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Entrevista

“A conexão do Brasil com Cuba era um certo obstáculo” 

Brian Bauer - Cônsul dos Estados Unidos em Belo Horizonte

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Estados Unidos em BH
“O Brasil já é um ator relevante no cenário internacional, mas acredito que há potencial (para mais)”
PUBLICADO EM 05/07/15 - 03h00

Belo Horizonte ainda não tem um consulado norte-americano, mas já tem cônsul. Responsável pela organização do escritório diplomático, que deve abrir as portas em 2017, Brian Bauer aproveita o dia da independência norte-americana, comemorado neste fim de semana, para comentar sobre seus locais preferidos em “Belo”, como se refere à cidade, falar da aproximação entre os dois países e explicar que o fim do visto depende também do governo brasileiro.

Você pode contar um pouco sobre a sua carreira como diplomata?

Meu primeiro posto foi em Dubai. Depois eu fui para Genebra, na Suíça, e para a Macedônia, um pequeno país próximo à Grécia. Estou aqui em Belo Horizonte há pouco mais de um ano.

O que você gosta de fazer em Belo Horizonte?

Explorar a cidade. Antes de chegar aqui, eu estava na Macedônia, que é um país muito pequeno, onde todo mundo conhece todo mundo, você vai sempre para o mesmo lugar. O que mais gosto de Belo é a quantidade de bairros que posso explorar. Eu gosto muito de correr, então vou bastante à lagoa da Pampulha e à praça da Liberdade. Também vou muito ao CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) e à Casa Fiat de Cultura. E tem os restaurantes. Eles são minha parte preferida da cidade.

Tem algum restaurante preferido?

Eu realmente gosto da Mercearia 130. Tem uma atmosfera relaxada, a comida é boa, e o atendimento é amigável. Quando quero algo mais formal vou ao Glouton. Eu me lembro do meu tempo na França, é um mix interessante de comida francesa e Minas Gerais.

Você torce por algum time de futebol no Brasil?

Isso é um pouco complicado, porque todo mundo é muito apegado ao seu time. Quando eu cheguei, achei que deveria torcer pelo América por causa do nome (risos). Mas a maioria dos meus amigos e vizinhos é atleticana, e eles me deram camisas e me fizeram me envolver com o time.

O que você achou mais curioso sobre a cidade?

É uma cidade enorme. Tem tanta gente, mas ainda tem uma mentalidade e sensação de uma cidade pequena. A expressão “Belo Horizonte é um ovo” não está errada. Estou sempre encontrando gente quando saio. Não é um aspecto negativo, mas não é algo que eu esperava.

Por que é importante para os Estados Unidos abrir um consulado em Belo Horizonte?

Até a gente abrir o escritório daqui, os assuntos de Minas Gerais eram tratados no Rio de Janeiro, e o distrito consular deles é enorme. Eles cobrem Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e o Estado do Rio de Janeiro. Dessa forma, Minas Gerais não estava recebendo a atenção que deveria. Tem tantas instituições aqui que não só são relevantes para Minas, mas para o Brasil. Já começamos a ver um avanço e estamos nos esforçando para nos aproximar ainda mais de instituições educacionais, como a PUC Minas e a UFMG. Minas Gerais é um Estado importante do ponto de vista político, econômico e pela quantidade de pessoas que viajam para os Estados Unidos. Esse é um grande motivador para abrir o consulado.

Além do visto, que tipo de atividades os belo-horizontinos podem esperar do consulado?

Haverá mais oportunidade de fazer contato. O consulado vai trazer mais atividades no setor cultural, como cantores, dançarinos, orquestras, sinfonias, escritores e poetas norte-americanos.

Por que o intervalo longo entre o anúncio e a abertura de fato do consulado?

É um processo que acaba levando bastante tempo. Em parte, isso acontece porque todo o planejamento é feito dos Estados Unidos. O plano arquitetônico, por exemplo, é todo feito em vários escritórios do governo, e muitas vezes os arquitetos viajam ao local onde o consulado será aberto e percebem que terão que fazer uma série de mudanças. Tudo isso gasta bastante tempo.

Qual é a previsão de abertura do consulado?

A data ainda é flexível. Eles já começaram a trabalhar do lado de dentro, e estamos esperando que a reconstrução comece ainda neste ano. Eu imagino que o consulado abrirá em algum momento de 2017.

