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João Gualberto Jr.

Partidos entre dois partidos

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PUBLICADO EM 14/10/14 - 03h00

A polarização entre PT e PSDB dava pinta de ser ideia de marqueteiro. Parecia ser mera adaptação, de ambas as partes, ao “mercado dos votos”, em que cada grupo ocupa um lado do nicho ou um hemisfério da gôndola do supermercado. Ou, ainda, dava a impressão de que cada partido queria fazer crer que seus produtos estavam disponíveis em lojas frequentadas preferencialmente por um perfil específico de consumidor.

Para além do marketing, a preferência da sociedade, na real, era bem mais complexa. Errado. Os resultados do primeiro turno foram incríveis em sua capacidade de seccionar o Brasil ao meio. Ou petistas e tucanos são genuínos no que sempre venderam e, de fato, representam cada um uma metade, ou a imagem publicitária de país partido colou na realidade.

Causa e efeito não necessariamente nessa ordem, podemos afirmar sem medo de errar que a eleição rachou o Brasil ao meio. Já foi estampada em demasia a divisão geográfica. Segundo o mapa dos vitoriosos no primeiro turno, Dilma foi a preferida do Norte e do Nordeste – com exceção de Acre e Pernambuco, onde Marina venceu –, e Aécio liderou no Sul e no Sudeste, obtendo sua maior vantagem no Estado mais poderoso e populoso, São Paulo.

Mas a fissura que mais impressiona não é essa, do mapa, mas as sociais. O jornal “O Globo” disponibilizou gráficos em que cruza as votações dos principais candidatos à Presidência e os resultados em municípios que ocupam campos extremos em termos de indicadores sociais como renda per capita, mortalidade infantil, analfabetismo, miséria e presença do Bolsa Família. As dispersões comparadas entre Dilma e Aécio são chocantemente invertidas: nos casos em que se traçou uma reta decrescente para ela a respeito de determinado indicador, a reta para ele era crescente, ou vice-versa, como num espelho.

Portanto, temos, sem dúvida: Dilma; candidata dos mais pobres, dos menos escolarizados, dos que mais dependem de benefícios de renda transferida e dos que convivem ou conviveram com mazelas sociais; contra Aécio, candidato dos mais ricos, dos mais escolarizados, dos que não precisam receber repasses do poder público e dos que não sofrem das doenças de nossa sociedade.

A descrição soa como um simplismo maniqueísta? Sim, soa, mas é o eco que saiu das urnas no dia 5. E o que motiva a divisão tão clara talvez seja a resposta a apenas uma pergunta: você defende que o Estado interfira na sociedade brasileira com maior ou menor magnitude para, entre outros motivos, ditar os rumos da economia e buscar reduzir as disparidades sociais? Para cada um dos extremos desse continuum, há um candidato fincado.

O eleitor que escolhe um lado tem o mesmo poder e a mesma importância do que aquele que prefere o outro lado. É discriminatório afirmar que um vota com o estômago e outro, com a carteira. São ambas as posições racionais, e o preconceito e a intolerância ao divergente podem levar ao Brasil, para além da cisão social, a antagonismos menos desejosos, como o certo contra o errado, o inteligente contra o burro, o bem contra o mal. 

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