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Carta & Crônica
Henry Galsky
19 de Fevereiro - Segunda-feira - 13:58

Legenda da foto: primeiro-ministro de Israel apresenta parte do suposto drone iraniano durante coneferência de segurança em Munique, na Alemanha

 Em setembro de 2017, escrevi num texto sobre o agravamento das tensões regionais no Oriente Médio a partir do processo de encerramento da Guerra Civil Síria. Diante da vitória do eixo xiita, todos os demais atores regionais buscavam acomodação pragmática. Esta conclusão é especialmente válida em relação ao olhar de Israel e Jordânia sobre a situação em território sírio. Já no segundo semestre do ano passado, israelenses e jordanianos procuravam obter garantias de russos e americanos sobre como seria definida a presença de tropas estrangeiras que conseguiram sustentar o presidente Bashar al-Assad no cargo e reivindicavam naquele momento a premiação pelo esforço militar. O ponto fundamental para israelenses e jordanianos – mais para os israelenses – sempre esteve voltado para os detalhes em torno da permanência do Irã e das milícias xiitas na Síria.

Esta lembrança sobre o que escrevi em setembro de 2017 é fundamental para a compreensão dos acontecimentos que se iniciaram na semana passada quando um drone iraniano – um veículo aéreo não-tripulado – invadiu o espaço aéreo de Israel. Na sequência, um conflito curto, mas de grandes proporções: a destruição do drone por um helicóptero militar de Israel, a punição israelense atingindo não apenas a base móvel iraniana de onde o drone foi lançado em Palmira, na Síria, mas também realizando o maior ataque aéreo sobre as forças militares sírias desde a Primeira Guerra do Líbano, em 1982, além de alvos militares iranianos baseados na Síria.

O desdobramento do confronto resultou no abatimento de um caça israelense pelos sírios – a primeira aeronave israelense perdida desde a Segunda Guerra do Líbano, em 2006 –, causando uma enorme onda de comemorações infundadas pelo governo de Bashar al-Assad (faço esta ressalva simplesmente em função de um dado estatístico. Houve mais de cem ataques israelenses a comboios iranianos em passagem pelo território sírio com destino ao Hezbollah, no Líbano. A perda de uma aeronave é, portanto, percentualmente irrelevante). De qualquer maneira, a sucessão de eventos – invasão do drone, resposta e novos ataques aéreos – marca não somente uma escalada incomum, mas também inaugura a era de embates militares diretos entre Irã e Israel, dois inimigos regionais cujos propósitos são incongruentes e se anulam mutuamente. Voltarei a este ponto adiante.

A questão que se apresenta por ora envolve algumas dúvidas: o que o drone iraniano fazia no território israelense? Era uma missão de reconhecimento, uma provocação vazia visando justamente ao episódio de confronto ou a ideia era deixar claro que estamos diante de uma nova fase do conflito? É pouco provável que o moderno drone iraniano tenha servido apenas como isca para Israel. Se este fosse o propósito, os iranianos enviariam um modelo ultrapassado, não o Shahed 171, veículo que especialistas em armamento creem se tratar de uma cópia do drone de espionagem americano RQ-170 Sentinel capturado pelos iranianos em dezembro de 2011.

O fato é que o episódio de confronto foi contido, mas seu entorno aponta alguns sinais importantes: o primeiro deles diz respeito aos russos. O embate foi encerrado por ora a partir de um telefonema do presidente russo, Vladimir Putin, ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Supostamente, Putin teria compreendido as razões de Netanyahu para contra-atacar, mas também teria pedido que o líder israelense se empenhasse em impedir que tropas e infraestrutura russa fossem atingidas pela retaliação.

Outro aspecto importante – além da obviedade de que é Putin e não Trump quem dá as cartas neste novo Oriente Médio, como sempre repito por aqui – é que publicamente a declaração oficial emitida por Moscou condenava tão somente a “intervenção israelense na Síria”. Ou seja, não houve uma única menção à presença do drone iraniano sobre o espaço aéreo de Israel. Neste novo Oriente Médio, a Rússia não faz a menor questão de esconder suas fidelidades.

O contra-ataque israelense foi forte. O que muita gente chama de desproporcional. A intenção parece realmente ter sido essa. Diante deste novo cenário regional, a ideia em Jerusalém era deixar claro a sírios, iranianos e russos que a resposta de Israel sempre será muito superior aos ataques que vier a sofrer. Os israelenses não apenas realizaram o maior ataque ao território sírio em 36 anos, mas também destruíram cerca de metade das defesas aéreas de Bashar al-Assad.  O propósito de Jerusalém parece ser o de criar – ou de deixar ainda mais evidente – seu grande poder de dissuasão.

Em agosto de 2017, americanos e russos concordaram com o estabelecimento de “zonas de segurança” nas fronteiras entre Síria e Israel e também entre Síria e Jordânia. Rússia e EUA chegaram a um formato que consideravam ideal em que “forças armadas de elementos estrangeiros” seriam impedidas de entrar nessas regiões cuja extensão seria de 20 quilômetros. Por “forças armadas de elementos estrangeiros” entenda-se o Irã, claro. Na ocasião, Israel considerou o texto frágil e pediu mais garantias, mais distância de suas fronteiras. O episódio do drone parece deixar evidente que o compromisso assumido em 2017 não alcançou seus objetivos iniciais.

Por alguma razão, os iranianos estão se sentindo confiantes o bastante para mudar o formato de disputa. No lugar da tradicional “guerra por procuração” – quando se valiam da aliança com a milícia xiita libanesa Hezbollah para entrar em atrito com Israel –, mudaram o patamar, evidenciando a disponibilidade de confrontar os israelenses diretamente. Pode ser um teste de Teerã sobre as respostas que Israel está disposto a dar, pode ser realmente um momento de confiança, mas pode ser também um sinal de desespero diante dos acontecimentos domésticos.

No momento atual, em que a população iraniana contesta diretamente o regime nas ruas apesar (e por causa de) todo o aparato de repressão, criar um atrito com o inimigo mais óbvio pode ser um modo de buscar uma causa nacional para unificar o país. Quem ousaria internamente questionar o aiatolá Ali Khamenei durante um confronto com Israel? O problema para a República Islâmica é que esta iniciativa pode custar um preço alto.

