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Durval Ângelo

A tragédia de Janaúba e a invisibilidade do 'outro'

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PUBLICADO EM 12/10/17 - 03h00

“A incapacidade de descobrir a motivação do massacre é boa: ela deveria nos lembrar que matar é fácil e demasiado humano”. O trecho de um artigo do escritor e psicanalista Contardo Calligaris refere-se ao massacre de Las Vegas, no qual um franco-atirador assassinou mais de 60 pessoas. Mas bem poderia tratar da tragédia de Janaúba, onde um vigia com sofrimento mental, numa perversa ação planejada, ateou fogo a crianças de uma creche, matando nove delas, uma professora e a si mesmo.

Eu estava com o governador de Minas, Fernando Pimentel, quando ele tomou conhecimento da tragédia. De imediato, determinou a mobilização de todas as forças de saúde e de segurança do Estado no resgate e atendimento às vítimas e na assistência aos familiares. No mesmo dia, embarcou para Janaúba para levar sua solidariedade e acompanhar o funcionamento dos equipamentos do Estado. Estava consternado.

Tamanha monstruosidade deixou-nos a todos estarrecidos. Como ninguém se dera conta de que aquele homem representava uma ameaça? Ele já tinha até procurado o Ministério Público, com sinais de alucinações. Lembro-me da tal “invisibilidade” social, tema de estudos sobre a falta de reconhecimento do outro em sua particularidade e diferença. Tendo a concordar com Hegel, para quem a violência praticada por alguém é uma tentativa de “dar-se a conhecer ao outro”.

O ser humano é cruel, como mostra a história da humanidade, repleta de atrocidades. Portanto, o “humano” não é conferido pelo nascimento. É uma construção permanente, na relação consigo, com o outro e com o mundo e na qual a educação, em suas múltiplas dimensões, é decisiva. É no processo educativo que a natureza humana busca sua perfectibilidade.

A violência generalizada que ora nos acua é sintoma de algo maior: da falta de sentido, do “não ser”, do mal-estar da pós-modernidade, marcado pela fragmentação, pela incerteza e pela angústia. Também Deleuze o identifica, quando afirma: “Vivemos em um mundo desagradável, onde não apenas as pessoas, mas os poderes estabelecidos têm interesse em nos comunicar afetos tristes. (...) Os doentes, tanto da alma quanto do corpo, não nos largarão, vampiros, enquanto não nos tiverem comunicado sua neurose e sua angústia, sua castração bem-amada, o ressentimento contra a vida, o imundo contágio. Tudo é caso de sangue. (...) Não é fácil ser um homem livre: fugir da peste, organizar encontros, aumentar a potência de agir, afetar-se de alegria, multiplicar os afetos”.

Para fazer-nos humanos, temos que construir o homem novo e uma sociedade sobre outras bases, que não a intolerância, a competitividade, o apagamento do outro. Da tragédia, fica a lição: o Homo sapiens (sábio) é também o “homo demens” (louco). A linha que separa a normalidade da loucura é tênue, e a questão é como não rompê-la.

Dona Valda, mãe da professora Heley – a heroína de Janaúba –, nos dá uma pista, ao perdoar o atormentado assassino da filha. A empatia e uma educação que resgate valores e reencante a vida podem ser um bom começo.

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