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Cinema

Ensaio sobre a raiva

'Três Anúncios para um Crime' é um dos mais premiados e controversos filmes da temporada

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Frances McDormand
Papel. Frances McDormand dá vida à protagonista do filme, Mildred, com brilho
PUBLICADO EM 14/02/18 - 03h00

Vivemos em tempos de raiva. Você acorda de manhã, lê as notícias no jornal ou em sua timeline no Twitter, e a primeira coisa que sente no dia é raiva. Sentimos raiva o tempo todo. Mas isso não é o problema. A questão é o que nós fazemos com essa raiva. Mildred (Frances McDormand), protagonista de “Três Anúncios para um Crime”, que estreia na quinta-feira (15), coloca os três outdoors do título. Sua filha adolescente foi estuprada, assassinada e, seis meses depois, a polícia ainda não capturou os responsáveis. E ela decide fazer algo a respeito: gritar, em letras pretas garrafais num fundo vermelho-sangue, sua indignação com um mundo de homens que violentam mulheres e são protegidos pela incompetência de outros homens – no caso, o xerife Willoughby (Woody Harrelson) e seu assistente Dixon (Sam Rockwell).

Mildred é a personificação da raiva que inunda o mundo hoje. E é por isso que o filme do diretor e roteirista Martin McDonagh (do ótimo “Na Mira do Chefe”) é um dos mais aclamados – e controversos – da atual temporada de premiações. Ao dirigir seu olhar para uma pequena cidade no interior do Missouri, o cineasta inglês tenta entender o ódio sistêmico que contamina essas comunidades como um câncer, de um poder tamanho que foi capaz de eleger alguém como Trump. E uma das maiores provas de como seu roteiro compreende as consequências dele é que o personagem que realmente sofre com um câncer é o único que não é totalmente dominado pela raiva.

A genialidade de “Três Anúncios” é essa subversão: nada nele é o que parece ser. Para começo de conversa, Mildred não é uma heroína – e quem for ao cinema achando que vai ficar do lado dela poderá se decepcionar. A protagonista é uma versão contemporânea de John Wayne (a referência ao faroeste é clara na trilha de Carter Burwell), que confunde justiça draconiana com retidão moral e acha que isso lhe dá o direito de sair infligindo aos outros a dor que ela sente o tempo inteiro.

Mas o interessante é que “Três Anúncios” é um filme sobre o poder da palavra. Sobre como aquilo que dizemos tem uma força. Uma violência. E a protagonista descobre isso da pior forma possível – Frances está estupenda no papel porque entende que o motivo de a raiva e a dor de Mildred serem tão onipresentes é que a pessoa de quem ela mais sente raiva é ela mesma. Da mesma forma que Wayne usava o revólver como instrumento de sua virulência, a personagem usa suas palavras – que, saídas de sua língua ferina ou de um outdoor, cortam seus interlocutores como uma faca afiada.

E, se o longa tem início com as frases dos anúncios, ele tem sua grande virada com outro texto, ou outros: três cartas, carregadas de compreensão, empatia e esperança, que mudam radicalmente o rumo da história. O grande centro dessa virada é Dixon. E é por realizar o feito mais difícil do filme – fazer o espectador acreditar que um personagem que é a síntese do pior que existe no mundo hoje (racista, homofóbico, ignorante, violento, intolerante) pode vir a se tornar alguém melhor – que Rockwell deve ganhar o Oscar de coadjuvante (apesar de ser, na verdade, um coprotagonista com um arco tão bem delineado, e inversamente complementar, quanto o de Mildred).

Em Dixon, McDonagh faz sua questão central ao espectador: existe uma redenção possível para esses personagens? Para essas pessoas criadas em uma cidade que, cercada de montanhas por todos os lados, parece um caldeirão cozinhando um caldo de intolerância, uma represa de violência cíclica da qual elas parecem incapazes de escapar?

É uma pergunta incômoda, especialmente porque mexe com – a raiva de – quem acha que esses “caipiras” são os responsáveis por tudo de errado com o mundo atual. Tanto que “Três Anúncios” dividiu crítica e especialistas nos EUA entre aqueles que o consideram o filme certo na hora certa e quem acha se tratar de um olhar estrangeiro e irresponsável fazendo piadinha com as piores mazelas do país no momento (violência policial e de gênero, racismo, insubmissão violenta de quem acredita que o Estado deve atender seus interesses acima de qualquer coisa).

Prova de como olhar de perto os piores sintomas de uma doença nunca é fácil. E a forma que McDonagh encontra de fazer isso é com o humor sombrio e afiado de seus longas anteriores. Se o tom é correto, e se ele funciona ou não, diz mais do gosto e da perspectiva de cada espectador. É inegável, porém, que sua disposição de olhar com compaixão e empatia, no lugar da raiva intolerante, já é um bom começo.

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