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Entrevista

Uma arte que se renova

Edna Matosinho organizou livro que busca mapear alguns dos principais representantes da arte popular brasileira

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PUBLICADO EM 14/01/18 - 03h00

Edna Matosinho

Pesquisadora e galerista

Após uma pesquisa realizada a partir de 2014, a autora organizou o livro “Eu me Ensinei: Narrativas da Criatividade Popular Brasileira”, que busca mapear alguns dos principais representantes da arte popular brasileira. Nesta entrevista, ela detalha o processo de feitura do volume e comenta o trabalho de nomes que enveredaram-se por diversas vertentes. 

Como surgiu o livro “Eu me Ensinei: Narrativas da Criatividade Popular Brasileira”? Ele é baseado em pesquisas e em narrativas de artistas com os quais eu conversei principalmente em 2014, mas algumas entrevistas foram feitas depois disso. Eu sou psicóloga, trabalhei em clínica como psicanalista, e grande parte do meu trabalho sempre foi ouvir as pessoas e interpretar o que elas falavam. Quando deixei essa área, eu já me interessava por arte popular e já colecionava algumas obras. Então, decidi trabalhar com isso. Quando decidi produzir o livro, eu fiz uma junção do meu interesse por arte popular com a bagagem profissional que eu tenho, a partir de toda minha experiência como pesquisadora.

O título reúne 78 artistas. Como você chegou a essa seleção? Na verdade, eu entrevistei mais de 100 artistas e já conhecia a maior parte dos entrevistados em 2008, quando montei uma galeria em São Paulo. Mas antes de definir as pessoas com quem iria conversar, eu falei com outros galeristas que têm mais experiência que eu. Também fiz algumas viagens pelo Brasil. Em Minas Gerais, por exemplo, eu estive quatro vezes.

A maior parte dos artistas é mineira, correto? Sim, ao todo, são 25. Há artistas de Belo Horizonte, do Vale do Jequitinhonha, de Cachoeira do Brumado, de Divinópolis e de Prados.

Você notou alguma relação que pode aproximar ou não as obras dos mineiros? É muito interessante observar que no que se produz tanto em Minas Gerais quanto em várias outras partes do Brasil, nós percebemos algo que une e dá um sentido a tudo isso. Eu não saberia definir exatamente o que é, mas a gente pode chamar de uma certa brasilidade. Quando você vê individualmente os trabalhos dos artistas, é possível perceber que existem algumas semelhanças entre as criações do Jequitinhonha e de outras regiões, mas cada uma tem uma característica própria. Ao mesmo tempo, há uma brasilidade ali que as aproximam da arte popular produzida em outros Estados.

“Eu me Ensinei” contempla artistas de quais regiões do país? O livro segue uma direção que vai do Norte ao Sul do Brasil. Nós começamos a pesquisa pelo Amazonas, depois fomos ao Pará, ao Piauí, à Paraíba, a Pernambuco e a Alagoas, que tem menos artistas se comparado a outros Estados como Pernambuco, que tradicionalmente é rico em termos de cultura popular. Mas hoje nós encontramos em Alagoas uma produção mais recente, muito fértil e criativa. Depois, nós fomos a Sergipe, que tem um único artista, mas que atualmente é o de maior projeção internacional, o Véio. Depois chegamos à Bahia, ao Mato Grosso, a Goiás, a Minas Gerais e, por fim, aportamos no Rio de Janeiro. O número de artistas de cada Estado varia, e o livro é uma forma de divulgar não só a arte deles, mas a história desses artistas, reunindo algumas referências, influências e o seu processo criativo.

