Saudade

Da província para o vasto mundo

Três décadas após a morte de Carlos Drummond de Andrade, a relação conflituosa do poeta com Belo Horizonte e a influência da jovem capital mineira na construção da sua obra ainda instigam pesquisadores

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Carlos Drummond
Carlos Drummond de Andrade viveu em BH entre 1920 e 1934. Foto: Instituto Moreira Sales/Divulgação
PUBLICADO EM 12/08/17 - 11h04

O calendário data o ano de 1929. Belo Horizonte, a cidade símbolo da República brasileira, ganha um novo elemento: o viaduto Santa Tereza passa a integrar a paisagem urbana da capital de Minas Gerais. No cotidiano descer a rua da Bahia, Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987) passeia pela nova ponte, obra influenciada pelas principais tendências arquitetônicas da época. Errante e anônimo entre outros passantes, o poeta segue seu caminho até que, para surpresa de todos, começa a escalar o arco direito de quem logo sobe pelas vias do bairro Floresta.

Inusitada, a anedota é comumente lembrada ao se falar da relação de Drummond com a Belo Horizonte dos idos de 1920 e 1930, onde viveu por 14 anos. A história ilustra bem a ambígua relação do escritor com a recém-inaugurada capital – apenas cinco anos mais velha que ele. O pacato e o efêmero, a tradição e a modernidade – as contradições da cidade foram registradas pelo poeta e não escaparam de seu olhar crítico.

“Drummond tem uma relação permeada por tensões com Belo Horizonte”, analisa a professora do departamento de Letras da UFMG, Maria Zilda Ferreira Cury. Afinal, “a mesma cidade projetada para ser o símbolo da República, a capital da Luz, fundada sob o signo do modernismo e do iluminismo, é também aquela que ainda guardava algo de bucólico e de provinciano”, lembra.

Além disso, em matéria de Brasil, “as coisas aconteciam mesmo era no Rio de Janeiro, capital da República na época”. Era esta a referência de Drummond, que, por vezes, se punha crítico à pacatez de Belo Horizonte em contraste à efervescência da Cidade Maravilhosa. “BH ainda era provinciana demais para os sonhos de ocupação intelectual e política de Drummond”. Por isso, ele várias vezes a classifica como “cidade do tédio”.

Bar do PontoA capital, obviamente, foi importante para a formação intelectual do poeta e é também um lugar de muitos afetos – além das amizades, ele se casa aqui em 1925 e tem dois filhos, observa o jornalista e escritor Fabrício Marques, autor do livro “Uma Cidade Se Inventa” (2015). Marques, no entanto, vai além, pontuando que a capital, com menos de meio século desde sua fundação, se beneficiou sobremaneira do prestígio da vanguarda literária que abrigava.

E se falando do horizonte afetivo de Drummond na capital mineira, “é preciso lembrar que, ao se instalar em BH, ele se agrupou a outros intelectuais”, frisa a professora Maria Zilda. Participavam do grupo de Drummond nomes como Abgar Renault, João Alphonsus, Pedro Nava, Milton Campos, Ciro dos Anjos e Alberto Campos. Juntos, eram conhecidos como “Meninos do Estrela”, em referência aos encontros no Café Estrela, que, como o Bar do Ponto (foto) e outros espaços, são lugares antológicos na obra drummondiana. Lá, trocavam versos entre um chope e outro.

O grupo, é verdade, também se beneficiou do fato de a cidade, ainda com pouco mais de 50 mil habitantes, ser lugar que gozava de certa importância – afinal, foi a primeira grande obra da República. “Eles logo ocuparam espaços de relevância no meio intelectual”, pontua a professora. Drummond, por exemplo, se tornou redator do “Diário de Minas”, jornal conservador do Partido Republicano Mineiro, mas que serviu de acesso para as publicações modernistas do poeta.

O conservadorismo literário, aliás, foi trincheira vencida pelo itabirano já em 1927, quando publicou, em uma revista carioca, o poema “No Meio do Caminho”, considerado um escândalo para os padrões de então. Em 1930, atuando no diário oficial do Estado (Minas Gerais) e assinando uma coluna com os pseudônimos Antônio Crispim e Barba Azul, o poeta, ainda em BH, lança “Alguma Poesia”, seu primeiro livro, com a expressiva tiragem (para a época) de 500 exemplares.

