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Laura Medioli

'Furacão'

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PUBLICADO EM 18/06/17 - 04h30

Com 9 anos, presenciei uma cena da qual nunca vou me esquecer. Era uma tarde de domingo, estávamos em casa eu, meus pais e irmãos. Lá fora um barulho forte de vento, e o céu, num prenúncio de tempestade, rapidamente escurecia. Era ainda muito pequena para entender o que estava para acontecer. A única coisa de que me lembro é de meu pai, aflito, gritando para todos saírem de casa. 

O barulho lá fora era ensurdecedor, e o céu, cada vez mais negro. E era para lá que deveríamos ir, lá onde as árvores se curvavam em direção ao chão, a poeira se levantava em redemoinhos, e o vendaval, com uma força descomunal, destruía tudo por onde passava, inclusive parte de nossa casa. Segurava com força as mãos de meu pai, que, apreensivo, a tudo observava. Como era muito magrinha, não me deixavam sozinha, acho que por receio de que eu voasse. Atônita, via aquela cena terrível se passar à minha frente. 

O pior foi quando o Paulo, meu irmão mais velho, inventou de subir no telhado. Meus pais, ao vê-lo ali de pé, numa brincadeira perigosa e inconsequente, mal acreditaram.

– Paulo! Desce daí, pelo amor de Deus! – gritavam.

Nessa hora, foi Deus quem protegeu. No exato momento em que ele desceu, o telhado voou pelos ares. Também caíram as grades da varanda e parte do teto da sala. Fora o iminente perigo de as árvores tombarem na casa, motivo maior de nossa saída forçada. Esse “furacão” ficou na história de Belo Horizonte. 

Toda a cidade havia sofrido as consequências do vento. Árvores caídas, barracos destruídos, casas danificadas, carros destroçados. Pode parecer brincadeira, mas por causa disso fui parar no psicólogo. Se existe uma coisa com a qual sou traumatizada, são ventos fortes. Naquela época, lembro-me de que o psicólogo, doutor Raimundo Lippi, pedia-me para desenhar árvores. Eu as desenhava ao redor de minha casa, sempre curvadas, prestes a cair. Demorou um pouco para que meu pânico diminuísse. 

Com 13 anos, presenciei outra tempestade que ficou na memória. Era um dia de semana em que somente eu, Preta, nossa mais querida cozinheira, sr. Pedro, nosso jardineiro, e um pintor, do qual não me recordo o nome, estávamos em casa. Por volta das 17h, o dia virou noite. E, como se não bastasse, pedras de gelo começaram a cair do céu. Em questão de minutos, a grama ficou branca. 
Dentro de casa o pânico foi completo, principalmente após a queda de energia. O pintor, um senhor já de idade, começou a gritar que era o fim do mundo. Preta providenciou uma vela e tratou de rezar.

– Vão rezar, gente! Vão rezar! – gaguejava nervosamente na tentativa de manter o equilíbrio.

Um dos cachorros, enlouquecido com o barulho, se atirou na porta da varanda com vidro e tudo. E eu, já bastante traumatizada, observava a cena dantesca, começando a acreditar que aquilo fosse realmente o fim do mundo. 

Enfim, a tempestade cessou. Quando minha mãe e meus irmãos chegaram, o assunto não era outro, principalmente após constatarmos o caos em que havia se transformado a nossa casa. Árvores e fios caídos, passarinhos e sapos mortos por todo lado, mangueiras e outras árvores desfolhadas, cachorros em pânico ou desaparecidos. A chuva de pedra foi tamanha que, no dia seguinte, retiramos com pá camadas de gelo do chão. Não foi a primeira tampouco a última chuva de granizo que presenciei, mas, sem dúvida, a que mais me assustou. E foi depois dela que o doutor Raimundo quase me recebeu de novo.

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