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Laura Medioli

Morte na academia

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PUBLICADO EM 15/04/18 - 04h30

Sabe aquela vontade de acordar cedo para malhar, caminhar ou correr,  regada a água de coco, suor e serotonina?

Pois é, morro de inveja de quem tem. No momento estou mais parada que o pirulito da praça Sete em dia de manifestações. Todos em volta se movimentando, gastando energias, e eu lá, vendo tudo, sem mover uma pedra, ou melhor, uma perna sequer. Aliás, ando que nem pedra ultimamente, com dificuldade de subir escadarias e facilidade pra despencar na cama.

Cansaço? Preguiça? Os dois juntos? Sei lá.Hoje, domingo, disse pro meu espelho: “Segunda-feira eu começo!”

O quê? Ainda não decidi, mas alguma coisa, com certeza, vou começar. Ou melhor, recomeçar, já que de tudo eu fiz um pouco.

Lembro quando, após uma parada geral e preguiça endêmica, almoçando com os jogadores de vôlei do Sada Cruzeiro, ouvi a pergunta:

– E você, Laurinha, o que anda fazendo de esporte?

– Nada –, respondi. E vi as caras de espanto. – Ai, gente, não estou fazendo nada! – completei, sem graça.

– Nem caminhada? – perguntaram surpresos.

“Ai, ai, ai”, pensei. Como explicar para uma turma de atletas, com seus 2 m de altura e sabe-se lá quantos centímetros de bíceps, que eu era uma “antiatleta” total, que minha esteira já tinha virado cabide fazia muito tempo e que aquelas caminhadas de uma hora por dia eram coisas do passado? Assumi, envergonhada, minha posição, pensando em, no dia seguinte, tomar providências. E foi o que fiz: matriculei-me no tênis. No começo quase morri, afinal, depois dos “enta”, passar uma hora correndo atrás de bolinhas não é fácil. Um ano depois, deixei de jogar com adolescentes e passei a jogar com adultos. A glória!

Quando me falaram sobre o pilates, confesso que, no início, achei uma chatice. Esse negócio de alongamento, respiração cronometrada, se esticar em bolas gigantescas... Sei não. Até descobrir que por meio dele eu havia desenferrujado, passando a trabalhar músculos que nem sequer sabia que existiam. Sucesso!
Depois, a volta natural à academia. O difícil era casar horários. Tênis no início da noite, pilates e academia de manhã em dias alternados. Nos fins de semana, o reinício das caminhadas, até ir acelerando os passos e me descobrir correndo. Uhuuuu!!!

Pois é, acho que está na hora de almoçar de novo com os jogadores. Quem sabe eles me dão uma prensa e eu volto à ativa? 

Brincadeiras à parte, já entendi que está mesmo na hora de voltar. Tênis? Academia? Corridas?  Pilates? Zumba? (Acreditem, até isso eu já fiz). 

Na última vez que corri, resolvi levar minha cachorra junto. E lá fomos nós, ela com sua coleira e uma enormidade de empolgação à frente e eu atrás, em ritmo acelerado. Até que, de repente, do nada, ela resolveu frear, e eu, sem tempo hábil de perceber isso, não parei. Resultado: atropelei-a sem querer e aterrissei no cimento duro do outro lado da calçada. Caí feio, machucando mãos, joelhos, cotovelos, tudo! Um desastre que atraiu vários caminhantes para acudir. 

– Machucou? – perguntavam-me.

– Acho que não, está tudo bem! – isso, ainda esparramada no chão, tentando calcular o tamanho do estrago. A cachorra, minha pit-lata preferida, voltou rapidamente e se sentou ao meu lado, provavelmente sabendo que alguma coisa tinha feito para eu estar ali. Sua cara preocupada me fez perdoá-la na hora. Mancando, voltamos pra casa. Depois disso, nos fins de semana, apenas caminhadas leves com ela e com meu marido.

E hoje aqui estou, sentada diante do computador enquanto o sol da tarde brilha lá fora. É domingo, dia de Atlético e Cruzeiro. Uma ótima desculpa para ficar de frente à TV. Minha pit-lata está ao meu lado, querendo que eu saia com ela.

– Nem que a vaca tussa! – tento explicar à minha cachorra. – Segunda-feira eu recomeço! – digo, me justificando.

Outro dia, no salão, escutei de uma jovem senhora:

– Resolvi fazer academia e comprei o pacote de um ano. Não se passaram dois meses e já estou querendo largar... E agora? Será que eles me devolvem o dinheiro?

“Ai, ai!”, penso com meu botões, quantas vezes já fiz essa besteira. Logo eu que, com um mês, já estava querendo matar o personal. Aquele cara que não desgruda um minuto, vigiando a nossa performance, gritando “só mais um! Vai, que você consegue!” Que mal te dá tempo para um gole d’água. “Vamos lá, 40 abdominais pra começar! Prende a barriga, segura o bumbum, levanta a perna, dobra o joelho!” E você lá, tramando em silêncio como fazê-lo se calar e esquecer sua pobre existência exaurida, enquanto, aos trancos e barrancos, levanta três quilos de ferro em cada braço.   

Pronto, acabei de decidir o que fazer. