso acontecer, Macron negociará em posição favorável as medidas que quer aprovar. E, se seguir adiante com os projetos da chamada Terceira Via, poderá criar um impasse social, uma vez que uma das ambições do novo presidente é reformar a legislação trabalhista, aumentando a jornada de trabalho de 35 para 39 horas semanais e – o ponto que deve causar mais discussões e embates nas ruas – enfraquecer os sindicatos. A proposta é muito similar às medidas em trâmite no Congresso brasileiro, por sinal, estipulando que as negociações trabalhistas entre empresas e trabalhadores irão se sobrepor a discussões entre Estado e sindicatos.

Tais medidas devem causar um tremendo impasse e uma grande polarização política na sociedade francesa. Inclusive, curiosamente neste caso, podendo aglutinar a Frente Nacional de Marine Le Pen e os partidos de esquerda, todos eles contrários às propostas de reformas trabalhistas de Macron.

Neste aspecto, o presidente francês se apresenta como novidade ao se colocar acima do espectro político, distanciando-se das definições entre esquerda e direita. Tudo isso pode significar que, nos próximos quatro anos, a França irá passar por um processo de completa revisão política. Se a sociedade francesa se decepcionar com Macron e a disputa em torno da reforma trabalhista de fato se transformar no foco principal de polarização, as extremas esquerda e direita podem encontrar novos caminhos de crescimento já de olho nas eleições de 2022.

04 de Maio - Quinta-feira - 13:40

E Trump está de volta ao Oriente Médio. E a parceria com a Rússia retorna aos trilhos. As duas notícias estão relacionadas. Ao receber o presidente palestino na Casa Branca, o presidente americano fez questão de tornar banal a possibilidade de um acordo de paz entre israelenses e palestino. Não porque ele julgue o assunto desimportante, mas porque acredita que agora – sob sua intermediação – será fácil alcançá-lo.

Pois é. Após o encontro com Mahmoud Abbas (foto), Trump deixou evidente o que (e como) pensa sobre o impasse entre israelenses e palestinos. “Nós vamos fazer isso”, disse sobre a possibilidade de acordo.

O secretário de imprensa do presidente americano, Sean Spicer, resumiu o olhar do patrão: “o estilo deste presidente é o de desenvolver um vínculo pessoal com os indivíduos”. Portanto, Trump imagina que todos os governos americanos falharam porque não se empenharam o bastante nem conseguiram desenvolver vínculo pessoal suficiente. Simples assim.

Por ora, não é possível considerar este pensamento parte de uma estratégia clara, até porque, ao mesmo tempo em que sinaliza proximidade com as lideranças locais (muito embora Mahmoud Abbas esteja em baixa), o presidente americano também mandou um recado de distanciamento: “Farei o que for necessário para facilitar um acordo (...), mas eu seria um mediador, árbitro ou facilitador”.

Trump não apenas se enxerga como um homem de negócios que ocupa o cargo político mais importante do mundo, mas volta a aplicar o raciocínio dos carvoeiros do Tennessee: questões internacionais não são prioridade. E mesmo a maior das prioridades dos governos americanos anteriores devem ser tratadas com algum distanciamento. Talvez como parte de sua prática de negociação.

E aí retomamos a questão das relações com os russos. Após o pontual ataque à Síria, muita gente imaginou que o episódio poderia marcar um rompimento definitivo entre as administrações atuais de Washington e Moscou. Desde o primeiro momento, desconfiei desta possibilidade. Agora, Trump e Putin voltaram a se falar por telefone. E os ânimos estão mais calmos. Existe inclusive a possibilidade de um encontro pessoal durante o encontro do G-20, na Alemanha, nos dias 7 e 8 de julho.

O fato é que o presidente americano já mandou um representante para Astana, capital do Cazaquistão, onde a Rússia promove negociações de cessar-fogo na Síria. Os grandes atores deste encontro, além da Rússia, são Turquia e Irã. O Irã já estava intimamente envolvido no empreendimento de redesenhar o Oriente Médio promovido por Vladimir Putin. A Turquia, cada vez mais propriedade de Recep Tayyip Erdogan, está se juntando ao clube. Um representante americano na conferência – cuja presença pode ser interpretada como uma chancela a este novo momento do Oriente Médio – é um fato novo muito relevante.

E tudo isso poderia soar ainda mais estranho, já que é sempre importante lembrar que o FBI e o Congresso americano continuam a promover investigações sobre as relações entre a alta cúpula da campanha e do governo Trump e membros do governo russo.

Não acredito que essas questões estejam dissociadas. Após o telefonema entre os presidentes americano e russo, Vladimir Putin disse ter obtido o apoio de Trump ao estabelecimento de zonas de segurança na Síria que inclusive interromperiam os bombardeios da própria Rússia. Se essas medidas forem de fato implementadas e alguma acomodação (e o fim, mesmo que provisório, da violência na Síria) for obtida, quem poderia questionar a produtividade e até a necessidade da parceria entre EUA e Rússia? Esses resultados práticos poderiam até constranger os críticos do governo Trump e das relações mal explicadas com os russos.

