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Arampiã

Betty Mindlin ganhou esse nome, que significa mulher na língua macurap, em homenagem ao trabalho que desenvolve em tribos brasileiras, como antropóloga, desde a década de 1970

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Betty Mindlin se dedica ao trabalho com os indígenas com um comprometimento que ultrapassa o interesse meramente científico
Betty Mindlin ganhou esse nome, que significa mulher na língua macurap, em homenagem ao trabalho que desenvolve em tribos brasileiras, como antropóloga, desde a década de 1970
PUBLICADO EM 15/07/07 - 23h27

A lagoa da Pampulha refletia o azul nítido da tarde, reproduzindo em seu espelho de água nuvens brancas, árvores e casas enfileiradas nas margens. "Parece o Pacas Novas, mas as águas do rio são escuras e ainda mais límpidas", observou Betty Mindlin. Diante de mim, sentada numa mesa de café no Museu de Arte, a mulher pequena e sorridente, olhinhos espertos, parecia bastante à vontade. Comentávamos seu livro mais recente, a reedição de "Vozes da Origem", terceiro de um rosário de títulos editados ao longo de 20 anos.

São narrativas indígenas coletadas por ela nas línguas originais, traduzidas e publicadas em português, sempre em co-autoria com os narradores originais. Essas lendas tradicionais, que fazem parte do imaginário indígena, falam muito dessas sociedades ainda pouco compreendidas pelos brasileiros "civilizados", mas que sempre despertaram nossa curiosidade e interesse.

Idealizados pelo romantismo nos primórdios de nossa literatura ou objeto de projetos "civilizatórios", em época mais recente, os índios continuam sendo uma incógnita cuja solução se resolveu, secularmente, pelo massacre com as armas ou pela aculturação. Eles constituem a contraface de um mundo ganancioso e brutal a que chamamos civilização. Talvez seja esse o motivo pelo qual atraíram o olhar sensível de Betty Mindlin.

Vida burguesa
Betty é a primeira dos quatro filhos do industrial e bibliófilo José Mindlin (92 anos) e de sua mulher, Guita, morta ano passado aos 89 anos. De seus pais herdou o amor aos livros e à cultura. Em casa costuma ver com freqüência intelectuais e escritores amigos de seus pais. Não admira que desde cedo tenha acalentado o sonho de ser escritora. "Formávamos uma família tranquila, que até antes da morte de minha mãe se reunia invariavelmente aos domingos".

É fascinante constatar como uma jovem mulher, a que não faltaram todas as condições para construir uma confortável vida burguesa, tenha escolhido embrenhar- se pela floresta e enfrentar perigos reais pela causa dos índios, ameaçados pelo cerco de uma sociedade hostil que não os compreende e não quer deles senão suas terras, a madeira de suas árvores e as riquezas de seu subsolo. Seu destino parecia traçado para a carreira acadêmica. Graduou-se em economia, em 1963, na Universidade de São Paulo (USP), fez mestrado na Universidade de Cornell (UEA) e voltou à USP como professora do Departamento de Economia.

Em 1965 casou-se com o jurista Celso Lafer, por duas vezes ministro das Relações Exteriores e pai de seus dois filhos, Manu, nascido em 1971, e Inês, em 1973. Deixou a USP para ser professora do curso de administração de empresas da Fundação Getúlio Vargas, a convite do hoje senador Eduardo Suplicy, onde permaneceu por sete anos. "Foi uma experiência interessante, porque não gostava de economia. Para dizer a verdade, eu não entendia nada mesmo", confessa com uma risada. Apesar da modéstia, chegou a publicar um livro de macroeconomia, "Planejamento do Brasil" (1970).

Engajamento
As coisas começaram a mudar quando, em 1973, Betty conheceu a antropóloga Carmem Junqueira, viria a ser sua amiga e orientadora no doutorado. "Carmem associava a causa social à antropologia", comenta. Começou a trabalhar com índios na região de Bauru (SP). Dessa experiência nasceu o Centro de Estudos Sociais Indígenas (Cesind).

Em 1978, aceitou o convite do sertanista Apoena Meireles para visitar Rondônia. Estava no apogeu o movimento de ocupação do território por migrantes de todo o país. Rondônia era a nova fronteira a ser explorada e recebia toda a sorte de aventureiros: garimpeiros, seringalistas, plantadores de soja, pecuaristas e grileiros.

A partir de 1982, o Cesind foi convidado para fazer a avaliação do impacto sobre as sociedades indígenas do Programa Polonoroeste, um conjunto de ações de colonização de extensas áreas em Mato Grosso e Rondônia que tinha como eixo a rodovia BR-364 (Cuiabá-Porto Velho). Agência financiadora do programa, o Banco Mundial havia imposto ao governo brasileiro, como pré-requisito para a liberação dos recursos, o estudo do componente indígena do projeto. Desse trabalho resultou a demarcação de mais de 40 territórios indígenas, totalizando algo como um milhão e 800 mil hectares desde então reservados às tribos.

Betty Mindlin foi uma das criadoras, em 1986, do Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (Iamá), uma organização não-governamental dedicada ao estudo das "populações culturalmente diferenciadas" numa perspectiva de preservação ambiental e desenvolvimento sustentável. Iamá é a palavra com a qual os suruí-paiter designam a casa, a aldeia ou a morada.

Na floresta
Betty é hoje uma das mais destacadas antropólogas brasileiras e se empenha em seu trabalho com um comprometimento pessoal que ultrapassa o interesse meramente científico. Para isso teve de romper com muitos valores de sua própria cultura. "Foi como encontrar um destino, uma trilha, um significado", justifica ela. Nosso encontro na Pampulha aconteceu quando ela acabava de voltar de uma visita ao seu povo "favorito", os suruí-paiter (que significa ’nós mesmos, a ’gente verdadeira), de Rondônia.

Foi lá que, nos anos 1970, ela definiu-se como antropóloga, realizando o trabalho de campo para sua tese de doutorado que lhe custou sete longas viagens ao território indígena, entre 1979 e 1982. Ao experimentar com os índios formas sociais muito diferentes das que conhecia, revela, "fui fazendo de conta que pertencia agora ao seu quadro. Vi famílias nucleares convivendo numa mesma oca, as mulheres de um mesmo marido solidárias e amigas, mesmo quando têm ciúme. Vi a liberdade amorosa distinta da nossa - não sei se maior, pois há também regras repressivas".

Durante essa convivência, ganhou um novo nome, Arampiã, mulher na língua macurap. Betty toma um capuccino forte e relembra a aventura de sua primeira viagem aos suruí-paiter, em junho de 1979. O choque cultural, a descoberta de um mundo regulado por outras normas e outros valores, a amizade, a admiração pela sabedoria natural dos índios. Em suas viagens às aldeias dos suruí-paiter, além de uma tese de doutorado que lhe rendeu o título de antropóloga, Betty Mindlin recolheu inúmeras histórias e lendas tradicionais daqueles povos. Essa experiência está relatada no livro "Diários da Floresta", de 2006.

Neste seu retorno aos suruí ela participou, durante dez dias, de oficinas promovidas pelo Fórum Paiter, uma reunião de quatro organizações sociais, daquele povo. Segundo Betty, foi uma oportunidade para que os velhos, ou korubei ("eles não gostam de ser chamados de velhos", explica), falassem sobre o conteúdo que desejam ver ensinado nas suas escolas. "Era toda a tradição suruí, desde a produção e a cooperação econômica, amor, técnicas sexuais, trocas rituais, regras de polidez, pajelança, até a guerra".

Aprendizado Embora não goste de balanços, Betty Mindlin não se nega a comentar sobre seu aprendizado com os povos indígenas. Segundo a antropóloga, a vida solidária e lúdica, afetiva, plena de sentido e riso, voltada para a arte e o cosmos, é a maior lição dos índios. "Vi os modelos de amor, modelos de companheirismo e dedicação, de ternura e paciência. Mas não gosto de receitas: é preciso experimentar, e o que senti é o que quis transmitir pelo livro".

Ela conta ainda que entre os índios trabalho e lazer se combinam, o castigo que é o trabalho, mesmo entre eles, tem outro caráter, não há patrões e trabalhadores, nem propriedade, e todos têm direito à terra. "As desigualdades são pequenas, embora existam, de caráter político, baseadas no parentesco ou na magia".

Sobre a morte, esse grande mistério entre qualquer povo e em qualquer lugar, Betty sentencia: "Nas minhas perdas, hoje, ou ao pensar no fim, invoco os rituais e as crenças de muitos povos. A vida das almas entre os suruí ou gaviãoikolen, o kwarup, e outras tradições para viver a dor são um barco - que pode ou não naufragar".

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