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Da província para o vasto mundo
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Poema de 7 Faces, por Antonio Edson e Eduardo Moreira

"Mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração"
Carlos Drummond de Andrade
Poema de Sete Faces

Consolo na Praia, por Marcelo de Castro

30 anos sem Drummond

Um passeio por Belo Horizonte

A vida do poeta em Belo Horizonte se concentrou dentro da avenida do Contorno, teve lugares manjados e sátiras ao desenvolvimento da cidade

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Parc Royal. A pesquisadora Valéria Machado em frente a um dos poucos prédios frequentados por Drummond e ainda de pé na cidade, na rua da Bahia
PUBLICADO EM 12/08/17 - 12h29

Em BH, a vida de Drummond se passou em poucos e manjados lugares, indica o jornalista e biógrafo Humberto Werneck, que prepara livro biográfico do poeta. A rua da Bahia, claro, tem seu protagonismo, pois “concentrava quase tudo que havia de moderno e avançado na cidade”. Caso da primeira loja de departamento da capital, o Parc Royal, “prédio que milagrosamente está em pé”, avalia.

Na livraria Francisco Alves, “onde chegavam as novidades literárias”, o “Grupo do Estrela” se reunia para ver a abertura dos caixotes de livros. “Point da cautelosa paquera que a moral mineira admitia”, a rua abrigava o Cine Odeon. A redação do “Diário de Minas”, também na via, se tornou “trincheira do movimento modernista em Minas”.

Werneck lembra, claro, do café Estrela, “uma confeitaria onde se reuniam quase todos os dias e onde, entre goles de café ou chope, trocavam seus escritos”. O biógrafo opina que, embora não tocasse no assunto, é provável que Drummond, quando solteiro, frequentasse o cabaré da espanhola Olimpia Vazques. Morando no bairro da Floresta, “numa rua onde seu pai construíra duas casas”, o poeta “indo ou voltando da rua da Bahia, mesmo já casado e pai de família, atravessava o viaduto de Santa Tereza, muitas vezes não pela calçada, mas pela estreita faixa de cimento dos arcos”. A proeza virou ritual de passagem das gerações literárias que se seguiram.

“Embora reservado e aparentemente tímido, o poeta sempre teve um lado moleque e o exercia plenamente em BH”, diz Werneck. Basta lembrar que ele ajudou a incendiar um bonde durante um protesto contra o aumento do preço dos ingressos do cinema. A vocação piromaníaca ainda apareceria outra vez, quando pôs fogo no casarão dos Vivacqua, onde ia para frequentes saraus, “só para ver as moças saindo de camisola na recatada madrugada mineira”.

Contradições

Se debruçando sobre a obra do itabirano entre os anos de 1930 e 1934, a pesquisadora e doutora em Literatura pela PUC Minas, Valéria Machado identifica contradições evidentes sobre a relação do poeta com a cidade.

Em “Luzes da Cidade”, por exemplo, soa debochado ao falar sobre as vitrines que, à noite, ficavam apagadas. “(...) Os jornais do Rio anunciam ironicamente os concursos de vitrinas. Nós aqui podíamos fazer o mesmo: indagar qual a vitrina mais escura e, como prêmio, oferecer ao proprietário um lampião a gasolina”, ironizou.

Parque Municipal

Todavia, ao mesmo tempo que satiriza o lento desenvolvimento da cidade, critica os avanços. “As posturas municipais, sacrificando o pitoresco em benefício da segurança pública, proibiram o Judas, como proibiram os balões coloridos da noite de São João. Belo Horizonte hoje é uma capital como as outras, com as suas noites de junho e os seus sábados de aleluia desprovidos dessa matéria-prima de poesia, demasiado explosiva talvez, mas por isso mesmo mais humana, porque há sempre uma porção de dinamite esperando estourar, dentro de nossa pobre alma urbana e civilizada”, escreveu, em “Música da Cidade”.

