Museu de Arte da Pampulha

Museu de Arte da Pampulha está em busca de dias melhores

No ano em que completa 60 anos, o MAP sofre com sucateamento e com a limitação drástica de seu Orçamento

PUBLICADO EM 21/05/17 - 03h00

Quem for ao Museu de Arte da Pampulha hoje poderá frustrar-se ao perceber que o salão principal está vazio. Isso, certamente, não impede que o visitante possa descobrir as esculturas instaladas nos jardins concebidos por Burle Marx ou apreciar o edifício projetado por Oscar Niemeyer na década de 40 para funcionar como cassino. Em razão da proibição dos jogos de azar no Brasil em 1946, o espaço permaneceu fechado até ser reinaugurado em 1957 como instituição museológica – papel que vem sendo cumprido por seis décadas, com períodos de altos e baixos.

Se o presente não é dos mais favoráveis, como revela a própria ausência de exposições desde meados de março, há a expectativa de que o MAP retome seus melhores dias. Quem aposta nessa virada são, principalmente, os artistas que tiveram ali a oportunidade de experimentar e conceber obras icônicas e ainda hoje representativas. Foi lá, por exemplo, que em 2006 a belo-horizontina Niura Bellavinha instalou 80 colchões preenchidos com água retirada da lagoa da Pampulha. Após um grupo de performers concluir uma ação caminhando sobre eles, o público também pôde experimentar a sensação de andar naquela estrutura.

Era certa instabilidade que eu estava propondo para o corpo daquelas pessoas e para o olhar também que não conseguia se fixar num único ponto. Quando elas passavam pelos colchões, de certa forma, é como se houvessem retirado o chão debaixo dos pés delas. Essa ideia também se relacionava com a intenção de falar de todo aquele entorno, da nossa história, da instabilidade que nos permeava”, lembra Niura.

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Salão vazio. Tal sentimento perdura e culmina numa carta escrita e publicada recentemente pelos funcionários do MAP, que têm ouvido queixas do público e não têm outra opção a não ser compartilhar algumas das dificuldades com as quais convivem diariamente. Entre elas, a escassez de recursos para dar continuidade ao calendário expositivo e a precariedade das condições de armazenamento do acervo, que precisa de cuidados urgentes e de mais espaço. “O que mais dói em nós, que trabalhamos no museu, é toda vez, ao entrar no prédio, ver aquele salão vazio. As pessoas chegam, reclamam, mas a reclamação é nossa também. Um espaço daquele vazio é algo inconcebível para uma instituição museológica com o prestígio que o MAP tem”, desabafa Carlos Henrique Bicalho, atual gestor do museu.

Priscila Freire, curadora, colecionadora e ex-diretora do MAP, onde trabalhou por mais de uma década, compartilha a mesma indignação. “Eu estou muito espantada com isso. O museu é o local em que é possível se conhecer uma cidade, saber o que está sendo produzido ali. E um museu sem exposições é praticamente um museu morto. No caso do MAP, é algo incoerente com a vitalidade artística que existe em Belo Horizonte”, dispara Priscila, após ter visitado a casa no dia 12.

A situação apresentada pelos funcionários do MAP – cujo quadro de efetivos foi reduzido de 15 para sete, desde 2011– levou vereadores da Comissão de Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura, Desporto, Lazer e Turismo da Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) a ver de perto o acervo da instituição no dia 9. Lá encontraram obras sem a climatização necessária. Esses problemas foram retomados na audiência pública que aconteceu no dia 15 na câmara, onde foi colocado em pauta o sucateamento do MAP nos últimos dez anos.

A falta de um prédio anexo, mas que, de acordo com Priscila, possui um projeto elaborado por Niemeyer e aprovado pela prefeitura e pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), impõe a transferência das obras de grande porte para galpões fora do MAP. É o caso, por exemplo, de um no bairro São Bernardo, onde estava guardado o trabalho “Corpo a Corpo”, de Teresinha Soares, danificado pela entrada de água da chuva e que será incinerado.

Gustavo Mendicino, diretor do Conjunto Moderno da Pampulha, afirma que não há mais peças nesse local. “Lá agora só tem material de expografia, e as obras que não cabem na reserva do MAP foram levadas para o Mercado Distrital de Santa Tereza, onde não tem ar-condicionado, e, por isso, devem ficar lá provisoriamente. A ideia é retomar um galpão ao lado do Arquivo Público, que será reformado e climatizado para receber esse acervo”, afirma ele.

Além disso, Luciana Bonadio, conservadora do MAP, conta que o ar-condicionado da reserva técnica do museu está contaminado por micro-organismos que causam estragos irreversíveis. A proliferação foi acelerada pelo desligamento do ar-condicionado, em razão da necessidade de reposição de peças, durante seis meses. “Justamente no período de chuva que é o mais úmido do ano, de novembro até agora”, afirma. O problema da climatização começou a ser reparado na sexta (19), quando iniciou-se a instalação de novos equipamentos.

Agora deverão ser adquiridos três esterilizadores essenciais para o funcionamento apropriado da reserva técnica. “Mas a do museu está praticamente esgotada, não tem como crescer, e é difícil até de se locomover ali dentro”, alerta Luciana. Essa é a parte menos nítida das adversidades que atravessam o cotidiano do MAP. A mais visível é mesmo a carência de exposições, o que não está relacionado à falta de conteúdo. O museu tem um acervo de cerca de 1.500 peças e, recentemente, adquiriu uma coleção de 61 livros de artista, por meio do Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça, da Funarte.

Esses trabalhos ainda não foram exibidos porque aguardava-se, desde o final de janeiro, a liberação de R$ 18,7 mil, autorizada somente anteontem. Esse valor, de acordo com Bicalho, será, principalmente, para o pagamento do seguro das obras e para cobrir o gasto com a impressão de conteúdo informativo. “Toda obra que sai da reserva, mesmo se for para expor dentro do salão, precisa de ter seguro. Esse dinheiro seria para isso, para a plotagem de textos, como legendas, e para a compra de algum material, como uma tinta, que é necessário durante a montagem. Mas toda a expografia será reutilizada a partir do que usamos em mostras anteriores”, detalha ele. A exposição dos livros de artista é uma contrapartida do prêmio Marcantonio Vilaça, que viabilizou a compra das obras com a condição de tornar público o acesso a elas.

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