Aplicando um olhar pragmático, nem israelenses, nem iranianos estariam interessados numa guerra aberta. Ambos teriam muito a perder, seja qual fosse o “vencedor” deste eventual conflito. Mas é sempre importante lembrar que o regime iraniano existe e depende de fatores ideológicos, não pragmáticos. Num ambiente muito ideologizado – e que flerta permanentemente com o messianismo, como expliquei em outro texto, leia aqui – a percepção de que a areia está por escorrer pelas mãos (com a pressão popular sobre o regime) pode ser um catalisador no processo de tomada de decisões. E uma guerra contra Israel é o caminho mais óbvio, não o mais fácil, claro.

Para encerrar, sempre é válido lembrar como Irã e Israel percebem os acontecimentos regionais e quais seus objetivos mais amplos. O Irã pretende e está caminhando com sucesso para a formação de um arco levando influência, armamento e sua própria presença militar numa extensão territorial contínua entre seu território e o Líbano. A presença iraniana nas fronteiras de Israel é parte deste projeto e já foi alcançada no sul do Líbano, graças ao Hezbollah, em Gaza, a partir da parceria, financiamento e exportação de armamento ao Hamas, e, por fim, no lado sírio das colinas de Golan.

O projeto israelense é aumentar a segurança de suas fronteiras, para isso os acordos de paz com Egito e Jordânia são fundamentais, da mesma forma que, naturalmente, a interrupção dos objetivos iranianos. Não foi possível fazê-lo no sul, em Gaza, e tampouco foi possível ter sucesso no norte, em função da presença do Hezbollah no sul do Líbano. E aí há os impactos regionais inclusive no processo de paz estagnado com os palestinos.

Em 2000, Israel deixou o sul do Líbano, onde, por 22 anos, controlou cerca de 18km de extensão territorial. Depois de sair do território, o Hezbollah ganhou força, apropriou-se da região e transformou-a em base de ataques principalmente ao norte de Israel. Em Gaza, depois de 38 anos, os israelenses também saíram, também dando ao Hamas a oportunidade de transformar a região em base de lançamento de mísseis. Por isso, é improvável que Israel deixe o Golan ou aceite que os iranianos obtenham as mesmas vantagens estratégicas de Hezbollah e Hamas. Este é o cenário atual. E, com o posicionamento reduzido dos americanos no jogo do Oriente Médio, os israelenses entenderam que ou dependem da boa vontade dos russos na contenção de seus aliados do eixo xiita ou será preciso agir de forma unilateral.

15 de Fevereiro - Quinta-feira - 12:05

Já escrevi extensamente sobre as acusações que pesam sobre o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Um novo capítulo sobre a relação do líder israelense com empresários –  a quem classifica apenas como amigos de longa data – ganhou força nesta semana, a partir da recomendação policial de indiciamento por suborno e quebra de confiança. Agora, a avaliação sobre o inquérito ficará a cargo do advogado-geral do país, Avichai Mandelblit, que decidirá se indiciará ou não o primeiro-ministro. Mandelblit foi indicado para o posto jurídico mais alto de Israel justamente por Netanyahu.

O inquérito é confuso e há muitas intepretações sobre os fatos. A acusação indica que Netanyahu teria recebido presentes do produtor de Hollywood Arnon Milchan, que também é cidadão israelense, e do empresário australiano James Packer. A família Netanyahu teria ganho joias, champanhe e charutos cujo valor total é estimado em cerca de 280 mil dólares.

O primeiro-ministro não nega o benefício, mas argumenta que mantém relação de amizade antiga com Milchan e Packer. A acusação argumenta que os presentes se deram como parte de suborno em troca da interferência pessoal do líder israelense em assuntos de interesse dos amigos. E aí é que a situação de Netanyahu começa a se complicar. Durante o julgamento, a acusação deverá mostrar que a logística em torno do envio desses presentes envolvia a articulação burocrática de funcionários do primeiro-ministro, como assistentes, motoristas e secretários, descaracterizando, portanto, os argumentos principais da defesa quanto a agrados mútuos e desinteressados em âmbito particular de amizade.

Arnon Milchan estaria bastante empenhado em pedir a ajuda de Netanyahu na aprovação de uma lei que daria ao produtor – na condição de cidadão israelense que retorna ao país – isenção fiscal de centenas de milhões de shekels. Neste ponto, há um conflito de interesse, mas também a exposição política do primeiro-ministro.

Ex-ministro das Finanças e líder do partido de oposição Yesh Atid, Yair Lapid é testemunha de acusação. Lapid, que pretende substituir Bibi no cargo, deverá argumentar que impediu a aprovação da lei em nome do interesse nacional. Lembrando que, num sistema parlamentarista, como é o caso de Israel, as alianças e fidelidades mudam na velocidade das possibilidades existentes no horizonte político.

Lapid surgiu como um fenômeno político. Seu partido foi o segundo mais votado nas eleições de janeiro de 2013 e, em março daquele ano, o Yesh Atid aderiu à coalizão do Likud, a legenda de Netanyahu. Dois anos mais tarde, o quadro mudou e Yair Lapid foi para a oposição, tornando a legenda que fundou a principal rival do Likud. Yair Lapid é, portanto, parte muito interessada no indiciamento do primeiro-ministro.

Por ora, Netanyahu não é obrigado a renunciar. Deverá fazê-lo se for condenado pela investigação conduzida pelo advogado-geral, mas somente após o veredicto da Suprema Corte, o que significa também que o primeiro-ministro terá direito a recurso.

O processo deverá levar meses, e Bibi deve permanecer no cargo para, em setembro deste ano, superar David Ben Gurion como o primeiro-ministro a permanecer por mais tempo a liderar o Estado judeu, justamente no ano em que o país comemora 70 anos desde sua independência.

