Recuperar Senha
Fechar
Entrar

Flávia Denise

Independência ou rede

Enviar por e-mail
Imprimir
Aumentar letra
Diminur letra
SD
PUBLICADO EM 17/04/18 - 03h02

A palavra “independente” é dessas com tantos significados que acaba tornando-se vaga. De forma geral, invoca ruptura. A independência caracteriza-se pela não ligação a algo externo. Pode ser a quem ocupa posições de poder, a quem vive de acumular dinheiro ou a quem já faz algo há muito tempo e não consegue mais enxergar caminhos alternativos.

O excesso de sentidos nasce a partir do momento em que fugir da norma deixa de ser desvio e torna-se o novo normal. Ou seja, quando tem mais gente querendo fugir dos caminhos já traçados pelo poder, pelo dinheiro ou pela tradição do que interessados em sustentar certos hábitos. Nesse momento, o número de significados multiplica-se descontroladamente – um para cada pessoa que encontra seu próprio caminho.

Vira sinônimo de um modo de fazer que envolve controle total do processo, desde a criação até o acabamento, sem soluções pré-moldadas, mesmo que isso signifique desbravar trilhas antigas, já tentadas e abandonadas. Afinal, o caminho sem saída de uma pessoa é a rota de escape da outra.

Por isso tantas iniciativas artísticas se autodenominam “independentes”. Há uma certa pressa em declarar-se “puro”, livre da influência alheia, principalmente quando esse alheio representa, aos olhos de quem chega, uma posição consolidada de poder, dinheiro e tradição. Aí nascem os independentes. Complete a lacuna.

No entanto, independente implica um fazer sozinho, um fazer “sem influências”. Implica um modo de pensar que parte do “contra tudo e contra todos”. E, para quem pretende romper com o poder, o dinheiro e a tradição, essa estratégia já nasce fadada à morte. Uma morte gloriosa de mártir, de David contra Golias nas artes, mas ainda assim uma morte.

Melhor seria se quem pretendesse protagonizar uma muito necessária ruptura retirasse seu foco do termo “independente” e o concentrasse na ideia de rede, de teia, de círculo. Em vez de perseguir um desejo de autossuficiência, o artista poderia resgatar um amor ao “fazer junto” ou ao “fazer ao lado”. Aí, em vez de sofrer uma gloriosa morte de mártir, poderia viver uma luta, ao lado de gente que não faz igual, mas une esforços para que todos consigam continuar fazendo sua arte autônoma. Mesmo que dependente dos esforços dos colegas e amigos.

Talvez você considere que trocar palavras não seja suficiente para provocar uma mudança. Mas, para que superemos o desejo de ganhar sozinhos um jogo feito para que todos percam (aliás, o nome dele é capitalismo), é preciso começar a pensar nas pequenas coisas que fazemos sem nos questionar – como nos declararmos independentes sem considerar com o que estamos rompendo.

É possível fazer arte autônoma que rompe com o passado e que corta o conformismo sem apegar-se à palavra “independente”. Assim como é possível fazer produtos que pertencem ao mercado e escrever “independente” na capa. Em vez de “independência ou morte” – duas palavras que significam a mesma coisa para pequenos projetos – poderíamos ficar com o “uni-vos”. 

O que achou deste artigo?
Fechar

Independência ou rede
Caracteres restantes: 300
* Estes campos são de preenchimento obrigatório

comentários (1)

Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização
Compartilhar usando o Facebook
ou conecte-se com

ATENÇÃO

Cadastre-se para poder comentar

Comentar com Facebook Comentar com Twitter