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Crítica

'Invento +' acerta no título e propõe caminhos inéditos

Álbum foge do óbvio e ilumina cantos obscuros de músicas já consagradas

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Grave da voz de Zélia Duncan e do violoncelo de Jaques Morelenbaum se harmonizam em trabalho pautado pela novidade
PUBLICADO EM 28/11/17 - 03h00

O que parece distante muitas vezes é o que dá liga. Quem imaginaria, um dia, a união entre Beatles e música barroca ou entre a bossa nova e canções do folclore latino? Mais ainda, o rock psicodélico junto à erudição de Villa-Lobos? A resposta é simples: Milton Nascimento. E pode ser até mais íntima, pelo apelido: Bituca.

Com a proximidade de quem guarda esse repertório na memória afetiva, Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum decidiram por iluminar um Milton jamais visto, por mais que ele tenha se repetido (no bom sentido, dado o número de regravações) nesses 50 anos de plena atividade na música brasileira. Quem desconhece, inventa. E é entrando num campo inexplorado, novo, que a dupla, pautada pela ousadia, concebeu o álbum.

Como diria o poeta Mário Quintana (veja só como o distante se aproxima): “Nada convém que se repita/ Só em linguagem amorosa agrada/ A mesma coisa cem mil vezes dita”. Pois se a contradição é a matriz de toda arte, cuja única e mortal função é propor a liberdade ou, ao menos, alguma libertação, aqui os intérpretes se apossam com amor de uma obra liberta do óbvio que jamais a deteve. E se harmonizam bem.

“Invento +” é o pertinente título para o disco que homenageia uma produção já nascida original. Além desse cerne, o que haveria de mais inventivo do que dar às canções do Clube da Esquina a gravidade da voz de Zélia e do violoncelo de Morelenbaum? Talvez ainda esteja por vir. Enquanto isso, é importante dimensionar o tamanho do desafio inerente a cantar músicas impregnadas pelas interpretações de Milton e Elis Regina, exemplos que, em escala mundial, ainda têm muito a ensinar sobre utilizar da técnica sem dispensar a emoção.

É preciso esquecer o que ouvimos antes, apagar da lousa o caso antigo para que o destino escreva outro, assim ensina Machado de Assis. Afinal de contas, nessa união de dois elementos puros (as cordas e a voz), a atenção poderá se jogar aos cantos obscuros de clássicas canções. “O Que Foi Feito Devera” surge, assim, melancólica, e pereniza essa tristeza dos versos iniciais até o fim, por mais que o adiante lhe prometa esperança: “outros outubros virão/ outras manhãs plenas de sol e de luz”, canta Zélia.

“O Que Será”, feita por Chico Buarque para a trilha sonora do filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos” em 1976 e regravada por Milton, alinha com rigor de costura cada palavra do inspirado poema do autor, cujo simbolismo tem a percepção ampliada pela lentidão com que suas frases aparecem aqui (feito imagens) para o espectador-ouvinte: “o que não tem vergonha, nem nunca terá/ o que não tem governo, nem nunca terá/ o que não tem juízo”. Quanta atualidade no que traz a natura do indefinível.

A angústia já famosa de “San Vicente” (Milton e Fernando Brant) é ressaltada, desta vez, mais pela presença do instrumento de Morelenbaum, capaz de uma experiência próxima à sinestesia ao impor sobre os outros versos a força das metáforas: “um sabor de vida e morte/ coração americano/ um sabor de vidro e corte”. “Caxangá” também traz a revolta transformada em esperança, mas, desta vez, a lembrança da gravação de Elis jamais se esquiva, o que prejudica a novidade.

A beleza própria de músicas como “Calix Bento”, “Cravo e Canela”, “Encontros e Despedidas”, “Canção Amiga”, “Ponta de Areia”, “Mistérios”, “Travessia”, “Volver a Los 17”, “Beijo Partido” e “Cais” tem a qualidade de, através de um gesto externo, nos levar para o interior. Isso tudo já é sabido. O que Zélia e Morelenbaum comprovam é que nunca um rio é o mesmo rio, por mais que todos os caminhos levem até Milton. E já é bastante.

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