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Acílio Lara Resende

Nenhum sonho mantém-se vivo em meio à desenfreada fome de poder

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PUBLICADO EM 07/09/17 - 03h00

Se um dos principais idealizadores da Nova República, Tancredo de Almeida Neves, estivesse vivo, ele teria completado 107 anos no último dia 4 de março – um feito fantástico, sem dúvida, mas hoje bem mais possível do que no passado. Certamente estaria decepcionado com os rumos que tomou o belíssimo sonho que foi tão acalentado por ele, Ulysses Guimarães e alguns milhões de brasileiros esperançosos.

Nominalmente, a Velha República foi-se, mas, apesar do que imaginaram que pudesse ocorrer apenas em sonhos, seus principais idealizadores e também, poucos anos depois, os fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) – estes ainda imaginaram poder ajudar no seu sepultamento –, ela está firme. A Nova República não soube livrar-se dos desvios da quase moribunda. Na verdade, ela jamais morreu, está mais viva do que nunca, representada pelo presidente Michel Temer – o reformista de última hora.

A morte do são-joanense propiciou a seu vice, José Sarney, o comando político do país, do qual, aliás, já fazia parte desde priscas eras. Sarney pode não ter sido outra vez presidente, mas seu domínio continuou quando Lula e Dilma foram eleitos (aliás, os dois são grandes responsáveis pelo sepultamento dos sonhos do PT). Até hoje, o autor do romance “Marimbondos de Fogo” mantém-se a seu lado. Lula não se esquece do quanto Sarney ajudou-o. Por isso, manifestou-lhe agora sua gratidão, estendida, em seguida, ao senador Renan Calheiros. Poucos políticos abusaram tanto de seu próprio Estado – o Maranhão –, e poucos estiveram tão presentes na história política do país. O pior de tudo é que não contribuiu para enriquecê-la. Só a empobreceu.

De tudo isso, o que mais intriga mesmo é o sonho, após tantos outros sonhos (como os do PT), dos que fundaram o PSDB na certeza de que iniciariam uma nova era para o país. Saído de uma costela do PMDB, controlado na época pelo ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, o PSDB, como disse FHC, em seu artigo em “O Globo” do último domingo, “nasceu com uma chave ideológica clara: republicanismo (luta contra as iniquidades causadas por privilégios e abusos corporativos e clientelistas) e o primado do interesse coletivo sobre o particular. Isso, entretanto, não equivalia à defesa cega das leis de mercado, nem à crença do intervencionismo estatal. A defesa dos interesses gerais requer responsabilidade fiscal e critérios de eficiência e justiça social na tributação e no gasto público”. Síntese supimpa!

Só que (como o PT), conforme afirmação recente do filósofo José Arthur Giannotti, amigo de FHC, embora também fundador do PT, depois de criticar tucanos, petistas e o candidato Jair Bolsonaro, afirmou: “o PSDB morreu. Quer que eu fale de defuntos? O PSDB não é mais um partido. E não existe alguém como Lula para aglutinar todos”.

Mais uma vez está correta a escritora Ana Maria Machado ao afirmar, na semana passada, “que não foi só o PT que deixou órfãos seus seguidores bem-intencionados. O PSDB errou, sim, muito e não só agora”. E pensar que PT e PSDB bem que poderiam ter seguido juntos. Isso dói! A vaidade intelectual, de um lado, e, de outro, o radicalismo ideológico, cederam lugar ao personalismo boçal ou inútil.

Ainda bem que há, no país, atuantes, 35 partidos!...

“E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, e agora, José? / E agora, você?” O que seria do mundo sem sonhadores e poetas?

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