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Cristovam Buarque

Marcha para o conhecimento

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PUBLICADO EM 12/01/18 - 03h00

Há 80 anos, Getúlio Vargas lançou a Marcha para o Oeste. Naquela época, população e produção brasileiras estavam concentradas numa estreita faixa do litoral. Em poucas décadas, o país mudou sua distribuição demográfica e econômica e construiu uma geografia mais equilibrada. Hoje, estamos precisando da “marcha para o conhecimento”.

Em 1937, a construção do futuro vinha da ocupação de territórios inexplorados; agora, virá da formação dos cérebros dos brasileiros. A Marcha para o Oeste buscava aproveitar os hectares de terra relegados no interior, a “marcha para o conhecimento” exige aproveitar cada cérebro brasileiro.

Pode-se estimar que, ao longo dos 80 anos da Marcha para o Oeste, pelo menos dezenas de milhões de brasileiros morreram sem educação de base, parte deles sem ter aprendido a ler nem mesmo a própria bandeira. Por isso, a “marcha para o conhecimento” vai exigir uma revolução na educação do Brasil.

Independentemente das características da economia ao longo desses 130 anos de República, é possível imaginar as terríveis consequências do abandono do “território cerebral” de nossa população. A pobreza, a concentração de renda, o desperdício, a corrupção, o atraso e a violência teriam sido evitados se o Brasil tivesse feito uma “marcha para o conhecimento” paralelamente à Marcha para o Oeste.

Para ingressar no futuro, o Brasil precisa fazer sua “marcha para o conhecimento”. No lugar de construir uma capital nova, abrir estradas, fazer hidrelétricas, dar subsídios e apoio técnico ao agronegócio, bastaria implantar um novo sistema educacional de base ao longo das próximas décadas.

Em menos anos dos que foram necessários para a Marcha para o Oeste, o Brasil entraria em um novo tempo de sua história: com produtividade, criatividade, inovação, menos desigualdade, menos corrupção, menos violência e mais participação política.

A “marcha para o conhecimento” exige ainda uma refundação da universidade para que ela se torne uma das melhores do mundo. E seja “alavanca para o progresso” do país, em vez de “escada social” para os alunos. Isso exigirá forte compromisso com o mérito e ligação com a inovação do pensamento em todas as áreas.

A universidade refundada deverá ser uma usina de ciência, tecnologia e inovação, em ligação direta com as necessidades do setor produtivo e social. Não haverá “marcha para o conhecimento” se o setor empresarial brasileiro não se envolver com vigor, especialmente na criação de mercadorias inovadoras. Para isso, o setor de financiamento público deve priorizar empresas cujos produtos se situem no ramo de alta tecnologia.

Dos 3 milhões de brasileiros com 22 anos quando se comemoraram 80 anos da Marcha para o Oeste, não mais do que mil se tornarão cientistas internacionais. E, desses, a metade será forçada a migrar. A terra improdutiva do oeste pelo menos não morria nem migrava.

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