É possível mapear quais materiais e vertentes predominam em cada região? O artista popular, geralmente, faz uso daquilo que está à disposição dele. Nas regiões ricas em barro, predomina a cerâmica, como em Caruaru (PE), terra do Vitalino (1909-1963). Em Alagoas também há um centro de ceramistas muito interessante, mas isso (o predomínio de cerâmica no Estado) não quer dizer que em Pernambuco não existam artistas que entalhem em madeira. Os que trabalham com esse material costumam preferir o cedro, mas há outros de Divinópolis (MG), por exemplo, que usam madeiras mais duras. No Vale do Jequitinhonha (MG) também é forte a cerâmica, enquanto em Divinópolis, terra do GTO; em Cachoeira do Brumado, onde nasceu Arthur Pereira; e em Prados, que é a terra da família Julião, encontramos mais escultores em madeira. Assim como em Belo Horizonte, onde viveu Álvaro Jorge. E há aqueles que criam a partir do que encontram livremente, reutilizando materiais, mas o que eles fazem é diferente de reciclagem. Isso é algo que identificamos em vários Estados. Há um artista do Pará, Marinaldo Santos, que é genial e faz uso de tudo que ele acha ao seu redor. No Rio, há o Getúlio que faz isso também. Outros mantêm o seu trabalho muito ligado à natureza. A escultura, para eles, começa a partir do olhar para um pedaço de madeira que ninguém dá valor, mas disso eles tiram uma escultura quase pronta. É o caso de José Bezerra, em Pernambuco, e do próprio Véio, que coloca por cima da madeira cores que dão uma vibração e outra configuração para a escultura. O Bento de Sumé, na Paraíba, também lida com a natureza como se ela fosse coautora. Enfim, a gente encontra muito essa relação: o artista se inspira naquilo que o rodeia, e o trabalho dele, ao mesmo tempo, é limitado pelo que ele tem disponível.

Entre esses, há também quem faz xilogravura, como o pernambucano J. Borges, e pintores. O últimos são os que aparecem em menor número? Sim, há menos pintores do que escultores em madeira e cerâmica. Fé Cordula é um dos pintores. Ele nasceu no Rio Grande do Norte, mas passou grande parte da vida em Goiânia. Outro do Mato Grosso é Nilson Pimenta, que morreu em dezembro do ano passado e foi um artista maravilhoso. Ele era baiano, mas muito jovem foi para o Mato Grosso. Ele pintava muito o Pantanal sem nunca ter ido lá. Na nossa conversa, ele disse que gostava de recriar o Pantanal a partir do seu próprio imaginário. Há outro pintor maravilhoso também que é o Alexandre Filho, da Paraíba. Ele faz umas pinturas coloridas, cheias de vida, muito lúdicas. O Rodrigo Godá, de Goiás, é outro muito interessante. O trabalho dele fica no limite entre a arte popular e a arte contemporânea. Acho que o Estado que mais tem pintores acaba sendo Goiás. Além de Godá, o Omar Souto e o Pérsio Forzani também são de lá.

Qual momento vive a arte popular brasileira? Ela é algo que constantemente se renova. Por exemplo, a cerâmica, produzida tanto em Alagoas como em outras regiões, tem origem numa cerâmica utilitária produzida por famílias. Mas a partir disso, a cerâmica ganha outros rumos, como mostra o trabalho de artistas, como Vitalino (PE) e Dona Izabel (que se tornou a mais famosa bonequeira do Vale do Jequitinhonha). Outro exemplo é João das Alagoas que veio de uma família de louceiros, mas depois transformou essa produção em cerâmica numa expressão artística.

Há a possibilidade de ser produzido um segundo volume? Pela quantidade de artistas que entrevistei e não houve a possibilidade de incluir nesse livro, que ficou grande demais, eu acredito que sim. Há ainda aqueles que eu conheci durante o processo e não cheguei a visitar. Isso aconteceu quando fui fotografar alguns trabalhos em Alagoas, em Pernambuco, onde tomei conhecimento de artistas que, inclusive, eram de outros Estados, como Fortaleza e Sergipe. Se eu mesma não conseguir fazer isso, espero que alguém faça, porque a arte popular está se renovando e é muito viva. 

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