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Carta & Crônica
Henry Galsky
25 de Abril - Terça-feira - 09:55

As eleições francesas são fundamentais nesta grande disputa internacional pelo modo de se fazer política e pelas ambições domésticas de cada país. A chamada Aliança Atlântica jamais enfrentou um risco de dissolução tão iminente. Este e outros elementos estão em jogo durante o pleito francês. De um lado, a centralidade da União Europeia (UE) e da Otan; de outro, a ascensão da extrema-direita e seu potencial de romper com a ordem estabelecida no pós-guerra.

Se algo já está claro depois do primeiro turno é que os franceses também embarcaram na tendência mundial de contestação política. Pela primeira vez desde a criação da Quinta República francesa em 1958, os partidos tradicionais de esquerda e direita ficaram de fora da disputa. Isso está longe de ser um fenômeno isolado francês, mas parte desta virada de jogo recente. Nos EUA, as duas figuras polarizadoras do cenário na última campanha presidencial foram Donald Trump e Bernie Sanders. Da mesma maneira, a França teve Marine Le Pen – que obteve quase oito milhões de votos – e Jean-Luc Mélenchon, candidato derrotado, mas que surgiu como fenômeno da esquerda e terminou em quarto lugar com 19,16% dos votos.

A Frente Nacional, de Le Pen, e a França Insubmissa, de Mélenchon, são dois lados da mesma moeda; a contestação da política tradicional, tendência que tem varrido a Europa e os EUA e que, na esteira da Lava-Jato, também deve encontrar espaço nas eleições brasileiras do ano que vem. É importante traçar este paralelo entre ambientes muito diversos, mas que apresentam denominadores comuns. Num mundo cada vez menos isolado, é impossível desconsiderar influências e retroalimentações. Isso sempre aconteceu, mas agora ocorre com mais rapidez e intensidade.

Nas eleições francesas, o segundo turno apresenta o confronto direto entre ideias distintas. Emmanuel Macron, o favorito a vencer a disputa, não é exatamente um representante da velha política nem um símbolo de ruptura. Foi membro do Partido Socialista entre 2006 e 2009. Entre 2009 e 2016, foi independente. E, em 2016, fundou o Em Marcha!, legenda que carrega suas iniciais e se propõe a criar um modelo político novo – inclusive desassociado à divisão tradicional entre esquerda e direita. Apresenta-se como uma terceira via mais técnica e pragmática e menos ideológica.

Este tipo de discurso não é exatamente novo. E meados dos anos 1990, o acadêmico britânico Anthony Giddens alimentou com o seu livro Para Além da Esquerda e da Direita movimentos de contestação à política tradicional. A chamada “terceira via” encontrou representantes importantes em todo o mundo, como Tony Blair, na Grã-Bretanha, Gerhard Schröeder, na Alemanha, Bill Clinton, nos EUA, e até Fernando Henrique Cardoso, no Brasil.

O que une todos os espectros políticos na França à candidatura de Macron é justamente Le Pen, representante da extrema-direita e deste movimento internacional que ganha força a cada conquista na política tradicional. A contradição é realmente um aspecto importante desta união de forças tão distintas; Donald Trump, nos EUA, Le Pen, na França, Nigel Farage, na Grã-Bretanha e Geert Wilders, na Holanda, apoiam-se mutuamente e tem como propósito reforçar políticas domésticas e de cunho nacionalista, encerrando a ordem política do pós-guerra.

A cada nova eleição, fica evidente que a política tradicional está encerrando seu ciclo de protagonismo. O momento de contestação é um fato inegável. Resta saber, no entanto, exatamente o que irá substituí-la. A disputa francesa é símbolo de mais este confronto; de um lado, a nova ordem de extrema-direita que pretende resolver crises a partir do encerramento em torno de um ideal de retorno a uma pureza nacional imaginada; de outro, o reforço do multilateralismo e da crença nas democracias liberais. Mais uma vez, é isso que está em jogo. Se a França cair – o que não deve ocorrer, segundo as pesquisas – a Alemanha será o último bastião da Europa forjada no pós-guerra. 

20 de Abril - Quinta-feira - 09:55

Depois da manobra da Síria e da elevação do discurso sobre China e Coreia do Norte, já é possível entender com mais clareza as intenções internacionais de Donald Trump. Por mais estranho que possa parecer, há alguma coerência em seu posicionamento externo. Não se trata de uma ratificação a suas políticas, mas do entendimento de que, em meio a tantas medidas impactantes, existe uma linha de pensamento.

Além de sua necessidade de posicionamento anti-Rússia em virtude das ameaças domésticas pelas relações muito profundas de membros do governo e da campanha com Moscou, Trump continua a seguir a lógica do público médio americano. Os carvoeiros do Tennessee – imagem real que usei como símbolo de seu eleitorado – continuam a apontar os caminhos da administração atual.

Leia mais sobre os carvoeiros do Tennessee aqui.

A chave para entender a amplificação desta lógica reside em dois pontos fundamentais: o primeiro aspecto é o cérebro empresarial do presidente americano. Por mais que projete imagem de inflexibilidade (o que muitas vezes é o que acontece mesmo), Donald Trump continua a negociar. A imagem que tem construído segue este raciocínio; o eleitorado é uma grande clientela. E por isso é preciso manter os clientes satisfeitos.

