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Josias Pereira

Síria: entre o sorriso e o choro no grito de gol

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PUBLICADO EM 11/09/17 - 03h00

O conhecimento de um jornalista é construído muito além das suas próprias vivências, mas também na observação contínua e na experiência que um dia foi fomentada por outros. Mudam-se os cenários, os personagens e os palcos. Mas a ideia, essa jamais muda. Certa feita, tive o prazer de ler o livro “A Guerra do Futebol”, escrito pelo jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, uma maravilhosa obra que relata o exato ponto em que os conflitos políticos entre El Salvador e Honduras chegaram ao ápice, tendo como estopim os jogos eliminatórios para a Copa do Mundo de 1970, no México.

De ambos os lados, a hostilidade foi a marca dos confrontos entre os países, precisamente três jogos, que, ao fim da peleja, no estádio Azteca, na Cidade do México, um campo neutro, determinou a classificação de El Salvador à Copa. Salvadorenhos e hondurenhos tinham motivos para se odiarem. A fronteira entre os países não estava definida, fato que gerou uma onda migratória de salvadorenhos em Honduras. Para complicar, relações comerciais estavam estremecidas e, claro, existia o futebol.

Seria simplório creditar ao futebol o motivo do ódio. Mas é fato que os jogos aumentaram a tensão, determinaram o rompimento de relações, que consequentemente deram origem a uma guerra, que durou cem horas. El Salvador, na Copa de 1970, sequer passou da primeira fase. Porém, por trás de 11 pessoas chutando uma bola ou por trás de qualquer modalidade esportiva disputada em âmbito global, há o orgulho de uma nação ou a reafirmação de um status dominante. Existe poder no esporte.

O esporte identifica ou legitima uma ideia. E é por isso que autoridades ligadas à causa síria veem com ressalvas a comoção mundial registrada com a classificação da seleção do país à pré-repescagem para a Copa de 2018. O empate por 2 a 2 com o Irã fez com que as imagens de milhares pelas ruas de Damasco tomassem as redes sociais e os noticiários, passando a imagem de um país unido mesmo em meio ao caos.

No próprio grupo de jogadores da Síria, há quem defenda de forma pública o governo de Bashar Al Assad, denunciado na ONU por crimes contra a humanidade. As atrocidades na Síria, que já registra mais de 400 mil mortos e 5 milhões de refugiados, tiveram uma pausa no empate com os iranianos.

A Fifa, sempre turrona com qualquer discurso político ou religioso, se calou quando jogadores sírios apareceram com camisas de Assad em coletivas. Talvez a entidade não acredite realmente que a Síria passará pela Austrália na repescagem. Talvez a entidade acredite que o futebol seja uma forma de curar as mazelas. Mas, por trás da festa, há quem chore, como a família dos 38 jogadores profissionais assassinados pelas forças do regime, além de 13 outros desaparecidos, conforme números de investigações paralelas sobre os danos dos conflitos na Síria.

“Todo cidadão se transformou em um soldado e os jogadores farão o melhor pelo país”, disse Mowaffak Joumaa, presidente do Comitê Olímpico da Síria. O esporte e a propaganda andam lado a lado. E o futebol é, sim, uma guerra.

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