A expressão máxima deste conflito de sentimentos é o mote de “Triste Horizonte”, publicado em 1976. “Sossega minha saudade. Não me cicies outra vez o impróprio convite. Não quero mais, não quero ver-te, meu Triste Horizonte e destroçado amor”, escreveu o poeta. Em boa parte, o receio de retornar a BH se relacionava à inconformidade com as transformações que atravessaram a cidade.

Drummond demonstrava desgosto de ver construções que guardavam importantes experiências afetivas indo abaixo para um projeto de cidade em latente desenvolvimento. “Fechado o Cinema Odeon, na Rua da Bahia. /Fechado para sempre. / Não é possível, minha mocidade / fecha com ele um pouco”, diz trecho de um poema feito em parceria com Pedro Nava, em 1928.

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30 anos sem Drummond

Um passeio por Belo Horizonte
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Um poeta na cidade

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PUBLICADO EM 10/08/16 - 17h10

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Um poeta na cidade
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"as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão"
Carlos Drummond de Andrade
Memória

Receita de Ano Novo, por Giramundo

Entrevista

Vida e obra de Drummond

Envolvido no processo de escrita de uma nova biografia de Carlos Drummond de Andrade, o mineiro radicado em São Paulo comenta os primeiros passos desse trabalho e recorda alguns traços da personalidade do poeta

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Humberto Werneck
Humberto Werneck, escritor e jornalista
PUBLICADO EM 30/07/17 - 03h00

Convidado pela Companhia das Letras, o escritor e jornalista Humberto Werneck dedica-se a escrever uma biografia do também mineiro Carlos Drummond de Andrade. O mineiro radicado em São Paulo comenta alguns traços da personalidade do poeta itabirano e também ressalta como Drummond interessava-se por vários assuntos contemporâneos, inclusive moda.

O autor deve aproveitar da apuração de ‘O Desatino da Rapaziada’, obra escrita por ele em 1992 que traça a relação de uma geração literária mineira com o jornalismo, e do farto material cedido pelo autor para a Fundação Casa de Rui Barbosa e para o Instituto Moreira Salles para escrever sobre Drummond.

Você tem-se dedicado ao projeto de escrever uma biografia de Drummond. Esse trabalho está em qual estágio, e há quanto tempo você vem sistematizando isso?

Convidado pela Companhia das Letras, venho pesquisando desde o início de 2016. Parte do caminho estava feito quando comecei, pois já em “O Desatino da Rapaziada”, de 1992, pesquisei sobre a vida do poeta.

Há alguma fase da vida dele que você tem considerado mais difícil pesquisar? Por quê?

Todas as etapas da vida de Drummond têm exigido muito trabalho. De modo especial, talvez, o ano de 1934 ao final da década seguinte, marcado por sua atuação como chefe de gabinete do ministro da Educação e Saúde Pública, seu amigo Gustavo Capanema, e também pelo engajamento político, que tem a ver com a ditadura do Estado Novo, de 1937 a 1945, e a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945.

Drummond deixou um bom material sobre ele, como recortes de jornais, anotações, além das próprias publicações. O que pode contribuir para você escrever essa narrativa?

Ele deixou material não apenas farto, como primorosamente organizado, hoje aos cuidados, sobretudo, da Fundação Casa de Rui Barbosa e do Instituto Moreira Salles. Tudo isso, claro, tem a maior importância para a pesquisa de sua vida e sua obra. Esse material tem sido muito útil, também, para levar a outras fontes de pesquisa.

A jornalista Nanete Alves, em 2015, publicou um livro relatando o encontro dela com Drummond, e trouxe algumas informações curiosas, como o interesse dele pelos quadrinhos e a forma como ele gostava de trocar livros de conteúdo erótico com Clarice Lispector. Há outros aspectos da personalidade dele para os quais suas pesquisas têm chamado atenção ou provocado surpresa?

