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Flávia Denise

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Netflix
PUBLICADO EM 18/12/17 - 03h00

“Para as 53 pessoas que assistiram a ‘O Príncipe do Natal’ todos os dias nos últimos 18 dias: Quem te machucou?”

A declaração, postada no Twitter da Netflix dos Estados Unidos, provocou discussões na última semana. Deixando de lado possíveis críticas às preferências dos telespectadores em questão, há um aspecto do bafafá que vale a pena refletir: o que a Netflix sabe sobre seus 100 milhões de assinantes? A resposta, como deixou bem claro o próprio serviço, é “tudo”. Eles sabem quais são suas preferências reais (e não as que você admite aos amigos). Sabem a frequência com que assiste a séries e filmes. Sabem qual é seu estado de espírito. Sabem se você compartilha ou não sua senha com amigos. E têm todas essas informações não somente sobre você, mas sobre gente de todo o planeta.

A questão de invasão de privacidade que existe aí é gritante. Cada vez mais pagamos com nossos dados pessoais o acesso a grandes serviços online, como Facebook, Google e Netflix. E, assim, vamos deixando essas empresas entrar em nossas vidas e nossas casas, onde elas ocupam lugares de destaque nos quais, paradoxalmente, tornam-se invisíveis.

Minha maior preocupação, porém, não é com a perda de privacidade – até porque não há mais volta. Minha inquietude está mais relacionada ao uso que essas empresas fazem desses dados. A Netflix já deu uma dica com seu tuíte. Ela está de olho em tendências e comportamentos dos usuários. Mas seu objetivo não é simplesmente fornecer material para o gerente de redes sociais engajar o público.

Quando a primeira série nacional da empresa foi anunciada, eles não tiveram constrangimentos em revelar que a escolha do tema, ficção científica, foi feita com base no gênero a que os brasileiros mais assistem na plataforma de streaming. As parcerias, como o grande número de stand-ups na plataforma, também foram feitas com base na percepção, abalizada por dados, de que o público local gosta muito desse tipo de espetáculo.

Isso é só o que já vemos acontecer agora, com a tecnologia ainda incipiente. Imagine o que ocorrerá quando essas empresas tiverem desenvolvido ferramentas melhores para analisar o volume absurdo de dados que já coletam. Saberão cada detalhe dos nossos gostos, como reagiremos a cada surpresa na trama, o que achamos de cada ator elencado. E criarão séries e filmes feitos, minuciosamente, para ir ao encontro das nossas expectativas.

Por um lado, será muito bom. As maratonas correrão suaves, embaladas por sequências de cenas perfeitamente encadeadas, todas obedecendo a padrões que já mostramos apreciar. Por outro, será o fim da criatividade. Num mundo em que já se sabe, de antemão, exatamente o que vai agradar ao público e produz-se de acordo com essas informações, não há arte possível. Toda produção torna-se resultado de uma mistureba pasteurizada e sem sabor. Ficaremos perfeitamente satisfeitos. Pelo menos até o dia em que percebermos que todas as séries e todos os filmes são variações de um mesmo tema.

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