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Cultura pop

Os novos donos do cinema hollywoodiano

Avalanche de filmes do gênero, campeão de bilheteria nos últimos 20 anos, invade as telas em 2017

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Renata Mello
Estudante Renata Mello, fã de Super-Heróis, coleciona objetos e HQs do universo
PUBLICADO EM 16/04/17 - 03h00

“Disseram que a Era dos Heróis jamais voltaria”. É o que diz Diana Prince (Mulher Maravilha) para Bruce Wayne (Batman) no trailer do filme “Liga da Justiça” que estreia em novembro. A fala da amazona simboliza a chegada da trupe de elite da DC Comics ao cinema, depois de uma espera de mais de 50 anos pelos fãs. Mas, extrapolando a história, a fala também revela que tal previsão falhou. Prova disso são os últimos anos: o segmento tem caminhado a passos largos nas telonas, consolidando grandes sucessos em bilheteria. Em 2017, a agenda de lançamentos para o gênero traz sete produções, entre elas “Logan” (Fox), “Power Rangers: O Filme” (Paris Filmes), já estreados, e “Guardiões da Galáxia Vol. 2” (Disney) marcado para 27 de abril.

No entanto, fica a pergunta: por que personagens sessentões e setentões, que por muito tempo protagonizaram filmes canastrões, com sucessos isolados, ressurgiram com tanta força nas telonas e são capazes de arrebatar novos fãs e lotar salas de cinema, rendendo milhões em bilheteria? Para o crítico de cinema Inácio Araújo, essa resposta não é muito fácil, mas ele acredita que esses super-homens e supermulheres ressurgem no imaginário das pessoas em um movimento da população mundial que ele chama de rerreligiosidade.

“Com o fim da maior religião laica, que foi o comunismo, o mundo voltou-se para religiões místicas novamente. E esses super-heróis me parecem isso. Uma emanação de Deus, de algum ser superior que nos protege de qualquer mal”, discorre Araújo.

De acordo com Renné França, professor de cinema do Instituto Federal de Goiás, a grande virada se deu quando passou-se a exportar um conceito dos quadrinhos para o cinema. “A grande virada acontece quando a Marvel se torna estúdio de cinema, com um filme de um herói até então mais conhecido apenas entre os fãs de quadrinhos, que é o Homem de Ferro. O sucesso desse filme dá o aval para adaptarem outros heróis que não são Batman, Superman, Homem-Aranha... Além disso, a Marvel leva um conceito dos quadrinhos para o cinema: o de universo compartilhado. Um herói vive no mesmo mundo dos outros heróis. Isso cria uma ligação entre os filmes e se revela uma fórmula de sucesso porque as pessoas passam a acompanhar essas historias como série”, diz França.

O psicólogo Lucas Guimarães, que é pesquisador de quadrinhos, atribui o sucesso, além de acertos dentro dos estúdios, ao valor afetivo. “Uma geração cresceu lendo esses super-heróis nas HQs. Quando chegam ao cinema, toda essa geração quer assistir e levar os filhos, sobrinhos, netos. Eu, por exemplo, compro gibis desde a década de 1990. Tenho mais de 4.000. Sou o cara que assistiu aos ‘Batmans’ do Joel Schumacher, no cine Brasil, e fui assistir a ‘Os Vingadores’ em algum shopping”, completa.

Interesse vindo da infância é o que tem o editor de audiovisual Cadu Barros. Desde criança, ele se empolgava com os filmes do Homem- Morcego e com os desenhos animados. Hoje, com 33 anos, não é diferente. Sempre que sai um filme, principalmente os da Warner/DC, ele logo compra os ingressos para as pré- estreias. “Nunca fui de ler muitos quadrinhos, mas filmes e desenhos de super-heróis sempre foram meus favoritos. Tenho camisetas de vários personagens. Quando saiu ‘O Cavaleiros das Trevas’ – o melhor filme de super-herói de todos os tempos – comprei ingresso para as duas primeiras sessões”, conta o fã, bastante ansioso com o filme da Liga da Justiça, que espera desde criança.

Ele até reeditou o trailer do filme, acrescentando a trilha sonora da animação ‘Liga da Justiça: Sem Limites’”.

Repaginados. Quando surgiram, os super-heróis encenavam um contexto entre as grandes guerras mundiais, em que um grande mal ameaçava aniquilar com o planeta. Hoje, os conflitos são mais localizados, e o contexto, diferente. Nesse sentido, foi preciso que os personagens acompanhassem as mudanças do mundo. É o que explica França. “O herói, enquanto espelho dos valores sociais, precisa passar por essas atualizações para manter seu caráter heroico. Nesse caso, em relação ao cinema, os heróis da Marvel são mais fáceis de atualizar porque eles são essencialmente humanos e falhos. Peter Parker é o adolescente perdido e por vezes individualista, Tony Stark é arrogante...

Já a DC lida com heróis que são mais próximos de deuses. Há um ideal de perfeição no Superman e na Mulher Maravilha, por exemplo, que dificulta inclusive a relação do espectador com eles. Não é a toa que o herói com maior identificação é o mais humano de todos: o Batman”.

