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Polêmica

Passam-se os anos, permanece o machismo na música brasileira

Criação do site Música Machista Popular Brasileira alimenta debate sobre músicas de teor ofensivo às mulheres

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Valesca Popozuda
'Vou lutar contra', diz Valesca Popozuda sobre proposta de criminalização do funk
PUBLICADO EM 15/04/18 - 03h00

“Ah, mas é só uma música”. Quando começou a elaborar o site Música Machista Popular Brasileira (MMPB), em janeiro deste ano, a publicitária Lilian Oliveira, 28, sabia que escutaria de forma recorrente esta justificativa para atenuar o teor machista de algumas canções. Depois de colocar na web a plataforma no dia 3 último, a paulistana e outras três amigas publicitárias, idealizadoras do projeto, foram acusadas de integrar um “bando de feministas mi-mi-mi” formadoras de uma “gestapo virtual”. O quarteto não se assustou, “afinal, muita gente não enxerga o quanto a música também faz parte da formação dos indivíduos”.

A repercussão online se deve ao fato de o MMPB se dedicar a apontar canções brasileiras, da Bossa Nova ao funk, de cunho machista. A cada clique em “Dá um shuffle”, o internauta é direcionado de forma aleatória a uma de cem composições brasileiras que desvalorizam e/ou incitam a violência contra o sexo feminino. Grifadas em seus trechos críticos, as canções são acompanhadas de uma explicação de “porque a letra é problemática” e de um “serviço de utilidade pública”, com matérias sobre crimes contra a mulher. O usuário ainda é convidado a enviar uma música que envolva o mesmo tipo de questão.

O “estouro”, em 17 de janeiro, de “Só Surubinha de Leve”, funk de MC Diguinho com apologia ao estupro de mulher, foi o estopim para a criação de um projeto feminista que já vinha sendo encabeçado pelas publicitárias. Mas o site não se restringe ao gênero tipicamente carioca. “Na época (do lançamento), muitas pessoas demonizaram o funk, como se o machismo fosse exclusivo desse ritmo. Então, para quebrar esse argumento cego e elitista, criamos o site”, afirma Lilian. Há na plataforma, inclusive, músicas cantadas por mulheres, como Beth Carvalho e Ludmilla.

Em tempo: “Só Surubinha de Leve” foi banida do YouTube e do Spotify, plataforma em que chegou a atingir o primeiro lugar na lista “Brazil Viral 50”. No dia seguinte, o funkeiro lançou uma versão mais light da música, em que substitui trechos como “Taca a pica e abandona na rua” por “Taca e fica, mas não abandona na rua”.

Ao longo das décadas. Basta alguns “shuffles” (o termo do inglês é utilizado em aplicativos de streaming para tocar músicas aleatoriamente) para notar que, além de ser inerente ao gênero, o machismo aparece tanto em canções recentes quanto naquelas datadas do início do século passado. Foi em 1929, por exemplo, que o sambista carioca Francisco Alves (1898-1952) declarou seu “Amor de Malandro” por meio dos violentos versos “O amor é do malandro/ oh, meu bem, melhor do que ele ninguém/ se ele te bate/ é porque gosta de ti”. Três anos mais tarde, o compositor Noel Rosa (1910-1937) cantou que “Mulher Indigesta” merece “um tijolo na testa” e “entrar no açoite”.

Menos descarado, mas ainda problemático, o machismo aparece em canções romantizadas, como quando em “Minha Namorada”, Vinicius de Moraes (1913-1980) entoa para amada que ela “tem que me fazer um juramento de só ter um pensamento/ ser só minha até morrer”. Ou em analogias como a de “João de Barro”, música da dupla sertaneja João Carreiro e Capataz, na qual o pássaro arquiteta uma casa sem janelas para que a companheira não tenha possibilidade de escapar. E até na simpática “Esse Cara Sou Eu”, de Roberto Carlos, que indica que toda mulher precise de uma figura masculina heroína para viver. Ou que “a mulher de verdade”, de Ataulfo Alves”, não poderia ter “a menor vaidade”.

A visão estereotipada do homem sobre a mulher ao longo das décadas é determinante para que músicas com conteúdo machista fossem e continuem sendo produzidas, na opinião da doutoranda e pesquisadora pela UFMG Bárbara Caldeira, que investiga as relações entre a mídia e a violência contra a mulher. “Desde os primórdios, existe uma representação construída de estereótipo que corresponde àquela mulher valorizada, que arranca suspiros quando passa na rua. Quando as mulheres saem desse grupo, são cantadas de forma pejorativa e objetificadas. Ao universalizar, perde-se o específico do que é o ser mulher”, opina Bárbara.