O outro aspecto deriva deste, mas está concretizado e se origina a partir de um levantamento de maio de 2016 realizado pelo Pew Research Center, um dos mais importantes institutos de pesquisa dos EUA, e citado por Stephen Sestanovich, do Atlantic. O estudo apontava duas posições públicas que num primeiro momento soavam contraditórias: setenta por cento do eleitorado queriam que o presidente se concentrasse em assuntos domésticos, não em política externa (dado absolutamente normal e que seria obtido em qualquer país do mundo, não apenas nos EUA); a maioria dos entrevistados (independente do partido de filiação ou proximidade ideológica) afirmou estar favorável a adoção de medidas capazes de manter o país como a única superpotência militar do mundo.

Este levantamento mostra a enorme capacidade de entendimento de Donald Trump de seu público doméstico. Para muita gente, o resultado mostra caminhos desconexos. O presidente americano conseguiu interpretar a pesquisa a ponto de ganhar as eleições (com o apoio da Rússia, sempre é importante lembrar) e iniciar um processo de mudança internacional: ao mesmo tempo em que se distancia do histórico de política externa americana do pós-guerra, constrói a imagem de que não abrirá mão do status militar conquistado até aqui. O público médio americano não queria apenas uma das possibilidades apresentadas pela pesquisa, mas todos os ganhos possíveis recuando nas despesas.

O ataque à Síria e as ameaças à Coreia do Norte são medidas que ilustram de maneira bastante evidente o que escrevi. Na prática, funciona de maneira simples: manutenção de distância da comunidade internacional sem flexibilizar a posição de liderança. Para deixar isso claro, nada melhor que dar demonstrações de poderio militar.

A vitória de Erdogan na Turquia

Considerando-se todos esses fatores, Trump expressa sua admiração por Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan, presidente turco que saiu vencedor de referendo altamente controverso que lhe deu ainda mais força interna e deve resultar na desistência do projeto de adesão à União Europeia (UE). O presidente americano conferiu legitimidade a Erdogan e foi o primeiro líder de uma potência global a telefonar para parabenizá-lo depois do anúncio da vitória (vitória questionada pela oposição e por mais de cem mil jornalistas e prisioneiros políticos).

Como lembra Kim Sengupta, no Independent, as congratulações de Trump ocorreram na sequência de telefonemas de lideranças de Catar, Guiné e do grupo terrorista palestino Hamas.

A virada de mesa na Turquia é contestada pela UE e pelas principais democracias liberais do Ocidente, os Estados nacionais dos quais o presidente americano quer se afastar conceitualmente em função de todos os argumentos que apresentei no texto: para Trump e seus eleitores, a política externa americana até aqui representa um acúmulo de gastos que ainda não foram e talvez jamais sejam recuperados. Esta é a visão internacional dos carvoeiros do Tennessee e, para manter a coerência, é preciso projetá-la em todas as áreas de trabalho da política internacional.

Ao se aprofundar um pouco mais na análise sobre os resultados do referendo turco, é possível entender mais um aspecto em comum entre Trump e Erdogan. O presidente da Turquia foi derrotado nas duas maiores cidades do país: Istambul e a capital Ancara. Assim como o presidente americano, Erdogan ainda enfrenta resistência e oposição do eleitorado urbano de maior escolaridade. Em tempos de grande polarização, os carvoeiros do Tennessee também encontram seus pares e pontos de atrito no cenário internacional.

20 de Abril - Quinta-feira - 09:50

Depois da manobra da Síria e da elevação do discurso sobre China e Coreia do Norte, já é possível entender com mais clareza as intenções internacionais de Donald Trump. Por mais estranho que possa parecer, há alguma coerência em seu posicionamento externo. Não se trata de uma ratificação a suas políticas, mas do entendimento de que, em meio a tantas medidas impactantes, existe uma linha de pensamento.

Além de sua necessidade de posicionamento anti-Rússia em virtude das ameaças domésticas pelas relações muito profundas de membros do governo e da campanha com Moscou, Trump continua a seguir a lógica do público médio americano. Os carvoeiros do Tennessee – imagem real que usei como símbolo de seu eleitorado – continuam a apontar os caminhos da administração atual.

Leia mais sobre os carvoeiros do Tennessee aqui.

A chave para entender a amplificação desta lógica reside em dois pontos fundamentais: o primeiro aspecto é o cérebro empresarial do presidente americano. Por mais que projete imagem de inflexibilidade (o que muitas vezes é o que acontece mesmo), Donald Trump continua a negociar. A imagem que tem construído segue este raciocínio; o eleitorado é uma grande clientela. E por isso é preciso manter os clientes satisfeitos.

O outro aspecto deriva deste, mas está concretizado e se origina a partir de um levantamento de maio de 2016 realizado pelo Pew Research Center, um dos mais importantes institutos de pesquisa dos EUA, e citado por Stephen Sestanovich, do Atlantic. O estudo apontava duas posições públicas que num primeiro momento soavam contraditórias: setenta por cento do eleitorado queriam que o presidente se concentrasse em assuntos domésticos, não em política externa (dado absolutamente normal e que seria obtido em qualquer país do mundo, não apenas nos EUA); a maioria dos entrevistados (independente do partido de filiação ou proximidade ideológica) afirmou estar favorável a adoção de medidas capazes de manter o país como a única superpotência militar do mundo.