A impressão que tenho é a que nada escapava às antenas sensíveis de Drummond, apaixonado observador de tudo e todos. Basta ver a variedade de temas de que se ocupa em suas milhares de crônicas. O futebol acabou rendendo um livro póstumo. Interessava-se por animais e plantas. Passou boa parte da vida reunindo pseudônimos de escritores e jornalistas, às vezes em dobradinha com José Galante de Souza, daí resultando em um calhamaço ainda inédito, conservado na Biblioteca Nacional. Para surpresa minha e de muitos, o poeta tinha um olho posto na moda – feminina e masculina – e sobre ela escreveu um bocado nas crônicas, por exemplo, que publicou, sob pseudônimo, no “Minas Gerais”, do qual foi funcionário, entre 1930 e 1934. Fascinante produção que ainda aguarda uma boa edição comercial. Não foi por acaso que alguns anos atrás Ronaldo Fraga criou uma coleção inspirada em Drummond.

É conhecido o distanciamento que Drummond mantinha da imprensa, mas ele soube aproveitar o espaço da crônica em jornais de grande circulação do país. A seu ver, ele tinha uma grande preocupação com a própria imagem? Quanto desse retrato de escritor fechado e circunspecto pode ser também uma criação dele mesmo?

Drummond era um homem reservado, e, ao se tornar amplamente conhecido, era natural que se fechasse ainda mais, como forma de preservar seu tempo e sua intimidade. Não era, porém, um bicho do mato. Entre amigos, boa parte de suas reservas caía. Era falante e divertido. Tinha um lado brincalhão – já depois dos 80 anos, era capaz de dar cambalhotas para divertir crianças. Tinha um lado moleque: quem imaginaria Carlos Drummond de Andrade passando trotes ao telefone, como fez durante anos, disputando com outro moleque, Fernando Sabino, para ver quem pregava mais peças no outro?

Drummond trocou correspondências com vários escritores, talvez os mais conhecidos sejam os modernistas. Para além da rede mais comentada de escritores de São Paulo, ele manteve contato com nomes de outros Estados? Ele dialogava também com autores do interior de Minas Gerais?

Drummond foi um grande carteador. Ao longo de muitos anos, dialogou pelos correios com jovens autores que lhe pediam opinião e conselhos. O poeta paulista José Paulo Paes, por exemplo, atribui a comentários de Drummond uma radical mudança de rumo em sua poesia.

Os “sabadoyles”, que reuniam diversos escritores no apartamento de Plínio Doyle, marcam um dos momentos de interação de Drummond com várias personalidades no Rio de Janeiro. Enquanto residia em Belo Horizonte, houve alguma experiência parecida? Ele tinha um grupo com que gostava de se reunir para trocar figurinhas sobre literatura e outros assuntos?

O bate-bola literário de Drummond, enquanto viveu em Belo Horizonte – até 1934, portanto –, praticamente se limitava à rapaziada de que fazia parte, o chamado grupo do Estrela, assim chamado porque era no café Estrela (na verdade, confeitaria) que se reunia a patota – Pedro Nava, Emílio Moura, João Alphonsus, Cyro dos Anjos e Abgar Renault, entre outros. Num outro gênero, com cantoria e declamação de poesia, havia também os saraus do Salão Vivacqua, na casa de uma família capixaba de mentalidade aberta, ali na esquina das ruas Sergipe e Gonçalves Dias, casa que, aliás, está de pé e muito bem-conservada.

Drummond viveu em Belo Horizonte nos anos 20 e, nesse momento, o que ele mais publica são suas resenhas. É possível identificar, a partir disso, quais tipos de movimentos e autores ele estava interessado em mapear?

Aqueles foram, para ele, anos de intensa produção de poemas – além de contos e crônicas –, tendo daí resultado alguns livros, que depois recusou, até alcançar solidez em “Alguma Poesia”, seu livro de estreia, de 1930. A profusão de resenhas denota o empenho que tinha Drummond de entrar no mundo da literatura. Tem a ver, também, com o fato de que, a partir de 1926, ele e seus amigos virtualmente se apossaram de um veículo de comunicação, o “Diário de Minas”, por eles convertido numa tribuna informal do movimento modernista em Minas Gerais. A grande guinada, naqueles anos 20, foi a visita de Mário e Oswald de Andrade a Belo Horizonte, em 1924. Começou ali o fecundo e decisivo bate-bola da moçada mineira com os modernistas. Até então, estavam voltados para autores como o francês Anatole France.

