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Fátima Oliveira

O lixo do Carnaval diz muito até sobre injustiça reprodutiva

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PUBLICADO EM 09/02/16 - 03h00

Desde que tomei ciência da “sopa plástica do Pacífico”, por volta de 2008, minha preocupação com o lixo, sobretudo o descarte de plásticos, adquiriu uma nova dimensão, pois o que acontece no Pacífico é aterrador do ponto de vista da dialética da natureza.

Mas o que é a “sopa plástica do Pacífico”? Descrita em 1997, pelo pesquisador Charles J. Moore, é “uma enorme camada flutuante de plástico, considerada a maior concentração de lixo do mundo no Oceano Pacífico – com cerca de 1.000 km de extensão contínua, vai da costa da Califórnia, atravessando o Havaí, e chega a meio caminho do Japão, atingindo uma profundidade de mais ou menos 10 metros” (Pedro Paulo Gianini, em “A maior concentração de lixo do mundo”).

Em 2015, a revista “Science” publicou uma pesquisa que analisou dados de resíduos sólidos de 192 países em 2010, coordenada por Jenna Jambeck, professora de engenharia ambiental da Universidade da Geórgia. Ela mostra que, anualmente, os oceanos recebem 8 milhões de toneladas de lixo plástico, e o número cresce a cada ano: a estimativa para 2015 era de cerca de 9,1 milhões de toneladas de plástico.

Recuso, ao máximo, levar material plástico em formato embalagem para casa. Propósito que não é fácil, já que vivemos a era dos plásticos! Todavia, audito o meu lixo cuidadosamente. E fico possessa quando vejo sacos plásticos voando nas ruas, fato comum onde moro.

A Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) declarou que, “em média, cada brasileiro gera 378 kg de lixo por ano, e grande parte é de plásticos”. Frisando que a poluição por plásticos é problema nacional e global, a Abiplast destacou: “Esperamos que no futuro as novas gerações sejam mais conscientes e pratiquem o consumo sustentável e que desde já todos pratiquem os 5 Rs: Reduzir, reutilizar, reciclar, repensar e recusar”.

Dá comichão em quem tem alguma consciência ecológica a montanheira de lixo plástico produzida e descartada de qualquer jeito durante o Carnaval. Segundo o especialista em desenvolvimento sustentável Sabetai Calderoni, “o lixo produzido no Carnaval é uma amostra do verdadeiro Carnaval que existe em relação ao lixo”.

Matéria no Portal Brasil (“Descarte correto de lixo no Carnaval ajuda a combater o Aedes aegypti”) informa que há estimativas que apontam que no Carnaval há 10% mais lixo que nos demais meses do ano, pelo menos no Rio de Janeiro, segundo a Comlurb. Diz mais: há um aumento de cerca de 40%, a cada ano, na quantidade de lixo recolhido após a folia; e que “a sujeira que o Carnaval deixa nas cidades é um dos maiores problemas do pós-feriado: latas de alumínio, garrafas de vidro, copos plásticos e panfletos de divulgação são facilmente encontrados nas ruas, entupindo bueiros e aumentando o risco de enchentes. Segundo o Instituto Akatu, o aumento do lixo gera impactos na coleta (que fica sobrecarregada), e no armazenamento nos aterros”.

Hoje, no Brasil, a acumulação de lixo é praticamente igual a foco de proliferação do Aedes aegypti (transmissor da dengue, chikungunya e zika). É espantoso que a maioria dos governos estaduais e municipais não tenha se preocupado com peças publicitárias educativas sobre o descarte de lixo de modo sustentável no Carnaval, no bojo do mutirão nacional de combate ao mosquito!

Pior, a falta ou insuficiência de lixeiras nas ruas é a regra nas capitais. O que dizer das demais cidades? Eis a foto da realidade do país que quer imputar às mulheres o maior tributo da epidemia de microcefalia: a injustiça reprodutiva!

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