Este levantamento mostra a enorme capacidade de entendimento de Donald Trump de seu público doméstico. Para muita gente, o resultado mostra caminhos desconexos. O presidente americano conseguiu interpretar a pesquisa a ponto de ganhar as eleições (com o apoio da Rússia, sempre é importante lembrar) e iniciar um processo de mudança internacional: ao mesmo tempo em que se distancia do histórico de política externa americana do pós-guerra, constrói a imagem de que não abrirá mão do status militar conquistado até aqui. O público médio americano não queria apenas uma das possibilidades apresentadas pela pesquisa, mas todos os ganhos possíveis recuando nas despesas.

O ataque à Síria e as ameaças à Coreia do Norte são medidas que ilustram de maneira bastante evidente o que escrevi. Na prática, funciona de maneira simples: manutenção de distância da comunidade internacional sem flexibilizar a posição de liderança. Para deixar isso claro, nada melhor que dar demonstrações de poderio militar.

A vitória de Erdogan na Turquia

Considerando-se todos esses fatores, Trump expressa sua admiração por Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan, presidente turco que saiu vencedor de referendo altamente controverso que lhe deu ainda mais força interna e deve resultar na desistência do projeto de adesão à União Europeia (UE). O presidente americano conferiu legitimidade a Erdogan e foi o primeiro líder de uma potência global a telefonar para parabenizá-lo depois do anúncio da vitória (vitória questionada pela oposição e por mais de cem mil jornalistas e prisioneiros políticos).

Como lembra Kim Sengupta, no Independent, as congratulações de Trump ocorreram na sequência de telefonemas de lideranças de Catar, Guiné e do grupo terrorista palestino Hamas.

A virada de mesa na Turquia é contestada pela UE e pelas principais democracias liberais do Ocidente, os Estados nacionais dos quais o presidente americano quer se afastar conceitualmente em função de todos os argumentos que apresentei no texto: para Trump e seus eleitores, a política externa americana até aqui representa um acúmulo de gastos que ainda não foram e talvez jamais sejam recuperados. Esta é a visão internacional dos carvoeiros do Tennesse e, para manter a coerência, é preciso projetá-la em todas as áreas de trabalho da política internacional.

Ao se aprofundar um pouco mais na análise sobre os resultados do referendo turco, é possível entender mais um aspecto em comum entre Trump e Erdogan. O presidente da Turquia foi derrotado nas duas maiores cidades do país: Istambul e a capital Ancara. Assim como o presidente americano, Erdogan ainda enfrenta resistência e oposição do eleitorado urbano de maior escolaridade. Em tempos de grande polarização, os carvoeiros do Tennesse também encontram seus pares e pontos de atrito no cenário internacional.

18 de Abril - Terça-feira - 10:37

Bastou ao presidente Trump determinar o lançamento de algumas dezenas de mísseis Tomahawk sobre uma base aérea síria para o senso comum responder prontamente: a aliança entre o presidente americano e seu par e patrocinador russo está desfeita. Todas as suspeitas sobre o relacionamento entre o governo de Moscou e o alto-escalão de Trump deixam de existir com esta simplicidade. Nem o presidente americano imaginou que seria tão fácil.

Esta é uma das teorias que podem explicar o ataque americano à Síria. E não se trata de uma tese conspiratória, mas de uma análise bastante direta sobre os elementos disponíveis. A conta é fácil: Putin investiu capital político, recursos financeiros e tecnológicos para interferir nas eleições americanas.

Oitenta dias depois de empossado, o presidente russo rompe com o apadrinhado após um ataque militar que, como escrevi em meu último texto, não alterou um milímetro da realidade no solo sírio. O ataque pode ter sido importante para estabelecer limites (se Assad não voltar a usar armamento químico, claro), foi um símbolo que funciona ao governo Trump como parte da ideia fixa de mostrar diferenças em relação a Barack Obama, mas não vai além disso. Pelo menos até agora.

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson (foto), foi a Moscou. Levou um chá de cadeira público, mas no final se encontrou com Vladimir Putin. O presidente russo expressou seu descontentamento com Trump, disse que teve uma espécie de déjà-vu com março de 2003, quando os EUA invadiram o Iraque sem qualquer comprovação das armas de destruição em massa de Saddam Hussein. Putin e Trump subiram os discursos simultaneamente.

O pano de fundo disso tudo pode estar relacionado às investigações de autoridades federais americanas sobre a interferência russa durante as eleições presidenciais nos EUA. Lembrando que dois membros da alta cúpula do governo Trump já tiveram problemas sérios com isso: Michael T. Flynn, conselheiro de Segurança Nacional, foi forçado a deixar o cargo depois de seus encontros com o embaixador russo em Washington, Sergey Kislyak – considerado um espião de Putin por CIA e FBI. Jeff Sessions, Procurador Geral, também é alvo da mesma suspeita.

Já escrevi sobre as relações de pessoas próximas a Trump – e que trabalharam durante a campanha – com a Rússia. Leia mais aqui.

No final das contas, o rompimento com Moscou é uma necessidade. Num cenário de alta suspeição sobre membros do governo Trump é importante ao presidente americano reforçar que sua aliança com a Rússia não é automática. A ideia é baixar o tom das críticas e deixar em segundo plano a vigilância permanente sobre seus aliados mais próximos. Ao mesmo tempo, isso muda pouco nos planos da Rússia para o Oriente Médio.

