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Fernando Fabbrini

Na ponta da língua

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PUBLICADO EM 14/09/17 - 03h00

Fugindo dos anos de chumbo, assim como fizeram outros artistas, Vinicius e Toquinho botaram a viola no saco e se mandaram para a Itália, onde moraram por um bom tempo. Viveram um período rico em novas composições, parcerias e arranjos com maestros renomados, gravações com Ornella Vanoni, Sérgio Endrigo e outros artistas da época. Sobretudo, especialmente para Vinicius – como era de se prever – foi uma época de consumo etílico em volumes inimagináveis. Mesmo residindo na terra do Brunello di Montalcino e de outros tintos famosos, o poeta continuava fiel aos escoceses. (É dele a frase engraçadíssima: “O uísque é o melhor amigo do homem. O uísque é o cachorro engarrafado”.)
Testemunhas da temporada italiana contam uma história ótima: meia hora antes de cada show, religiosamente, Vinicius já tinha feito descer algumas doses de seu scotch, e a garrafa permanecia nos bastidores, sendo acessada diversas vezes durante a apresentação. Numa dessas noites, num famoso teatro de Roma, Vinicius tomou no camarim suas doses habituais. Daí, assentou-se, cantou as primeiras com Toquinho e este recolheu-se à coxia para trocar a camisa ensopada de suor. Vinicius ficou no palco. Sem cerimônias, pegou o microfone e deu início a uma longa conversação informal com a plateia. Estava absolutamente desenvolto – diga-se, com o óbvio estímulo oriundo do malte e do barril de carvalho. O poeta contava anedotas, casos do Brasil, histórias de amigos. Os espectadores riam pra valer. Atrás das cortinas, o produtor italiano do show ouvia tudo, curioso. Viu passar Toquinho e segurou-o pelo braço. Intrigadíssimo, perguntou ao parceiro de Vinicius:

– Molto interessante questo signore Vinicius! Ma...Che língua parla?

Que diabo de língua era aquela que Vinicius falava, absolutamente incompreensível para um italiano, mas que parecia perfeitamente decifrável para a seleta audiência – também italiana - daquela noite? São mistérios que repousam nos porões escuros dos castelos da Escócia.

Outro caso me foi contado em Portugal, mas não estou seguro se é verdade ou uma daquelas brincadeiras que viram piada. Dois turistas brasileiros pegaram um táxi em Lisboa. Batiam papo animadamente no banco traseiro e notaram que o motorista os olhava pelo espelho retrovisor com frequência e interesse indisfarçável na conversa. Chegaram ao destino, uma casa de fados na Alfama. Ao pagarem a corrida, foram gentilmente inquiridos pelo chofer, com aquela gentileza típica dos lusos:

– Me perdoem os senhores a impertinência, mas estou a me perguntar... Que raios de língua é essa que estão a falar e que eu cá entendo tudo?

Há outra portuguesa, que adoro. Na feira livre, uma moça brasileira corria os olhos pelas bancas de frutas, coloridas e saborosas. Com saudades do Brasil, deteve-se diante de uma pilha muito bem arrumada de laranjas. Apontou-as e perguntou ao vendedor:

–São doces?

O homem fez cara de espanto e devolveu-lhe, no ato:

– Não, senhora, são laranjas. Os doces ficam logo ali à frente, ora pois!

Toquei nesse assunto hoje só para aliviar. Tento entender que raio de língua é essa que nossos políticos utilizam nas entrevistas, nos seus comunicados oficiais ou quando gravam os programas partidários – inserções frequentes nessa época ainda tão distante das eleições. Frases do tipo: “Sou absolutamente inocente”; “jamais cometi ilícitos”, “foi tudo dentro da lei” são de uma desfaçatez crônica. Pensando em 2018, outros dizem: “Vamos viver um novo tempo”, ou “no meu governo não haverá lugar para a corrupção” ou ainda “vamos renovar o Brasil” fazem-me suspeitar que eles andam bebendo alguma coisa bem mais forte que o uísque do Vinicius.

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