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O grupo Pigmalião Escultura que Mexe estreia nesta quinta (14/09) o espetáculo “Macunaíma Gourmet”, no Francisco Nunes

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Marionetes. “Macunaíma Gourmet” combina atores e bonecos, ampliando a relação entre os dois, que, desta vez, ocupam uma área maior do palco
PUBLICADO EM 14/09/17 - 03h00

Personagem do romance escrito por Mário de Andrade (1893-1945), Macunaíma volta à cena no novo espetáculo do grupo Pigmaleão Escultura que Mexe, que estreia nesta quinta (14) no teatro Francisco Nunes, onde cumpre temporada até o dia 30 de setembro. Batizada “Macunaíma Gourmet”, a montagem vale-se dessa icônica figura literária para abordar o Brasil contemporâneo e o seu conturbado cenário social, político e econômico.

Concebida para celebrar os dez anos da trupe, a peça, de acordo com o diretor Eduardo Felix, é fruto de diálogos iniciados em 2013. “Desde então, nós começamos a conversar sobre esse projeto. Naquela época, eclodiram as manifestações e o país entrou num grande rebuliço. A situação, que já era complexa, de lá para cá foi só piorando. Tanto que, até na véspera da estreia,estamos decorando os textos, porque acrescentamos alguns fatos mais recentes”, conta Felix.

Ele convidou o diretor, ator e dramaturgo Eid Ribeiro para realizar a direção cênica. A intenção foi reforçar o trabalho com os atores no palco junto com a manipulação das marionetes, cujo uso caracteriza a linguagem desenvolvida pelo Pigmaleão.

“Eu sou diretor de marionetes e o Eid de atores. Então, achamos que a participação dele seria uma oportunidade para encontramos um equilíbrio nisso. Nós temos um elenco muito grande e uma quantidade enorme de bonecos nessa peça. O cenário também tem grandes dimensões e tudo isso é muito novo para a gente. Nunca aproveitamos o palco como estamos fazendo agora. Essa é uma grande inovação e um desafio também”, afirma Felix, que ressalta o caráter experimental da obra.

“Todo mundo associa o teatro de bonecos com um fundo preto e com pessoas vestidas com roupas dessa cor. Mas, em vez disso, nós mostramos um fundo branco, com atores caracterizados e pintados nesse mesmo tom”, pontua ele.

Eid também comenta que essa parceria representa um passo novo em sua carreira. “Muitos aspectos nessa relação entre ator e bonecos eu não tinha experimentado. E eu trabalhei mais esse aspecto. Quem faz o boneco do Macunaíma, por exemplo, é o ator Rômulo Braga, e ele estabelece um contato diferente com o boneco, seja em relação à manipulação ou à interpretação. Isso também acontece com os outros atores. Para mim, esse foi um processo de muito aprendizado, e o resultado é bastante poético”, diz Eid.

Adaptação. O diretor acrescenta que a peça toma emprestado o personagem Macunaíma, do clássico de Mário de Andrade, mas quase nenhum outro elemento além desse. “Nós pegamos só uma ideia inspiradora do livro. A versão que mostramos é completamente diferentes e traz textos de Darcy Ribeiro, de Marina Viana, somados a algumas ideias do Eduardo Felix. O roteiro foi basicamente criado por ele”, detalha Eid.
A ação no palco, por exemplo, começa numa floresta, que logo em seguida revela-se algo completamente “fake”. “De repente, a realidade não é nada daquilo que vemos e surge uma grande indústria de carne, um frigorífico que está preparando e dando um tratamento especial de engorda a Macunaíma desde criança”, resume o diretor cênico. Macunaíma, portanto, torna-se uma mercadoria “diferenciada” e voltada para consumidores mais exigentes.

“Na história original, o personagem Venceslau Pietro Pietra quer comer a carne do Macunaíma de qualquer forma. Ele chega a matá-lo e faz uma polenta. Mas o irmão feiticeiro de Macunaíma consegue ressuscitá-lo. Na nossa versão, a carne de Macunaíma vai, de fato, ser preparada. O herói da nossa gente virou uma carne ‘gourmet’, a ser apreciada com sal do Himalaia e trufas”, ironiza Felix.
O destino do personagem, que é ocupar os espaços mais nobres das gôndolas de supermercado, a seu ver, serve como uma crítica ao impacto que o consumismo alcança na vida cotidiana.

“O que é vendido e colocado para a gente é a ilusão de que, quanto mais se consumir e mais luxuoso for o produto, mais feliz nós vamos ser. Isso, na verdade, é uma estratégia de exploração. Nós podemos muito bem sermos felizes sem o iogurte grego ou os vários produtos que nos são oferecidos por meio da publicidade”, reflete Felix.

“A gente sofre as consequências dessa vida idealizada. Esse é um espetáculo que propõe pensar sobre esse consumo excessivo, sobre a exploração excessiva, sobre a exploração trabalhista e, sobretudo, a exploração de um Congresso cheio de políticos corruptos”, conclui o diretor do Pigmaleão.

Saiba mais

O grupo participou de oficinas realizadas por artistas como a atriz Andréia Duarte Figueiredo, que promoveu um workshop baseado na sua experiência com os índios Kamayurá, do Alto Xingú, e com ela foi feita a preparação de corpo dos integrantes do elenco.

Agenda

o quê. Estreia do espetáculo “Macunaíma Gourmet” do grupo Pigmaleão Escultura que Mexe

quando. quinta, dia 14/09, às 20h. Até o dia 24, de 4ª à dom.; e de 27 a 30, de 4ª à sáb., sempre às 20h.

onde. Teatro Francisco Nunes (av. Afonso Pena, s/nº, centro)

quanto. R$ 10 e R$ 5 (meia)

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