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Daniel Barbosa

O edifício XV

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PUBLICADO EM 05/01/18 - 03h00

O negrume da noite começava a dar lugar à incipiente claridade do alvorecer quando Davison chegou em casa e se aboletou na laje, observando com certo deslumbre, sem muita razão de ser, a vista ampla da cidade que se descortinava. Ainda era possível ouvir, ao longe, em um volume considerável, o funk que embalou a festa de virada de ano da qual ele saíra há não mais que meia hora. A pândega esteve irrepreensível, com muitos amigos, muita bebida, muita comida e muita diversão, mas a lembrança mais forte que Davison levou consigo para aquele momento de respiro e reflexão no sossego da laje era a dos fogos de artifício que inundaram o céu da cidade nos momentos que antecederam e sucederam a meia-noite. Desde criança ele sempre teve uma espécie de fixação por aquele espetáculo difuso, já que produzido por uma enorme diversidade de pessoas, que faz parecer que há realmente algo novo digno de comemoração, ainda que, pela experiência, Davison saiba que quase nunca há. De qualquer forma, ele não deixou de, mais uma vez, se deslumbrar.

Ficou em sua memória recente a imagem do céu festivo e iluminado, ao fundo, em oposição ao edifício que, em primeiro plano, também desde a infância, sempre fez parte de sua paisagem, obstruindo com seu volume denso parte da visão que se poderia ter da cidade. Desde as primeiras horas da noite anterior, Davison reparou na profunda quietude em que a desproporcional construção esteve mergulhada. Com a escuridão se adensando, restaram acesas as luzes de apenas seis apartamentos naquela face que faz frente à favela em que Davison mora. O fato de estarem todas as outras apagadas, somado ao negror das paredes daquele prédio, fazia as janelas desses apartamentos parecerem vaga-lumes estáticos no espaço. Àquele altura da madrugada, duas daquelas seis luzes resistiam acesas.

Ainda tendo como trilha sonora o pancadão do funk e, mais ao fundo, também um pagode, já meio desencontrado, Davison ficou pensando no que cada um dos moradores ou das famílias que habitavam aqueles apartamentos passou a noite fazendo. Nos dois que ainda mantinham luzes acesas, era possível intuir festas de arromba, com gente animada disposta a virar a noite. Pensou que deviam ser jovens os moradores de tais apartamentos, jovens e sem nenhum outro programa para o revéillon, que resolveram chamar os amigos mais próximos na mesma situação. “Mas também podem ser apartamentos onde vive um velhinho insone, ou alguém, não necessariamente jovem, que tem medo do escuro, ou ainda um casal que, avesso às festividades de fim de ano, optou por uma maratona de séries na televisão”, ponderou Davison. Sua mente ainda divagou pela possível melancolia dos outros quatro apartamentos que iniciaram a noite acordados e foram dormir cedo, dispensando o espetáculo dos fogos de artifício que a ele tanto encantava.

Davison pensou que talvez fossem pessoas que foram passar a virada em outras paragens, ou simplesmente gente avessa a festa. Pensou também nos moradores daquele edifício que, ao longo da vida, conhecera, como Tonico, o amigo de infância com quem sempre ia jogar uma pelada na rua que faz divisa entre o enorme prédio e uma das entradas da favela. Tonico costumava frequentar sua casa e era muito benquisto por sua mãe, que sempre oferecia os doces que fazia. Já um tanto mais crescido, Davison também fez amizade com Elizabeth, uma senhora de meia-idade, professora, que durante alguns anos desenvolveu o projeto com os jovens do aglomerado. O sono começou a turvar tais lembranças, e Davison apenas se deixou levar.

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