Soma-se a isso o fato de a composição ser um espaço de poder dentro da música dominado por homens. Doutoranda em musicologia pela UFPB, Tânia Nello Neiva observa que “as mulheres são esquivas nesse processo, porque acabam não tendo oportunidades de ocupar esses espaços”. “Desde a menina, por exemplo, a mulher não é estimulada a ir para uma área de projeção pública. E quando vai para essa carreira, quase sempre é para o piano, que é associado ao ambiente doméstico ou como um dote”, diz Tânia.

Até a década de 70, inclusive, o número de compositores era mínimo, conforme avalia o crítico musical e jornalista Rodrigo Fauor, autor dos livros “Angela Maria: A Eterna Cantora do Brasil” (2015), “Dolores Duran: As Noites e as Canções de uma Mulher Fascinante” (2012) e “História Sexual da MPB” (2006). “A geração feminina de compositoras começou a vir com força nos anos 80. Antes disso, eram poucas as mulheres que faziam letras. Tivemos uma meia dúzia de cantoras, como Maysa e Dolores Duran, mas que, ainda assim, cantava em primeira pessoa como se fossem um homem”, analisa Fauor.

Endossa a opinião de Fauor o crítico musical do portal G1, Antônio Carlos Miguel. “A mulher não tinha voz na canção brasileira, mas tivemos exceções, como Chiquinha Gonzaga (1847-1945) que, além de “Ô Abre Alas”, ainda compôs muito. Com outras artistas cantoras e compositoras como Joyce, Rita Lee e Marina Lima o discurso feminino começa a ter mais peso. A mulher já não aguentava mais que outros tivessem direitos sobre os delas”, aponta o crítico.

Exemplo vivo de um contexto histórico que pouco dava voz às mulheres, Elza Soares constata que aquelas que se arriscavam a trabalhar com música eram mal vistas pela sociedade. A artista estreou como cantora na TV Tupi, em 1953, no programa de calouros de Ary Barroso. “A sociedade era ainda mais machista. Até a mulher acreditava nesse discurso, poucos tinham a coragem de gritar contra o machismo. Têm músicas que fizeram parte do meu repertório, (mas) que hoje não canto mais. Na época, eu ainda muito ingênua, não sabia o que estava por trás daquelas mensagens... Hoje, eu acredito que o meu papel enquanto artista é o de questionar o meu tempo e lutar por um mundo melhor que avançou muito pouco”, afirma Elza em entrevista ao Magazine.

Depois de lançar o premiado “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), a compositora se prepara para apresentar ao mercado, no próximo mês, “Deus É Mulher”, também com temática feminista e de combate ao racismo e à LGBTfobia.

Reconhecimento e reparo do erro

Os rappers Mano Brown e Criolo são autores de pelo menos duas músicas com conteúdo machista. O primeiro escreveu “Mulheres Vulgares” (1993), presente no álbum “Raio X Brasil”, em que canta que a mulher “derivada de uma sociedade feminista” “é uma cretina que se mostra nua como objeto”. Já em um dos trechos de “Subirusdoistiuzin”, Criolo entoa que “as vadia quer/ mas nunca vão subir”.

Ambos artistas, entretanto, mudaram seu posicionamento em relação às canções. O vocalista do Racionais já disse que “Mulheres Vulgares” não entra mais no repertório dos shows e admitiu o machismo descarado na letra. Criolo, por sua vez, relançou em 2016 seu primeiro álbum, o “Ainda é Tempo”, em que revisita suas canções alterando trechos depreciativos dirigidos a mulheres, negros e gays. Em “Subirusdoistiuzin”, não se escuta mais a palavra “vadia”, mas, sim, “vazia”. O rapper reconheceu o erro e pediu ajuda a líderes feministas para alterar o trecho da canção.

Autora de músicas que escancaram a liberdade sexual feminina, como “Quero te Dar” e “My Pussy É o Poder”, a funkeira carioca Valesca Popozuda se vê às vias da contradição quando se diz feminista ao mesmo tempo em que canta músicas que destacam a disputa entre mulheres. Ela defende-se: “‘Beijinho no Ombro’ trazia essa imposição, essa ‘briga’. Porém, não era algo que rebaixava nenhuma mulher, não falava de corpo, não falava de beleza, nem colocava nenhuma mulher ou tipo feminino pra baixo”.

No ano passado, a convite de uma marca de xampu, a funkeira mudou alguns trechos da canção. Ela, por exemplo, troca as palavras “inimigas” por “amigas” e fala sobre sororidade, respeito e união. “Achei que tinha total sororidade e resolvi fazer a mudança que foi muito bem aceita pelo público”, diz.

