Recuperar Senha
Fechar
Entrar

Infância

‘Criança não namora, nem de brincadeira’

Campanha alerta contra tendência de adultização e erotização antes dos 12 anos

Enviar por e-mail
Imprimir
Aumentar letra
Diminur letra
1
Beatriz e o filho Christian: beijos só na bochecha
PUBLICADO EM 30/04/17 - 03h00

A funcionária pública Beatriz Colen, 40, tomou um susto quando pegou no flagra o filho Christian, 3, prestes a dar um beijo na coleguinha da escola. Desde então, os pais mudaram algumas atitudes em casa e buscam mostrar ao filho que namorar não é coisa de criança. Esse também é o mote da campanha encabeçada pela Secretaria de Assistência Social do Amazonas, lançada no início deste mês, contra a erotização precoce. A iniciativa chamou a atenção na internet.

O slogan “Criança não namora, nem de brincadeira” foi criado em parceria com a blogueira Dany Santos, depois que ela publicou um texto sobre o assunto. No blog “Quartinho da Dany”, ela aborda os mais diversos temas que envolvem maternidade e infância. “Criança se relaciona com os amiguinhos, e eles são, simplesmente, amigos. Amizade é o nome. Insistir em namoro na infância é adultizar as crianças, incentivar a erotização precoce”, diz um trecho do texto.

Ela acrescenta: “A indústria de brinquedos, roupas e cosméticos já investe tanto na adultização infantil! Não vamos fazer o mesmo. É nosso papel separar o mundo adulto do mundo infantil. Misturar os dois mundos é cair no erro da erotização precoce. A infância precisa de proteção e não de adultos que afastam a criança daquilo que é próprio para a idade dela”, escreveu Dany.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) também abraçou a iniciativa, que logo tomou proporção nacional. De acordo com a Secretaria do Amazonas, o objetivo da campanha é conscientizar pais e responsáveis sobre relacionamentos infantis. Desde então, a hashtag #criancanaonamora ganhou as redes sociais e passou a fazer parte de uma ação mais ampla do governo do Amazonas, cuja intenção é mobilizar escolas, comunidades, psicólogos e pais contra a exploração infantil.

Em poucos dias, a publicação do Amazonas no Facebook teve mais de 111 mil curtidas, ultrapassou 493 mil compartilhamentos e 7.000 comentários, e criou um debate sobre os riscos de incentivar um “inocente” namoro entre os pequenos.

Para os especialistas, simular compromisso entre duas crianças, além de não ser saudável, traz malefícios para o desenvolvimento infantil. A educadora Ana Carolina Baptista Ribeiro tem observado essa erotização precoce. “Vejo crianças de 2, 3 e 4 anos se comportando como as de 6, 7 e 8 anos. E a família acompanha, muitas vezes acha bonitinho incentivar certos comportamentos que a criança ainda não tem maturidade para ter. É preciso muito cuidado ao incentivar a descoberta da sexualidade, para não se tornar algo prematuro. Tem idade certa pra tudo”, avalia.

Para a psicóloga de família Carolina Dantas, o discurso até então implícito em comentários como “seu filho(a) vai dar trabalho quando crescer”, “segura sua cabra, que meu bode está solto” já não cabe mais. “Está recheado de machismo, sexismo e heteronormatividade”, diz.

Apesar de ter um componente cultural forte, a necessidade de um relacionamento desde cedo não pertence mais a nossa sociedade. “Antes, os casamentos eram arranjados, mas, agora, crianças de 12 anos não se casam. No entanto, continuamos repetindo esse velho discurso. A erotização precoce favorece a exploração do indivíduo no futuro e, inclusive, contribui para manter a criança em situação de abuso sexual, que é também psicológico e moral. Quando os adultos fazem isso, constrangem a criança ou o adolescente com esses comentários”, afirma.

O quase beijo do filho deixou Beatriz Colen e o marido em alerta. Desde então, os beijos na boca de Christian, antes um sinal de carinho, foram suspensos para não confundir o pequeno. “Explicamos a ele que o papai e a mamãe são namorados, mas criança não namora. Criança tem amiguinhos e, que, neles, pode dar beijos na bochecha”, conta.


Minientrevista

Dany Santos, autora do blog Quartinho da Dany e mãe de Artur, 3, e Caio, 13
Escreveu texto que inspirou a campanha “Criança não Namora, nem de brincadeira”

FOTO: Arquivo Pessoal
2
 

De onde surgiu a ideia do texto sobre namoro na infância e como ele se tornou inspiração para a campanha?

Desde que engravidei, sempre bati nessa tecla de que criança tem que ser criança, e não levada ao mundo adulto. Desde a gravidez, as pessoas costumam comentar que o filho vai namorar não sei quem, tem também aquela parte do “com quem será” depois de cantar o parabéns nos aniversários, e eu acredito que a infância tem que ser preservada. Namorar é coisa de adulto e não faz parte do mundo infantil. Eu não tinha nenhuma visão de como realizar a campanha, mas a assessoria do governo do Amazonas me ligou perguntando se eu gostaria de fazer uma parceria com eles. No blog, eu sempre escrevo textos sobre proteção da infância e maternidade consciente, e, depois que fechamos a parceria, eles começaram a campanha com meu texto.

Como tem sido a repercussão desse assunto? Que resultado a campanha já teve?

Já atingiu bastante gente, tanto na minha página como na do governo do Amazonas. Percebi que existem dois grupos diferentes: um que concorda e quer valorizar a infância e outro grupo que acha esse tipo de “brincadeira” inocente, que não tem nada de mais. Ainda é preciso tentar convencer quem ainda não está convencide que a erotização e a adultização não fazem bem. A criança precisa explorar o mundo infantil, as brincadeiras, as amizades na escola, o lúdico, a imaginação, e não os elementos do mundo adulto. Acredito que estamos abrindo a mente dessas pessoas mais conservadoras, como os avós, que ainda não pensaram sobre essa perspectiva, essa visão nova. Muitos psicólogos e educadores também estão apoiando a campanha. Esse é um trabalho de todos, principalmente da família e da escola.

Numa situação em que alguma pessoa faz esse tipo de comentário com você, como você reage?

Quem é muito próximo já me conhece, sabe bastante sobre as minhas ideias, mas, com quem não conhece, e, de repente, solta uma dessas, eu converso numa boa. De forma educada, digo que não vai namorar porque é criança, que é melhor deixar o namoro para depois e tento enfatizar a amizade entre as crianças.

O que achou deste artigo?
Fechar

Infância

‘Criança não namora, nem de brincadeira’
Caracteres restantes: 300
* Estes campos são de preenchimento obrigatório
Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização
Compartilhar usando o Facebook
ou conecte-se com

ATENÇÃO

Cadastre-se para poder comentar

Comentar com Facebook Comentar com Twitter