Drummond apresenta uma multiplicidade de abordagens em suas poesias, e muitas vezes os leitores conhecem mais uma fase do que outras. A biografia, a seu ver, pode contribuir para dar uma panorama dos vários rumos que a escrita de Drummond tomou?

Ao contar a vida do poeta, será natural que se fale daquilo que, a cada passo, passava a interessá-lo, com reflexo, claro, na sua poesia. Um exemplo? A política.

Saiba mais

Werneck também é autor de outros livros, como “O Desatino da Rapaziada”, “O Santo Sujo: A Vida de Jayme Ovalle” e a coletânea de crônicas “O Espalhador de Passarinhos”.

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Entrevista

Vida e obra de Drummond
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"Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários"
Carlos Drummond de Andrade
As sem razões do amor

Quadrilha, por Inês Peixoto e Paulo André

Perspectivas

Do prosaico ao universal

O professor Roberto Said observa que o escritor conseguiu, por meio de sua escrita, extrair das cenas cotidianas pensamentos de matriz filosófica

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Cartão enviado por Drummond ao amigo e escritor Pedro Nava
PUBLICADO EM 30/07/17 - 03h00

Ao se deparar com os poemas de Carlos Drummond de Andrade, o leitor pode encontrar uma afinidade com o tom coloquial de seus versos, mas, ao mesmo tempo, pode surpreender-se com as imagens e estruturas que o poeta mineiro constrói em seus poemas. Por esse motivo, enquanto alguns acham as obras do itabirano bastante palatáveis, outros a consideram, às vezes, mais difíceis de serem digeridas.

Roberto Said, professor da Faculdade de Letras da UFMG e pesquisador, observa que o escritor conseguiu, por meio de sua escrita, extrair das cenas cotidianas pensamentos de matriz filosófica. “Há uma espécie de tensão entre as situações prosaicas e uma reflexão profunda que Drummond consegue extrair delas. Há uma densidade, digamos assim, filosófica em seus versos. Ele incorporou a lição do modernismo que defendia o olhar para os elementos do cotidiano, convocando escritores a ter um encontro com a rua, com os personagens anônimos. Assim, ele se volta às situações da vida besta e extrai delas outras perspectivas”, observa Said.

Ele acrescenta que a linguagem drummondiana, em razão dessa característica, reflete justamente a mistura de elementos populares e eruditos. “Ele mescla traços de uma linguagem oralizada a elementos clássicos, fazendo essa associação entre o prosaico e o sofisticado. Então, algo que algumas vezes parece ser muito simples também traz uma elaboração sintática e um vocabulário que alguns leitores podem achar difícil. Isso gera uma tensão que é bastante rica”, completa Said.

Antonio Carlos Secchin, poeta, crítico literário e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), também observa que as criações de Drummond refletem uma diversidade de vertentes com as quais ele dialogava. “Ele se relaciona não só com o modernismo, mas com todos os movimentos que são contemporâneos a ele. Tanto que pode-se dizer que Drummond começou vinculado a uma estética que chamamos de ‘penumbrismo’, anterior ao modernismo e que tem como representante autores a exemplo de Ribeiro Couto. Ao longo do tempo, Drummond se revela um poeta engajado, principalmente na época da Segunda Guerra Mundial. Depois, voltou a praticar as formas fixas e tradicionais. No começo dos anos 50, ele conheceu a vanguarda concretista. Então, ele foi um poeta sempre antenado com o seu tempo e com a mudança de valores”, resume Secchin.

Em razão dessa flexibilidade, Letícia Malard, que é professora emérita da Faculdade de Letras da UFMG, sublinha o modo como Drummond pode soar – principalmente para um leitor estrangeiro, menos familiarizado com sua biografia –, um escritor jovem.

“Acho que quem pega um texto dele traduzido pode achar que o poema foi escrito por alguém de 20 ou 25 anos quando, na verdade, Drummond os escreveu quando já tinha 80 anos. Ele acompanhava bastante as transformações do seu tempo, além de levar para seus textos um olhar às vezes engraçado, muito irônico. Ele tinha uma linguagem muito adaptada não só às diferentes épocas, mas aos diversos assuntos que abordou em sua poesia”, conclui Letícia.

