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Música

Todo o poder de Anitta

Aos 24 anos, carioca canta em três línguas, dança, compõe, promete um clipe por mês e arrebata multidões, mas seu sucesso também está ligado a estratégias

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Anitta
Nos bastidores do clipe “Paradinha”, nos EUA: ela mira, agora, a carreira internacional
PUBLICADO EM 03/09/17 - 03h00

Quando subir ao palco do Festeja, evento que acontece no Mineirão no sábado, dia 9, Anitta será acompanhada pelos milhares de fãs que sabem de cor seus hits. Aliás, mesmo quem não se interessa pelo trabalho da carioca Larissa de Macedo Machado (Anitta é nome artístico) já deve ter lido algo sobre a vida dela ou escutado trecho de suas músicas em novelas, na rádio, no cinema (em “Como Nossos Pais”, filme em cartaz na cidade, há um trecho de “Show das Poderosas”) ou no YouTube.

Atualmente, não se deparar com Anitta é quase impossível. A artista tem conquistado cada vez mais espaço e vários são os motivos que explicam esse sucesso.

O primeiro deles, segundo especialistas ouvidos pelo Magazine, diz respeito a sua versatilidade: Anitta canta, dança, compõe, comanda programa de TV e atua em filmes e novelas. Também é das poucas artistas brasileiras a transitar por diferentes gêneros: veio do funk, mas passeia pelo pop, pelo reggaeton e vai até o sertanejo (como em parcerias com Simone & Simaria). Além disso, mira uma gama enorme de público, que vai desde crianças (com o “Show das Poderosinhas”) até o LGBTQ (como no clipe com a drag Pabllo Vittar e o coletivo Major Lazer teve mais de 143 milhões de visualizações).

“Anitta é reflexo de uma geração mais aberta sexualmente, que fala sobre corpo e gênero. Então, quando ela coloca uma modelo plus size ou um gay de salto alto, soa natural porque é assim que essa geração percebe isso. Essa coerência é importante para o sucesso, é um jogo de inteligência e marketing”, comenta o publicitário e gerente de marketing Pedro Sampaio, que tem analisado a carreira de Anitta. “Outra coisa é que ela opta por ritmos populares, esteticamente até menos qualificados, como o funk, mas em uma embalagem sofisticada. Os clipes são assinados por diretores reconhecidos, com estética de animação, do pop: isso amplia seu alcance”, diz.

A doutoranda em comunicação social pela UFMG Fernanda Medeiros aponta o fato de a artista estar inserida em um contexto favorável como crucial para o seu sucesso. “Claro que a assessoria da Anitta trabalha para gerar visibilidade, mas há a questão do momento social, que casou com a ideia de fama que ela constrói. Ela é a mulher jovem, empoderada, gente boa, que conversa com a comunidade, que é musa gay. Nosso contexto atual pedia uma celebridade desse tipo”, explica. “Além disso, não dá para desprezar o carisma. Clifford Geertz (antropólogo norte-americano) explicava que o talento é um dom, mas o carisma é construído, é o encontro de talento, aprovação do público e união a uma figura ou instituição que representa um grande centro de poder, no caso, a mídia. Essa união de características aumenta a compreensão da condição de fama da Anitta”, reflete.

Para o crítico Mauro Ferreira, Anitta não trouxe novidades à música, mas entendeu a contemporaneidade. Há poucas semanas, por exemplo, anunciou que a partir deste mês passará a lançar um clipe por mês. No entanto, seu último álbum é de 2015. “Anitta pensa a carreira de forma estratégica. Isso é um elogio. Madonna é assim, Marisa Monte também. Ela tem o mérito de entender a engrenagem que move a indústria. Singles e clipes são mais importantes do que álbuns para manter um artista em evidência, sobretudo nas redes sociais e plataformas digitais”, comenta. O publicitário Chico Barney também percebe esse modelo como trunfo. “Vejo semelhanças nesse formato com a relação estabelecida entre os youtubers e seus fãs. Existem pontos de contato recorrentes e frequentes, para que o ídolo esteja sempre na pauta do dia. Anitta lança músicas como um youtuber”, aponta.

Equipe. Desde que tornou-se sua própria empresária, em 2014, Anitta tem reafirmado que a condição foi crucial para sua ascensão. Além disso, conta que se preparou muito.

Para o produtor Alexandre Kassin (que já trabalhou com Caetano Veloso, Los Hermanos e Adriana Calcanhotto) ela soube escolher bem a equipe de 60 pessoas dedicadas a fazer avançar sua carreira internacional. “Admiro as pessoas em torno dela porque fazem um trabalho bem-feito. A banda é incrível, já pude ver ao vivo. O Umberto e Mãozinha (Umberto Tavares e Carlos Costa, produtores musicais da artista e já estiveram com Buchecha, Belo, Fiuk e Latino, por exemplo) são pessoas que há muito tempo estão no meio, fizeram mil coisas interessantíssimas. Também creio que Anitta faz parte disso, certamente dando ideias”, diz.

Fernanda também destaca o trabalho dos profissionais que a cercam. “Tudo é estudado por essa equipe”, comenta. Já Sampaio observa o peso do planejamento. “Não tem absolutamente nada de instintivo nas escolhas. O próprio movimento para conquistar mercados internacionais traz estratégias. Primeiro, ela pegou uma música que já tinha feito sucesso. Depois, foi para a América Latina, mais receptiva que os Estados Unidos. Em seguida, se aproximou do Maluma (cantor colombiano) que estava estourado. Ou seja, quando ela grava em espanhol (‘Paradinha’), as pessoas já estavam acostumadas com ela”, diz.

