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Cinema

As muitas carreiras do Bozo

“Bingo: O Rei das Manhãs” conta história real de Arlindo Barreto, primeiro ator que viveu o Bozo nos anos 80

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PUBLICADO EM 24/08/17 - 03h00

Daniel Rezende admite que, assim como a maioria dos brasileiros, assistiu muita TV “quando era moleque”. Seu interesse pela “caixinha mágica”, porém, não era o de uma criança comum, mas o de alguém que viria, anos depois, a ser indicado ao Oscar pela montagem de “Cidade de Deus”. “Eu estava menos interessado no que eu estava vendo do que naquilo que a pessoa falando comigo na tela estava vendo. No que estava atrás da câmera. Isso, para mim, era muito mais curioso do que a imagem”, recorda.

Não é de se estranhar, portanto, que sua estreia na direção revisite exatamente esse desejo. Mais que uma biografia ou um estudo de personagem, “Bingo: O Rei das Manhãs”, que estreia quinta (24), é um mergulho nas entranhas e nos bastidores da TV. E um mergulho que a revela como o que ela realmente é – um diagnóstico perfeito da cultura brasileira e de suas maiores patologias: a ausência de memória, a hipersexualização, o desrespeito por leis e regras e a busca implacável pela fama como única forma de validação em um país de valores morais profundamente distorcidos.

E nada melhor para fazer essa crítica do que usar um palhaço, cuja função primordial é exatamente ser um espelho exagerado e debochado das hipocrisias de sua sociedade. O filme é a ficcionalização da história real de Arlindo Barreto, ator de pornochanchadas e novelas que foi o primeiro intérprete do Bozo nos anos 80. Na tela, ele se torna Augusto Mendes (Vladimir Brichta), ator medíocre que tem sua grande chance de alcançar a tão desejada aprovação do público e da mãe, a atriz decadente Marta Mendes (Ana Lúcia Torre), ao ser escolhido para viver o palhaço Bingo em uma atração infantil.

Mas, ao descobrir que a máscara do palhaço não resolve suas inseguranças, ela apenas as esconde e amplia – por contrato, ninguém pode saber que ele é o Bingo –, acaba se perdendo numa espiral de sexo, álcool e muitas drogas.

“É uma história de muitas camadas. Um artista procurando seu lugar sob os holofotes, mas que não consegue aproveitar a experiência por trás da máscara.Um pai super próximo do filho, que acaba sendo distanciado dele pelo sucesso. E uma oportunidade de olhar a cultura pop dos anos 80 e comparar o que a gente pensava na época com o que a gente vive hoje”, descreve Rezende.

Para lançar esse olhar ácido e sem pudores que o filme mostra, porém, o cineasta teve que mudar não só os nomes de Arlindo e do Bozo, mas até dos canais envolvidos – a Globo virou Mundial, e o SBT é TVP. “Desde o início, nós tomamos a decisão de ficcionalizar esse universo, porque nossa prioridade era ter liberdade criativa. O longa é inspirado na vida do Arlindo, mas não é uma biografia”, justifica o diretor.

E essa liberdade está bem clara na tela. Ao contrário das amarras legais que o engessaram em “Elis”, o roteirista Luiz Bolognesi desnuda os bastidores da TV brasileira como um desfile de seres amorais e ególatras, orgias, nudez, litros de uísque e carreiras quilométricas de cocaína – uma síntese da década de 80, por meio de um estudo de personagem megalomaníaco. Ou seja: não é um filme para crianças.

“Tanto para mim quanto para o Luiz, existia algo nesse personagem exagerado e politicamente incorreto que era uma grande metáfora daquela época”, argumenta Rezende. Segundo ele, seu grande desafio foi como transportar o espectador para esse universo de excessos sem necessariamente cair nesses mesmos exageros. Uma tarefa complicada ainda pelo fato de que o próprio Arlindo ainda está vivo. “Mas ele nos deu muita liberdade para fazermos nosso filme”, conta o cineasta.

Já Brichta, que tem em Augusto/Bingo o grande papel de sua carreira e o abraça sem medo de desnudar, na tela, a ambição, a necessidade de validação e o egocentrismo do “ser ator”, conta: “O que eu mais tentei preservar da figura dele foi o apelido de Febrão, que veio por um depoimento do filho dele, uma figura que está sempre em uma temperatura alta. Isso me norteava como um farol”, revela. E o maior mérito de “Bingo” é identificar, sem medo nem papas na língua, a TV como maior sintoma dessa febre – uma epidemia que assola, e anestesia, quase toda a população brasileira até hoje.(Com agências)

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