O mesmo defende André Gordirro, jornalista, escritor e especialista em, cultura pop. “‘Tarzan’, por exemplo, fez sucesso, mas é um personagem que parou no tempo, as novas gerações não se identificam com ele. Outro exemplo é a história de que Clark Kent é um blogueiro, e não um jornalista do Planeta Diário”, comenta Gordirro, que traduziu o livro "A Identidade Secreta dos Super-Heróis: As histórias e as origens dos maiores sucessos das HQs: do Super-Homem aos Vingadores" (ed. Valentina), do renomado escritor de cultura pop Brian J. Robb.


O caminho inverso do segmento

Se antes a porta de entrada para o universo dos super-heróis eram as HQs, hoje são os filmes que atraem novos fãs. Isso é o que explica o professor de cinema Renné França. “Infelizmente, hoje o cinema se tornou a principal porta de entrada para a nova geração no mundo dos heróis. Digo ‘infelizmente’ porque enquanto os filmes, principalmente da Marvel, possuem esse ar juvenil, os quadrinhos estão cada vez mais densos e com grandes sagas, como se buscassem o mesmo público que já tinham, mas agora envelhecido. Nisso há um processo que se tinha antes, de um leitor de quadrinhos que depois consumia o filme. Mas não estou certo se o contrário acontece, se o fã dos filmes vai atrás dos quadrinhos. Isso é um problema porque o que deveria ser a fonte de tudo (as revistas) se torna dependente das suas adaptações (os filmes)”, afirma.

Talvez seja esse um dos motivos pelo qual os diretores da Marvel Comics precisaram convocar uma reunião para entenderem as quedas nas vendas que a editora assistiu recentemente. Uma das teorias apontadas pelos lojistas é que a diversidade explorada atualmente pelos artistas da editora não esteja agradando. Segundo eles, quando os leitores veem um personagem no cinema e chegam à banca e o personagem possui outra cara e outro visual, acabam perdendo o interesse. O jornalista e escritor André Gordirro rejeita a ideia e acredita que a crise está pautada em má gestão. “As histórias estão repetitivas, com inúmeros universos, na tentativa de explorar ao máximo a marca. O leitor fica perdido. Eu cancelei minha assinatura de quase 30 anos por isso”, ressalta o escritor.


Agora é o show das poderosas

Se os super-heróis já estão com lugar cativo nas telas dos cinemas, faltava um espaço digno para as super-heroínas. Muitas personagens ganharam fama no universos das HQs, mas faltavam filmes dedicados exclusivamente a elas. Neste ano, será a vez de uma importante mulher mostrar sua superforça nas telonas, e sem dividir espaço com os colegas homens. O nome dela é Mulher Maravilha, com estreia marcada para julho.

A amazona mais famosa da cultura pop também terá presença marcante em “Liga da Justiça”, com estreia marcada para novembro. Outras super-heroínas que já foram anunciadas para estrear nas telonas são “Batgirl”, sem data prevista e “Capitã Marvel”, provavelmente para o primeiro semestre de 2019.

Filmes que a estudante de moda da UFMG, e fã de HQs e super-heróis, Renata Mello, 22, comemora e aguarda com grande expectativa. “Acredito que, com esses filmes, nós mulheres vamos ser representadas pelo universo”, afirma. “Mas espero que essa representação seja diferente. Queremos ver o que elas realmente são: mulheres fortes e competentes, não objetos sexualizados”, completa.

Representação. Segundo o pesquisador Lucas Guimarães, que teve seu mestrado voltado para a Mulher Maravilha, a guerreira amazona surgiu na década de 1940 como uma personagem vanguardista, mas que não acompanhou o caminhar da história. “Quando ela surge, no período entre guerras, ela se mostra como uma mulher forte, independente, muito à frente de sua época. Mas com o caminhar da história, se acompanharmos bem, ela se mostra defasada e ultrapassada”, explica, para depois afirmar: “Agora ela tem tudo para receber a repaginada necessária. Voltando à nata da cultura pop, a ONU tê-la escolhido como o símbolo feminino, e com esse novo filme, eu acredito que ela virá com uma nova cara, mais atualizada”.

Guimarães, que cresceu lendo HQs, acredita que o público feminino em torno do segmento aumentou, e é necessário que as personagens femininas venham e sejam representativas para as meninas. “Pesquisas mostram que a cultura pop deixou de ser território unicamente de homens, por isso é necessário que existam objetos de identificação com as meninas”, comenta.

Ana Clara Matta, publicitária e entusiasta da cultura pop, vai pelo mesmo caminho de Lucas. Para ela, é importante que as mulheres se identifiquem nas histórias e sejam representadas, mas discorda da ideia de que a amazona esteja desatualizada. “Mulher Maravilha é uma amazona, ela pode vestir o que ela quiser. Ela é uma figura mitológica. Vestir pouca roupa faz parte do que representa a figura. Não cola essa lógica contemporânea”, comenta.

A historiadora Natânia Nogueira estudou em seu mestrado Miss Fury, uma das primeiras super-heroínas da história dos quadrinhos. Para a professora, as discussões em torno da representação das super-heroínas são controversas. “A Mulher Maravilha, por exemplo, é uma das personagens que mais sofreu mudanças nas histórias em quadrinhos e levanta polêmicas: para alguns, ela representa a mulher empoderada, enquanto outros se preocupam apenas com o tamanho da roupa que ela veste”, discorre a pesquisadora. “Acho que o discurso que o personagem carrega é mais forte do que sua representação gráfica, e é pra ele que a atenção deve ser voltada”, comenta.


Veja os trailers dos filmes:

 

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