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Entrevista

De malas prontas pro mundo

Damien Bonnard fala de “Na Vertical”, que é exibido nesta terça-feira no Varilux e estreia quinta, e de “Dunkirk”, de Chris Nolan

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Busca. Lançado na competitiva do Festival de Cannes em 2016, “Na Vertical” é um estudo imprevisível sobre as inseguranças masculinas
PUBLICADO EM 20/06/17 - 03h00

Depois de quase dez anos batalhando no cinema francês, o ator Damien Bonnard, 38, teve sua grande chance no ano passado, como o cineasta em busca de inspiração de “Na Vertical”, longa do diretor e provocador Alain Guiraudie (“Um Estranho no Lago”), que estreia nesta quinta-feira na capital. O protagonista lhe rendeu uma indicação ao César de ator revelação e, de quebra, uma participação em “Dunkirk”, novo blockbuster de Christopher Nolan (“Interestelar”), que chega dia 27 de julho ao país.
Ele veio ao Brasil divulgar “Na Vertical” no Festival Varilux e conversou com o Magazine sobre seus últimos trabalhos, sua nudez frontal no filme de Guiraudie e o desejo de tornar-se um ator do mundo.

Como você conseguiu o papel em “Na Vertical”, seu primeiro grande protagonista no cinema?

Eu conhecia um pouco o cinema do Alain (Guiraudie). Mas foi a diretora de casting, Stephane Batut, que me chamou para um teste com ele. Primeiro, nós tentamos algumas cenas juntos, depois eu li o roteiro, e o Alain me chamou de volta para testes com os atores e atrizes que ele queria para os outros papéis. Foram vários encontros, durante alguns meses, e um dia ele me ligou para dizer que tinha me escolhido. Da minha parte, eu queria muito fazer esse personagem, meu primeiro grande papel no cinema. E eu tinha vontade de trabalhar com esse homem, seu universo, sua maneira de tratar o real, os fantasmas, sonhos e pesadelos. Sua alegria de criar e sua liberdade.

O filme é um estudo profundo e incômodo da masculinidade. Houve alguma cena especialmente difícil ou desafiadora que você teve que discutir com o Guiraudie?

Não houve cenas difíceis, e eu nunca cheguei a ficar reticente. Claro que várias das coisas no filme foram “primeiras vezes” para mim, mas a forma de trabalhar do Alain, todas as discussões que tivemos, a delicadeza da equipe e de meus parceiros de cena, o tempo de filmagem confortável que tivemos – tudo isso tornou um grande prazer e uma diversão criar juntos esse filme. Trazer à tela todas as buscas e loucuras dessa epopeia, esse conto moderno. Fui um homem muito feliz durante as filmagens.

Como a direção do Guiraudie se compara com os outros cineastas com quem você trabalhou?

É difícil comparar a maneira de dirigir de Alain com outros realizadores. Eu me lembro mais de uma sensação, de impressões... não houve espaço para improvisação no filme. Trabalhamos no sentido de fazer jus ao roteiro, com atenção ao inesperado e ao que estava se passando no set quando começávamos a filmar. Eu me lembro de uma cena em que Alain se encontrava a alguns metros, completamente atento ao que se desenrolava, e uma bola atravessou a sala. Sem nem olhar, ele a agarrou. Tem uma capacidade incrível de estar ciente de tudo o que acontece. Ele sabe exatamente o que quer. Ensaiamos muito para encontrar ao máximo a vida de cada situação. E muitas das cenas – especialmente as de sexo – são bastante coreografadas, tudo passa pelo prisma do cinema. E isso permite trabalhar com muita suavidade, e sobretudo muito prazer. Nós rimos muito com Alain. Ele tem a alegria de uma criança inventando um mundo e compartilhando conosco.

Nudez frontal masculina ainda é um grande tabu no cinema. Você acha que a sua cena com o ator Christian Bouillette afeta muito a forma como as pessoas recebem o filme?

Embora seja verdade que a nudez masculina é bastante rara no cinema, a mostrada pelo Alain é muito doce, muito bela, muito próxima da vida, da nossa vida. É claro que a nossa cena, entre Marcel e Leo, mexe com as pessoas. Mas ela é doce, cheia de amor. O plano-sequência a ajuda a ser bela e comovente. Acho que o que mais incomoda é como o filme toca na relação entre homens e a morte. É ela que mais surpreende, mais toca e torna o que acontece inesperado e surreal, quase como uma antiga história mitológica.

Você também participou recentemente do “Dunkirk”, novo blockbuster do diretor Chris Nolan. Como foi a experiência?

Eu tenho um papel bem pequeno no longa. A experiência de filmagem foi bem forte, uma equipe enorme em comparação ao último filme francês que eu fiz, além de ser um longa de época. É um filme que relata eventos da Segunda Guerra na França que eu desconhecia, que não estudei na escola. E o que mais me impressionou é que o Chris filma todos os efeitos especiais no set: os tiros, as explosões. É de uma artesania rara para um filme desse escopo. E ele está completamente presente nas cenas, não atrás de um monitor de vídeo numa tenda. Ficava do meu lado, conversando comigo antes e depois da ação, colado à câmera, ao barulho da película rodando lá dentro, e seus olhos colados nos meus, nos dos outros atores e na ação, na história, para que ela  seja justa e forte. Era fascinante observá-lo com seu grande casaco preto, o roteiro no bolso esquerdo e uma garrafa térmica de café na mão direita. Uma força tranquila.