As questões que se apresentam a partir de agora podem apontar os próximos passos. Os russos querem manter suas posições na Síria (o porto de Tartus e seus ativos locais, a aliança com Irã e Hezbollah para alterar o equilíbrio de forças regional). Mas Assad pode ser dispensado em algum momento, especialmente porque este é o ativo menos relevante no cenário atual.

A posição americana mudou. Antes pragmático, o governo Trump já discursa contra Bashar al-Assad. E este novo posicionamento abre espaço para novos caminhos. Se a ideia for manter a aliança com a Rússia (mesmo que menos explícita, algo em que acredito), Putin e Trump podem coordenar esforços para inaugurar uma nova Síria sem seu presidente. Assad é a parte mais fraca desta história e o segundo ataque com armamento químico foi um grave erro estratégico (isso sem mencionar as questões humanitárias mais óbvias).

Mesmo que os russos ainda se mantenham firmes na negação do ataque por parte de Assad, já sabem que o ditador sírio está envolvido. E este é um aspecto que interessa à Rússia, até porque, quatro anos atrás, Putin e Obama alcançaram um acordo que obrigava Assad a se desfazer de seu arsenal químico. Agora está evidente que isso não aconteceu por completo.

Não me espantaria se os russos se cansassem do presidente sírio e, de maneira pragmática, acabassem por ceder aos argumentos americanos. A conquista de Washington vale muito mais do que a aliança com um presidente que só se mantém no cargo graças aos esforços de Moscou, caso de Assad.

Se isso acontecer, Trump terá conquistado uma grande vitória internacional. Uma vitória que Obama nunca alcançou. E Putin sabe que esta é uma moeda de troca importante para se ter na manga, principalmente porque o presidente Trump ainda mantém as sanções contra a Rússia em virtude da invasão à Crimeia, em 2014. Esses elementos – Assad e sanções – podem estar na mesa a partir agora. Resta saber como será o diálogo entre russos e americanos. 

12 de Abril - Quarta-feira - 13:46

Existe uma narrativa em curso que ganha força a cada dia de que Trump teria ordenado o ataque à Síria como forma de ameaça ao programa nuclear norte-coreano. De acordo com esta teoria, a estratégia atual americana seria deixar evidente que a política externa do país considera seu poderio militar de maneira ainda mais assertiva como caminho para alcançar seus objetivos internacionais. Tudo isso faz realmente sentido, mas há alguns pontos que merecem análise mais aprofundada.

 

O primeiro ponto é que esse grande corpo teórico que se forma em torno do ataque à Síria funciona como balizador estratégico à Casa Branca. Ou seja, atende aos anseios de Washington porque pode iniciar um processo de resolução parcial do problema grave de impasse entre Putin e Trump (pelo menos em relação a este aspecto específico); os presidentes e aliados se distanciaram depois dos últimos acontecimentos. Putin não engoliu a decisão de seu protegido de atacar um território que considera como sua área de atuação e, como sempre escrevo por aqui, base principal da estratégia russa na construção de um novo Oriente Médio.

 

Portanto, a narrativa que sustenta o ataque à Síria como recado americano à China e Coreia do Norte recoloca nos eixos em boa medida a aliança entre Trump e Putin. Ou melhor, inicia o processo de cura desta ferida. Como o episódio ainda é muito recente, a reaproximação entre EUA e Rússia pode não ser imediata, mas já não parece o cenário de terra arrasada de alguns dias atrás.

 

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, encontrou-se com seu par russo em Moscou, Sergey Lavrov depois de tomar um chá de cadeira de um dia inteiro. Por mais que a versão oficial dê conta de um afastamento entre a cúpula de liderança dos dois países, acho que ainda há mais a se examinar. Mas este é assunto para um próximo texto.

 

Sobre a tese de ameaça americana à dupla de países comunistas, algumas informações: a Coreia do Norte insiste em seu programa nuclear – e ainda com mais gravidade para os EUA – e no desenvolvimento de mísseis capazes de atingir o território americano. Os testes com esses armamentos vêm sendo levados adiante em sequência pelo regime de Kim Jong-Un e sofrem objeção pública chinesa desde fevereiro.

 

Por mais que a China represente o principal parceiro comercial da Coreia do Norte (responde por mais de 90% do comércio com o país), os chineses são estratégicos e colocam seus interesses nacionais em primeiro lugar. Como escreve Charlie Campbell na revista Time, “se uma grande instabilidade causar o colapso do regime (da Coreia do Norte), levas de refugiados podem ser despejados na China. Pior, a Coreia do Sul, aliada dos EUA, poderia reivindicar toda a Península Coreana, apresentando a possibilidade de que tropas americanas sejam deslocadas para a fronteira com a China”, escreve.

 

No final das contas, o cenário maior já apresenta poucas possibilidades à Coreia do Norte, inclusive em relação a seu principal e único aliado.