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Perspectivas

Do prosaico ao universal
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"Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói"
Carlos Drummond de Andrade
Confidência do Itabirano

O Caso do Vestido, por Carlos Herculano Lopes

Especial

Cartas e afetos

Itabira tenta resgatar orgulho da obra do poeta, cujos textos citam também a cidade

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Homenagem. Estátua de Drummond em sua terra natal, Itabira
PUBLICADO EM 12/08/17 - 14h17

Apesar de Itabira se fazer presente em todas as fases da obra de Drummond, muitos de seus conterrâneos ainda parecem guardar certa “mágoa” do escritor. Tanto que frases como “ele abandonou Itabira” são comuns entre os mais de 100 mil moradores da cidade. Superintendente da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, Marta Mousinho Gomes Barbosa, 66, diz ter tido uma surpresa ao se mudar para a cidade, no início da década de 90. “Fiquei encantada, mas foi um susto ver que havia essa mágoa. Falam que ele virou as costas para Itabira, que nada fez pela terra natal, o que é um contraponto ante a opinião de muitos especialistas. Isso foi se dissipando com o tempo, principalmente entre os mais jovens, mas ainda existe”.

Marta entende que tudo decorre de uma má interpretação de texto, com base no poema “Confissão de um Itabirano”. “Quando ele diz que ‘Itabira é apenas uma fotografia na parede’, entenderam que era uma despedida, um não querer da cidade. Mas se esquecem da última frase: ‘E como dói’. É preciso frisar o amor de Drummond por Itabira, que perpassa toda a sua obra. Ele sempre se refere à fazenda do Pontal, onde passava férias, a sinhá Maria, aos pais, irmãos e a outras pessoas da cidade”, frisa.

A foto a que Drummond se referia ficava na parede do apartamento em que vivia no Rio de Janeiro – e, segundo Marta, continua lá. “Ele sentia falta de Itabira, mas, por questões pessoais, que não me cabe analisar, não quis voltar. Embora há quem diga que viesse, e que andava pela cidade à noite. Mesmo que não, a gente sabe que, de coração e em pensamento, andava por estas ruas”, finaliza.

Sobrinha-neta do escritor, Otávia Senhorinha de Andrade Muller, 47, também vê até hoje uma certa resistência ao “tio Carlos”. “Constantemente escuto que ele não gostava daqui. Mesmo a criação dos museus, dos Caminhos Drummondianos, não mudou a concepção sobre a sua figura. Por isso penso que é preciso fazer com que o itabirano leia, perceba e sinta Drummond. Nas escolas e com a população. É fácil criticar o que não se conhece e, infelizmente, a leitura não é um hábito entre as pessoas”.

Apesar de não ter conhecido o tio-avô pessoalmente, Otávia ressalta “delicadezas” que fizeram diferença em sua história. “Tenho cartas dele para mim, de quando era uma criança. E na década de 70, os adultos não conversavam com os pequenos, que tinham que ficar apáticos, sentadinhos. Tio Carlos não, ligava para minha mãe toda semana e, quando eu atendia, queria saber como estava na escola, várias coisas. Não era só gentileza, ele era assim. Por isso, o sentimento que tenho por ele é de afeição”.

E não era só da família que o poeta sentia falta. Segundo ela, várias pessoas o mantinham informado sobre os acontecimentos locais. “Em 1976, minha mãe mandou, pelos correios, uma farinheira de jacarandá, com farinha de fubá feita com torresmo. Ele respondeu que a farinheira era um objeto muito bonito, mas tinha gostado mesmo era da farinha, que o tinha feito se lembrar de Itabira. Está vendo como é o sentimento, o amor à cidade?”, pontua.

São várias as pessoas que guardam as cartas trocadas com o escritor que, lembra a sobrinha-neta, a todas respondia. “Aos cinco anos, desenhei uma menininha tomando sol e coloquei no envelope do cartão de aniversário que meu irmão enviou a ele. A resposta foi que os presentes que mais tinha gostado eram o cartão e minha menininha. Se hoje a gente não tem tempo para responder e-mails, imagina uma pessoa se dignar a responder as cartas, ir ao correio e postá-las? É típico de alguém muito afetuoso”.

