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'Suburbicon'

Signos liberais de George Clooney não fazem sentido

Roteiristas do filme são basicamente os irmãos Coen

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Noah Jupe
Noah Jupe como Nicky é um dos destaques de “Suburbicon”
PUBLICADO EM 21/12/17 - 03h00

SÃO PAULO. Os filmes de George Clooney costumam ter a cara de seus roteiristas. Em “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”, eles são basicamente os irmãos Coen, portanto, ninguém estranha que a imitação seja a marca mais evidente deste filme.

De cara, a abertura decalca, quase explicitamente, a de “Calafrios” (obra de David Cronenberg de 1975). Segue-se uma trama envolvendo gêmeas diabólicas (tão clássica que não merece comentários) – ou ao menos uma delas. E um assassinato que tem por centro apólices de seguro, à maneira de “Pacto de Sangue” (do diretor Billy Wilder, de 1944). E por aí vamos.

“Suburbicon” se insere na história uma família negra, os Mayers, nesse bairro não apenas branco como ostensivamente racista. Não chega a ser algo tão original, mas o filme regride ao momento em que a integração racial nos EUA ainda engatinhava.

Os Mayers são vizinhos dos Lodge, que enfrentarão uma enormidade de problemas ao longo do filme, a começar pelo assalto em que são vítimas de uma dupla de sádicos (ou ao menos podemos pensar assim por algum tempo). É a melhor cena do filme, em que a atmosfera de opressão se manifesta com força e nos faz estranhar a fraqueza de Gardner Lodge (Matt Damon), o chefe da família.

Diga-se, a bem da verdade, que os assaltantes têm esses traços marcados demais, como se tivessem saído de uma comédia e entrado ali por engano. Eis a diferença entre os Coen e Clooney: os irmãos são maneiristas e sabem disso; Clooney, aparentemente, não.

De volta ao filme: os Lodge fazem parte da minoria que não vê a presença de negros como ameaça a seu paraíso racial. Tia Margaret (Julianne Moore) inclusive estimula o sobrinho a brincar com o menino negro.

Eis o problema criado! Não o fato de brincarem juntos. O problema é que a família negra não tem nada a fazer nesse bairro de brancos a não ser isto: ocupar um lugar que os brancos julgam ser exclusivamente deles. Ou, em outras palavras, não têm função dramática alguma. São signos.

Sua existência consiste em afirmar o caráter liberal de George Clooney, de suas ideias antirracistas. Ou ainda cortejar o público liberal. Pode ser muito bom, mas não faz o menor sentido no filme.

A trama segue seu curso policial: um assassinato, uma investigação, mais mortes. E a presença do menino branco (Noah Jupe), bastante esperto (talvez seja o melhor personagem do filme): pequeno e indefeso – teoricamente –, ele consegue se defender muito bem dos horrores que o cercam. George Clooney é um bom ator, ótimo galã, diretor de ideias avançadas, porém irregular como realizador. Seu melhor feito aqui está na direção de atores (Julianne Moore em especial está ótima) e na ambientação do bairro pacato.

Que tudo vire um inferno em tom de farsa (de novo os Coen) é o tributo a um tempo de espectadores pouco dispostos a encarar uma tragédia de fato. O espírito dos irmãos Coen, vê-se, paira sobre a direção de Clooney.

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