Qual é a expectativa de público atendido no consulado?

Esperamos 100 mil requerimentos de visto por ano. Atualmente, os mineiros correspondem a 30% dos requerimentos de visto no Rio. Considerando que a maioria dos mineiros vai pedir o visto em Belo Horizonte, chegamos a esse número – apesar de que esse pensamento não deve ser aplicado por quem é de Juiz de Fora.

Além de emitir vistos, o consulado é um meio de promoção do comércio entre os dois países. Quais são os principais interesses comerciais dos EUA em Minas Gerais?

Temos interesses diversos em vários setores de Minas, como a mineração. Porém duas empresas que eu acho interessantes são o Google e a Chrysler. O Google tem uma presença grande aqui. Na última vez que fui aos Estados Unidos, me encontrei com a equipe do Google nos EUA e eles sabiam muito sobre Belo Horizonte e o que acontece aqui graças ao escritório. A presença norte-americana em Belo Horizonte e no setor automobilístico do Brasil também ficou muito mais forte com a fusão da Chrysler com a Fiat. Esses são exemplos concretos, mas temos interesses em uma variedade de negócios, como mineração, alimentos e setor hoteleiro.

Na última semana, o presidente Barack Obama disse que começará uma fase “mais ambiciosa” no relacionamento entre os países. Isso é um indício do aumento da relevância do país no cenário internacional?

No fim das contas, é para isso que estamos trabalhando. O Brasil já é um ator relevante no cenário internacional, mas acredito que há potencial para que o país tenha ainda mais influência em uma escala global e acredito que os Estados Unidos gostariam de ver isso acontecer. É benéfico para os EUA ter um parceiro mais forte na América do Sul, um parceiro que tem mais peso no cenário mundial, e acho que o Brasil está caminhando nessa direção.

O que falta para o país chegar e esse ponto?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares (risos). Eu acho que o mais importante é a vontade do governo brasileiro de chegar e esse ponto. O país vai continuar a crescer e a trilhar esse caminho enquanto os líderes brasileiros tiverem interesse.

A entrada no Brasil no Global Entry (programa que agiliza a entrada de viajantes frequentes) é um sinal de que a exigência do visto pode acabar?

São dois programas muito diferentes, que não necessariamente andam juntos. O Visa Waiver (programa que dispensa o visto) tem sido muito discutido no Brasil nos últimos anos. Para qualquer país entrar no programa é preciso seguir algumas regras e, infelizmente, o governo brasileiro ainda não as cumpre. Atualmente, há dois grandes empecilhos. O primeiro é que o país tem que ter uma porcentagem mínima de vistos aprovados. O Brasil está perto, mas ainda não chegou lá. O segundo é que deve haver uma troca de informações sobre os viajantes que entraram nos Estados Unidos, e, até agora, o governo brasileiro não se interessou por isso.

Tudo indica que estamos chegando ao fim do embargo econômico imposto a Cuba, um país historicamente próximo ao Brasil. Como isso afeta a relação entre os dois países?

O presidente Obama anunciou nesta semana que vamos reabrir nossa embaixada em Havana, e Cuba vai reabrir sua embaixada em Washington. Essa é uma notícia maravilhosa, é um grande passo para a frente, para normalizar nosso relacionamento com Cuba. Porém já foi apontado que não estamos somente restabelecendo relações diplomáticas com Cuba, estamos estreitando laços com toda a América Central e do Sul. A conexão entre o Brasil e Cuba sempre foi um certo obstáculo para os EUA. Agora, que estamos nos aproximando de Cuba, os Estados Unidos e o Brasil têm mais uma área em que podem trabalhar juntos para restabelecer relações regionais.

A Embaixada dos Estados Unidos enviou nota ao jornal O TEMPO questionando a tradução da resposta do cônsul Brian Bauer à pergunta "Tudo indica que estamos chegando ao fim do embargo econômico imposto a Cuba, um país historicamente próximo ao Brasil. Como isso afeta a relação entre os dois países?". Segundo a embaixada, a tradução correta é: “Eu acho que a posição dos Estados Unidos em relação a Cuba limitou um pouco o relacionamento dos EUA com o Brasil, porque o Brasil sempre desejou ver as relações entre os EUA e Cuba normalizadas".

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