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Solidariedade

Ioga para quem mora nas ruas

Voluntários oferecem aulas gratuitas na praia do Flamengo, em Laranjeiras e no Glória

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Roda. Voluntários do Projeto Voar e moradores de rua se confraternizam durante os eventos que acontecem três vezes por semana na cidade do Rio de Janeiro
PUBLICADO EM 18/04/17 - 03h00

Aline, Cecília, Antônio, Carlos, Jade, Larita, Ana, Chico, André e muitos outros voluntários do Rio de Janeiro participam do Projeto Voar – Yoga de Rua, inspirados pelos exemplos de Madre Teresa, Francisco de Assis, Betinho, Mahatma Gandhi, dom Helder Câmara.

O projeto teve início em 2005, com o Café da Manhã, servido aos moradores de rua da zona Sul do Rio de Janeiro. “Abordávamos individualmente as pessoas. Era mágico acordar o sujeito e ele se deparar com uma bebida quentinha. Com o tempo, o pessoal foi conhecendo nossa rota e já ia para as praças nos esperar”, relembra André Andrade Pereira, professor do curso de pedagogia da Universidade Federal Fluminense e um dos idealizadores do projeto, que tem inspirado outras iniciativas pelo mundo.

Só que, em 2014, ele se afastou dessa atividade. “Fiquei desmotivado. Um ano depois revi o trabalho e percebi que faltava algo mais. Senti que aquelas pessoas precisavam de um tempo maior com a gente. O café era bom, porque tinha clima de amizade, ambiente de presença e escuta afetiva. Mas resolvemos oferecer ioga também. Em novembro de 2015 fizemos um piloto, os moradores gostaram muito e foram chegando mais professores. Hoje somos dez”, diz André.

As aulas acontecem às segundas, quartas e quintas na praia do Flamengo, em Laranjeiras e no Glória, pontos com grande concentração de população de rua. “Sentamos numa grama e ali praticamos meditação anapana (respiração), mettabhavana (meditação do amor) e as asanas de ioga (posturas). Conversamos sobre meditação e como lidar com as emoções”, ensina o professor.

A interação entre os voluntários e os moradores é impressionante. “Meu sentimento ao participar desse projeto é de muita alegria, pois conseguimos criar juntos um campo de silêncio, de meditação e de prática séria. O pessoal está engajado nessa possibilidade de usufruir do silêncio e do contato consigo. É muito bom”, confessa André.

Os relatos são inúmeros e gratificantes. “Lá tem uma senhora, a dona Elizabeth, que conta que era muito nervosa, que brigava muito, mas que hoje se sente totalmente transformada com a ioga. Ela diz que as brigas não mais a afetam, que ela não se envolve, e atribui isso à ioga. Um senhor revelou que ficar em silêncio foi importante porque ele conseguiu eliminar o ódio que sentia pelo filho, que escondeu o dinheiro para que ele não bebesse. Desde então, ele foi para a rua. Passaram-se 15 anos. Durante uma meditação ele disse que olhou para dentro e que não sentia mais ódio e quis voltar para casa”, conta o professor.

Tem gente que participa esporadicamente das aulas, e há alunos mais assíduos. “É nítido como eles passam a se expressar mais, criam vínculos, socializam-se e a relação com o corpo ganha mais consciência, eles vão perdendo a timidez, se empoderando. Não existe mágica, mas aos poucos eles se tornam mais conscientes de seu caminho, passam a olhar para dentro de si”, conta André.

Líderes. Madre Teresa, Francisco de Assis, Betinho, Mahatma Gandhi e dom Helder Câmara inspiraram o grupo pelo modo como encararam a questão da luta social, mantendo coerência espiritual.

FOTO: Lorena Mossa/Divulgação
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O professor de ioga e voluntário André Andrade Pereira à (dir.)


“A ioga é uma maneira de se lidar com as emoções”

Depois que começam a praticar a ioga, os moradores de rua “vão iluminando pontos que precisam ser transformados e passam a entrar em contato com partes deles que estavam esquecidas: calma, silêncio, luz, alegria. Nas aulas eles vão tocando essas sementes que estavam escondidas, e elas vão germinando”, comenta André Andrade Pereira.

A ioga tem o poder de desbloquear energias e emoções estagnadas no corpo. “A pessoa vai se sentindo mais forte com a vida, expandindo a consciência de si mesma e seus potenciais e mudando a frequência da mente. A rua tem uma frequência de hostilidade, de medo e de briga, mas no espaço da ioga eles encontram confiança paz, silêncio, alegria e podem experimentar algo que talvez nunca tenham vivido. A ioga é uma maneira preciosa de se lidar com as emoções, observar a si mesmo e deixar passar as emoções aflitivas, as angústias e as tormentas”, diz André.

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