09 de Fevereiro - Sexta-feira - 12:00

Washington Post e New York Times publicaram informações quanto à cooperação entre Israel e Egito. A aliança pragmática e muitas vezes fria entre os dois países mudou de vez. E, de acordo com as publicações americanas, israelenses e egípcios mantêm intercâmbio intenso. A grande novidade seria o auxílio que as Forças de Defesa de Israel (IDF) estariam prestando aos vizinhos na Península do Sinai, onde teriam realizado mais de cem ataques contra terroristas do Estado Islâmico (EI) com a autorização do presidente do Egito, o general Abdel Fatah al-Sisi.

A ofensiva israelense em território egípcio tem como objetivo impedir que os terroristas do EI conquistem o território e transformem-no em base de atuação permanente que poderia servir também como plataforma para lançamento de mísseis e operações contra o Estado judeu. Ao contrário da curva de derrota do grupo na Síria e no Iraque, a situação é distinta na Península do Sinai. Em novembro passado, os terroristas realizaram um ataque contra uma mesquita sufi, matando 311 pessoas. Dois anos antes, em 2015, foi o mesmo grupo estabelecido no Sinai que derrubou um avião comercial russo, causando a morte dos 264 passageiros a bordo.

A cooperação entre israelenses e egípcios é tão intensa que Jerusalém autorizou inclusive a quebra de uma cláusula dos Acordos de Camp David assinados em 1978 e que estabeleceram reconhecimento mútuo entre os dois países. Os acordos previam que a Península do Sinai deveria ser uma zona desmilitarizada. Mas Israel tem permitido aos egípcios alocar tropas nesta região de forma a intensificar o combate ao EI local.

De qualquer maneira, o relacionamento de confiança entre Egito e Israel aponta para uma importante mudança no cenário regional. Hoje, não apenas o Egito e a Jordânia – que já assinaram acordos de paz com os israelenses – mantêm cooperação com Jerusalém, mas há sinais cada vez mais claros, embora ainda não admitidos abertamente, de aproximação entre o Estado judeu e países árabes, especificamente as monarquias do Golfo Pérsico.

No centro desta novidade estão as alterações regionais em curso ao longo deste século 21. A disputa entre israelenses e palestinos ainda representa um aspecto fundamental no imaginário da população árabe e muçulmana. No entanto, os governos árabes – e vale sempre reforçar, as lideranças das monarquias sunitas do Golfo Pérsico – têm mostrado interesse em se aproximar de Israel de maneira pragmática.

A ascensão do Irã, do islamismo político, dos atores não árabes do Oriente Médio e do terrorismo sunita (casos de al-Qaeda e EI) estão na base desta mudança. O aprofundamento das rivalidades entre sunitas e xiitas, as intenções de virada do jogo promovidas pelo eixo xiita (que hoje conta com Irã, Turquia, Rússia, Hezbollah, Hamas e flerta com o Qatar) passaram a representar, de maneiras distintas, uma ameaça a Israel e às monarquias do Golfo. A aproximação se deu por essas razões. Hoje, Israel é uma potência não apenas militar, mas tecnológica, médica e científica. As circunstâncias regionais e o protagonismo militar e civil israelense acabaram por reduzir o papel exercido pelo conflito entre Israel e os palestinos no processo de tomada de decisão das monarquias sunitas.

Mas isso não representa de forma precisa o quadro mais amplo em relação aos palestinos. As ditaduras árabes sempre fizeram uso da questão palestina e do repúdio a Israel como forma de desviar a atenção de suas próprias populações. A Primavera Árabe e, apesar dela, a manutenção das ditaduras sunitas – aliadas às circunstâncias regionais que tiraram esses mesmos regimes do foco – serviram como atenuante ao temor original dos governantes. As respectivas populações civis ainda não conseguiram concretizar o projeto de, como num dominó, derrubar as ditaduras árabes regionais. 

E é possível que, diante do fracasso humanitário na Síria (cuja instabilidade inicial se originou a partir de um movimento popular de contestação, tal como os demais países por onde a Primavera Árabe passou) e do sucesso “revolucionário” apenas relativo na Tunísia, esta intenção popular fique adormecida por muitos anos. Portanto, administrar as crises domésticas continua a ser possível. Usar a questão palestina e repudiar publicamente Israel continuará a ser uma carta na manga das lideranças árabes como forma de manobrar pontualmente qualquer novo e raríssimo foco de contestação interna.

Entrevistado pelo Wall Street Journal, um membro do alto-escalão do governo da Arábia Saudita resumiu como seu país avalia a aproximação com Israel e a solidariedade aos palestinos:

“A questão palestina não é fácil. A Arábia Saudita pretende manter a liderança islâmica e não vai abandonar (este projeto) facilmente. E, se você precisar de Israel em qualquer coisa, consegue fazê-lo de qualquer maneira, sem ter um relacionamento”, disse.

Ou seja, na medida em que há assuntos em comum, os sauditas pretendem contar com a cooperação de Israel, desde que isso seja mantido sem segredo. A ideia, portanto, é continuar a atuar da mesma maneira: a solidariedade aos palestinos e o repúdio a Israel serão públicos; o relacionamento pragmático com Israel, privado. Do ponto de vista israelense, parece valer a pena. No entanto, resta saber até quando o Estado judeu continuará a aceitar exercer o papel de vilão enquanto provê informações fundamentais a esses mesmos regimes que condenam o país publicamente.

E, para além deste aspecto, há também a política interna em Israel. A coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pretende ampliar seu relacionamento com os países árabes, antes mesmo de resolver o conflito com os palestinos. Parte da oposição pensa de maneira oposta, priorizando uma maneira de solucionar o conflito palestino primeiro. De qualquer forma, um amplo acordo de Israel com os países árabes do Golfo seria uma grande vitória para Netanyahu. E ele quer aprofundar esses laços, de preferência antes das eleições previstas para o ano que vem e como forma de mudar a pauta nacional, onde o primeiro-ministro enfrenta manifestações públicas de opositores.

06 de Fevereiro - Terça-feira - 12:20

A primeira-ministra britânica, Theresa May, cumpriu sua primeira visita oficial à China. A líder política da Grã-Bretanha corre para abrir novos mercados e estabelecer alternativas diante da decisão do país de deixar a União Europeia (UE). O anúncio de acordos comerciais entre as potências está na casa dos 13 bilhões de dólares. Pode parecer muito dinheiro, pode parecer que os chineses precisam deste tipo de relacionamento bilateral com os britânicos. Mas a verdade é que a China não estava tão preocupada assim com os valores. O propósito da visita de May para o governo de Beijing é mais político do que financeiro.

Enquanto a primeira-ministra se deliciava com o chá local afirmando que seu sabor é o mesmo de Londres, os chineses planejam a mudança das rotas de comércio mundial de forma a inverter a mão da ordem política estabelecida. A ideia da China era contar com a aprovação de Theresa May para seu projeto mais ambicioso. Chamado de Belt and Road Initiative (Iniciativa do Cinturão e da Estrada, em tradução livre) a ideia dos chineses é usar três de suas principais características de forma a realizar grandes investimentos econômicos em infraestrutura em toda a Ásia, Oriente Médio, no leste da África e chegar até à Europa.

O propósito é ambicioso e, como mencionei acima, conta com três das principais características do país: sua grande dimensão territorial, sua população gigantesca e sua capacidade econômica cujas decisões estão centralizadas no Estado. É até estranho dizer isso, mas é o Estado chinês que aplica com rigor o principal mandamento do filósofo e pai do capitalismo, Adam Smith: a administração governamental por meio do Partido Comunista Chinês (PCC) investe pesado na produção de forma a gerar mais riqueza.

A intenção é criar uma nova rota da seda, construindo pontes, estradas, linhas férreas, portos, oleodutos, conectando a China à Europa por meio da Ásia Central e do Oriente Médio. A empresa de consultoria privada McKinsey informou ao jornal britânico The Guardian que “o projeto tem potencial de ofuscar o Plano Marshall americano”. O planejamento chinês envolve 65% da população global e 33% de seu PIB. A expectativa é que o investimento seja da ordem de 900 bilhões de dólares. Este é um passo definitivo e que diz muito sobre como o PCC entende o capitalismo. E este plano ganha força justamente no momento em que os EUA retraem suas atividades na Ásia.

A vitória chinesa sobre os americanos numa das principais rotas comerciais do mundo terá impactos diretos sobre a política e o estabelecimento da ordem global para além do século 21. É evidente que o projeto chinês pretende alterar a história do comércio internacional. E, para isso, um dos artifícios é simples. Enquanto países com grandes populações e infraestrutura precária – como Paquistão e Bangladesh, por exemplo – irão se beneficiar do projeto, a conta vai chegar a partir das cortes arbitrais. Este é um dos pulos do gato.

Eventuais e inevitáveis disputas comerciais serão todas regulamentadas por cortes internacionais estabelecidas nas cidades chinesas de Beijing, Xian e Shenzhen. Esses tribunais de arbitragem e mediação irão funcionar de acordo com as regras aplicadas pelas instituições chinesas já existentes. Imaginem uma disputa internacional entre uma empresa chinesa e uma empresa estrangeira. Lembrando, claro, que a China ainda está longe de ser uma democracia. Pois é. A vitória comercial chinesa e sua preponderância internacional dependem diretamente dessas cortes arbitrais.

Se todo este planejamento soa capitalista demais, é bom deixar claro que o governo chinês planeja que 2050 seja a data final para que o país finalmente realize a promessa que os membros do PCC fizeram quando da fundação do partido, em 1921: tornar-se uma sociedade socialista. A dominação comercial asiática e internacional é o meio capitalista que o PCC encontrou para cumprir o prometido.

01 de Fevereiro - Quinta-feira - 11:15

O Congresso Sírio de Diálogo Nacional realizado em Sochi, na Rússia, é uma demonstração ampla das alianças e do poder que Moscou construiu a partir da intervenção na guerra civil, em setembro de 2015. O projeto russo na Síria é certamente bem-sucedido, principalmente se levarmos em consideração o propósito inicial de derrotar o Estado Islâmico (EI). Há uma disputa narrativa – que já foi mais assertiva e hoje é mais discreta – entre EUA e Rússia sobre vencedores e vencidos. A discrição se deve a dois fatores fundamentais: Donald Trump e, claro, o fato de tropas russas estarem em solo, enquanto a participação americana se concentra majoritariamente na assistência aos grupos militares curdos.

Até setembro de 2015, as potências mundiais não bancaram uma intervenção no país. Nem para derrotar o EI, nem para tirar o presidente Bashar al-Assad do cargo, mesmo depois de ele ter cruzado, dois anos antes, o que o ex-presidente Obama chamou de “linha vermelha”. O presidente Assad fez uso de armamento químico contra os próprios civis. Duas vezes.

Vladimir Putin fez o que ninguém havia ousado fazer; interveio na Síria para derrotar o EI e, ao mesmo tempo, sustentar Bashar al-Assad na presidência. Enquanto isso, há investigações nos EUA para tentar provar o trabalho de Moscou na eleição de Donald Trump. Podem parecer ações desconexas, mas são complementares.

Manter um aliado na Casa Branca disposto a reduzir a assertividade internacional americana é um sonho realizado para Putin. Mesmo agora, o governo Trump aceitou participar da conferência sobre a Síria em Sochi apenas como observador. É um endosso para o processo de diálogo na Síria conduzido por Putin. A atitude também pode ser interpretada como um resumo deste momento quanto à visão americana sobre o Oriente Médio. Há dez anos, seria improvável imaginar qualquer administração nos EUA assistindo passivamente ao grande evento de celebração da liderança russa na região.

A conferência em Sochi está longe de ser unanimidade. Os pouco mais de 1,5 mil participantes não representam todos os setores envolvidos na guerra civil. Pelo contrário. O evento foi boicotado pela maior parte da oposição, como os curdos da milícia YPG (aliados aos americanos, mas inimigos dos turcos – que, por sua vez, passaram a aliados dos russos) e as Forças Democráticas da Síria (SDF). Mas, apesar disso, este evento mostra a força de mobilização e liderança de Moscou.

Sochi complementa sete rodadas de negociação pelo futuro sírio já realizadas em Astana, no Cazaquistão, e que evidenciam a ampla rede de alianças construída por Putin; além dos grupos sírios, estavam presentes em todos os encontros (os de Astana e o realizado em Sochi) os novos protagonistas deste Oriente Médio: Irã, Turquia e, claro, muitos membros do governo de Bashar al-Assad.

