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Fotógrafo de O TEMPO é detido ao apurar denúncia na saúde de Nova Lima

Guarda municipal questionou trabalho da nossa equipe e a conduziu a uma delegacia de Nova Lima

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PUBLICADO EM 08/03/16 - 12h12

O repórter fotográfico Alex de Jesus, acompanhado da repórter Débora Costa, foi detido ao checar uma denúncia em uma unidade de saúde de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, na manhã desta terça-feira (8). O trabalho de apuração da equipe não pode ser concluído. 

A denúncia dá conta de que tem ocorrido uma limitação de exames nas diversas unidades de saúde da cidade. A orientação seria da prefeitura e começaria a partir deste mês. Caso as unidades atingissem a cota máxima de exames por mês, os locais seriam restringidos de pedir novos exames, podendo fazê-los apenas no próximo mês, o que limita o atendimento ao público da cidade. 

Após sair de uma das unidades, a equipe se dirigiu a Policlínica de Nova Lima, onde aconteceu a abordagem de um guarda municipal. 

"No primeiro hospital em que fomos chegamos a conversar com a responsável, que disse que não iria falar e que não poderíamos fazer fotos ali. Então, saímos e fomos para a Policlínica continuar a apuração. O planejamento era de ir em outras unidades de saúde, mas tivemos que interromper o trabalho ali", conta o fotógrafo Alex de Jesus. 

"Enquanto eu estava na unidade conversando com os pacientes que esperavam, o Alex ficou do lado de fora. Depois ele entrou e ficou me esperando sem fotografar a unidade. Consegui um paciente que se dispôs a ser fotografado na porta da unidade, do lado de fora. Neste momento, enquanto ele saía, chamei o Alex para fazer a foto. Foi aí que o guarda municipal José Carlos Silva apareceu e abordou o fotógrafo", explica a repórter Débora Costa. 

Segundo o fotógrafo, o agente pediu para que ele apagasse a foto que teria feito dele. "Como eu não havia feito foto nenhuma dele e nem o tinha visto até aquele momento, respondi que não tinha fotos dele para apagar", conta. 

O pedido foi para que, então, o fotógrafo entregasse seu equipamento de trabalho. Ele se recusou e chamou a repórter para irem embora. No trajeto entre a unidade e o carro da reportagem, o guarda os acompanhou gritando que eles estavam fugindo. 

"Foi constrangedor. Ele estava falando no telefone chamando reforços e veio atrás da gente falando alto, como se a gente fosse bandido mesmo. As pessoas na rua, no ponto de ônibus ficaram nos olhando", conta Alex. 

Antes de entrar no veículo, o guarda bateu no capô do carro e disse que eles não iriam sair. "Apareceu um carro da guarda com quatro agentes, outro carro particular com outros dois guardas municipais e dois policiais militares na mesma hora. Foram oito agentes para nos conduzir a delegacia", lembra Débora. 

O policial militar chegou a ouvir o guarda municipal e realizou a condução sob a alegação de descumprimento da ordem e desacato. Na hora de ouvir o fotógrafo, no entanto, ele informou que não iria ouvi-lo e que seu trabalho era apenas o conduzir a delegacia. 

Desde a abordagem do guarda, às 10h30, até a liberação dos jornalistas da prisão, por volta de 13h, o trabalho da equipe não pode ser realizado. Na delegacia, a delegada entendeu que não houve crime e liberou o fotógrafo. Uma testemunha do guarda municipal que até então não tinha sido vista pela equipe na unidade, prestou o seu depoimento confirmando que havia visto o fotógrafo tirando foto do agente. Quando perguntada se ela havia visto o equipamento que ele segurava, ele não soube responder.  

Ao se dispôr como testemunha de Alex, no entanto, a jornalista foi informada de que não seria necessário. "A testemunha que o guarda arrumou pode ser ouvida, mas eu não. Eles disseram que não era necessário e que só em caso de o juiz acionar o Alex. Mas também não pegaram nem meu nome e nem meu contato", conta Débora. 

"A personagem que ia fazer a foto ficou tão constrangida com a situação que pediu para não ser fotografada mais porque estava se sentindo mal e foi embora. É até difícil definir o que aconteceu ali. A gente foi coibido de fazer o nosso trabalho. De atender uma demanda da população de Nova Lima e mostrar a real situação da saúde pública na cidade. Por causa de uma ação autoritária não pudemos concluir o trabalho. É frustrante", relata. 

A Polícia Civil informou que a condução a 2ª Delegacia de Polícia Civil em Nova Lima foi por desobediência, mas que a delegada Silvânia Ribeiro Silva entendeu que não houve desobediência que justificasse a condução. 

A Prefeitura de Nova se posicionou por meio de nota, confira:

A Prefeitura de Nova Lima informa que lamenta o ocorrido pela manhã na Policlínica Municipal e que a Delegacia de Polícia Civil de Nova Lima esta à frente da investigação para apurar o ocorrido. De acordo com testemunhas e com a Guarda Municipal presente, o fotógrafo teria tirado fotos dentro da unidade sem autorização e sem se identificar, o que tornaria ilegal a ação. A Prefeitura de Nova Lima esclarece ainda que sempre esteve aberta para dar esclarecimentos e nunca impediu o acesso de nenhum meio de comunicação devidamente identificado e autorizado em suas dependências. 

Ouça entrevista de Murilo Rocha à Itatiaia

Sindicato dos Jornalistas manifesta repúdio

Em nota, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais manifestou repúdio ao cerceamento do trabalho dos jornalistas em Nova Lima.

"O Sindicato não admite esse tipo de restrição no trabalho profissional dos jornalistas. Repórteres não podem ser impedidos de ter acesso a locais públicos e fotografá-los. Servidores públicos, em especial policiais, que têm o monopólio de uso da força, devem ser treinados para respeitar a imprensa e a lei. A liberdade de imprensa é garantida pela Constituição e é uma das bases da democracia. O Sindicato se solidariza com os colegas e exige que as autoridades responsáveis tomem providências para identificar e punir os culpados", diz a nota.

Atualizada às 18h54.

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