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Cidadania

Um país de corpo negro e alma racista

A desigualdade está presente na escolaridade, renda e expectativa de vida

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Um país de corpo negro e alma racista
A desigualdade está presente na escolaridade, renda e expectativa de vida
PUBLICADO EM 13/09/08 - 20h20

A democracia racial brasileira ainda é um discurso apaziguador que não tem apoio na realidade de 92 milhões de negros e negras que habitam o país. No Brasil, ser negro significa ter menos estudo, trabalhar mais, ser mais pobre e viver menos. É o que atesta a pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a Secretaria de Políticas para Mulheres e Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas.

"O Brasil tem o desejo de não ser racista e por isso esconde o que é. O fato de não enfrentarmos a realidade não permite que sejamos aquilo que queremos ser. A sociedade brasileira precisa se repensar caso queria superar a desigualdade racial", afirma Maria Inês Barbosa, coordenadora-executiva do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas.

Segundo a pesquisa, apesar de representar metade da população do país, uma minoria negra consegue romper com o destino traçado pelo racismo institucional e subir os degraus da escala social para se colocar em pé de igualdade com os brancos.

Maria Aparecida Moura, 41, doutora, coordenadora de pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais e a única professora negra na história da escola, é um desses raros exemplos. Filha de lavadeira, Maria Aparecida faz parte de uma das primeiras famílias que ocuparam um terreno onde hoje é a Vila São José. Depois de ter a casa destruída por uma enchente, a família deixou a favela e construiu um barraco de lata no bairro Petrolândia. Aos 14 anos, ela começou a trabalhar como empregada doméstica.

Insistência. Decidida a continuar estudando, ela condicionou o emprego à escola. "Fui trabalhar numa casa na Cidade Jardim com o compromisso de que continuaria estudando. Chegou o 2º grau e eu queria fazer o científico, mas o que estava escrito pra mim era o curso técnico, que você faz e começa a trabalhar. Acabei fazendo o magistério por uma pressão externa e interna, eu admito", conta Maria Aparecida.

Com o ensino médio concluído, Maria Aparecida trabalhou como secretária, fez transcrição de fitas, trabalhou novamente como doméstica, teve a primeira filha, começou a participar do movimento negro e só em 1989 prestou vestibular. Mesmo tendo que pegar oito ônibus por dia, cuidar da filha de dois anos e administrar os conflitos conjugais gerados pela dedicação ao estudo, ela concluiu a graduação e foi aprovada no mestrado.

Pouco depois fez o concurso para professora e, já como professora titular da UFMG, fez seu doutorado. "Se você parar para pensar, é um cenário tão inóspito que tem tudo para dar errado. Acho que até o fato de eu ter me alimentado na cozinha da patroa da minha mãe me ajudou a chegar até aqui", comenta.

Metamorfose. Se Maria Aparecida rompeu os limites e alcançou um lugar reservado aos brancos, o respeito ainda precisa ser reconquistado todos os dias. "O racismo se metamorfoseia e te acompanha aonde você for. E o racismo acadêmico me parece pior porque ele é o contrário do discurso. Tive um período muito militante, mas parei de tentar mostrar para os brancos o quão racistas eles são. Hoje as armas que tenho são outras. Se tem uma tarefa que desenvolvo com convicção é tirar essas pessoas da multidão, tirar a invisibilidade que recai sobre o negro", afirma.

A doutora em ciência da informação diz que convive no dia-a-dia com a prática do racismo, seja dos colegas acadêmicos - que chegaram a boicotar publicamente sua ascensão profissional e desautorizá-la como coordenadora - seja dos alunos, que sempre testam sua competência nas primeiras aulas.

Para que o Brasil avance no processo de igualdade racial, Maria Aparecida acredita que duas coisas são essenciais: a melhoria da educação e o fortalecimento da auto-estima dos negros. E não apenas no sentido frívolo de se sentir bonito, mas de ser aceito.

"Se afirmar como negro não é só saber sambar. Tem que sambar e falar inglês porque, senão, quando você ocupa um espaço de poder, você não faz nada, fica refém. E a gente não tem o direito de vacilar. Quando um negro intelectual dá certo ele incomoda, fica todo mundo esperando ele cair", diz.

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