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Literatura

Lado sombrio da paternidade

Santiago Nazarian lança, quinta (3), livro de terror ancorado na teoria do existencialismo bizarro, que marca suas obras

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PUBLICADO EM 03/08/17 - 03h00

“Trevoso” foi o nome que o paulistano Santiago Nazarian, 40, escolheu para batizar sua nona obra. Mas, por uma questão comercial, o livro, que será lançado nesta quinta (3) no Sempre um Papo, recebeu o título “Neve Negra”. Não que o escritor tenha detestado de todo o nome sugerido pela editora Companhia das Letras, mas ele preferia mesmo que sua criação literária lembrasse o universo gótico, do qual fez parte por muitos anos durante a adolescência. “Fulano é trevoso”, diziam os amigos quando queriam referir-se a alguém realmente sombrio.

Ele ainda tentou alertar: “Já existe um filme com esse nome” (dirigido por Martin Hodara e protagonizado pelo argentino Ricardo Darín). Em vão. Nazarian, por fim, entendeu que “Neve Negra” (cujos direitos também foram vendidos para o cinema) poderia realmente ser um bom negócio e se contentou em não discutir com a grande editora, já que é a primeira vez que trabalha com ela.

Escrever por encomenda pode ter dessas coisas – o livro foi uma incumbência da produtora RT Features. Quanto a isso, Nazarian não se faz de rogado: teve total liberdade para criar, respeitando apenas o requisito de a literatura ser de terror. “Neve Negra” faz parte do conjunto de obras do gênero que serão lançadas pela RT Features (coprodutora do sucesso “A Bruxa”). Além dela, está prevista “As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky.

Sendo assim, Nazarian escolheu dois elementos para se debruçar na escrita: o da paternidade e o da neve (rara, mas existente) no Sul do Brasil. O enredo traz a história de um pintor de sucesso e pai de família que volta para casa na serra catarinense, depois de uma temporada de exposições no exterior, na noite mais fria do ano. Ele encontra a família adormecida, mas seus piores pesadelos começam quando o filho acorda e uma onda de dúvidas e paranoias invade a cabeça dele.

A escolha de um cenário branco e frio deu-se pelo desejo de mostrar um lado pouco explorado do país. “Os casos de neve são atípicos, mas existem”, justifica Nazarian. Já a paternidade é algo que tem incomodado o escritor. Quarentão e sem filhos, ele diz que não são poucas as vezes em que se pega questionando a respeito de ter uma criança. “O tema é pouco retratado no terror. Além do mais, existem aquelas dúvidas ancestrais: será que ele é meu filho?”, questiona.

O tom soturno do livro, afinal, fica por conta do trevoso. Para representar o folclore da região serrana, Nazarian criou a entidade para assombrar a mente do pintor com a mais cruel das dúvidas: a de que o espírito possa ter-se encarnado no corpo do filho.

Existencialismo bizarro. “Neve Negra” está alocado no gênero que o paulistano define como “existencialismo bizarro”. Cunhado pelo próprio escritor, o termo é explicado como uma forma de apresentar “a literatura menos comercial, mais de questionamento do que puramente de divertimento”. “São aquelas questões: de onde vim, para onde vou?”, argumenta.

Para ficar mais claro, ele arremata: “O termo ‘existencialismo’ pode ser substituído pelo ‘pós terror’”. Ou seja, quando o gênero deixa de se ater ao apelo sangrento e de susto fácil e vai para um âmbito de terror psicológico mais apurado com a existência de elementos sobrenaturais.

O “existencialismo bizarro” é mesmo marca registrada nos livros de Nazarian. Os temas, normalmente, exploram a psicologia de seus personagens até a última gota. Em “Biofobia” (ed. Record, 2014, R$ 44,90, também vendido para o cinema), o escritor narra a história de um cantor decadente de rock que se muda para a casa de campo da mãe suicida. Lá, ele precisa enfrentar o medo de natureza. Já “O Prédio, o Tédio e o Menino Cego” (ed. Record, 2009, R$ 70,90) traz a história de um romance em que sete meninos apaixonam-se por uma professora infanticida.

Seu primeiro livro, “Olívio” (ed. Talento, 2003) recebeu o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Literatura 2003.

Multifacetado. Nazarian também escreveu os roteiros de um longa e de uma série, o que tem inflenciado diretamente sua produção literária. “Esses trabalhos acrescentaram muito para mim. Eles ficam mais coloquiais”, garante.


Agenda


O quê. Lançamento dos livros “Neve Negra”, de Santiago Nazarian, e “Assim na Terra como Embaixo da Terra”, de Ana Paula Maia, no Sempre um Papo
Quando. Quinta (3) , às 19h30
Onde. Auditório da Cemig (rua Alvarenga Peixoto, 1.200, Santo Agostinho)
Quanto. Gratuito

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