 

Agora, após o ataque americano à Síria, o discurso de repasse de ameaça ao programa nuclear norte-coreano coube bem demais aos EUA, que inclusive já despacharam o porta-aviões de propulsão nuclear Carl Vinson (foto) para a Península Coreana. É claro que existe uma formação mais assertiva por parte dos EUA, mas não necessariamente este movimento obedece a um encadeamento prévio ou representa uma demonstração de grande astúcia e capacidade de construção de estratégia internacional por parte do governo Trump. Mas, como política tem mais a ver com percepção de fora para dentro do que com competência de análise, está valendo. Ponto para Trump. 

10 de Abril - Segunda-feira - 12:40

De uma até então desconhecida “sala de operações conjuntas”, partiu um comunicado da milícia xiita libanesa Hezbollah após o ataque americano à base síria: “Os EUA cruzaram a linha vermelha e vamos responder a qualquer ato de agressão futuro de diversas maneiras”. O texto é vago, mas foi escrito para marcar posição. É importante porque admite a existência – que já se sabia – de um protocolo de atuação único entre Rússia, Irã e Hezbollah, os principais interessados na manutenção de Bashar al-Assad na presidência da Síria.

O comunicado já responde a uma das questões principais que surgiram após o ataque americano: como a Rússia irá interpretar a ordem de Donald Trump?

Num mundo cada vez mais complexo, interligado e dinâmico, o esclarecimento veio rápido. A posição russa está clara: se Trump quiser prosseguir, enfrentará reações.

Putin trabalha no Oriente Médio desde 2015 e se arriscou ao manipular as eleições americanas por um objetivo de longo prazo: redesenhar a região, fortalecendo seus aliados Irã e Hezbollah e, principalmente, deixando evidente que a prevalência americana acabou. Esta é a principal razão pela qual se empenhou pessoalmente na vitória de Trump. Se a ideia do presidente americano é mudar de lado, deverá encarar as consequências.

É aqui que reside a imprevisibilidade: Putin se expôs, teve sua estratégia descoberta por FBI e CIA, agentes russos foram expulsos dos EUA na sequência, mas nada disso importava a ele. Os mecanismos de análise são outros. Para o líder russo, a garantia de um aliado na Casa Branca (que graças a seu America First lhe daria ao menos quatro anos para aprofundar mudanças globais) compensava qualquer risco, qualquer exposição. Mas então, pouco mais de 70 dias depois de empossado, Trump pode ter mudado de ideia, postura inadmissível a seu principal patrocinador.

O termo “linha vermelha” empregado no comunicado não foi ocasional. É o mesmo que Barack Obama usou depois dos ataques químicos contra civis sírios em agosto de 2013.

Ao justificar o lançamento de mísseis contra a base síria, Donald Trump foi enigmático em certo sentido: “a ação tem como propósito acabar com o massacre e derramamento de sangue na Síria”, disse.

Ora, a Síria está em guerra civil há seis anos. Já há ao menos 470 mil mortos. Portanto, é possível afirmar que a ação de Trump realizada isoladamente não irá interromper o massacre e o derramamento de sangue.

E considerando a premissa acima há mais uma série de interpretações: ou Trump acreditava no poder ameaçador das forças militares americanas  de tal forma a ponto de imaginar que um ataque isolado já bastaria para interromper a guerra; ou ele imagina que agora irá liderar uma coalizão militar de potências ocidentais e monarquias do Golfo Pérsico (como a coalizão criada por Obama para combater o Estado Islâmico em 2014) para remover Assad do cargo (o que certamente provocaria um atrito militar com a Rússia e seus aliados, seguramente iniciando uma nova guerra mundial); ou este foi um ato isolado que não sinaliza qualquer estratégia americana de longo prazo.

E se a última hipótese for verdadeira, o governo americano precisará embalá-la num grande esforço de comunicação, algo como uma justificativa de que a ideia era simplesmente mostrar força, distanciar-se da inatividade da administração Obama deixando claro que Washington não irá tolerar o uso de armamento químico – a interpretação que dei ao ataque em meu último texto.

Mas precisará agir rápido, uma vez que, num mundo dinâmico, Rússia Síria e Irã já retomaram os ataques contra opositores ao regime de Assad e, claro, civis. Portanto, quanto mais o tempo passa e os mortos sírios se acumulam nas estatísticas, mais inócuo se torna o ataque de Trump à base área.

Para completar – e talvez o presidente americano ainda não tenha se dado conta disso –, a incapacidade deste ataque dos EUA em alterar um milímetro da realidade no solo sírio ainda reabilita parcialmente a doutrina internacional de Barack Obama, que não realizou ataques ao país, mas defendia a remoção de Assad do cargo – vale lembrar que até semana passada a gestão Trump tendia a ser pragmática e assumir que Assad poderia permanecer à frente da Síria, mesma posição do governo russo. Não há dúvidas agora de que a Casa Branca precisará rever este discurso se ainda tiver como objetivo comunicar alguma coerência aos cidadãos americanos e sustentar a tese em torno do ataque. A bola agora está com Trump. A posição dos russos já é conhecida. É a vez do presidente americano fazer o próximo movimento.

07 de Abril - Sexta-feira - 09:23

Definitivamente, Donald Trump é um presidente imprevisível; os ataques promovidos pelos EUA à Síria contradizem não apenas sua campanha eleitoral, mas toda a atuação que teve até agora. E não apenas isso, representam uma guinada completa em seu discurso histórico (quando ainda era apenas um opositor aleatório a Barack Obama) e de membros de sua administração.