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Especial

Cartas e afetos
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"A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes"
Carlos Drummond de Andrade
Confidência do Itabirano

José, por Drummonzinhos

Memória

Poeta do diálogo e da constante constante construção

Trinta anos após sua morte, Carlos Drummond de Andrade ganha homenagens e tem livro de cartas trocadas com Pedro Nava

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Cartas foram escritas entre 1926 e 1983
PUBLICADO EM 30/07/17 - 03h00

Em 1984, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) despediu-se de sua coluna no “Jornal do Brasil”, em que colaborou por mais de uma década, tendo começado em 1969. No texto derradeiro, ele agradeceu aos leitores e garantiu que, apesar de deixar a crônica, continuaria a se dedicar a outras formas de escrita, afinal, escrever era “sua doença vital”. Sem dúvida, o gênero que mais permeou a trajetória de Drummond, até seus últimos dias de vida, foi a poesia. É de 1987, ano de sua morte, por exemplo, o poema “Elegia a um Tucano Morto”, que o itabirano destinou ao neto Pedro Drummond.

A entrega a esse ofício consagrou-o como um dos principais autores do país e, de acordo com especialistas, ele figura como o mais importante poeta brasileiro do século XX. Drummond deixou 25 livros de poemas, além de títulos de contos, crônicas e um vasto acervo de correspondências.

Estas, inclusive, têm sido constantemente revisitadas, o que tem gerado novas edições centradas nos escritos do autor, a exemplo de “Descendo a Rua da Bahia”, prevista para ser lançada em Belo Horizonte no dia 17 de agosto (data exata do falecimento de Drummond), no Museu Inimá de Paula. O volume, organizado por Eliane Vasconcellos e Matildes Demétrio, reúne as cartas trocadas entre Drummond e Pedro Nava (1903-1984).

Na ocasião, será realizada uma homenagem a Drummond pelos 30 anos de sua morte com um sarau e um bate-papo com as organizadoras. O escritor e jornalista Humberto Werneck, que elaborou o prefácio do livro e prepara uma biografia de Drummond, também participará da roda de conversa ao lado do secretário de Estado de Cultura, Angelo Oswaldo, e de Maria de Andrade, editora da Bazar do Tempo, responsável pela publicação.

“O livro é uma forma de mostrarmos nosso carinho e admiração por Drummond, Nava e também Pedro Doyle”, afirma Eliane, que conheceu os autores mineiros pessoalmente, e é pesquisadora e museóloga da Fundação Casa de Rui Barbosa, onde estão guardados os documentos consultados para produzir o tomo. De acordo com Eliane, “Descendo a Rua da Bahia” é uma iniciativa autônoma que vem sendo desenvolvida há muito tempo.

“Esse livro não é ligado a algum projeto de pesquisa da Casa de Rui Barbosa. Eu e Matilde nos dedicamos a ele no nosso tempo livre, por isso demorou para ficar pronto”, completa ela. O conjunto abrange as correspondências emitidas entre 1926 e 1983, com alguns lapsos temporais nesse intervalo. “No total, são 63 documentos, entre cartões, cartas, telegramas e postais. Então, além das correspondências, há uma variedade de mensagens e um rico material iconográfico que é também inédito”, pontua a pesquisadora.

Ela ressalta que o conteúdo é acompanhado de notas explicativas criadas a partir do cruzamento de informações dos acervos de Drummond, Nava e Plínio Doyle. O último era próximo dos dois e promovia reuniões aos sábados em seu apartamento, no Rio, onde os escritores se encontravam para discutir literatura. “A gente encontrou nas mensagens trocadas entre Drummond e Nava referências aos ‘sabadoyles’, que era como eles chamavam as reuniões no apartamento do Plínio. Mas, nas cartas dos anos 20, eles falam dos amigos que encontravam no Bar do Ponto, em Belo Horizonte, como Afonso Arinos, Emílio Moura e Abgar Renault”, diz Eliane.

