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Ronaldo Fraga lança nesta segunda-feira (25) “Re-Existência”, coleção inspirada nos refugiados, no São Paulo Fashion Week

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Referências. Estilista mineiro Ronaldo Fraga mostra sua nova coleção hoje, que traz influências da África e do Oriente Médio
PUBLICADO EM 25/04/16 - 03h00

“Resistir para existir”. “Existir como forma de resistência”. Essas palavras de ordem guiaram Ronaldo Fraga em seu mais novo trabalho, que ele apresenta nesta segunda-feira (25), às 21h, no São Paulo Fashion Week, que acontece no parque do Ibirapuera – Pavilhão da Bienal. Dito assim, pode parecer que ele está falando do atual momento político brasileiro, mas não. Seu tema, desta vez, é a mais nova onda de migração na Europa. “Quando você olha essa foto de longe é uma imensa massa ocre”, afirma, mostrando num computador a imagem de um barco repleto de refugiados no meio do oceano azul. “Mas quanto mais se aproxima”, diz ele, acionando o zoom da máquina, “essa massa vai se dissipando, dando lugar a cores, roupas, listras e estórias individuais. Talvez a roupa que ele está vestindo seja a única coisa que leva da cultura”, afirma. “O mínimo que têm eles trazem no corpo”, conclui.

“E o que isso tem a ver com moda?”, pergunta o estilista para ele mesmo responder: “Mais uma vez, a face político-cultural da moda é a que mais me motiva. Ela está acima dos índices de consumo. É, para mim, uma tentativa de localizar poesia no terreno árido. A cultura é a grande arma da resistência”.

E, como interessava a Ronaldo Fraga ampliar a discussão sobre a crise migratória, que a cada mês leva à Europa milhares de pessoas fugindo de conflitos no Oriente Médio e na África, na coleção “Re-Existência”, Síria e Moçambique se encontram, se misturam. “Num fiapo de otimismo, vale a ideia de que a mistura sempre vai trazer surpresas e coisas boas. É a grande árvore que cresce, mudando a cara da floresta”, diz. “Um ‘olhar até infantil’ para que essa mistura que vai transformar a Europa, o Brasil, o mundo para sempre vença a intolerância”, aposta Fraga.

Em seus estudos, o estilista visitou a Associação de Refugiados de São Paulo. “O mundo inteiro está lá. E muita gente lá pode ser modelo”, afirma. E isso acontecerá na noite de hoje, quando refugiados de várias partes do mundo estarão na passarela defendendo a “Re-Existência”.

Na fantasia – ou na coleção – de Ronaldo Fraga, kaftans ganham grafites que lembram as pinturas corporais africanas, e padronagens sírias revelam corpos em modelos mais sensuais. O elástico vira o material síntese do novo trabalho por representar mobilidade, flexibilidade. “Visitei uma fábrica em Santa Catarina, a FB do Brasil, e fiquei enlouquecido com as rendas e os elásticos que eles produzem. Perguntei qual era a largura máxima que eles produziam, fiz um desenho e criei vários modelos feitos só com elásticos”.

Vários tons de azul, representando a Síria; amarelos, vermelhos, laranjas lembrando Moçambique, país africano visitado recentemente pelo estilista; e o que ele viu por lá acabaram dominando a coleção. “Fiquei encantado e surpreso como ainda é tabu a questão de muitos escravizados no Brasil terem vindos de lá. Não se estuda isso nas escolas”, afirma.

É de Moçambique também uma das fontes literárias em que o estilista foi beber para criar “Re-Existência”: Mia Couto. A outra é o escritor português Valter Hugo Mãe. Frases dos dois escritores recheiam o “caderno” da nova coleção, uma prática que o estilista mantém há anos – uma espécie de relicário de notícias, fotos, pedaços de tecidos, desenhos, croquis, padronagens, tudo que possa inspirá-lo a cada novo trabalho.

Os “cadernos”, que até já foram lançados em formatos de livros, são parte importante da criação de Ronaldo Fraga. E ele promete seguir com eles, mesmo estando encantando com “um novo brinquedinho”, como ele chama o recém-adquirido iPad Pro. “Eu tinha muito preconceito com essas novas tecnologias. Mas ganhei um da Apple. E estou louco. Eu escolho a cor, a caneta e o papel com os quais quero trabalhar, e pronto. E, se antes eu levava um monte de canetas pela Amazônia afora, agora só carrego o iPad”, ri, ao lembrar que agora tem que aguentar a zoação dos filhos: “Eles dizem: ‘é, pai, antes você brigava porque a gente ficava no computador, agora é você’”. Mas ele garante: “Nunca vou deixar de fazer meus cadernos artesanais. A tecnologia só é uma asa que você arruma pra voar mais. E serve para deixar esses cadernos mais preciosos ainda”.

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