Nikki Haley, embaixadora de Trump na ONU, disse na última quinta-feira que “a prioridade não é mais a retirada de Assad (do cargo)”. Rex Tillerson, secretário de Estado, disse que “o status de longo prazo do presidente Assad será decidido pelo povo sírio”. Pois é, fica complicado entender os rumos e diretrizes de Washington.

No entanto, no meio a tantas contradições, há alguns pontos que ajudam na compreensão do que pode estar em curso neste momento ou na estratégia de longo prazo do governo Trump – se é que ela existe.

Trump pôs na conta de Obama a responsabilidade pelos ataques com armamento químico de Bashar al-Assad. Disse que a fraqueza do governo anterior – de Obama – permitiu a Assad promover novos ataques, uma vez que, em 2013, o então presidente americano nada fez para conter o ditador sírio depois da constatação de uso de armamento químico contra civis. Trump sempre fez de questão de se distanciar de Obama, de deixar claro ao povo americano que ambos representam lados exatamente opostos em todos os aspectos do debate político e ideológico.

Nesta semana, quando surgiu a informação de que Assad fez novamente uso de armamento químico, houve consenso mundial de que este era o limite. Não ficava claro se haveria punição, mas EUA, França e Grã-Bretanha tentaram aprovar uma resolução no Conselho de Segurança da ONU. China e Rússia se opuseram. Pela primeira vez, Trump se viu no lado oposto a seu patrocinador eleitoral Vladimir Putin.

E aí restam algumas perguntas que, quando respondidas, irão esclarecer se há de fato uma nova posição na Casa Branca: Trump entrou em colisão retórica com Putin, tanto que acusou a Rússia de complacência e incompetência na Síria. Esta crise será aprofundada a partir de agora? Se isso acontecer, como Moscou irá interpretar um eventual rompimento com Washington?

Tudo depende basicamente da decisão de Trump. Ao justificar os ataques à Síria, o presidente americano deu uma informação que, dependendo dos novos passos, pode esclarecer qual será a postura americana daqui por diante: “Nesta noite, ordenei um ataque militar à base aérea na Síria de onde partiu o ataque químico”, disse.

O que Trump quis dizer nesta declaração é bastante objetivo; Bashar al-Assad foi punido especificamente pelos ataques com armamento químico a civis, não pela Guerra Civil na Síria, não pela maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial.

Isso pode levar a crer que a ideia seja estabelecer o limite da guerra na Síria. Se for este o caso, Trump não estaria assim tão distante de seu posicionamento de campanha, nem de sua diretriz máxima de America First – que tem como base de sustentação a crítica aos gastos internacionais americanos, inclusive em empreendimentos militares no Oriente Médio.

Talvez a ideia de Trump tenha sido deixar ainda mais evidente que, ao contrário de Obama, ele age quando precisa estabelecer limites pontuais. Ainda no terreno especulativo, é possível que estes ataques a Assad representem o exercício de estabelecimento de fronteiras bastante claras, mas não necessariamente o início de uma nova ofensiva americana de longa duração.

Se for este o caso, o presidente Trump terá obtido sucesso: além da aprovação de representantes importantes dos dois partidos (Democrata e Republicano) e de parte importante da comunidade internacional (ainda sob impacto emocional das imagens de crianças atingidas pelos ataques químicos), estrategicamente conseguirá manter as relações com os russos (mesmo apesar dos arranhões) – interessados na reorganização geopolítica de longo prazo do Oriente Médio e em seus interesses militares e políticos na Síria. 

06 de Abril - Quinta-feira - 10:20

Os novos ataques com armamento químico a civis na Síria são a principal evidência do fracasso da comunidade internacional em lidar com a crise humanitária do país. O que está acontecendo agora é um jogo de empurra onde ninguém quer ser responsável por esta tragédia humanitária. Na guerra de informação tão comum nas relações humanas dos dias atuais – e, claro, as relações internacionais são retrato de uma era – há dois principais polos de atuação: de um lado, a tentativa de se livrar da culpa; de outro, a negação dos fatos.

As potências internacionais estão envolvidas nos dois lados. A postura oficial americana não é de negação, mas de repasse. Se em agosto de 2013 – quando os primeiros ataques com armamento químico foram registrados – Donald Trump criticava o então presidente Obama com a argumentação America First que hoje é a marca de seu governo (“Não ataque a Síria, conserte os EUA”, Trump escreveu em seu twitter há quatro anos), agora a postura é completamente diferente; o atual presidente quer colocar a tragédia atual na conta de Barack Obama. Declaração oficial na sequência da divulgação dos acontecimentos na Síria: “Estas ações hediondas (cometidas) pelo regime de Bashar al-Assad são consequência da fraqueza e indecisão do governo passado”.

Como sempre costumo escrever, quem procura coerência certamente se frustra com a política.

A ideia de Trump não é apenas evitar se comprometer com qualquer solução da crise síria (America First), nem se resume a culpar Barack Obama, adversário político ao qual Trump representa sua mais perfeita antítese no cenário americano. Esses elementos adornam a situação, mas compõem apenas parte do quadro mais amplo.

