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Na esteira do Tropicalismo

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Na esteira do Tropicalismo
PUBLICADO EM 20/02/12 - 21h50

A referência é 1967, ano em que Caetano Veloso e Gilberto Gil se apresentaram como finalistas da terceira edição do Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em São Paulo. Naquele momento, os dois foram recebidos com vaias e reações negativas, ao levarem ao palco duas bandas de rock: Os Mutantes e os Beat Boys, respectivamente.

Tal fato, visto como um esboço do Tropicalismo, trouxe à cena cultural e política brasileira a presença de uma atitude influenciada pelos movimentos de contracultura que pipocavam fora do Brasil, quando este atravessava um período de ditadura. Passados quase 45 anos, discute-se o que permaneceu dessa mobilização artística não apenas limitada à esfera da música, mas, também, significativa em outras áreas como as artes plásticas, o teatro e o cinema.

Organizadora do livro "Tropicália ou Panis et Circensis" - que reúne 12 artigos escritos por pesquisadores e artistas, dentre eles, o antropólogo Hermano Vianna, o músico Jorge Mautner e o poeta Antonio Risério - e pesquisadora há 15 anos do tema, a jornalista e produtora Ana de Oliveira identifica atualmente várias contribuições deixadas pelos tropicalistas.

"Dentre um dos grandes legados que a gente pode destacar do Tropicalismo, talvez o maior de todos tenha sido essa quebra de fronteiras entre gêneros e padrões para uma abertura extraordinária a partir da livre experimentação", diz Ana de Oliveira. "Por isso, acredito que a longevidade do Tropicalismo se deu justamente depois que ele acabou, pois, como movimento. Eu o entendo como uma intervenção profunda e radical que atingiu não só a música brasileira, mas a cultura de modo geral", reflete Ana.

Ela também observa, hoje, a herança tropicalista. "Muitos dos artistas que vieram depois mostram esse forte laço com os tropicalistas, a partir do diálogo entre ritmos, das diversas formas de interação com a música regional. Um exemplo é Chico Science, que conseguiu colocar o maracatu em contato com outros ritmos mais universais como o rock, o funk e o rap. Acredito que ele tenha feito isso na esteira do Tropicalismo, embora não admitisse", diz Ana. "Mas, Jorge Mautner disse uma vez algo muito interessante: mesmo aqueles que não se dizem influenciados, de alguma maneira são filhos da tropicália", sublinha a pesquisadora.

Ação política. Para além dessas reverberações estéticas, o escritor e ensaísta Silviano Santiago observa que não dá para pensar na influência do Tropicalismo sem levar em conta o seu fomento à inquietação política. "O movimento jogou na arena jovem brasileira dados para que a questão da participação do artista saísse da estreiteza comportamental imposta por partidos políticos de esquerda e começasse a questionar a questão da repressão política. Tinha a ver com uma política do corpo e de comportamentos afetuosos, ousados e questionadores na vida cotidiana, daí a importância da música popular e do teatro no seu auge; dos primeiros grandes festivais de música ao ar livre. E, é claro, daí a desimportância da literatura", diz Santiago.

Ao pensar sobre o contexto atual, ele aponta contrastes entre a arte produzida hoje com aquela derivada dos tropicalistas. "A não ser em casos excepcionais como Hélio Oiticica e Caetano Veloso, o Tropicalismo quis ser um movimento de massas, meio que comandado por Chacrinha e sua pança. E o Brasil não virou uma massa sem comando artístico? Como é que um artista pode eleger Faustão, Datena, Ana Maria Braga como financiadores artísticos de um projeto cultural vivo, alerta e atual? A geleia geral é hoje. Nisso, foram profetas. Hoje, a arte pouco ou nada tem a ver com o espírito tropicalista", analisa o ensaísta.

Perfil
Nara Leão foi uma artista peculiar na história da música brasileira. A cantora, que completaria 70 anos em 2012, foi musa da bossa nova, participou do disco de estreia dos tropicalistas "Tropicalia ou Panis et Circensis" (1968), e se engajou na interpretação de músicas de protesto.

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