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Constelação familiar já é usada na Justiça em Minas

Vara de Família em Contagem adota técnica, e TJ estuda o método, já que processos têm fator emocional

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Constelação começou a ser aplicada em Minas neste ano em casos das Varas de Família de Contagem, na RMBH
PUBLICADO EM 24/12/17 - 03h00

Muitas ações judiciais, principalmente na Vara de Família, têm como pano de fundo um contexto emocional. Quando as situações são levadas às constelações, é muito maior a possibilidade de acordo e de não haver outra judicialização naquela família, segundo os próprios juízes. É uma forma de humanizar as partes do processo inserido na máquina judicial.

Um exemplo é um casal que se divorcia, e os filhos ficam no meio de uma disputa pela guarda. Ao submeterem-se a essa terapia familiar sistêmica, esses pais, pela primeira vez, veem os filhos sofrendo, percebem que a criança ama os dois. Eles compreendem o lado do outro e se comovem porque ampliam suas percepções do problema, chegando a uma resolução mais profunda – não apenas na Justiça, onde uma sentença nem sempre encerra o conflito.

No primeiro semestre deste ano, as constelações começaram a ser aplicadas experimentalmente nas Varas de Família e Sucessões de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. “A tendência é as partes conciliarem. O que vem para a Justiça são mais que questões jurídicas, são pessoais, afetivas, psicológicas. Quando você consegue resolver o que está como pano de fundo do processo judicial, a resolução é mais duradoura”, defendeu o juiz Clayton Rosa de Resende, titular da 5ª Vara de Família de Belo Horizonte, que está envolvido com a constelação há quase dois anos e planeja implantá-la na capital mineira também.

No Brasil, as constelações vêm sendo aplicadas em pelo menos 15 tribunais de Justiça estaduais, tendo começado na Bahia, em 2012, com o juiz Sami Storch. Foi em uma audiência com o magistrado em Itabuna que Larissa Santos Ferreira, 37, conheceu a constelação. A metodologia a ajudou a encarar harmoniosamente o processo de divórcio, guarda e pensão do filho com o ex-marido, em que havia muita mágoa. Depois disso, Larissa passou a constelar individualmente para questões pessoais. “Posso dizer que a constelação me dá raízes, me desafia e me projeta. Não é milagrosa nem é autoajuda. É algo bom de viver”, testemunha ela.

Ressalva. O juiz auxiliar Maurício Pinto Ferreira, da 3ª vice-presidência do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), responsável pelos projetos inovadores no Estado, ressaltou que ainda não há estudos para melhor entender essa técnica. Segundo ele, não foi feito ainda “o acompanhamento posterior das pessoas” que passaram por constelações no Judiciário. Por isso, segundo ele, o TJMG não possui, por enquanto, uma posição em relação ao modelo. “Os próprios conselhos regionais ainda não se posicionaram. A gente mexe com o ser humano, é impossível dizer ainda se a pessoa sai da constelação pacificada. Estamos estudando, visitando lugares que aplicam a técnica, mas não proibimos nem orientamos os juízes sobre isso ainda”, esclareceu ele.

Há quem diga, porém, que a constelação sistêmica será a terapia do futuro, por estarmos vivendo tempos em que, quanto mais rápido resolvermos conflitos pessoais ou judiciais, melhor. Muitos promotores, juízes e advogados estão fazendo cursos de constelação. Se for trabalhada em escritórios de advocacia, pode-se evitar que os casos cheguem ao Judiciário. “O efeito para a Justiça seria imediato”, pontuou Resende.

Há poucos dias, o advogado Frederico Ciongoli deu uma palestra sobre “Constelação Familiar aplicada na Justiça” na Escola Superior de Advocacia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG). “A ideia é plantar uma semente de mudança de cultura do Judiciário, mudar a mente do advogado competitivo, adversário, e implantar a cultura de pacificação ou de entendimento das partes sem ir para o litígio direto”, ponderou ele, que foi constelado pelo criador do método, o alemão Bert Hellinger.

Ciongoli já fez mais de 7.000 constelações nos últimos dez anos e presta consultoria do método na área jurídica desde 2012. Ele aponta que em torno de 80% dos casos são resolvidos. “As partes vão a um consultório para constelar, e o que ocorre é uma reconciliação da alma”, concluiu.


Saiba mais

Crescimento. A procura por constelação e o uso da técnica em diferentes áreas cresceram muito neste ano, “Foi até assustador, no bom sentido”, apontou Frederico Ciongoli, que faz um alerta às pessoas para procurarem profissionais indicados por conhecidos: “Muitos são despreparados, os bons que têm vocação para constelar são poucos”.

Vulneráveis. A técnica já tem sido aplicada em presídios, para entender a origem do crime. A psicóloga Simone Guimarães é especialista em dependentes químicos, e constelou, por muitos anos, crianças vulneráveis em conflitos com os pais e com a lei. “Os resultados eram surpreendentes”, diz.


Números

4.000 é o número aproximado de consteladores no país, conforme a Associação Brasileira de Constelações Sistêmicas

R$ 200 é o preço cobrado por grande parte dos profissionais que fazem constelação, mas tem de R$ 100, R$ 300, R$ 600 até R$ 1.500 

Individualmente

Cada constelador desenvolve uma técnica pessoal ao fazer o trabalho. Alguns fazem a constelação completamente oculta, que é o caso da Simone Guimarães. “Faço assim para preservar a cliente que quer e para que os representantes não fiquem sugestionados, já sabendo a questão”, explicou ela. Para quem não quer fazer a constelação com grupos de voluntários, é possível constelar individualmente no consultório, onde são utilizados bonecos e desenhos para representar os familiares. Quem já fez garante que também há muita energia envolvida. Outro detalhe é que é possível uma mãe constelar para o filho.


Instituto tem 45 turmas em formação

O Instituto Imensa Vida já formou 400 consteladores em cinco anos de funcionamento em seis Estados, incluindo Minas Gerais, onde 170 fizeram o curso. Atualmente há 45 turmas em andamento com 700 alunos no Brasil. O primeiro grupo focado no sistema judiciário terminará os módulos no próximo ano. Promotores, juízes, advogados, médicos e psicólogos procuram a formação que tem duração de 18 meses e a mensalidade custa em torno de R$ 400.

Muitos vão para conhecer a dinâmica e para autoconhecimento, mas quem quer atuar profissionalmente começa entendendo que não é fácil constelar, é necessário ter sensibilidade para a “leitura do campo”, conseguir perceber os sinais que os representantes apresentam, montar a constelação de acordo com o problema e o histórico familiar da pessoa e ajudar o constelado a se localizar no sistema. O curso estuda biografia, família, psicologia, meditação e etc.

A engenheira Daniela Stuart, 43, quer aplicar a constelação em comunidades de Belo Horizonte para quem não têm condições de pagar. “Vim fazer o curso para me conhecer e encontrei uma condição de amor absoluto”, disse. Ela pede para ressaltar que a palavra “constelação” lembra algo esotérico e gera dúvidas, mitos, mas a tradução correta do método seria “posicionamento sistêmico”.

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