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Festival de Brasília

Precisamos falar de violências 

Evento dedicou um dia de sua programação a três documentários sobre feminismo e machismo no país

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Assédio
PUBLICADO EM 25/09/16 - 03h00

A investigação de um aborto malsucedido termina na culpabilização da vítima. Dois grupos de homens destilam as máximas machistas mais ultrajantes ao falar sobre questões femininas. Vinte e seis mulheres contam suas histórias de assédios, abusos e estupros. Não é mais um dia no seu Facebook, nem a capa de um portal de notícias em 2016. E sim a descrição da programação do Festival de Brasília na quarta-feira com, respectivamente, “Sexo, Pregação e Política”, “Câmara de Espelhos” e “Precisamos Falar do Assédio” |– três documentários, bastante diferentes entre si, que discutem questões de gênero, machismo e feminismo no Brasil. Brasília.

O mais provocador deles, como cinema, é “Câmara de Espelhos”. Produção pernambucana, ela reúne dois grupos de sete homens – com um ator/provocador da equipe inserido nos dois – selecionados a partir de um anúncio de jornal para debater questões femininas na câmara do título, montada em um estúdio. O dispositivo foi uma ideia da diretora Dea Ferraz, a partir do princípio sociológico de que nossa identidade se completa no olhar do outro. “E eu me perguntei: ‘qual a minha imagem para essa sociedade machista e patriarcal brasileira?’”, conta.

E como quem pergunta o que quer ouve o que não quer, ela escuta frases como “existe uma ordem de importância: homem, as crianças e depois a mulher” e, de um sujeito, de que o sonho dele é casar com uma mulher “surda, muda e ótima doméstica”. “Queria pegar a mesa de bar dos homens que mais se aproximam da nossa realidade, fugindo do machista clássico, e colocar na caixa preta”, explica.

Já a paulistana Paula Sacchetta faz o contrário, dando voz às mulheres em “Precisamos Falar do Assédio”. Inspirada em hashtags como #meuprimeiroassédio nas redes sociais, ela decidiu sair por bairros de todas as classes sociais no Rio e em São Paulo com uma van adesivada, que servia como um estúdio móvel onde as mulheres que se dispusessem a entrar contariam para a câmera sua história de assédio, sem nenhum interlocutor ou questionamento – é a versão delas, na voz delas, sem ninguém que duvide de sua dor. O filme é uma justaposição de 26 desses depoimentos, alguns mascarados ou com voz distorcida, a maioria não, todos com fundo preto. “A gente queria que tivesse uma cara de campanha, que pudesse ampliar o movimento”, afirma Sacchetta.

Por 80 minutos, mulheres de 14 a 85 anos contam como foram assediadas ou estupradas em casa, na rua, no metrô, no médico (uma delas foi assediada pelo oncologista no meio do tratamento), na balada, por amigos, familiares, estranhos. É uma surra, cujo poder está na tragédia de cada uma e no volume do conjunto, que deixa claro uma coisa: ser mulher é muito difícil.

Em um único dia na avenida Paulista, elas colheram 50 testemunhos. A diretora, que só viu o material na ilha de montagem, foi afetada pela mera diferença de energia ao fechar e abrir a porta da van para as participantes. “Acordava e dormia chorando durante as filmagens, e fiquei dez dias de cama quando elas terminaram”, revela.

O contato com os discursos de “Câmara” também abalou Dea Ferraz. “Eu passei a ter medo de andar na rua, a ponto de dar meia volta, voltar para casa e trocar de roupa”, confessa. Depois dos seis dias de filmagens, em 2013, ela levou alguns anos para conseguir voltar ao material e montá-lo. “Fiquei com raiva dos caras. Precisei ressignificar minha relação com eles e entender que também são vítimas de um sistema”, admite.

O medo e o ressentimento não são gratuitos. Um dos participantes afirma que o homem que pega a esposa na cama com outro tem o direito de atirar “nela, nele, na cama e no quarto”. Passagem que a montagem de Ferraz coloca logo após o grupo defender que uma mulher não pode abortar porque não se pode tirar a vida de ninguém. “Eles são incapazes de entender a vulnerabilidade feminina, mas querem que a gente entenda a deles”, comenta a cineasta.

Esse tipo de contraponto narrativo é o que faz muitos, especialmente homens, terem ressalvas éticas com “Câmara”. “Que ética permite que os homens falem do jeito que quiserem, da violência que quiserem, sobre as mulheres? Isso é ético?”, responde Ferraz, que explicita em alguns momentos do filme sua voz e sua direção para a equipe. Ela ressalta, no entanto, que seu objetivo nunca foi personificar o machismo em seus participantes. Segundo ela, a montagem poderia ter incluído passagens muito mais ultrajantes, mas isso ia afastar o público masculino. “Eu podia ter acabado com os caras, mas não quis transformá-los em monstros. Queria que os homens que vissem o filme se percebessem naquelas falas e também que os 12 participantes pensassem ao se ver na tela ‘putz, eu disse isso’”, argumenta.

Ao convidar mulheres a exporem suas memórias mais traumáticas, Sacchetta também enfrentou dilemas éticos sérios. No entanto, apesar de ter se debatido com alguns momentos, como a inclusão do desmoronamento de uma garota após confessar que nunca contou seu estupro nem para a psicóloga, a cineasta responde ao cinismo de quem acha que seu filme apenas tenta explorar o drama de suas participantes com sua crença na importância de se contar histórias tristes. “Vou atrás dos problemas, não vou fazer um filme bonitinho sobre uma coisa alto astral. Quero expor as dores do mundo porque é preciso conhecer para mudar”, defende.

Além disso, toda a filmagem de “Precisamos Falar do Assédio” foi acompanhada por representantes da Secretaria de Políticas para Mulheres da cidade de São Paulo. Após cada depoimento, elas ofereciam, não tratamento, mas encaminhamentos e ajudas possíveis. “Depois da sessão que a gente fez para as 26 que estão no filme, uma veio me dizer “eu estou me sentindo transparente, exposta, com minhas vísceras à mostra. E estou vendo as outras aqui e todas elas estão transparentes também, mas nós estamos juntas, e juntas a gente fica mais forte e consegue falar’”, conta Sacchetta.

Por mais que a exibição dos longas em um festival tão prestigioso seja significativo, porém, a programação deles em mostras paralelas, e não na competitiva oficial, ainda sugere uma possível segregação desse tipo de conteúdo. “Minha preocupação foi bem clara: ‘tem mulher na competitiva?’. Se não tivesse, não teria topado”, revela Ferraz, sobre o convite. Mas no fim das contas, ela celebrou que Brasília tenha topado trazer a discussão para sua pauta. “Para mim, passar o filme na capital federal foi como gritar no pé do ouvido de Temer e Cunha pela vida das mulheres”, provoca.

O jornalista viajou a convite do festival

 

 

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