No realismo político levado ao extremo pela administração atual da Casa Branca, é importante também evitar entrar em choque com seu principal fiador, aquele que vai dividir ou até mesmo substituir os EUA no Oriente Médio e permitir que Washington dedique-se integralmente a seu projeto eleitoral (America First): Vladimir Putin, o líder admirado por Trump, patrocinador da vitória republicana nas eleições passadas e, sempre é importante deixar claro, o mais importante aliado de Bashar al-Assad.

Colocar a tragédia do uso de armamento químico na conta de Obama é a única saída que permite a Trump reconhecer a evidente crise humanitária sem, ao mesmo tempo, causar qualquer atrito com o aliado Putin. Este é o ponto principal da postura adotada pelos EUA.

Negando os fatos

Importante reconhecer que EUA, Grã-Bretanha e França ao menos tentaram aprovar no Conselho de Segurança da ONU uma resolução condenando os ataques. A Rússia, no entanto, considerou que o texto era anti-Síria (?) e baseado em informação falsa. A China argumentou que havia uma distorção da questão. Rússia e China são ainda mais extremas que Trump, que, por mais contraditório que seja, reconheceu a tragédia humanitária.

Em agosto de 2013, quando os ataques de Assad com armamento químico contra os próprios civis sírios ficaram evidentes, o então presidente Obama e o eterno presidente Putin conseguiram chegar a um acordo frágil. O presidente sírio permitiu que inspetores internacionais auditassem e removessem o arsenal químico encontrado. Na época, esta foi a solução encontrada por Obama para evitar mais uma guerra liderada pelos EUA no Oriente Médio (depois dos fracassos de Afeganistão, Iraque e Líbia, em ordem cronológica). Ficou a sensação que o limite havia sido alcançado e dali em diante a situação seria resolvida por meio de um grande acordo internacional com todas as partes envolvidas na Síria. Deu tudo errado.

Não apenas a Rússia conseguiu a manutenção cada vez mais irreversível de Assad, mas também está claro que a Síria conseguiu esconder armamento químico da inspeção dos agentes. Para azar de Obama e do restante da comunidade internacional, a situação no terreno hoje favorece a ampliação da tragédia humanitária, uma vez que está claro que Bashar al-Assad conta com a complacência e o apoio político de Rússia e China no Conselho de Segurança, além de apoio militar efetivo de Rússia, Irã e Hezbollah neste novo Oriente Médio. E, para completar, o cenário apresenta um mundo menos interessado em soluções multilaterais. Os eventos desta semana mandam a mensagem prática de que, de maneira ainda mais clara, os civis sírios não contam com nada nem ninguém além da própria (falta de) sorte.

04 de Abril - Terça-feira - 11:00

De acordo com levantamento das forças de segurança russas, estima-se que 3,4 mil cidadãos do país tenham se unido ao Estado Islâmico e a outros grupos terroristas no Oriente Médio. Depois dos atentados em São Petersburgo, é natural que se procure o caminho mais evidente para explicar a realização dos ataques. Mas é importante deixar claro que, por mais óbvio que possa parecer, nenhuma hipótese pode ser descartada.

Como de costume, já há uma série de teorias povoando o universo virtual, muitas delas conspiratórias. A gigantesca Rússia é um país de enormes complexidades e que exerce papel cada vez mais central na cena geopolítica dos dias de hoje graças a Vladimir Putin, líder controverso cuja personalidade e intenção se confundem com as ambições históricas russas.

Entre todas as teorias circulando, ganha força a ideia de que o presidente Putin estaria por trás do ocorrido de forma a frear as ambições da oposição um ano antes das próximas eleições. Apesar de, como escrevi, não ser possível neste momento desconsiderar qualquer hipótese, é importante entender também a fragilidade desta argumentação.

Putin ainda detém 80% de aprovação popular. Mesmo que o número fosse mentiroso, estamos falando de um poder estatal capaz de manipular a última eleição presidencial nos EUA. Que benefício Putin poderia obter ao mandar realizar os atentados em São Petersburgo? A oposição russa já é silenciada, os jornalistas independentes são mortos ou perseguidos, os políticos de oposição são envenenados. Putin não precisa de atentados para resolver uma situação que já está sob controle (mesmo com a manifestação considerável da semana passada sobre a qual escrevi por aqui).

Em setembro de 2015, a Rússia entrou de vez na Guerra Civil Síria para segurar Bashar al-Assad no cargo. Mais do que isso, para sustentar as bases russas na Síria e remodelar o Oriente Médio ao lado de seus aliados (além de Assad, claro) Irã, Hezbollah e, depois de uma crise realmente grave, Turquia. A campanha na Síria é bandeira de Putin e representa a parte mais prática e relevante do sonho de renascimento da grande Rússia, projeto pessoal de Putin desde que se tornou o homem forte do país (e não deixou de ser) em 2000.

Egresso da KGB, Putin é o pacificador, o arquiteto deste grande plano em execução. A ideia de que poderia realizar atentados contra a própria população (algo já feito pela FSB, sucessora da KGB, em 1999, importante dizer) não me parece fazer sentido. Não agora. Principalmente porque mesmo que os ataques enfraqueçam a oposição russa eles podem se voltar contra o próprio Putin. O raciocínio binário pode levar a população não a se aliar à oposição necessariamente, mas a exigir que Moscou abandone a luta na Síria. Afinal de contas, por que se expor a redesenhar o mapa do Oriente Médio se em nome deste projeto a insegurança passar a tomar conta das metrópoles russas?

