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Representatividade trans

'Eu narro minha história'

Julia Katharine é a primeira mulher trans premiada na Mostra de Cinema de Tiradentes

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PUBLICADO EM 07/02/18 - 03h00

Julia Katharine recebeu, no último dia 27, o prêmio Helena Ignez, que celebra uma personalidade feminina de destaque na Mostra de Cinema de Tiradentes. Durante seu discurso na cerimônia e nas ocasiões de repercussão que tem tido, ela não perde uma oportunidade. Sabe e deseja aproveitar o momento para mandar sua palavra política e contra a transfobia.

“Minha fala é de militância. Não poderia perder essa oportunidade, porque o filme existe por isso e para isso. Para que a gente marque nosso território. O filme tem esse papel de dizer que existo. Estou aqui e quero trabalhar. Tenho esse direito e sou capaz. É um trabalho que marca um território que é nosso em um momento de transformação. O filme é sobre representatividade trans”, afirma a atriz Julia, referindo-se a “Lembro Mais dos Corvos”, longa dirigido por Gustavo Vinagre, com quem ela divide o roteiro.

No trabalho, Julia é a protagonista de uma espécie de monólogo em que ela, num apartamento ambientado como se fosse seu espaço de privacidade e intimidade, conversa com equipe posicionada atrás das câmeras e conta, aos poucos, com dificuldades e também com humor, sua história.

“Eu não estou conseguindo entrar no assunto”, diz ela ao diretor. “Eu e Gustavo temos uma relação muito próxima. Somos amigos. Ele queria fazer seu primeiro longa comigo, sobre minha vida. Quando roteirizamos, nos questionamos até que ponto eu estaria disposta a me expor. Filmamos tudo em uma noite. Não houve segundo take de nada. Foi tudo muito cru, e teve momentos em que eu não estava conseguindo chegar nas histórias. Isso era real. Mas, apesar das dificuldades, alguns pontos precisavam ser ditos e falados. Acho que a maior dificuldade, além de me expor, era o medo de que o público não entendesse”, comenta.

Os fatos vão desde uma relação com o tio-avô, quando Julia, aos 8 anos, começa a não se identificar com o gênero designado ao nascimento. Tratada como uma mulher pelo parente de 55 anos, ela se envolvia no que, para ela, se tratava de um relacionamento amoroso. Foi preciso o tempo até que compreendesse o abuso que existia na relação. Ela relata também o envolvimento com um professor de matemática. Quando o caso se tornou de conhecimento dos demais alunos, um grupo de estudantes a violentou em defesa do professor. “Me passei por mentirosa”, comenta no filme.

Com as poucas interferências do diretor, é Julia quem narra sua história, quem pontua os sentimentos e os ocorridos e quem dá o tom, na maioria das vezes, leve, às “histórias tristes” que vivenciou. “Faz toda a diferença que eu narre essa história. Eu tenho acompanhado a polêmica à respeito da representatividade trans. No audiovisual, no teatro e em todas as áreas. O que nós queremos é que as pessoas saibam que nós também somos artistas. Também temos uma carreira de roteirista, de atriz, do que a gente quiser. O que nos falta é espaço para exercê-las”, frisa.

A representatividade e a empregabilidade são as grandes questões envolvidas no debate. “Eu entrei no cinema há pouco tempo, há quatro anos, e tem sido uma luta para mim, porque existe muito preconceito. As pessoas preferem, primeiramente, chamar para o papel de uma pessoa trans uma mulher ou um homem cis que tenha uma carreira extensa, um currículo maior. Eles esquecem da nossa vivência”, afirma.

“Politicamente, estamos em um grande retrocesso e, se não marcarmos nosso espaço, se nossas ações não fizerem barulho, certamente seremos silenciadas. Mas não seremos mais. Estamos lutando e conquistando nossos espaços aos poucos”, completa.

No ativismo pela empregabilidade, ela não deixa de pontuar a necessidade de ações que busquem a capacitação. “Muitas pessoas do audiovisual me falam que não contratam uma pessoa trans porque elas não têm capacitação. Minha resposta para isso é que pensemos juntos formas de qualificar essas pessoas. Que sejam mutirões, oficinas, encontros para pensarmos políticas públicas. É importante que nos deem papéis e trabalhos”, enfatiza.

Vivenciada na pele, Julia problematiza a expulsão escolar e grifa a necessidade se pensar e transformar os ambientes de formação como a escola e as próprias famílias, evidenciando um olhar para as particularidades de uma vida trans.

“Antes de tudo temos que lembrar que as pessoas trans são machucadas, têm seus traumas e, para levá-las de volta à escola, têm que ter assistência psicológica, acompanhamento para elas terem coragem de voltar para esse espaço que representa violência, ridicularização. Nosso dia a dia traz coisas que machucam. Tenho amigas que nunca foram ao cinema com medo da reação da plateia e, quando vou sozinha, sofro assédio porque não imaginam que sou uma pessoa interessada em cinema, mas que estou ali procurando sexo”, conta.

Quando o assunto são os homens trans, a esfera de invisibilidade ganha ainda mais profundidade: “Não posso falar por eles, mas a sensação é que vivem uma invisibilidade ainda maior. Sinto falta deles nos ambientes de visibilidade. Mas eles existem, e espero que as oportunidades também sejam construídas para que eles apareçam”.

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