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2016: o ano da pós-verdade

Na política ou na vida do cidadão comum, crescem os exemplos de como informações sem qualquer base real adquirem popularidade com uma velocidade assustadora

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João Carlos critica o compartilhamento de notícias 'raivosas' por seu tio
PUBLICADO EM 11/12/16 - 03h00

A expressão “pós-verdade”, eleita pelo dicionário Oxford a palavra do ano de 2016, ainda não caiu na boca do povo. Mesmo assim, não é difícil vê-la aplicada na prática.

Segundo o dicionário, pós-verdade é um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Um dos fatores determinantes para a escolha foi o cenário político internacional.
“Vemos gente tendo raiva de político A ou B hoje, principalmente quem não tem muito acesso à informação”, aponta o especialista em desvendar boatos de internet Edgard Matsuki, editor do portal boatos.org.

Levantamento do site Buzfeed publicado dia 22 de novembro mostrou que a popularidade das informações falsas no Facebook sobre a operação Lava Jato é muito superior à das reportagens reais. Desde janeiro, as dez principais notícias falsas tiveram 3,9 milhões de compartilhamentos, reações e comentários, enquanto as dez reportagens mais populares sobre a operação foram compartilhadas 2,7 milhões de vezes.

Na semana passada, a invasão de um homem armado a uma pizzaria de Washington, nos Estados Unidos – alvo de um rumor que vinculava o local a uma rede de pedofilia –, expôs o perigo real que esse fenômeno virtual representa.

A eleição de Donald Trump para a Presidência dos EUA é outro exemplo. Segundo o levantamento da organização Politifacts, que verifica a veracidade das afirmações de políticos em suas campanhas, 91% das falas de Trump eram mentiras.

O dicionário Oxford, no texto em que explica a eleição de “pós-verdade” como palavra do ano, cita um editorial do jornal “The Economist”. Nele, o autor afirma: “O sr. Trump é o expoente máximo da ‘política da pós-verdade” – uma confiança em afirmações que ‘parecem verdade’, mas não têm nenhuma base nos fatos”.

Outro exemplo, ainda no campo político, foi o Brexit, movimento que levou os ingleses a optarem pela saída do Reino Unido da União Europeia. Entre os argumentos usados pelos defensores da saída, estavam pontos como uma suposta taxa de  350 milhões por semana que o país deveria pagar à UE para fazer parte do grupo. Outro argumento era a promessa de que a saída interromperia o fluxo de imigrantes para o Reino Unido. Ambos foram largamente desmentidos por especialistas.

Contexto. Para o professor Carlos Alberto de Carvalho, pesquisador de textualidades midiáticas do curso de comunicação social da UFMG, o termo, que já existe desde 1992, ganhou força agora devido ao contexto sociopolítico global. O fim do século XX era o momento da queda do Muro de Berlim, havia a promessa de um mundo globalizado – e a globalização significaria uma economia virtuosa, atendendo todos.

“Fico tentado a pensar que a perspectiva de uma pós-verdade eclode, neste momento, em função do aprofundamento do desgaste generalizado que se tem com o mundo da política, da economia, e com a cultura de uma forma geral. O século XXI está assistindo à derrocada de uma série de promessas e possibilidades que não se cumprem”, afirma.

O fenômeno está muito presente na política, mas também permeia a vida cotidiana. “Meu tio compartilha notícias do Sensacionalista (site de humor) como se fossem verdade, com comentários raivosos ainda. É uma revolta com a vida, junto com uma ‘mente fraca’”, relata o gerente de plantão João Carlos Luzardo de Aragão, 21. Ele conta que, para o tio, os fatos são menos importantes do que seus próprios sentimentos e suas emoções na hora de determinar o que é “verdade”.

Para não cair no mesmo erro, Aragão toma uma série de cuidados. “Sempre falo para todo mundo: não compartilhe nada sem pesquisar. Antes de compartilhar alguma coisa, eu leio sobre o assunto de diferentes fontes, jornais de esquerda e direita, e sempre de fontes confiáveis”, ensina.

Ele está certo. “Muitas vezes, uma simples busca no Google já é suficiente para você descobrir se uma notícia é falsa ou não. Faça uma busca com um trecho da notícia. Normalmente, aí já dá para descobrir se ela é falsa ou não”, orienta Edgard Matsuki, do boatos.org.


Minientrevista


Edgard Matsuki, editor do portal Boatos.org

Como surgiu o projeto do portal?

Em 2012, eu trabalhava como repórter de tecnologia, e o assunto dos boatos era uma coisa tratada algumas vezes. Mas eu via que havia poucos espaços que desmentiam histórias. Então, em junho de 2013, comecei o projeto.

Os boatos estão em crescimento na internet?

De certa forma, eles cresceram com o aumento de usuários de internet, com as ferramentas, a internet de banda larga, o acesso maior ao WhatsApp, a facilidade que o usuário tem de usar algumas mídias.

Quais são os piores tipos de boatos, na sua opinião?

Particularmente, acho que dois tipos são mais graves, por suas consequências. O primeiro deles é o que imputa um tipo de crime ou ação a uma pessoa. Por exemplo: “Fulano de Tal está sequestrando crianças”, junto com a foto da pessoa. Essas pessoas ficam marcadas de uma forma que isso acaba mudando a vida delas. O outro tipo que tem consequências graves são os boatos com dicas de saúde. Tem um que é muito recorrente, fala que o limão congelado com bicarbonato de sódio cura o câncer. Dizem até que é mil vezes mais poderoso que a quimioterapia. É um boato perigosíssimo, porque se a pessoa para de tomar a quimio para seguir essa “dica”, ela pode morrer.

E quais são os boatos mais difíceis de serem desmentidos?

Na minha opinião, são os boatos políticos. Vemos gente tendo raiva de político A ou B hoje, principalmente quem não tem muito acesso a informação. As pessoas odeiam a Dilma (Rousseff), por exemplo, mas não sabem por que. Elas acabam se baseando em informações falsas de que ela roubou, e fato é que não há nada que impute a ela crime algum. Esse tipo de história que mistura fatos com opinião é o mais difícil de desmentir.

Por que as pessoas caem em boatos de internet?

Hoje em dia, acho que pela dificuldade da ferramenta mesmo. A maioria das pessoas acessa a internet do celular. E não é tão fácil copiar e colar um trecho da notícia no Google para pesquisar no celular.

Quantos posts você escreve por dia no boatos.org e qual a demanda dos leitores?

Atualmente, escrevemos cerca de dois textos por dia. Mas, agora que abri um canal para leitores no WhatsApp, recebo cerca de 50 a 60 mensagens perguntando se determinada história é verdadeira ou não. Agora, tenho 125 mensagens não lidas na minha caixa de entrada. (RS)

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