A posição oficial de Irã, Turquia e Rússia sobre o futuro da Síria é muito clara. Qualquer solução a ser encontrada não passa de maneira alguma pela mudança de regime. Ou seja, Bashar al-Assad, mesmo apesar de seu histórico – inclusive os ataques com armamento químico contra os próprios civis –, deverá permanecer no cargo até 2021, quando uma nova “eleição presidencial” deverá ocorrer. E, se não bastasse, os três países aliados do presidente sírio argumentam que ele deve concorrer também neste novo pleito.


A Rússia corre para concluir todo este processo. E isso significa, portanto, redigir uma nova constituição mantendo Assad à frente do governo pelo menos até 2021. Na verdade, o “rascunho” deste documento já foi redigido pelos próprios russos em 2016. A ideia de Vladimir Putin é unificar seus projetos doméstico e internacional o quanto antes. A “Pax Russa” em seu melhor cenário se conclui em grande estilo com a aprovação de uma nova constituição síria, a reeleição de Vladimir Putin como presidente no próximo mês de março (estendendo seu mandato até 2024) e com a seleção nacional campeã mundial de futebol, vencendo o Brasil na final da Copa, em 15 de julho. 

30 de Janeiro - Terça-feira - 10:45

Desde 2016, cerca de dois mil soldados americanos estão estacionados na cidade síria de Manbij, no norte do país. As tropas chegaram à cidade graças ao trabalho das Unidades de Proteção do Povo (YPG), a milícia curda que tem grande importância no na vitória sobre o Estado Islâmico. A relação de assistência mútua entre curdos e americanos é um dos pilares da derrota do EI na Síria.

Manbij passa a ser importante principalmente por sua localização e pelo conflito no qual se vê envolvida. A cidade está a 100 km de distância de Afrin, onde desde o último dia 20 de janeiro tropas turcas atacam a YPG. Os americanos em Manbij foram alertados pelo ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, sobre a necessidade de deixar a cidade.

A ideia de um confronto por procuração entre turcos e americanos no norte da Síria é uma possibilidade. Já havia escrito sobre ela no texto anterior. O aviso oficial turco pode ser encarado como ameaça num tom mais elevado. A origem deste impasse está numa declaração dada pelo secretário de Estado americano, Rex Tillerson, quanto ao plano de Washington de alterar a atuação nas áreas das quais os terroristas do EI haviam sido expulsos, estabilizando-as por meio de treinamento da YPG – a milícia curda passaria, portanto, a coordenar tais esforços.

Os turcos imediatamente entenderam a mensagem como intenção americana de transformar os curdos da YPG em exército pacificador regional. A reação turca é até coerente com a política histórica do país, que se percebe em guerra permanente com os curdos há três décadas. Na medida em que o nacionalismo é a principal bandeira do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, a sucessão de acontecimentos segue o caminho óbvio, ainda mais quando se sabe das intenções presidenciais de permanecer no cargo. A carta de ameaça curda ao território e estabilidade da Turquia é lugar-comum. Um presente a uma liderança que inclusive conseguiu virar o jogo no frustrado golpe de Estado ocorrido em julho de 2016. 

Numa época de “fatos alternativos” há agora muitas versões sobre as reações americanas diante deste cenário. Mesmo interessados em reduzir atuações militares internacionais – especialmente no Oriente Médio –, aos americanos não restam muitas opções a não ser tentar interromper a escalada. Em conversa telefônica entre Donald Trump e Recep Tayyip Erdogan, a Casa Branca diz que o presidente americano teria “alertado o presidente turco sobre a expansão de sua ofensiva militar no norte da Síria, deixando claro que as ações poderiam levar a um confronto direto com as forças americanas”.

Já a presidência turca tem uma versão diferente sobre o conteúdo da conversa. Os turcos dizem que o presidente americano teria apenas ressaltado a importância de limitar a duração da ofensiva, justamente em função da presença de tropas dos EUA em Manbij, além de garantir que Washington iria interromper o repasse de armamento à YPG.

Há uma enorme diferença entre as declarações oficiais dos dois países. Enquanto a Casa Branca procura dar ênfase a um posicionamento mais assertivo de seu presidente, a Turquia segue caminho oposto. Ninguém sabe o que de fato é verdade quanto ao conteúdo do diálogo, mas, buscando alguma lógica na estratégia do governo atual dos EUA, é pouco provável que Trump tenha ressaltado, em tom de leve ameaça, a possibilidade de confronto entre as duas potências parceiras na Otan.

Na medida em que os curdos não são exatamente muito necessários neste momento, é possível que, de maneira muito pragmática, os presidentes turco e americano tenham alcançado algum tipo de ponto em comum. Isso não significa necessariamente um acordo para pôr fim à ofensiva, mas um entendimento mínimo sobre as consequências da ação para as tropas americanas em Manbij – o que ainda não descarta totalmente a possibilidade do confronto por procuração sobre o qual escrevi anteriormente e que voltei a mencionar neste texto.

A saída para os curdos sírios da YPG pode estar com Bashar al-Assad, que percebe de maneira evidente a Turquia cada vez mais próxima à Rússia. Erdogan é um crítico persistente do presidente sírio e, em função disso, Assad quer evitar que ele obtenha ainda mais ganhos estratégicos. Os curdos serviriam a Assad como forma de impedir que os turcos ganhassem terreno conectando os enclaves remanescentes de oposição ao presidente sírio em Idlib, Aleppo e Afrin.

25 de Janeiro - Quinta-feira - 13:15

No norte da Síria, na cidade de Afrin, a Turquia reforça a percepção sobre a qual já escrevi muitas vezes por aqui de que após a vitória sobre o Estado Islâmico (EI) as potências regionais e internacionais lutarão por desenhar as novas fronteiras não apenas da Síria, mas também de parte relevante do Oriente Médio. O ataque lançado pelas forças armadas turcas à cidade carrega muitos significados e intenções.

