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Flávia Denise

Obviamente, ela quer tudo

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PUBLICADO EM 08/01/18 - 03h00

Há quem pareça acreditar que os anos 60 e 70 resolveram as questões da libertação sexual e do feminismo. Afinal, as mulheres e os homens dessa época foram bem-sucedidos na luta pela liberdade de agir como queriam e pelos direitos das mulheres, como o de dormir com quem quisessem, certo?

A resposta para essa pergunta foi, por muitos anos, um entusiasmado e sem hesitação “certo!”. Mesmo quem sentia que esse não era o caso não parecia conseguir elaborar exatamente o motivo pelo qual não concordava com a declaração. Mas nos últimos anos temos visto surgir novas movimentações feministas, como #meuprimeiroassedio, #meuamigosecreto e #eutambem, que podem ser entendidas como um esforço coletivo e global em tentar entender e expressar um sentimento que até pouco tempo era tratado como “exagero” ou “loucura”: a repressão constante e generalizada causada por um ambiente machista.

É em meio a esse sentimento que o cineasta Spike Lee retornou ao seu primeiro filme, “Ela Quer Tudo” (1986), transformando-o numa série de mesmo nome em parceria com a Netflix. Como poderia se esperar de um trabalho de Lee, a produção é uma das melhores num ano em que a competição foi acirrada (“The Handmaid’s Tale”, “The Good Place”, “Mindhunter”, “Big Little Lies”, só para citar algumas).

A exemplo do filme dos anos 80, a nova produção gira em torno de Nola Darling (DeWanda Wise), uma artista negra nascida e criada no Brooklyn (NY) que trabalha para fazer sua carreira dar certo e que equilibra três amantes: Mars Blackmon (Anthony Ramos), Jamie Overstreet (Lyriq Bent), Greer Childs (Cleo Anthony). Com dez episódios de 30 minutos, a série vai revelando, aos poucos, as várias facetas e desafios da vida de Nola.

Ela é uma mulher que aceita seu corpo como ele é, mas sua amiga vive presa na ditadura da beleza. Ela precisa de tempo para pintar, mas também precisa de dinheiro para o aluguel. Ela quer ser reconhecida como artista, mas tudo que faz é questionado. Ela quer viver livre, mas a imposição do outro sobre seu corpo a deixa com medo. E ela quer um relacionamento perfeito, mas cada aspecto do parceiro ideal está numa pessoa diferente.

Esforçando-se para encontrar uma espécie de verdade segundo a qual possa viver, Nola aceita a vida como ela lhe é oferecida. E assume controle absoluto de suas próprias decisões. É nesse ponto que a genialidade de Lee emerge. É hipnotizante ver como ele parte de uma mulher que parece dar as cartas para mostrar que não há como sobrepor-se à vida. Todos os dias são compostos de sequências de acontecimentos com o potencial de mudar tudo.

As aventuras de Nola Darling são um belo exemplo de como as questões da libertação sexual e do feminismo ainda não foram resolvidas. Não há um único personagem que aceita a vibrante vida sexual da moça. E não há um único amante que não tenta convencê-la a abrir mão de sua liberdade sexual. Mas o trunfo de Spike Lee vai além disso. É na capacidade dele de mostrar que o “tudo” do título não se resume a transar com três homens que ele mostra uma compreensão ímpar dos conflitos internos de Nola. Ela quer tudo. E não aceita que seu “tudo” seja definido por outras pessoas. Por isso, não se engane. A série parece ser sobre liberdade sexual, e até usa esse assunto para abordar seu tema principal. Mas é, na verdade, sobre outro cerne bem mais amplo: a autodeterminação. Que ninguém tente controlar Nola.

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