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Psicológico

A dor dos milhões de brasileiros com fobia social

Pânico de falar em reuniões e de interagir em festas e medo de críticas caracterizam o principal transtorno de ansiedade

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Camila acredita que o bullying sofrido por ela contribuiu para o desenvolvimento da fobia social
PUBLICADO EM 05/11/17 - 03h00

Em uma simples reunião, você treme quando tem que falar e dá um verdadeiro branco. Na sala de aula, se tem um trabalho para apresentar, tem taquicardia e começa a suar. Fazer amigos em uma festa? Melhor nem ir. Esse medo desproporcional de interagir costuma ser mais do que uma simples timidez e provavelmente indica um quadro de fobia social, um sentimento causado pelo medo de ser avaliado negativamente ou criticado pelo outro e que te impede de agir, prejudicando suas relações com a família, com os colegas de trabalho e ou com os amigos. Em casos mais graves, pode levar ao suicídio, alertam psiquiatras, que defendem a procura imediata de um profissional assim que os sintomas aparecerem.

Estimativa apresentada no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, na última semana de outubro, pela médica Daniela Zippin Knijnik, do Grupo de Fobia Social do Programa de Transtornos de Ansiedade do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), indica que o problema atinge expressivos 13% da população brasileira, índice bastante alto, levando-se em conta que a média mundial é de 7%. Em números absolutos, seria um universo próximo de 26 milhões de brasileiros sofrendo, em algum grau, com o problema.

Segundo Daniela, dos distúrbios psiquiátricos, a fobia social é o terceiro mais prevalente, sendo classificado dentro dos transtornos de ansiedade, entre os quais é líder de casos. “A pessoa sente medo, uma sensação de branco, de não saber o que dizer, e apresenta uma esquiva fóbica, fugindo de situações sociais. Não é que necessariamente ela evite sair de casa. O que está em jogo é uma situação pessoal, como, por exemplo, conversar com uma pessoa, interagir num coquetel, falar em público”, explicou a especialista à reportagem.

O transtorno tem gradações leve, moderada e grave. Daniela afirma que, nos casos mais graves, costuma ser comum a presença também de quadros de depressão, que podem levar a situações extremas como o suicídio. “É muito comum que a pessoa passe a beber muito para aliviar os sintomas, o que tende a agravar a depressão”, alerta a psiquiatra gaúcha. Quanto mais acentuados são os sintomas, maior a chance de existência de um fator genético como causa.

Portanto, diz a médica, se você tem alguns dos sintomas ou conhece alguém que pode ter o problema, a orientação é buscar um especialista o mais rápido possível. “A demora em procurar ajuda é um complicador, e é essencial encontrar um profissional especializado em ansiedade. Feito o diagnóstico, o tratamento envolve terapia comportamental e psicofármacos, e a pessoa geralmente consegue retomar sua vida”, diz.

A psiquiatra Maria Cecília de Lima, do Distrito Federal, acrescenta que é importante ter em mente que o retorno à vida social passa também por uma espécie de treinamento: “Habilidade social é como musculação. Quando você faz, o músculo cresce, mas, se parar, ele volta a diminuir. Não é que vai atrofiar, ele estará sempre lá, mas vai diminuir”.

Segundo ela, o mesmo ocorre com o fóbico social: quando ele está há muito tempo sem interagir, não é que ele não tenha essa habilidade, ele simplesmente não a está usando. “Não se lembra de usar, ou é meio troncho quando vai usar. Eles têm uma dificuldade muito grande de se colocar. Muitas vezes eles não falam a respeito e estão há muito tempo sem treinar. Estão isolados, estão com medo”, explica.

Os especialistas esclarecem que a ansiedade é um fator biológico do ser humano, que vem à tona em situações de perigo ou ameaça. Na fobia social, a sensação ultrapassa níveis normais, fazendo com que as pessoas que têm transtorno experimentem graus tão intensos que podem levar a alterações fisiológicas agudas.

Entenda o Transtorno de Ansiedade Social (TAS) aqui.


Minientrevista

Daniela Zippin Knijnik
Psiquiatra
Grupo Fobia Social HCPA

A senhora pode explicar as causas da fobia social?

Tem fatores genéticos, de herança – filhos de pais fóbicos sociais apresentam mais chances de ter a fobia social. Existem fatores de aprendizado, como modelagem: observarmos um pai que tem menos amigos ou interage menos, ele pode ter aprendido a ter um comportamento mais evitativo. Existem fatores como alteração de neutransmissores, como serotonina, por exemplo, e uma série de coisas: mães e pais mais rígidos, mais protetores, podem gerar fobia social nos filhos.

O estilo de vida corrido de hoje e a violência têm alguma influência?

Com a globalização e a velocidade com que as coisas andam, ninguém olha para um tímido, dá uma chance a ele. Em uma sala de aula, para o tímido levantar a mão e falar é muito complicado. Iniciar uma reunião, uma conversa, dar uma opinião, às vezes, é quase impossível. Isso sempre existiu, não é que esteja existindo mais. Porém, a fobia social foi muito negligenciada, não se via como um diagnóstico, pensava-se que as pessoas eram tímidas e ponto.

A timidez pode evoluir para fobia social?

Hoje sabe-se que pessoas tímidas e não tratadas, se têm geneticamente uma predisposição, vão evoluir para fobia social. Tímidos que não terão essa evolução acabam melhorando com o tempo. A timidez é uma variável não patológica da fobia social, tem um tratamento e um prognóstico bem melhor. Fobia tem um prognóstico mais reservado, e o tratamento tem que ser feito com terapia cognitivo-comportamental e medicação.

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