Para completar, a ideia de Putin é que essas zonas de segurança sejam patrulhadas no solo por forças militares de Rússia, Turquia e Irã. Possivelmente com aval dos EUA. O conceito de um novo Oriente Médio sobre o qual trato com frequência por aqui caminha a passos largos para se tornar fato.

E aí cabe uma análise rápida sobre esta grande reorganização regional, caso ela aconteça realmente: a Rússia passaria a contar com a chancela oficial americana, enfraquecendo as sanções ocidentais em função da invasão à Crimeia e se estabelecendo como o mais importante ator no Oriente Médio.

Trump poderia ser alvo de críticas domésticas, mas poderia vender a situação como parte da solução para o fim da violência na Síria e ao mesmo tempo silenciaria os críticos de suas relações com Moscou apresentado resultados práticos. Além de tudo, mostraria ao próprio eleitorado que, ao contrário de Barack Obama, sua visão pragmática e a aproximação com os russos foram capazes de interromper a guerra na Síria sem arriscar a vida de soldados americanos e o orçamento do país. America First.

02 de Maio - Terça-feira - 10:30

No próximo domingo, a França escolherá seu novo presidente. Enquanto Emmanuel Macron representa a chamada terceira via – movimento sobre o qual escrevi no texto de análise do resultado do primeiro turno –, a expectativa é de que sua adversária, Marine Le Pen, alcance, mesmo que derrotada, um recorde de votos para o partido de extrema direita Frente Nacional.

Apesar da possibilidade de 40% dos eleitores optarem pela candidatura Le Pen, a Frente Nacional também deve encarar alguns desafios importantes no dia seguinte da votação. E esses desafios podem ser reproduzidos a todos os partidos de extrema direita que passaram a assumir lugar de destaque nos principais palcos políticos mundiais nesta segunda década de século 21.

A Frente Nacional foi fundada por Jean-Marie Le Pen (pai de Marine na foto ao lado da filha) nos anos 1970. A legenda fazia muito barulho com suas bandeiras tradicionais: basicamente fascismo e antissemitismo (em todas as suas variações e teorias conspiratórias). Com plataforma simplória, obtinha resultados eleitorais limitados e parecia caminhar sem causar graves riscos à democracia francesa até que, em 2002, Jean-Marie chegou ao segundo turno das eleições presidenciais, alcançando 4,8 milhões de votos e conquistando 16,9% do eleitorado.

Este parecia o limite da FN, até que Marine compreendeu que, para chegar a algum lugar, era preciso suavizar o discurso. O antissemitismo e o fascismo continuam a ser parte do DNA do partido, mas a candidata entendeu que, para conquistar eleitorado maior, era melhor fugir desses assuntos. E é isso o que vem fazendo. Ao ultrapassar a barreira dos cinco milhões de votos, prova que estava certa. Marine surfou na onda dos acontecimentos internacionais e nacionais: terrorismo, imigração, radicalismo islâmico, identidade nacional francesa. Deu as mãos aos pares do movimento nos EUA, Grã-Bretanha, Holanda, Hungria. A extrema direita europeia rejeita a integração do continente, mas seus representantes buscam legitimidade uns nos outros (a política é o lugar da incoerência mesmo).

Marine Le Pen teve de se reinventar com distância segura do pai e estabelecer um acordo tácito com seus eleitores tradicionais: o pragmatismo oferece mais oportunidades de vitória na política tradicional. O radicalismo ideológico costuma enfrentar dificuldades de aceitação e tende a não produzir resultados práticos. Pelo menos não nas democracias. Ou melhor, se a ideia é jogar o jogo e vencê-lo, é preciso passar um verniz mais aceitável, mesmo que seja apenas um disfarce temporário. Mas a verdade é que a Frente Nacional, a extrema direita mundial e a família Le Pen jamais estiveram tão próximas da vitória. O desafio é o que vem a seguir.

Depois da vitória ou da derrota, transformação

Este é um momento único e novo para candidatos da extrema direita. Nunca foi tão aceitável votar em representantes dos diversos partidos espalhados por Europa e EUA. Pode ser uma tendência internacional hoje, mas não se sabe ao certo quanto tempo ela irá durar e se este é um movimento de longo prazo ou se retrata apenas o descontentamento com a política e com desafios não respondidos pelos políticos tradicionais neste século.

A má notícia para candidatos a cargos executivos vitoriosos da extrema direita é que, ao assumir o papel de governo, a democracia exige flexibilidade, capacidade de negociação e diálogo com a oposição.

Boa parte do eleitorado que votou pela primeira vez na extrema direita se encaixa na categoria de insatisfeitos com a política tradicional. Portanto, talvez a extrema direita tenha um tiro único, já que não se sabe ao certo o que esses insatisfeitos exigem: a refundação da política, a criação de empregos, a construção de muros ou a reconstrução nacional completa (em todas as suas variáveis). É muito provável que no futuro próximo cidadãos insatisfeitos com o sistema se decepcionem com eventuais candidatos de extrema direita que venham a ser eleitos.

