O TEMPO acompanha desde 2013 a chegada dos chips ao Brasil. A reportagem “BH testa chip que faz mão virar um controle remoto universal”, publicada em 13 de outubro de 2013, mostrou como a novidade ainda era vista como uma promessa. O dispositivo, que ainda não havia desembarcado em Belo Horizonte, chegaria à capital mineira graças ao trabalho dos pesquisadores da Área 31 Hackerspace – um laboratório comunitário, aberto e colaborativo que era sediado na Fumec.

Na época o cientista norte-americano Amal Graafstra, dono da loja de biochips Dangerous Things, contou a O TEMPO que desenvolveu o dispositivo porque queria acessar seu escritório com maior facilidade. Desde 2005, ele possui um chip em cada mão. Graafstra estimava em cerca de 3.000 pessoas a população de “chipados” no mundo, na época.

No dia seguinte, a reportagem “Um chip que pode mudar a história de três nerds de BH” mostrou o perfil dos três envolvidos na parceria para trazer o biochip para a cidade: Ewerson Guimarães, Rafael Tudela e Raphael Bastos. Os três dedicavam-se também a promover melhorias em um scanner 3D e a desenvolver um computador do tamanho de um cartão de crédito. “Gosto de explorar os limites da tecnologia. O motor do meu carro, por exemplo, é modificado para eu explorar o que a tecnologia me proporciona. Posso modificar, melhorar as informações”, disse o consultor de tecnologia e o primeiro brasileiro a ter um biochip, Raphael Bastos.

Depois, em 17 de fevereiro de 2014, a matéria “Biochip que faz mão virar um controle remoto já está em BH” mostrou a chegada do equipamento à cidade. Cerca de 20 pessoas haviam manifestado interesse em participar dos testes e implantar o biochip, segundo os pesquisadores.

Na época, os testes realizados por eles mostraram a resistência do material. “Recebemos três chips e já fizemos testes de esmagamento. O material implantado em uma coxa de frango aguentou um impacto de 51 kg, e, em silicone, de 15 kg”, disse Ewerson. Três anos depois, Raphael Bastos conta que pouca coisa mudou. “O material que reveste o dispositivo é novo, flexível e inquebrável”, disse.

Intolerância. O que também não mudou de lá para cá foram as ameaças recebidas por Bastos. Para alguns religiosos, a explicação do chip tem origem no livro do Apocalipse, segundo o qual “a marca da Besta” aparecerá “na mão direita ou na testa”, e, portanto, os biochips seriam a concretização dessa profecia. “Ameaça de morte eu recebo até hoje. Outro dia um cliente me ligou mostrando foto e vídeo de uma pessoa dizendo que eu estava trazendo o caos à Terra. É complicado ser alvo desse jeito. Eu até solicitei autorização para ter porte de arma”, revelou.

Segundo Raphael, a Área 31 Hackerspace abandonou a ideia de vender os biochips por não ser “lucrativo”. Além disso, ele acredita que empresas brasileiras inspirem-se nos exemplos pelo mundo e passem a financiar o implante dos dispositivos em seus funcionários.

Outro exemplo é o do setor automotivo. O consultor conta que instalou os equipamentos necessários para abrir seu carro com o chip e que a Ford já possui sistema de suporte para os biochips desde o modelo Fusion 2005. “Vai ser difícil de todas as montadoras adotarem isso, ainda existe para um nicho muito inicial e também precisa de um tipo de usuário que já tem a intenção, senão não vende. Quando começar a ser usado para pagar a conta do restaurante com o celular, aí pode até ser que melhore”, acredita.

Uso na saúde tende a avançar ainda mais

A recomendação dos fabricantes de biochips é que a aplicação do implante seja feita em um estúdio de piercing, por um profissional com experiência em modificações corporais. O profissional body piercer Rafael Dias foi procurado pela primeira vez, em 2013, para fazer o implante no consultor de tecnologia Raphael Bastos. Depois dele, o especialista conta que fez mais uns 15 procedimentos.

“A aplicação é bem simples, requer uma noção básica de anatomia”, afirma. “Depois eu conheci o Amaal, criador do biochip, e assim me tornei o primeiro no Brasil ‘licenciado’, ‘qualificado’, ‘indicado’ pelo site dele a fazer as aplicações”, complementa.

O body piercer ainda acredita que a utilização tende a expandir, à medida que o conhecimento em torno do biochip seja mais difundido. Ele esperava, por exemplo, uma maior adesão da área médica. “Eu sou diabético há uns 15 anos e espero que um dia isso possa evoluir para funcionar como um possível medidor de glicose, evitando que eu tenha que fazer a medição tradicional”, diz.

Pelo mundo, há diversos estudos que buscam outras utilidades para o dispositivo, como detectar células cancerígenas, controlar pressão alta, monitorar atividade sanguínea, cardíaca, de temperatura etc. Usando outros modelos e tecnologias de chips, a empresa norte-americana MicroCHIPS está desenvolvendo um método contraceptivo que pode ser implantado sob a pele das pacientes. Em outro estudo nos EUA, um paciente tetraplégico com chip no cérebro voltou a sentir toque.