Recuperar Senha
Fechar
Entrar

Festival de Berlim

Protesto ofusca recepção fria do longa 'Joaquim'

Enviar por e-mail
Imprimir
Aumentar letra
Diminur letra
1
Equipe do filme antes da projeção no festival alemão de cinema
PUBLICADO EM 17/02/17 - 03h00

BERLIM, ALEMANHA. “Preciso fazer alguma coisa com a minha raiva”, diz o alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792) em um determinado momento de “Joaquim”, de Marcelo Gomes, que fez sua estreia na competição do 67º Festival de Berlim nessa quinta-feira (16).

O filme do diretor pernambucano sobre o período de conscientização política do futuro líder da Inconfidência Mineira, antes, portanto, da construção do mito de Tiradentes, foi recebido com certa frieza pela plateia de jornalistas, que encheu o Berlinale Palast, o teatro que serve como principal cinema da Berlinale. Algumas palmas diplomáticas foram ouvidas ao final da projeção, já durante os créditos.

O filme abre com a cabeça decapitada do alferes mineiro espetada diante de uma igreja, sob a voz do próprio protagonista, interpretado pelo ator paulistano Julio Machado. Ele resume sua trajetória, como único revoltoso morto pela Coroa portuguesa, hoje “estudado nas escolas pelas crianças” e com direito a feriado nacional.

Exercício de ficção inspirado em estudos históricos, “Joaquim” teve como norte o livro “Desclassificados do Ouro: A Pobreza Mineira no Século XVIII”, de Laura de Mello e Souza. A pesquisadora acabou se tornando consultora histórica da equipe. O filme é uma coprodução entre Brasil e Portugal, e conta com atores brasileiros e portugueses, filhos de africanos que conhecem os dialetos da África.

“O que mais me impressionou em minhas leituras e pesquisas foi perceber que as relações sociais do Brasil Colônia estão reproduzidos na sociedade brasileira de hoje, e de forma redimensionada”, contou Gomes durante a coletiva de imprensa após a projeção. “Fiquei imaginando o Joaquim em contato com aquela realidade, sonhando com a ideia de independência, mas em uma sociedade cheia de fraturas cruéis e desumanas. Os portugueses deram início à construção de uma nação a partir da ideia de exploração da terra e a dominação do outro, processo que se reproduz na sociedade brasileira até os nossos dias”.

Diferentemente de outros filmes brasileiros que exploraram no passado a figura do alferes, como “Inconfidência Mineira” (1948), de Carmen Santos, “Os Inconfidentes” (1972), de Joaquim Pedro de Andrade, e “Tiradentes, o Mártir da Independência” (1977), de Geraldo Vietri, “Joaquim” imagina as circunstâncias em que ocorreu a tomada de consciência política do soldado, antes da construção da imagem do herói.

Enquanto sonha com a promoção a tenente, patente que vê cair sobre os ombros de militares com ligações com as esferas mais altas, Joaquim testemunha a opressão sobre índios e negros, e vê a corrupção contaminar as relações entre todas as camadas sociais.

“Quando eu era criança, durante a ditadura militar, a gente aprendia que Tiradentes era nosso herói, e o retratavam como um Jesus Cristo. A minha intenção foi desconstruir esse personagem porque, assim como ele, todos nós tomamos decisões importantes na vida, e resultam em grandes consequências ou não, e nem por isso somos heróis”, explicou Gomes. “Todas as colonizações foram cruéis, não só a portuguesa. Compreender o passado é uma forma de entender o presente. Queríamos que as pessoas fizessem essa relação com o que estamos vivendo agora”, disse.

Protesto. O diretor de “Joaquim” ainda encabeçou um protesto contra o governo Michel Temer. Ele e outros cineastas brasileiros declararam no Festival de Berlim que a cultura do país está ameaçada pelo governo “ilegítimo” do presidente e pediram o apoio da comunidade internacional do cinema. “Esta é uma carta de alerta ante a crise democrática que estamos vivendo”, disse à AFP o diretor Marcelo Gomes, depois de ler um texto para a imprensa, assinado por 300 pessoas.

O governo de Temer “fez mudanças terríveis na área social e educacional. Os avanços que tinham sido feitos ele retiraram, e agora vai acontecer o mesmo (com a cultura) se não gritarmos”, acrescentou o cineasta. O Brasil está representado na Berlinale por cerca de 15 filmes, e entre os que firmaram a carta estão os diretores Fabio Meira (“As Duas Irenes”), Davi Pretto (“Rifle”) e Lais Bodanzky (“Como Nossos Pais”).

Os diretores pediram o apoio da comunidade cinematográfica na sua “luta para proteger as políticas” culturais adotadas durante os governos de Lula e de Dilma Rousseff. Mostraram-se especialmente preocupados com as próximas nomeações para a Agência Nacional de Cinema (Ancine), cujo trabalho nos últimos anos elogiaram. “Os resultados são visíveis: 27 filmes foram selecionados nos primeiros festivais internacionais do ano e o setor audiovisual cresceu 8,8% em 2016, muito acima da economia nacional”, ressalta a carta.

O que achou deste artigo?
Fechar

Festival de Berlim

Protesto ofusca recepção fria do longa 'Joaquim'
Caracteres restantes: 300
* Estes campos são de preenchimento obrigatório
Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização
Compartilhar usando o Facebook
ou conecte-se com

ATENÇÃO

Cadastre-se para poder comentar

Comentar com Facebook Comentar com Twitter