Amizade. Nas cartas a Nava, Eliane destaca que prevalece o tom de amizade. “Eles também conversam sobre poesia, mas de uma maneira diferente de como Drummond se dirigia a Mário de Andrade em outras cartas. Com Nava, ele está diante de um amigo. Nava pede a opinião de Drummond sobre alguns poemas, e Drummond, inclusive, ressalta numa mensagem que nunca se conformou com o fato de Nava ainda não ter um nome na capa de algum livro em 1947”, relata ela.

Outro aspecto que Eliane destaca é a constatação da generosidade de Drummond. “Ele tinha uma solidariedade muito grande com todo mundo que estava pesquisando algum objeto. Eu já tinha ouvido falar da generosidade dele pelos relatos de escritores que eu conheci e que frequentavam o ‘sabadoyle’. Numa carta que ele envia a Pedro Nava, por exemplo, ele transmite uma informação a ser repassada a Fernando da Rocha Peres. Nava, quando pede informações sobre o modernismo, a fim de escrever um artigo, recebe recortes de jornais que Drummond retira do seu acervo pessoal”, relata Eliane.

Trocas. O escritor, crítico e pesquisador Silviano Santiago, um dos organizadores do título “Carlos e Mário”, observa que o poeta mineiro também soube absorver várias contribuições. “Ele recebe muito bem as críticas de Mário de Andrade, que sugere algumas mudanças. Então, Drummond aproveita um pouco das experiências dos outros, o que acho fantástico. Por exemplo, ele manda para Mário de Andrade, em 1926, uma primeira coleção de poemas dele, com o título ‘Minha Terra Tem Palmeiras’, mas acaba não publicando. O interessante é perceber que este é um título mais próximo da poesia de Oswald de Andrade do que da de Mário”, pontua ele.

Santiago frisa que Drummond é um poeta que foi construindo-se aos poucos. “O que é algo extraordinário, porque ele possuía uma capacidade de autocrítica muito grande, e foi isso o que o tornou o maior poeta modernista brasileiro a partir dos anos 30. Enquanto os outros já estavam publicando, ele espera um pouco até trazer seus poemas num livro que reúne o que ele fez desde a década de 20”, afirma o escritor.

Roberto Said, professor da faculdade de letras da UFMG e pesquisador, acrescenta que Drummond, embora se colocasse como aluno no diálogo com Mário de Andrade, não se manteve completamente obediente. “Ele foi um aluno rebelde. Ao mesmo tempo em que incorporou soluções indicadas por Mário, ele criou uma dicção singular e própria. Numa das cartas escritas por Mário, já no fim de sua vida, ele descreve que Drummond era semelhante a uma folha lançada ao vento. Acho que por meio dessa metáfora ele consegue explicar essa relação de proximidade e afastamento do modernismo que Drummond estabelece. De alguma forma, Mário não conseguiu ter o controle total sobre Drummond”, reflete Said.

Ele recorda que, enquanto dialogava com o modernismo paulista, Drummond também estava atento a outros movimentos do mundo. “Ele lia furiosamente tudo que havia de literatura europeia naquele momento. Nas resenhas que ele publicava nos anos 20 em Belo Horizonte, por exemplo, ele trazia textos sobre nomes da literatura francesa, alemã, espanhola. A década de 20 foi sobretudo um período de formação e experimentação para ele”, diz.

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Memória

Poeta do diálogo e da constante constante construção
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O Lutador, por Flávio Renegado

Ausência, por Mariana Ruggiero

O Maior Trem do Mundo, por Cia Itabirana

Expediente

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PUBLICADO EM 10/08/16 - 17h15

Produção: José Vítor Camilo, Juliana Baeta, Natália Oliveira e Pedro Rocha Franco | Imagens e edição de imagens: Léo Fontes | Textos: Alex Bessas, Carlos Andrei Siquara, José Vítor Camilo e Raphael Vidigal Infografias e ilustração: Helvio | Edição: Pedro Rocha Franco, Murilo Rocha e Cândido Henrique Silva | Revisão de Texto: Thalita Martins e Luciara Oliveira  Editor Portal O Tempo: Cândido Henrique Silva  Diretor Executivo: Heron Guimarães | Editora Executiva: Lúcia Castro | Secretaria de Redação: Michele Borges da Costa, Murilo Rocha e Renata Nunnes | Data de publicação: 14/8/2017

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