Isso sem falar no prejuízo direto para os órgãos de segurança interna. Todo atentado terrorista é fruto de falha. Atentados em trens numa cidade grande caem necessariamente na conta do governo. As forças de segurança falharam e os terroristas obtiveram sucesso. É importante mencionar que o discurso local de Putin também justifica a atuação do país na Síria como forma de combater os terroristas antes que eles consigam chegar à Rússia. Tudo isso pode ser questionado a partir de agora, até porque Moscou prefere os fundamentalistas islâmicos russos deixando o país e se juntando ao EI na Síria a ter de conviver com esta perigosa proximidade.

Possibilidade de mudança

Este assunto é um pouco esquecido diante de tantas mudanças internacionais, mas russos e chechenos travaram duas guerras nos anos 1990. A Chechênia só foi dominada pela Rússia em 2000, justamente o ano de ascensão política de Putin.

Sete anos mais tarde, em 2007, o movimento separatista checheno passou a se autodenominar o Emirado do Cáucaso e realizou três grandes ataques contra a Rússia (2009, 10 e 11). Após a morte do líder do movimento, Doku Umarov, em 2013, muitos dos membros do grupo foram para a Síria, onde passaram a combater Putin no Oriente Médio. Para as forças de segurança russas, este é o melhor cenário, uma vez que imaginavam manter os terroristas chechenos distante do território russo.

Se o Emirado do Cáucaso – em aliança com o Estado Islâmico – tiver sido capaz de atacar São Petersburgo, Putin precisará rever suas estratégias de defesa doméstica e também sua atuação no Oriente Médio. Por todos esses fatores, não considero que o presidente russo tenha qualquer benefício com os ataques desta segunda, muito pelo contrário; a imagem de homem forte que gosta de cultivar sai danificada.

31 de Março - Sexta-feira - 10:30

Donald Trump assinou nesta semana decretos que representam uma reviravolta (um retrocesso, para ser mais claro) na política ambiental americana e na forma como o país liderou as discussões sobre o aquecimento global durante o governo Obama. O atual presidente determinou que a Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês) reelabore o seu Plano de Energia Limpa que pretendia restringir emissões de gás carbônico por usinas existentes – justamente as movidas a carvão.

O carvão é um tema que aparece aqui no site desde a posse de Trump, em 20 de janeiro. É símbolo não apenas de uma era passada de combustíveis fósseis, mas também serviu como ilustração do olhar de Trump sobre o perfil de seu eleitorado mais fiel.

Desde o primeiro dia de governo, tenho insistido na metáfora dos carvoeiros do estado do Tennessee como símbolo não apenas da vitória política do conservadorismo e da extrema-direita, mas também de como a administração americana hoje enxerga seu papel no mundo. Numa série de licenças poéticas, a Casa Branca passou a chamar o fim da política ambiental de Obama de “independência energética” e “nova revolução energética”.

Durante os primeiros dias de Trump no cargo, insisti que as demandas dos carvoeiros do Tennessee explicavam com bastante propriedade o conceito de America First. O raciocínio é até bastante simplório: por que cortar os empregos no setor carvoeiro em nome de uma questão ambiental que tem impacto em todo o planeta?

Se para muitas pessoas a resposta é óbvia, para Trump e seus eleitores a interpretação é completamente distinta: para eles, o aquecimento global representa um entreve ao crescimento econômico americano e à criação de empregos nos EUA. As premissas, portanto, justificam os decretos de Trump assinados nesta semana.

Vale dizer que a ideia de crise permanente agrada muitíssimo a atual administração. Ela atua como ratificadora do raciocínio simplório que apresentei acima. Por mais que a eles faça sentido, o fato é que não apresenta qualquer conexão com a realidade.

Como escrevi no texto em que analisei o legado de Barack Obama na política interna americana, os EUA não atravessam qualquer período de crise, muito pelo contrário. Depois de muito tempo – especialmente depois dos anos de crise econômica que quase levaram o país à bancarrota –, os EUA usufruem de taxa de desemprego quase inexistente (4,7%) e, graças em boa medida ao governo Obama, houve produção de novos e numerosos postos de trabalho por 75 meses consecutivos, dado inédito na história americana. Não por acaso, Barack Obama deixou a Casa Branca com aprovação de 60% da população.

A independência que Trump menciona quando opta por retirar o país da liderança do processo de busca da solução para o aquecimento global nada mais é do que a licença permanente para burlar os dilemas morais que regem a política externa americana desde que os EUA emergiram como superpotência na segunda metade do século 20. Para Trump, questões éticas e morais correspondem apenas a uma espécie de fardo a impedir o verdadeiro crescimento econômico dos EUA. Mesmo que, neste momento, a crise pragmática de desemprego e ausência de crescimento não correspondam ao cenário real.

Mas o presidente Trump age como empresário. Foi eleito em parte por isso. A assinatura dos decretos que retomam, entre outros, a geração de energia a partir do carvão é uma resposta ao eleitorado da América profunda. Como um bom negociador, o presidente dos EUA optou por premiar a qualquer custo seus principais investidores: os eleitores, os carvoeiros dos Tennessee. Mesmo que os atos do governo representem um enorme retrocesso para o restante do planeta, isso não faz a menor diferença. America First