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Literatura

Sem deixar os cantos de lado

2ª edição do FLI-BH abre espaço para testemunhos de lugares variados

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Incluir. Ilustração feita para o festival reproduz a ideia de amplificar os sentidos da literatura e alcançar o maior número de pessoas

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PUBLICADO EM 13/09/17 - 03h00

De lado ou pela garganta, nem mesmo o canto fica estático. Num evento dedicado à palavra é inevitável que o sentido da expressão se amplifique, como explica um dos curadores da 2ª edição do Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH), cuja programação se estende de quinta (14) a domingo (17). “O tema deste ano, ‘Vozes de Todos os Cantos’, quer, justamente, buscar a diversidade, escutar essa produção literária que acontece fora do espaço restrito ao mercado e aos cânones, sem deixar de fora a academia nem os autores com boa circulação”, define Francisco de Morais Mendes, que divide a curadoria com Adriane Garcia.

Nesse sentido, os quatro dias de evento gratuito no Centro de Referência da Juventude (CRJ), na praça da Estação, contemplam um amplo espectro de atividades e autores com diferentes origens, temáticas e abordagens, além do lançamento de mais de cem livros. Mesas de debate com a presença do escritor congolês refugiado em Belo Horizonte Felix Kaputu, da norte-americana Porsha Olayiwola, vencedora mundial do último Slam (disputa de poesia falada), da militante indígena e escritora Eliane Potiguara, e atrações da própria cidade, como o rapper Flávio Renegado e o multiartista Ricardo Aleixo, prometem dar visibilidade para uma produção cultural normalmente alijada de iniciativas do gênero.

“Em primeiro lugar, são pessoas que nos apresentam obras de muita qualidade – esse é o critério inescapável –, mas que, por questões históricas, ainda não tinham o reconhecimento devido”, detecta Mendes. A literatura feminina, trans, negra, indígena e da periferia permeará algumas dessas discussões. “O que queremos é aproximar a literatura do leitor. Se o preço a se pagar por isso é transformar o autor numa celebridade, algo que, particularmente, não me parece o ideal, mas é uma demanda contemporânea, então vamos nessa, desde que o objetivo final seja cumprido, que é o de formar novos leitores”, sustenta Mendes.

Homenageada. Quando teve seu primeiro poema publicado na contracapa do Suplemento Literário de Minas Gerais, em 1983, a poeta Thais Guimarães, ainda jovem, teve a grata surpresa de estar ao lado da voz moderna e ousada de Laís Corrêa de Araújo, que estampava com o irônico poema “Serva” a capa do jornal. Uma poeta a quem admirava profundamente e que, nos anos 1980, era uma referência para as jovens poetas. Laís Corrêa de Araújo, falecida em 2006, é a homenageada da vez no FLI-BH. Uma voz plena de modernidade. “A poética de Laís está em consonância com a produção contemporânea, não ficou confinada aos limites estreitos de uma poesia a ser chamada de feminina, apesar de ter abordado também o universo feminino; ela arriscou, experimentou e investiu no rigor da linguagem, por isso sua obra é tão consistente”, avalia Thaís.

Apesar disso, Laís permanece um nome pouco conhecido pelo grande público. “A escolha deste ano para homenageá-la, quando completaria 90 anos, faz justiça à grande autora que ela foi, crítica literária, tradutora, uma mulher de vanguarda, à frente do seu tempo. Antes dela, temos nomes pontuais no cenário nacional, como Cecília Meireles, Pagu, Henriqueta Lisboa, mas, em linhas gerais, são poucos os nomes de mulheres poetas que se destacaram.

Ao lado de Maria Esther Maciel, autora de estudos valiosos sobre a homenageada, Thais participa nesta sexta da mesa “O Inventário Poético de Laís Corrêa de Araújo”, a partir das 19h. Outras surpresas estão guardadas para o dia, como um recital, coordenado por Thais, em 2015, na casa onde ela morou, na rua Cristina, 1.300, antes que o imóvel fosse demolido. A filmagem deste recital, com a presença de 11 poetas, entre elas Ana Martins Marques, Simone Andrade Neves, Ana Elisa Ribeiro, Adriane Garcia entre outras, e que teve direção de José Adolfo Moura, será exibida pela primeira vez ao público, na íntegra, durante o festival. “Vai ser um momento de emoção muito grande”, observa Thaís. Logo após haverá apresentação do grupo Cobra Coral, que canta o repertório de Caetano Veloso.
 