“Hoje em dia, não dá mais pra fazer música falando ‘você é o homem que faz e acontece, e eu sou só aquela mulher que fica te esperando’. Hoje em dia, precisamos falar de igual pra igual. É na música é assim também”, completa Valesca.

Contexto social ou desculpa?

Na discussão sobre a recorrência do machismo na música há décadas, vem à tona uma indagação: canções com esse tipo de temática eram aceitáveis porque refletiam o contexto da época, em que a mulher era subjugada à condição de mantenedora do lar? Para Bárbara, relativizar letras machistas, tendo em vista o período histórico em que foram lançadas, significa “aliviar a barra” dos compositores dessas canções. “O feminismo já existe há muito tempo, e, mesmo se assim não o fosse, a violência contra a mulher não deveria existir. No passado, esses artistas ajudaram a naturalizar a violência contra a mulher em músicas que circulam há muito tempo no Brasil, onde a música é a uma das mais fortes expressões culturais e que é o quinto que mais mata mulheres no mundo”, comenta Bárbara.

Antonio Carlos Miguel, por sua vez, indica a necessidade de contextualizar a época em que canções machistas eram escritas sem objeções. “Entendo que temos que ficar atentos, mas não podemos julgar o passado com a ótica de hoje. Alguns compositores, como Vinicius de Moraes, eram românticos, mas machistas exacerbados. Isso, porém, não invalida a obra deles”, observa Miguel.

Para a artista Karina Bhur, autora de “Selvática” (2015), “o contexto sempre foi o mesmo, homens oprimindo mulheres, não muda nada a respeito da gravidade das letras escritas, elas eram muito machistas e misóginas e seguem sendo”.

A principal mudança em relação ao passado é que hoje as mulheres têm mais espaço para expressar sua voz, conforme opina a artista Bia Nogueira, idealizadora dos projetos Sonora e Mulheres Criando. “Hoje, nós temos voz. Se antes existia um incômodo individual, agora ele se transforma em movimento político e de reivindicação. Temos nos organizado, mesmo que de forma pulverizada e no ambiente virtual. Estamos em um momento de construir juntos um entendimento diferente”, reitera.

Minientrevista com Elza Soares

Seus trabalhos mais recentes são pautados pelo discurso feminista e de combate ao racismo. Por que deixar essas mensagens tão claras nas canções é um trabalho necessário em um país em que a taxa de feminicídio é a quinta maior do mundo?

Meu trabalho é pautado pelas brigas pela mulher, pelo negro e pelo gay. Acho importante lutar por respeito ao próximo, assim acredito em um mundo melhor, em que a base das relações estão no respeito. É importante chamar atenção da sociedade e desta juventude que me segue para um assunto tão sério como o feminicídio. Enquanto eu puder, eu vou gritar.

A música brasileira, seja ela de qual gênero for, está pincelada por discursos machistas que chegam, dentre outras coisas, a incitar a violência contra a mulher. Quando você faz dois discos que vão exatamente contra esta onda, qual é a provocação que lança na sociedade?

Eu estou sempre na contra-mão, alertando que o caminho não é por aí... Levanto essa bandeira para que todos entendam como ainda é grave esse machismo impregnado em nossa sociedade. Já conseguimos avançar, mas ainda tem um caminho longo a percorrer e a ser combatido dia após dia.

Quando soube da morte de Marielle Franco, sua primeira reação foi de abalo. Mas depois a vontade de cantar defendendo outras tantas Marielles foi maior? O que a música feminista pode proporcionar de positivo a mulheres vítimas do machismo?

Fiquei sem voz. Fiquei estarrecida. Um sentimento estranho. Acho que a musica é um grito de alerta, é uma forma de reunir uma porção de pessoas para lutar contra as injustiças em todas as esferas…

Grandes nomes da MPB, como Noel Rosa e Martinho da Vila, cantaram letras que desqualificaram a mulher. Acredita que falar que “era outra época” soa como desculpa? Ou o contexto era realmente outro?

Não acho que é uma desculpa, era a forma em que a sociedade compreendia estes temas... Era até natural naquele momento, mas ainda bem que os tempos mudaram hoje somos mais livres e até temos conseguido despertar outras mulheres adormecidas.

Em “Deus É Mulher”, você fala sobre uma nova era, regida por uma energia feminina. Este é o momento de todas as vozes de mulheres unirem-se em todos os campos, especialmente, o da música?

É o mundo sob o prisma da mulher, é disto que falo neste meu novo momento.

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