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Superação

Um tempo a mais para a vida

Praticante budista mostra como o câncer mudou seu olhar diante do cotidiano e das relações

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PUBLICADO EM 13/12/16 - 03h00

Uma pausa necessária para o nascimento de um novo e profundo olhar sobre o mundo. É assim que o capricorniano Salim Zaidan, 62, define seu aprendizado durante os processos de descoberta e de cura de um câncer.

Tempo de profundas transformações internas, de desconforto, de confronto com a morte e de vivenciar os conceitos adquiridos ao longo de 25 anos como praticante budista.

O resultado dessa experiência está em sua primeira produção independente, “Quem Amadurece Não Apodrece”, que será lançada no próximo dia 16, em Belo Horizonte.

Salim é psicólogo com capacitação em gestalt terapia e em Eye Movement Desensitization and Reprocessing. Em 1991, se tornou aluno do lama Chagdud Tulku Rinpoche e atualmente coordena o centro de budismo tibetano Chagdud Dawa Drolma.

O livro em questão foi tomando forma a partir do momento em que Salim, durante o tratamento de um câncer, foi obrigado a ficar em silêncio durante quase três meses. Sua comunicação com o mundo se dava por meio da escrita. “Meu senso de observação aumentou, assim como o refinamento ao contemplar a realidade das coisas. Passei a ter percepções e intuições sobre o viver e a anotá-las”, diz Salim.

No entanto, “considerando que naquele momento eu lidava com uma ameaça explícita a minha vida, (ela apenas foi adiada), comecei a avaliar meus escritos e decidi compartilhá-los com todas as pessoas, pois acredito que eles podem apoiá-las em sua busca pessoal. Quis mostrar que só pode existir liberdade se de fato você estiver no presente de sua vida, conectado todo o tempo consigo mesmo, pois não existe situação mais importante que o eterno agora”, comenta.

O título “Quem Amadurece Não Apodrece” também veio de inúmeras reflexões. “Em certo ponto, entendi que se não tivesse amadurecimento suficiente, muito provavelmente, eu ainda estaria em tratamento ou teria morrido. Amadurecer é ressignificar as experiências, e apodrecer é apegar-se a elas”, ensina.

Com sua habitual mente perspicaz, ele diz que se considera hoje uma fruta “de vez”. “O tratamento potencializou meu amadurecimento, mas ainda tenho muito que evoluir. Foi extremamente importante minha percepção do meu consultório, ao observar que o amadurecimento dos meus clientes vem do olhar que eles conferem à própria história. Enfim, o livro traz reflexões avulsas feitas quando as percepções surgiam e em que, muitas vezes, coincidiam com momentos de intenso desconforto físico e emocional”, comenta o psicólogo.

Caminho. Salim considera que o que o apoiou ao longo desse processo foi seguramente seu caminho espiritual, somado à ajuda recebida dos médicos, da família e dos amigos, “mas a força com a qual eu podia contar vinha de mim mesmo”.

Mesmo tendo estudado muito sobre o conceito budista da impermanência, Salim confessa ter sentido medo de morrer algumas vezes. “Lembrei do meu mestre Chagdud Tulku Rinpoche o tempo todo e entendi que mesmo sendo um mestre ele morreu. O desespero, aos poucos, foi me ajudando a entender que eu também era impermanente. Foi a partir daí que os ensinamentos que eu adquiri deixaram de ser conceitos e se tornaram experiências. Fui ganhando leveza, e o desconfortável já não é tão desconfortável”, reflete.

Salim relata que durante seu tratamento, uma cliente enviou uma mensagem que dizia assim: “considerando que não sei se você vai voltar, pode me indicar outro terapeuta?”. “Aquela mensagem me colocou, mais uma vez, em contato com a realidade. Entendi que reputação e reconhecimento não ajudam na hora da morte. Pude ver que não era assim tão importante e que, assim, poderia ter mais espaço na minha agenda para viver minha vida. Hoje sou a minha preferência, sem descartar ninguém.

Continuo trabalhando com imenso prazer e melhor, mas tenho espaço para mim. Perdi o medo em relação à sobrevivência. Eu vivia para trabalhar. Agora trabalho para viver. É muito bom ser útil. Minha cliente foi uma mestra para me lembrar da impermanência. Tenho gratidão por ela pelo resto da vida, porque ela mostrou que eu era perecível e descartável”, diz ele.

Deus. Segundo ele, budismo é filosofia, religião e ciência: “Acredito em um Deus que é a vida, tudo que tem vida é Deus”. “Nos momentos de desespero eu pedia ajuda ao meu mestre, Chagdud Rinpoche, tinha certeza que ele estava ao meu lado, porque certa vez perguntei a ele se na hora da minha morte ele poderia me ajudar. Ele me disse: ‘Se você se lembrar de mim, sim, eu estarei com você’. Isso me deu tudo”, finaliza Salim.

Agenda: O livro “Quem Amadurece Não Apodrece” será lançado no próximo dia 16, das 18h às 22h, na Livraria Ouvidor, na rua Fernandes Tourinho, 253, na Savassi.

FOTO: Ana Elizabeth Diniz
Salim Zaidan
Salim Zaidan, autor do livro


 

‘Tudo é um sonho, nada dura, e, por isso, apodrecer é se apegar’

A primeira pergunta que passou pela cabeça do psicólogo e praticante budista Salim Zaidan foi: “Por que esse câncer apareceu”? “No primeiro momento, eu pensei que seria muito chato morrer de câncer, depois me perguntei quando havia feito aquela sementeira, e aí entendi que sou responsável por cada ato meu, porque cada um produz um fruto. Havia feito algo de que eu não me lembrava e que gerou esse fruto, que foi e tem sido útil para mim. Até surgiu um livro”, relembra.

Às vésperas de lançar seu primogênito, o budista considera que o livro é uma forma de agradecer a todos que o ajudaram a se manter vivo até esse momento. “Não somos preparados para morrer, somos iludidos o tempo todo pelos outros e por nós mesmos. Aceitar a doença, a velhice e a morte não é fácil, porque é real, e isso amadurece. Aprendi a reconhecer que morreremos e que cada momento é precioso e não pode ser desperdiçado com nada supostamente importante, porque nada é importante a não ser viver”.

A felicidade é tamanha que beira, segundo ele, a “metidez”. “Vivo o darma, o caminho da sabedoria. O ensinamento que mais me ajudou foi contemplar a impermanência. Tudo é um sonho, nada dura, e, por isso, apodrecer é se apegar. Percebi que, de uma maneira ou de outra, tudo ia passar: ou a vida acabava ou eu ganharia mais um tempo de vida”, finaliza.

 
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“Quem Amadurece Não Apodrece”, Salim Zaidan. 67 páginas, R$ 20.
O livro está à venda na Livraria Ouvidor da rua Fernandes Tourinho, 253, e pelo e-mail: livrosalimzaidan@gmail.com.

 

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