O primeiro aspecto é o mais óbvio e que se repete com alguma frequência; a prioridade do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, de impedir que os curdos – estejam eles na Síria, na Turquia, no Iraque ou no Irã – obtenham vantagens políticas ou militares de forma a realizar conquistas territoriais. No passado recente, Erdogan buscou desqualificar o referendo por independência conduzido pelos curdos do Iraque. Agora, a batalha é contra o sucesso militar obtido pelos curdos na Síria, que durante o combate bem-sucedido contra o EI no país lutaram sob a sigla das Forças Democráticas da Síria (SDF). Entre seus membros, curdos das Unidades de Proteção do Povo (YPG), a milícia que cumpriu o papel em solo – entre outros aparatos militares, YPG e SDF foram treinados e receberam armamento norte-americano.

Este aspecto é fundamental porque, entre as razões que levaram os turcos a lançar a ofensiva sobre Afrin, havia informações dando conta da intenção dos EUA de validar as forças militares curdas na vigilância da fronteira. Este contingente poderia chegar a 30 mil homens. Usada como uma das justificativas pela Turquia, especificamente esta informação foi negada pelo secretário de Estado americano, Rex Tillerson, apesar de ter sido desconsiderada por Ancara.

Como tem sido comum neste novo Oriente Médio, a Rússia é a potência que mantém contatos com todos os atores. Os russos inclusive apoiam o Partido da União Democrática Curda (PYD), o braço político aliado à milícia YPG. E, neste novo cenário, é sempre importante lembrar que a Rússia controla o território sírio. Ou seja, é muito improvável que a Turquia tenha lançado sua ofensiva sem contar com a aprovação russa. E aí é preciso passar ao próximo ponto da análise: as razões russas para fechar os olhos diante de um conflito em potencial que pode ter como base um território que controla e onde passou a atuar, em 2015, justamente para pacificá-lo.

Pode parecer contraditório – e de certa maneira é mesmo – que Moscou “autorize” uma nova guerra entre duas partes com as quais mantém contato estreito e que o cenário para o confronto seja a Síria, país que os russos pretendem apaziguar. Mas o realismo político está na base das ações internacionais, e esta premissa é especialmente aplicável a uma liderança de grandes ambições como o presidente Vladimir Putin.

A Rússia percebe o YPG e todo o movimento curdo na Síria como a parte que resta de aliados dos EUA em seu território – entenda-se o território como todo o novo Oriente Médio que os russos pretendem influenciar. Os curdos, portanto, seriam o resquício de um velho Oriente Médio, aquele do passado não tão distante onde os EUA davam as cartas. Desta maneira, para Moscou, uma guerra entre Turquia e as forças curdas obedece a um confronto por procuração, modelo muito comum naquela região – o mesmo aplicado a Israel e Hezbollah, este último fazendo as vezes do Irã, por exemplo.

Washington agora tem um dilema que pode tomar grandes proporções em sua desordenada política internacional desses dias. Se simplesmente recuar e deixar os curdos entregues à própria sorte no norte da Síria, certamente os EUA serão considerados traidores, na medida em que a aliança com as forças curdas pareceu interessante até o momento posterior da derrota imposta ao EI. Por outro lado, se optar por medidas mais assertivas, poderá iniciar um confronto com a Turquia, que, assim como os EUA, é membro da Otan. Imagino que a Casa Branca deve ter como objetivo a redução imediata das tensões entre as partes de forma a impedir que este dilema se concretize.

Enquanto isso, mais uma vez, os russos assistem a tudo sem precisar fazer grandes esforços. E ainda contam com a posição permanente de mediação, podendo interromper o conflito enquanto reforça a imagem de potência conciliadora. Um outro caminho que os russos podem seguir é o de permitir que os turcos prossigam com os ataques, enfraquecendo a demanda dos curdos, suas posições e ganhos militares, e, por consequência, rompendo um dos últimos laços que os americanos mantêm com o seu velho Oriente Médio. Seja como for, a situação a Moscou é tão confortável que as perspectivas envolvem resultados que podem ser classificados como satisfatórios, independentemente do que vier a acontecer.

22 de Janeiro - Segunda-feira - 13:35

Para celebrar um ano de governo Donald Trump nada mais apropriado do que a paralisação de serviços essenciais no país. O adiamento de repasse de salários a funcionários federais, o fechamento de parques e agências nacionais, a interrupção do trabalho de metade dos funcionários da Saúde, do Tesouro, da Defesa e dos Transportes são resultado da impossibilidade de democratas e republicanos chegarem a um acordo para promover a extensão do orçamento federal até o próximo dia 16 de fevereiro.

Em política, tudo está sob barganha. A situação atual é fruto da disputa entre os dois principais partidos americanos sobre o futuro dos chamados Dreamers, crianças que chegaram ilegalmente aos EUA e que hoje correspondem a um contingente de pouco mais de 700 mil adultos. Em 2012, o ex-presidente Barack Obama criou um programa para proteger este grupo de residente. O Deferred Action for Childhood Arrivals (DACA) permitia que essas pessoas - que chegaram ao país com menos de 16 anos e viveram nos EUA de forma contínua desde 2007 - pudessem seguir com suas vidas, estudando, trabalhando e até servindo nas forças armadas.

A partir de março de 2018, o DACA expira e todos os Dreamers perderão o direito de permanecer nos EUA até o prazo final de março de 2020. Na prática, se nada mudar, serão deportados. Com isso, a disputa passou a protagonizar o impasse político nacional. Os democratas são favoráveis à extensão do programa. Donald Trump e parte dos republicanos, não. O presidente e congressistas de seu partido querem usar o debate em torno do DACA como forma de obter apoio em projetos de reforço no controle de imigrantes e até na construção do polêmico muro na fronteira com o México, promessa de campanha de Trump.

O líder democrata no Senado, Chuck Schumer – que se reuniu pessoalmente com Trump –, diz que o presidente já teria rejeitado dois acordos alcançados pelos partidos democrata e republicano em conjunto. A ideia de Schumer – e esta agora passa a ser a batalha doméstica nos EUA – é culpar Trump pela paralisação. Enquanto os republicanos, naturalmente, seguem caminho oposto.

