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Esquina Musical
25 de Abril - Terça-feira - 01:30

Centenários 2017

Intérprete norte-americana associada ao jazz é tida como a "dama da canção"


Não existe comprovação de nenhum parentesco sanguíneo envolvendo Ella Fitzgerald e F. Scott Fitzgerald, mas é certo que tanto a cantora quanto o escritor norte-americano tinham algo em comum nas funções que desempenharam ao longo da vida: o estilo conciso, elegante e, até certo ponto, discreto, marca o canto de Ella assim como a escrita do autor de “Um Diamante do Tamanho do Ritz” e outros contos notáveis. O que não significa que houvesse falta de sentimento, na verdade, em ambos os casos, o estilo estava a serviço da emoção, mas não entregue a ela, prova de uma consciência que, associada a experiências de vida, fornece aos ouvintes e leitores o que se considera uma obra de arte em música e na literatura. Ella teve uma infância pobre e, tal qual a nossa exemplar brasileira Elza Soares, vestia-se tão maltrapilha que quase foi recusada pelo famoso chefe da orquestra que a acompanharia por vários anos, Chick Webb. No caso, sempre como coadjuvante, pois o estilo vinha todo de Ella Fitzgerald, “a dama do jazz”.

 

 

Se muitos especialistas contestam o título, não é por falta de talento da intérprete, mas sim porque ela estendeu sua voz a praias muito mais amplas. Assim, há uma parcela considerável da crítica que julga o epíteto “dama da canção” mais acertado ao que foi a trajetória de Ella. Certamente o público não faria ressalvas à constatação, já que foi por ele e, muitas das vezes, assistida por uma multidão que a cantora embalou e eternizou os clássicos da canção popular norte-americana, indo dos irmãos Gershwin a Duke Ellington, com parada obrigatória em Louis Armstrong – uma de suas grandes referências – ao brasileiro Tom Jobim, evidenciando não apenas o parentesco do jazz com a bossa nova, mas, sobretudo, os laços afetivos das canções populares destes dois países, com forte contribuição da população negra trazida do continente africano. A limpidez da voz e a precisa emissão colocaram Ella num patamar único dentro da história da canção, só comparável, em termos técnicos e escala mundial, à aclamação de Frank Sinatra. E ela envolveu a música n’Ella.


 Fotos: Arquivo e Divulgação. 

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23 de Abril - Domingo - 18:05

Análise

Cantor faleceu nesse domingo (23) aos 70 anos, vítima de câncer

É curioso notar que o cantor Jerry Adriani tenha influenciado artistas tão diferentes como Renato Russo e Raul Seixas. Embora ambos sejam associados ao rock ele exerceu sobre cada um impressões díspares. O que vem a revelar uma característica marcante da trajetória de Jerry. É difícil defini-lo não pela amplitude de seu estilo, mas, justamente, porque este foi moldado a partir de um repertório que procurou abarcar várias vertentes. Associado à Jovem Guarda, Jerry é, sobretudo, um cantor romântico. Nesse sentido, tanto a canção italiana que seduziu o líder da Legião Urbana quanto a sensualidade rebelde de Elvis Presley presente na gênese de Raul Seixas convergem para a mesma direção: a passionalidade. É certo que Renato a compreendia de maneira sincera, emocionada, tal como Jerry, ao passo que Raul se valia do sentimento para desferir suas ironias ferozes e inteligentes sarcasmos. Não é o caso de “Doce, doce, amor”, música que Seixas e Mauro Motta escreveram para o já consagrado Adriani no ano de 1972.

 

 

 

Tempos depois, quando Raul já havia falecido, a condição inverteu-se, e foi a vez de Jerry compor em homenagem ao amigo a canção “O Cavaleiro das Estrelas”, em que lançava mão de perspicaz sacada. “Raul ao contrário é luar”, dizia a letra. Nesta altura, Seixas ganhava o status de mito, enquanto a ascendência de Jerry sobre as gerações posteriores decaía. Se não representava mais a figura de força que, inclusive, protagonizou filmes e apresentou programas de televisão no auge da Jovem Guarda, Jerry manteve espaço que demarcou pelo fato de ter moldado sua personalidade a partir de versões. Ou seja, canções que já eram clássicas quando chegaram à sua voz, casos de “Querida”, tradução para “Don’t Let Them Move”, da dupla Garret e Howard feita por Rossini Pinto; e “Um Grande Amor”, originalmente “I Knew Right Away” de Cogan e Foster, adaptada por Romeu Nunes. Na confluência de vários mares, Adriani manteve a potência vocal e a canastrice da interpretação como trunfo para dar ao público estilo que só seria possível na mistura entre o português, o inglês e o italiano. Uma diversidade única.

 

Fotos: Divulgação; e Rodrigo Meneghello, respectivamente.


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20 de Abril - Quinta-feira - 04:20

Lista

Mártir da Inconfidência Mineira foi celebrado em samba, marcha e valsa

Símbolo da insurgência por sua atuação destacada na Inconfidência Mineira – mártir e principal símbolo do movimento – o alferes Joaquim José da Silva Xavier teve sua trajetória retratada na música, no cinema, na literatura, no teatro e nas artes plásticas, dentre outras manifestações culturais igualmente populares, tanto que o apelido tornou-se, inclusive, nome de cidade mineira: Tiradentes. Especificamente na canção, o rebelde Tiradentes foi exaltado em forma de samba-enredo, usado em paródia carnavalesca e cantado com lirismo numa valsa cuja matriz principal é o chorinho. Seja como for, sua imagem permanece levando para gerações a premência da liberdade, ainda que tardia.