Curiosidade. Nascida em Campo Belo, no interior do Estado, e criada em Belo Horizonte, Laís publicou, em 1967, “Cantochão”, livro de poemas com o qual se sagrou vencedora do Prêmio Cidade de Belo Horizonte em 1965. “Além do rigor da obra, que não se limitou à seara poética ou adulta, já que Laís também publicou livros infantojuvenis, vale ressaltar que ela também fez importantes traduções, a exemplo, foi a primeira a traduzir no Brasil os autores Roland Barthes e Julio Cortázar”, complementa Thais.

 

Pela preservação das origens

Um copo de leite chegou a ser o único alimento de Eliane Potiguara, 66, quando, na infância, ela foi morar com a família nas ruas do Rio de Janeiro. “Transformei toda a dor e sofrimento da minha gente em arte”, define. A ativista e escritora indígena é uma das atrações da 2ª edição do Festival Literário Internacional de BH (FLI-BH). Ela se apresenta na sexta-feira, em mesa que traz como foco do debate justamente as perspectivas de seu povo, intitulada “Os livros, as letras, as vozes e as imagens da floresta”.

“Ainda criança presenciei a violação de direitos humanos contra a minha família. O meu tio avô desapareceu, porque era isso que acontecia com os que se rebelavam contra a escravidão a que submetiam os povos indígenas, algo que, infelizmente, acontece até hoje”, denuncia a autora.

Formada em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eliane criou o primeiro jornal indígena do país, com cartilhas baseadas no método de alfabetização de Paulo Freire. Foi fundadora do Grupo de Mulheres Indígenas (Grumin) e esteve entre as 52 brasileiras indicadas para o projeto internacional “Mil Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz”. Como se não bastasse, publicou livros infantis e adultos, sendo o primeiro deles “A Terra É Mãe do Índio”, e o mais recente, “Metade Cara, Metade Máscara”, já traduzido para o espanhol para ser lançado no México.

“Comecei a escrever, primeiro, as cartas que minha avó me ditava. Eu era uma criança muito tímida, quieta, calada, demorei a falar. Quando entrei numa escola no Rio, senti os preconceitos sociais e as discriminações reproduzidas ali”.

Com o tempo, Eliane descobriu por meio das palavras seu poder de resiliência e o resgate de uma cultura vilipendiada. “A tradição indígena é bastante baseada na oralidade, no contato com a natureza, nos cantos coletivos, hábitos que fomos perdendo, embora na essência o brasileiro tenha muito do costume indígena. Várias histórias nos foram tiradas”, lamenta.

“Queremos fortalecer o pensamento indígena para que volte, por exemplo, o ensino da cultura negra e indígena nas escolas, uma conquista que havíamos obtido no governo Lula e que foi tirada com a entrada do Temer”, aponta Eliane.

Além da entrevistada, a mesa de debate no FLI-BH terá a presença de Mário Geraldo Fonseca, coordenador do projeto Ofídias: Artes e Culturas Indígenas, Artes e Culturas Contemporâneas, e mediação de Viviane Maia, doutoranda em literaturas de língua portuguesa pela PUC Minas.

História. Eliane admite que a chegada da maturidade modificou suas prioridades. Embora não tenha deixado a militância de lado, ela passou a se dedicar mais ao exercício da escrita. “A literatura sempre me acompanhou, foi um auxílio para me comunicar. Quando era estudante, tirei o primeiro lugar num concurso literário da escola, mas não recebi o prêmio porque morava no morro e a pessoa que iria entregar não quis subir até lá”, relembra.

A decepção, no entanto, como tudo em sua vida, virou motivo de resistência. “Na época fiquei muito triste, abalada, queria muito levar a coleção de livros para casa, que era o prêmio prometido, senti um vazio, mas não desanimei”. Tanto é verdade que, à revelia de ameaças de morte contra ela e a própria família, incluindo a promessa de um sequestro de seu filho, nos anos 90, ela se manteve no rumo das lutas políticas. “Sofri perseguições de todo o tipo, físicas, psicológicas e muitas difamações”, recorda.

Próxima dos 70 anos, Eliane tira as lições dessa história. “Sou uma pessoa consciente da minha ancestralidade, tudo que busco é o despertar para minhas origens, as forças criadoras da natureza. Antigamente, eu era chamada só para conversar sobre o meio ambiente e as mulheres, o que é importante, mas vou além disso”. Não é de se duvidar, para quem já foi à China e ao Egito, o limite é sempre muito ínfimo.

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