O impasse precisará ser solucionado. Não apenas pelas razões óbvias, mas pelo o que as pesquisas de opinião pública apresentam e também pelo o que está em jogo no ano de 2018.

De acordo com levantamento da CBS News poll, 87% dos americanos são favoráveis à permanência dos Dreamers. Na medida em que a opinião pública doméstica enxerga Trump como o retrato do partido republicano, os congressistas da legenda têm um problema prático. No dia 6 de novembro, os eleitores irão às urnas para substituir 33 dos cem senadores e também eleger todos os seus representantes na Câmara dos Deputados (435 assentos). 

Trump não é alguém que esteja muito preocupado com o futuro do partido republicano, conclusão muito óbvia e difundida entre os congressistas americanos. O temor é que, do alto de sua incapacidade conciliatória, a rejeição interna ao presidente abale as expectativas eleitorais do partido – que hoje controla a Câmara e o Senado.

Outra pesquisa deixou os republicanos ainda mais temerosos sobre esta possibilidade. Estudo conduzido pela NBC News e Wall Street Journal mostra que 38% dos entrevistados estão dispostos a usar a eleição de novembro deste ano como forma de enviar uma mensagem de oposição ao presidente Trump. Pode parecer um número pequeno, mas é o percentual mais alto de eleitores a responder desta maneira desde que os democratas obtiveram maioria no Congresso em 2006.

Os republicanos têm grande interesse de encerrar a questão dos Dreamers o quanto antes. E este seria o raciocínio mais lógico também para Donald Trump. Se as eleições de novembro próximo se transformarem numa espécie de referendo pessoal sobre o presidente, o governo pode sair derrotado em muitas frentes. Se os republicanos perderem a maioria na Câmara e no Senado, a ideia de um impeachment em função da interferência russa na eleição presidencial de 2016 pode voltar com toda a força.

A política é um mar revolto. E o sucesso está alinhado também à popularidade. Hoje, Trump está mal avaliado. No início de seu segundo ano de mandato, tem 38% de aprovação; no mesmo período, Barack Obama tinha 49%. George Bush, 84% (ainda em função dos ataques de 11 de setembro do ano anterior); Bill Clinton, 55%; e Ronald Reagan, 48%.

19 de Janeiro - Sexta-feira - 10:56

Como resultado final do encontro governamental em Ramallah, na Cisjordânia, o Conselho Central Palestino determinou que a estratégia atual a ser conduzida pelo presidente Mahmoud Abbas inclua a suspensão do reconhecimento de Israel pela Autoridade Palestina (AP). Se a medida for mesmo colocada em prática, ela marcará o divórcio oficial das partes, a possibilidade de escalada de radicalismos e o reforço das posições não apenas do Hamas e da Jihad Islâmica – grupos de oposição ao presidente palestino Abbas –, mas também da coalizão de partidos de direita que hoje corresponde ao governo israelense.

A declaração foi celebrada pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que já havia se manifestado na sequência do discurso de Mahmoud Abbas:

“Nós já estamos dizendo há tempos que as raízes do conflito estão na oposição (pelos palestinos) de um estado judeu em quaisquer fronteiras. Não apenas a forma como ele falou, mas o que ele disse nos ajuda a mostrar a verdade. Acredito que isso (o discurso) atende aos nossos propósitos políticos mais do que tudo”.

O presente oferecido por Abbas é simples. Netanyahu argumenta ser impossível retomar as negociações de paz a partir das sucessivas negativas de Mahmoud Abbas quanto ao reconhecimento do caráter judaico de Israel. Agora, a AP foi ainda mais longe ao optar por deixar de reconhecer Israel de maneira ampla.

O presidente palestino fez nos últimos dias um duplo favor ao primeiro-ministro israelense: não apenas tratou de expor teorias sobre a desconexão entre Israel e os judeus (reafirmando a acusação de Netanyahu) e, ao mesmo tempo, o Conselho Central Palestino decidiu voltar atrás ignorando os Acordos de Oslo ao não reconhecer Israel.

O posicionamento de Abbas e do Conselho Central Palestino preenchem a argumentação da coalizão da direita israelense. Os Acordos de Oslo – assinados em 1993 pelo então primeiro-ministro Itzhak Rabin e pelo líder palestino Yasser Arafat – representam controvérsia permanente no cenário político interno de Israel e estão na base de parte relevante das críticas que os partidos de direita fazem à esquerda israelense.

Esses acordos não apenas estabeleceram relações entre Israel e os palestinos, mas criaram a Autoridade Palestina – presidida por Mahmoud Abbas desde janeiro de 2005 – e, entre uma série de outras medidas, determinavam que, ao final do processo, um estado palestino fosse criado em Gaza e na Cisjordânia para conviver pacificamente ao lado de Israel.

Para a coalizão de direita que compõe a base do atual governo de Israel, os acordos são inválidos na medida em que, entre outras questões, exigem o desmantelamento integral dos assentamentos judaicos na Cisjordânia. Quando, sem necessidade de debates internos em Israel, os próprios palestinos quebram a cláusula de reconhecimento mútuo e, como disse o próprio presidente Mahmoud Abbas em seu discurso, decretam a morte dos Acordos de Oslo, a direita israelense enxerga um caminho sem obstáculos pela frente.

O futuro das negociações é obscuro. Não se sabe por ora que tipo de plano Netanyahu imagina a partir da declaração de Abbas e da decisão tomada pelo Conselho Central Palestino. Há duas questões relevantes: a primeira é que, apesar de ampla divulgação deste caminho, em março de 2015 este mesmo Conselho também determinou que os palestinos interrompessem a cooperação entre as forças de segurança palestina e israelense na Cisjordânia (esta cooperação pragmática é um dos pontos dos Acordos de Oslo que ainda funciona e é fundamental para a estabilidade da Cisjordânia, ao contrário do que ocorre em Gaza onde o Hamas é a entidade com total controle do território, não a Autoridade Palestina). No entanto, apesar da determinação do Conselho Central Palestino, a decisão jamais foi colocada em prática e a cooperação prossegue.