 

 

Exaltação a Tiradentes (samba-enredo, 1949) – Mano Décio da Viola, Estanislau Silva e Penteado
“Exaltação a Tiradentes” nasceu de um sonho do sambista Mano Décio da Viola, que agregou aos versos recebidos durante a noite outros propostos por Estanislau Silva e Penteado. Antes da consagração, Décio e Silas de Oliveira haviam oferecido três sambas com o mesmo tema para a Escola de Samba do Império Serrano. Passada a frustração, a música foi cantada na avenida em 1949, mas só chegou ao disco em 1955, na gravação de Roberto Silva. Outros intérpretes não menos tarimbados a registraram posteriormente, dentre os quais Jorge Goulart com seu vozeirão e a irrepreensível Elis Regina, além de Maria Creuza, Cauby Peixoto e Mestre Marçal. Pioneiro, como o seu inspirador, é considerado o primeiro samba-enredo a ultrapassar os limites carnavalescos.

 

 

Minas ao Luar (choro-valsa, 2012) – Waldir Silva, Raphael Vidigal e André Figueiredo
Choro lento, ao ritmo de uma valsa, “Minas ao Luar” foi composta pelo cavaquinista mineiro Waldir Silva na década de 1970 para servir de prefixo musical ao evento que levava apresentações pelo interior de Minas. Waldir não só participou da primeira edição do projeto de serenatas como dividiu o palco com ninguém menos do que Juscelino Kubistchek, figura ilustre da política brasileira que ocupou o cargo de presidente do país. Muitos anos depois, o instrumentista apresentou suas composições autorais para que o jornalista Raphael Vidigal colocasse letras, fato que aconteceu em 2012. Um ano depois, o músico faleceria, mas a iniciativa que começou ali culminou com o lançamento do disco “Waldir Silva em Letra & Música”, em 2016. Na canção, composta com André Figueiredo, a cidade com o nome de Tiradentes aparece.

 

 

Cuidado com o pescoço (marchinha, 2017) – Raphael Vidigal, Ronaldo Ferreira e André Figueiredo
Quando Cristo reuniu seus apóstolos para celebrar a Santa Ceia disse que seria traído por um deles, de acordo com as escrituras bíblicas. Joaquim José da Silva Xavier, também conhecido como o alferes Tiradentes não tinha a mesma consciência, tampouco o imperador romano Júlio César, apunhalado pelas costas pelo filho adotivo Brutus. De acordo com lógica vigente há quem diga que quem votou em Cristo votou em Judas, e quem votou em Tiradentes também votou em Joaquim Silvério, e assim por diante. Fato é que a história não costuma ser muito simpática a tais personagens, não por acaso malhadas em celebrações até hoje típicas nas cidades. Michel Temer, talvez, tenha calculado mal o peso do tempo, embotado pela fricção momentânea que a estimativa de poder é capaz de causar. Em cima agora, de baixo para sempre. Que a lição de Tiradentes permaneça com essa marchinha.

Imagens: Charges de Jarbas; e Laerte, respectivamente.

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17 de Abril - Segunda-feira - 01:00

Música

"Paraibeiro" mistura choro com baião numa homenagem a mineiros e paraibanos

Quando o cavaquinista Waldir Silva (1931 – 2013) me apresentou sua obra autoral, logo me detive em uma canção específica, “Paraibeiro”, composta pelo instrumentista mineiro em parceria com o músico paraibano Zé Ramalho, 67, na década de 1970, período em que os dois se encontraram nos estúdios de gravação da Polygram.

Ali mesmo eles compuseram a melodia, um choro instrumental que brincava com as características da música mineira e paraibana, daí o título, advindo da mistura entre um paraibano e um mineiro.

Assim que a canção chegou às minhas mãos, em 2012, logo pensei em contar essa história levando em consideração o “estilo místico das canções de Zé Ramalho”, e compor a travessia de um cavaquinista mineiro que chega à Paraíba e encanta a todos com seu instrumento. 

música, com letra, foi gravada pela primeira vez em álbum lançado no final do ano passado, na interpretação da cantora mineira Luana Aires. “Waldir Silva em Letra & Música” traz 12 melodias de Silva que ganharam letras feitas por mim e em parcerias com André Figueiredo. Além da banda “Toca de Tatu”, participam do disco Lígia Jacques, Mauro Zockratto, Carla Villar, Célio Balona, Acir Antão, Violeta Lara, Pereira da Viola, Lucinha Bosco e o chorão Mozart Secundino (falecido em 2015 aos 92 anos), em seu último registro em estúdio, entre outros.

Tudo começou com a intenção de ampliar o alcance da música de Waldir Silva, que estava vivo no início do projeto e, inclusive, chegou a ouvir e aprovar todas as canções. Com o seu falecimento, transformou-se numa homenagem. Esperamos que ela toque cada vez mais corações. 

O álbum pode ser adquirido através do link:

http://www.esquinamusical.com.br/cd-waldir-silva/

Ouça a música Paraibeiro:

Paraibeiro
Melodia: Waldir Silva e Zé Ramalho
Letra: Raphael Vidigal

Na Paraíba um mineiro assim chegou
Usava botas carmesins e um terno azul
Sobre a cabeça o chapéu de um verde rum
No olhar cingia a esperança contra alguns
Sua barriga reclamava do jejum
Obstinado ignorava o próprio som
E caminhava como se fosse nenhum
Uma alma leve, a via sacra de Jesus
Abriu a pasta e cuidadoso retirou
O objeto delicado espiou
Os curiosos o cercaram, um a um
Na Paraíba um mineiro assim chegou
E o velho cavaquinho ele desafiou
Ele desavisou
Ele descosturou
Ele reinventou
Ele não se importou

 

Com essa magia
Ele trouxe à geração
A nova maneira
De tocar o coração
Era fama e moda na cidade onde aportou
Mas logo à sua terra regressou

Ouça todas as músicas do álbum