Você também filmou “Thirst Street”, uma coprodução entre a França e os EUA. Tem vontade de trabalhar mais na indústria norte-americana?

“Thirst Street” vai chegar em breve no Brasil. É um filme que eu amei fazer, trabalhar com pessoas que vieram de outros lugares, que traziam perspectivas diferentes. Minha vontade é poder fazer filmes com cineastas do mundo inteiro, ir contar histórias no exterior. Estou tentando aprender outras línguas para poder atuar fora. Ainda sou um francês com um inglês bem imperfeito no momento, mas estou trabalhando nisso. Adoraria que as pessoas não soubessem de cara de onde eu venho. Tenho um projeto de um filme no Chiapas com Louis Dodin, um amigo diretor com quem já fiz alguns curtas, e que será falado em espanhol.

Outro filme elogiado em que você esteve é “Voir du Pays”, dirigido por Delphine e Muriel Coulin. A discussão sobre a necessidade de mais mulheres diretoras também está acontecendo no cinema francês?

Sim. As mesmas discussões e preocupações para que o cinema se expanda e seja feito por pessoas menos representadas, diferentes, com uma linguagem, um lugar de fala e uma arte diversas estão acontecendo fortemente no cinema francês. Eu acho que isso tudo, e a necessidade de mais mulheres diretoras, está começando a ganhar mais força porque as novas gerações estão interessadas em seguir essa direção – em todas as artes. Trabalho frequentemente com mulheres, homens. Não percebo diferença nenhuma. São cineastas. É o que importa.

A indústria cinematográfica francesa é parecida com a brasileira, dividida entre comédias de sucesso popular e sucessos de festivais e de crítica, como “Na Vertical”. Aqui, esses últimos têm muita dificuldade de encontrar espaço nas salas. E na França, como é?

Produções como “Na Vertical”, filmes de autor, têm um lugar, um espaço de verdade, na França. Elas encontram salas e têm seu público, mas hoje em dia tudo é muito rápido. O complicado é conseguir ficar um bom tempo nessas salas porque uma quantidade enorme de filmes é lançada todo ano, talvez até demais. Creio que saiam cerca de 250 longas franceses todo ano. Às vezes, é difícil que eles durem, e tenhamos o prazer de vê-los na tela grande, mas ainda temos muitos cinemas engajados, trabalhando duro para que esses filmes vivam.

E você conhece alguma coisa do cinema brasileiro?

Não conheço quase nada. Quando tiver a oportunidade, quero ver os filmes daqui. Todas as cinematografias me interessam. O último longa brasileiro que eu vi, e gostei muito, foi “O Som ao Redor”, do Kleber Mendonça Filho. Muitas cenas dele permaneceram na minha mente por um bom tempo depois da sessão.

Quais são seus diretores favoritos?

Sou tocado por vários diretores, dos quatro cantos do mundo. Entre eles, estão Leos Carax , Takeshi Kitano, Denis Villeneuve, Shane Carruth, Paul Thomas Anderson, Judd Apatow, Louis CK, os irmãos Safdie, Mathieu Amalric, Yorgos Lanthimos, os irmãos Coen, Miranda July. Adoraria trabalhar com qualquer um deles, e com aqueles que não conheço ainda, mas talvez encontrarei um dia.

E atores, existe algum ou alguns que te inspiram, ou em quem você se espelha?

Não são exatamente os atores que me inspiram. Adoro as escolhas que eles fazem, sua força, que nos impactam nos trabalhos que eles, ou elas, fazem com seus diretores – as histórias que eles nos contam. Para citar alguns, eu diria John Cassavetes e toda sua trupe de atores e atrizes, como Ben Gazzara, Peter Falk, Gena Rowlands, além de Paul Dano, Joaquin Phoenix, Patrick Dewaere, Tom Hardy, Klaus Kinski, Louis CK, Woody Allen. A lista seria longa.

A França acabou de passar por um processo eleitoral tenso e assustador. Você acha que ele afetou ou vai afetar de alguma forma os filmes sendo feitos no país?

Eu sei pouco da política francesa. Meu engajamento e minhas reflexões políticas passam sempre pela arte. E sim, muitas coisas sobre nossas sociedades podem ser ditas pelo cinema. Mas eu gostaria que isso fosse algo menos frontal, e que ele seja mais movido pela arte, pela poesia, pelas loucuras. Que o cinema, frente ao estado dessas coisas que se passam no nosso mundo, traga um leve distanciamento, uma interpretação, uma antecipação, possa transformar. Filmes podem mudar vidas, olhares, derrubar nossos preconceitos, questionar. Isso é forte e necessário, como os livros, para acompanhar nossas vidas e sermos livres.


“Na Vertical”

Festival Varilux. O filme do diretor Alain Guiraudie será exibido nesta terça-feira (20), às 20h25, no Cineart Ponteio.

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