Outro aspecto fundamental diz respeito à reciprocidade. Se de fato a AP for adiante e negar mesmo o reconhecimento de Israel, os israelenses podem optar por fazer o mesmo em relação à Autoridade Palestina. E aí Jerusalém poderia tomar uma série de medidas sequenciais que variam entre o aumento de construções de assentamentos na Cisjordânia até, em último caso, a anexação de todo o território – o que mudaria o jogo na prática e de maneira definitiva. Apesar de não acreditar nesta última possibilidade, ela está entre os desejos de grande parte da direita israelense e poderia ser colocada em prática.

Não considero a possibilidade real de o primeiro-ministro Netanyahu optar por este caminho porque isolaria Israel no cenário internacional, além de desagradar o presidente americano, Donald Trump, uma vez que decretaria o fim definitivo do plano de paz que a atual administração americana diz ter (Trump chama esta iniciativa liderada pelo genro e conselheiro sênior Jared Kushner de “Acordo do Século”)

15 de Janeiro - Segunda-feira - 14:30

O discurso do presidente palestino, Mahmoud Abbas, reflete com precisão o momento de desarranjo no processo de paz entre israelenses e palestinos – o processo está estagnado desde 2014. Abbas optou por um texto que estica e pode mesmo arrebentar a corda com americanos e israelenses. Disse que o plano de paz articulado pelos EUA (representado em boa medida pelo genro e conselheiro sênior de Donald Trump, Jared Kushner) é “um tapa que será devolvido”, desejou a Trump que “sua casa seja demolida”, desfilou toda a sorte de teorias antissemitas sobre desconexão entre Israel e os judeus e, ainda, atualizou os Protocolos dos Sábios de Sião ao afirmar que “Israel importa assustadoras quantidades de drogas para destruir nossa geração mais jovem. (...) por esta razão criamos uma autoridade para combater as drogas e investir bastante em esporte, a maior parte em futebol. Por isso já passamos Israel (no ranking da) FIFA”.

Esta viagem no tempo de volta ao século 19 é parte do encontro do Conselho Central Palestino, órgão que reúne 95 delegados em Ramallah, na Cisjordânia, e é responsável por determinar a estratégia futura palestina. O tom adotado pelo presidente Abbas tem como objetivo marcar posição diante da decisão americana do dia 6 de dezembro de 2017 que determinou o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel.

A ideia de Abbas é esticar mesmo a corda, não apenas como forma de abordagem aos assuntos externos, mas também na expectativa de encontrar apoio entre a população palestina comum, uma vez que a decisão americana foi amplamente rejeitada nas ruas e poderia reforçar os apelos mais radicalizados da oposição ao próprio Abbas, notadamente o Hamas e a Jihad Islâmica – ambos grupos paramilitares terroristas cujo propósito oficial não é a criação de um estado palestino ao lado de Israel, mas por cima de Israel. Hamas e Jihad Islâmica foram convidados a participar do encontro em Ramallah, mas preferiram não comparecer.

Espremendo o discurso do presidente palestino, é possível perceber algumas mudanças de rumo: a primeira delas é a opção por se afastar da Casa Branca, podendo inclusive provocar a perda de 355 milhões de dólares doados pelos EUA à UNRWA (agência da ONU dedicada exclusivamente aos refugiados palestinos). O valor aportado em 2016 pelos americanos representa cerca de 30% do orçamento total da agência e perde-lo afetaria diretamente refugiados palestinos que vivem não apenas em Gaza e na Cisjordânia, mas na Síria, no Líbano e na Jordânia.

Outro ponto importante do texto de Abbas diz respeito à opção por um estado binacional. Ameaça permanente a Israel, este caminho determinaria que os palestinos abririam mão de constituir um estado independente para se juntar a Israel – em função dos dados demográficos, se isso ocorresse Israel deixaria de existir como o único Estado judeu no mundo, na medida em que os judeus passariam a constituir a minoria da população. Rapidamente, no lugar de Israel, a nova entidade nacional se tornaria o 24º estado árabe.

No entanto, esta possibilidade dependeria de Israel. Isso porque, na medida em que a Autoridade Palestina é reconhecida como Estado da Palestina em muitos organismos internacionais, ela precisaria de autorização israelense para se tornar parte de Israel. Da mesma maneira que, como exemplo, se o Uruguai abrisse mão de sua soberania para se tornar mais um estado brasileiro, o Brasil precisaria concordar com a atitude. Ao mesmo tempo, a decisão autoimplodiria a Autoridade Palestina, que deixaria de existir neste cenário. Isso sem contar a oposição de Hamas e Jihad Islâmica.

De volta ao pronunciamento de Mahmoud Abbas, também ficou evidente a intenção de desqualificar os EUA como mediadores de um eventual processo de paz. Esta era uma posição óbvia e consequência direta do anúncio americano sobre Jerusalém. Para o presidente palestino – que apesar de todas as ofensas e teorias conspiratórias listadas acima ainda se mostrou interessado num acordo com base nas fronteiras de 1967 –, os EUA podem participar de negociações, mas desde que acompanhados de outros “quatro ou cinco” países numa conferência internacional.

A medida sugerida por Abbas parece bastante razoável, mas ela já foi tentada. Desde 2002, o chamado Quarteto ficou encarregado de buscar uma solução pacífica para pôr fim ao conflito, mas não obteve sucesso. Formado por EUA, Rússia, União Europeia e ONU, esta coalizão de forças não conseguiu chegar a lugar algum.

No final das contas, a estratégia palestina parece ser a de buscar caminhos para esvaziar a legitimidade americana. Seria uma tentativa de impedir que Washington obtivesse uma premiação depois da declaração sobre Jerusalém. Era uma consequência óbvia, mas que, na prática, não resolve o problema palestino.

Por isso, este me parece ser um cenário de revanchismo temporário e, a não ser que a Autoridade Palestina realmente adote uma postura de mudança radical das regras do jogo – a busca por um estado binacional seria uma mudança drástica, por exemplo –, alguma forma de negociação deve ser encaminhada. A novidade pode ser a busca por uma participação mais assertiva da Rússia, dando a Moscou o grande trunfo em sua empreitada pelo Oriente Médio.