E a razão disso está no cerne da própria política: quanto mais extremo é o discurso, mais os eleitores creem em pacotes de promessas incompatíveis com o jogo político; em democracias consolidadas, nenhum candidato consegue refundar países e tomar medidas extremas sem enfrentar negociações duras e medidas de controle criadas para proteger a própria democracia.

E a partir disso tudo temos o dilema da extrema direita que se pretende governo em democracias consolidadas: caso flexibilize alguns de seus mantras ideológicos, esses movimentos conseguirão manter sua base eleitoral satisfeita? Se não flexibilizarem, serão capazes de governar e pôr em prática suas promessas históricas?

Retornando ao caso francês, tudo isso explica a decisão de Marine Le Pen de se afastar do discurso do pai. O grande desafio da Frente Nacional e da dinastia Le Pen não está em encarar mais uma de tantas derrotas, mas de encarar as múltiplas complexidades em caso de vitória. Para o movimento criado nos anos 1970 por Jean-Marie, é melhor continuar a perder nas urnas.

25 de Abril - Terça-feira - 09:55

As eleições francesas são fundamentais nesta grande disputa internacional pelo modo de se fazer política e pelas ambições domésticas de cada país. A chamada Aliança Atlântica jamais enfrentou um risco de dissolução tão iminente. Este e outros elementos estão em jogo durante o pleito francês. De um lado, a centralidade da União Europeia (UE) e da Otan; de outro, a ascensão da extrema-direita e seu potencial de romper com a ordem estabelecida no pós-guerra.

Se algo já está claro depois do primeiro turno é que os franceses também embarcaram na tendência mundial de contestação política. Pela primeira vez desde a criação da Quinta República francesa em 1958, os partidos tradicionais de esquerda e direita ficaram de fora da disputa. Isso está longe de ser um fenômeno isolado francês, mas parte desta virada de jogo recente. Nos EUA, as duas figuras polarizadoras do cenário na última campanha presidencial foram Donald Trump e Bernie Sanders. Da mesma maneira, a França teve Marine Le Pen – que obteve quase oito milhões de votos – e Jean-Luc Mélenchon, candidato derrotado, mas que surgiu como fenômeno da esquerda e terminou em quarto lugar com 19,16% dos votos.

A Frente Nacional, de Le Pen, e a França Insubmissa, de Mélenchon, são dois lados da mesma moeda; a contestação da política tradicional, tendência que tem varrido a Europa e os EUA e que, na esteira da Lava-Jato, também deve encontrar espaço nas eleições brasileiras do ano que vem. É importante traçar este paralelo entre ambientes muito diversos, mas que apresentam denominadores comuns. Num mundo cada vez menos isolado, é impossível desconsiderar influências e retroalimentações. Isso sempre aconteceu, mas agora ocorre com mais rapidez e intensidade.

Nas eleições francesas, o segundo turno apresenta o confronto direto entre ideias distintas. Emmanuel Macron, o favorito a vencer a disputa, não é exatamente um representante da velha política nem um símbolo de ruptura. Foi membro do Partido Socialista entre 2006 e 2009. Entre 2009 e 2016, foi independente. E, em 2016, fundou o Em Marcha!, legenda que carrega suas iniciais e se propõe a criar um modelo político novo – inclusive desassociado à divisão tradicional entre esquerda e direita. Apresenta-se como uma terceira via mais técnica e pragmática e menos ideológica.

Este tipo de discurso não é exatamente novo. E meados dos anos 1990, o acadêmico britânico Anthony Giddens alimentou com o seu livro Para Além da Esquerda e da Direita movimentos de contestação à política tradicional. A chamada “terceira via” encontrou representantes importantes em todo o mundo, como Tony Blair, na Grã-Bretanha, Gerhard Schröeder, na Alemanha, Bill Clinton, nos EUA, e até Fernando Henrique Cardoso, no Brasil.

O que une todos os espectros políticos na França à candidatura de Macron é justamente Le Pen, representante da extrema-direita e deste movimento internacional que ganha força a cada conquista na política tradicional. A contradição é realmente um aspecto importante desta união de forças tão distintas; Donald Trump, nos EUA, Le Pen, na França, Nigel Farage, na Grã-Bretanha e Geert Wilders, na Holanda, apoiam-se mutuamente e tem como propósito reforçar políticas domésticas e de cunho nacionalista, encerrando a ordem política do pós-guerra.

A cada nova eleição, fica evidente que a política tradicional está encerrando seu ciclo de protagonismo. O momento de contestação é um fato inegável. Resta saber, no entanto, exatamente o que irá substituí-la. A disputa francesa é símbolo de mais este confronto; de um lado, a nova ordem de extrema-direita que pretende resolver crises a partir do encerramento em torno de um ideal de retorno a uma pureza nacional imaginada; de outro, o reforço do multilateralismo e da crença nas democracias liberais. Mais uma vez, é isso que está em jogo. Se a França cair – o que não deve ocorrer, segundo as pesquisas – a Alemanha será o último bastião da Europa forjada no pós-guerra.