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Daniel Barbosa

Relato tardio e vago de viagem VII

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PUBLICADO EM 21/04/17 - 03h00

O sol resplandecia generoso quando desembarquei do precário ônibus que fazia o percurso de Conceição da Barra até Itaúnas, no litoral Norte do Espírito Santo. Fui até o camping improvisado num lote de aproximadamente 300 metros quadrados, com alguns coqueiros e castanheiras fazendo uma sobra aqui outra acolá, gerido por uma mulher de meia-idade chamada Emília, se não me falha a memória, cujo modesto barraco de dois cômodos em que morava com cinco filhos ficava em uma das extremidades do terreno. Conversei com Emília, constatei que, com efeito, conforme haviam me dito, era a opção mais barata que eu poderia encontrar para passar ali as duas semanas previstas, perguntei se podia deixar minha bagagem guardada em algum canto, para caminhar até a praia e me refrescar no mar antes de montar minha pequena barraca de dois lugares e, diante do consentimento, foi o que fiz.

Segui até o rio, atravessei a ponte e percorri o trecho de aproximadamente um quilômetro e meio que leva até as dunas, as quais transpus movido pelo deslumbramento com a beleza do lugar. Tomava uma cerveja em uma das rústicas barracas que se enfileiravam com relativa distância uma da outra ao longo da praia quando o tempo começou a fechar ameaçadoramente, com densas nuvens negras vindas do Leste cobrindo todo o litoral. Lembrei que ainda não tinha montado a barraca e voltei correndo à vila.

Não havia mais ninguém acampado no terreno de Emília. Ergui minha humilde acomodação sob uma castanheira de copa folhuda, pensando que serviria como proteção tanto para a chuva quanto para o sol. Era uma barraca já com muita estrada, meio puída, com alguns remendos e problemas no zíper de fechar a porta. Findo o trabalho, tomei uma ducha no exíguo banheiro construído próximo à casa de Emília e fui até uma birosca próxima para comer alguma coisa. A tempestade prenunciada finalmente desabou espessa, com muito vento, raios e trovões. Algumas horas, cervejas e petiscos depois, já com a noite avançando para a madrugada, a chuva ainda não havia arrefecido. Cansado da viagem que havia feito e já de pileque, pensei que não me restava outra coisa a fazer a não ser enfrentar o dilúvio, voltar para a barraca, me enxugar e dormir torcendo para que o sol voltasse a dar o ar da graça no dia seguinte.

Havia entrado um pouco de água na barraca, acumulada em um canto, o que me obrigou a amontoar a bagagem quase que toda aos pés do colchonete, no espaço que restava seco. Apesar do desconforto, consegui apagar relativamente rápido, só que o sono não durou muito, porque, como a chuva não cessava, a água foi se infiltrando cada vez mais. Coloquei a bagagem sobre o colchonete, me encolhi ao máximo e tentei dormir novamente, durante muito tempo em vão, na labuta de driblar da forma que era possível a situação adversa em que me encontrava, até que, vencido pelo cansaço e pelo sono, finalmente adormeci.

Acordei no dia seguinte numa situação de penúria total, com a barraca tomada pela água, a bagagem encharcada, eu encharcado, enlameado, grogue, por causa da noite mal dormida, e de ressaca. Pelo menos a chuva tinha parado e o sol brilhava sobre Itaúnas. Ainda assim, considerei diminuir minha estadia de duas para uma semana, o que me permitiria pagar uma pousadinha barata.

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