Poderia Anitta ser uma falácia? Para os especialistas, não. “Anitta tem talento. Não é grande cantora e muito menos compositora relevante. Mas faz o som que se espera dos artistas da geração dela”, diz Ferreira. “É afinada e super precisa, poucas pessoas comentam isso”, reforça Kassin. “Definitivamente talento passa por aí, pode-se discutir se é bom ou ruim pelo gosto”, aponta Fernanda. “As músicas são boas, ficam na cabeça, e isso ainda é o mais importante”, diz Barney. “Nenhuma estratégia se sustentaria sem conteúdo, ainda mais na era da informação e da transparência. Se ela não cantasse ou dançasse bem, não adiantaria definir estratégias porque uma hora essa ponta da estrutura cairia”, diz Sampaio.

 

17,8 milhões de visualizações no YouTube em 24 horas alcançou o videoclipe de “Sua Cara”, tornando-se a maior estreia na rede neste ano.

 

Três perguntas para Anitta

De que forma você se organiza para conseguir cumprir as funções como artista e como empresária? Você é muito disciplinada? Sim, sou bem disciplinada e sei que para funcionar tenho que ter tudo certinho, ter uma organização, senão não dá certo. Vejo os arranjos das músicas, as roupas e até os locais dos shows. Por eu ter controle da minha carreira, tenho noção dos meus limites e sei até onde vou aguentar.

Quais preparativos você fez quando decidiu tornar-se sua empresária? O aprendizado de línguas veio nesse sentido? Sempre me preocupei em estudar e me planejar para cada passo. O meu interesse por outras línguas, por exemplo, veio desde nova. Com a minha carreira e a vontade e oportunidade de experimentar novos horizontes fora do Brasil, esse desejo só aumentou.

Como você avalia e escolhe seus parceiros para músicas, como Pabllo Vittar, Iggy Azalea, Simone & Simaria? Por que considera importante associar seu nome a esses artistas? Surgem de convites dos artistas ou meus, a partir de um novo trabalho que tenha tudo a ver com um feat (participação). Geralmente, são meus amigos ou um artista que admiro e sei que vai ser incrível poder trocar experiências.

 

FOTO: Youtube/Reprodução
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LEGENDA

Cantora busca companhias, mas arrisca-se com superexposição

Uma das estratégias de Anitta para se manter em alta e atingir novos públicos, inclusive no exterior, é a associação com outros artistas. Segundo ela, as parcerias são espontâneas, mas vale observar que todos seus parceiros estão no auge, como Pabllo Vittar e Major Lazer, no single “Sua Cara”. “Ao colar em alguém que está na ‘crista da onda’, ela consegue visibilidade, mas isso precisa ser feito com coerência. Como ela está em um momento bom, mesmo as coisas negativas aparecem menos, como ao cantar com a Sandy, algo que soou forçado”, diz a doutoranda em Comunicação Social pela UFMG Fernanda Medeiros.

Para o publicitário e gerente de marketing Pedro Sampaio, Anitta garante sua presença estando atenta ao que o público pede. “A equipe dela observa quem está bombando nas novas mídias e busca artistas em franca expansão”, diz. “Pensando na Anitta como uma marca, ela não peca porque se associa com pessoas que levantam temáticas semelhantes, como a causa gay, o feminismo”, observa.

Além disso, juntar-se a artistas significa ganhar uma espécie de assinatura, de apadrinhamento de outras áreas, o que também é importante. “Desde que juntaram Ol’Dirty Bastard com a Mariah Carey que isso é uma constante nas músicas pop. Os fãs de Maluma, Iggy Azalea, Simone & Simaria, Jota Quest e tantos outros agora conhecem Anitta. Também funciona como um ‘pedigree mercadológico’.

Durante os anos 90, todo gibi da Marvel tinha participação especial do Homem-Aranha ou do Wolverine porque a presença deles na capa turbinava as vendas. A 'collab' entre youtubers é uma prática recomendada pelo próprio Google para a construção de uma comunidade”, observa Chico Barney.

 

FOTO: Instagram/Reprodução
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Combinações. Por visibilidade, artista busca parceiros, inclusive internacionais, como Major Lazer e Iggy Azalea


Anitta diz que o caminho está sendo traçado ainda em atenção ao público do exterior. Há pouco mais de um ano, para reforçar tal projeto, ela assinou com a agência William Morris, a mesma de artistas como Rihanna. “Eu sempre tive essa vontade, sim (de ter uma carreira internacional), e estou muito feliz com essa fase de primeiros passos. Mas meus planos são dentro e fora do Brasil”, comenta ela, que não dá detalhes em relação a contratação. “A agência vem para somar. Já tenho novas parcerias, mas nada que possa adiantar ainda”, diz.

No entanto, ao estar superexposta, a artista também corre riscos. “Há o perigo de desgaste de imagem. Mas é preciso levar em conta que hoje em dia tudo é volátil. Um single é assunto durante uma semana. Duas ou três, no máximo. Nesse sentido, o próprio mercado e o público pedem novidades constantes. É uma característica da era digital”, diz o crítico Mauro Ferreira. Para Barney, até por isso Anitta é a artista pop brasileira que mais conseguiu se alinhar ao que é feito no exterior. “Ela tem tudo para ter a mesma projeção que Shakira”, diz.
 

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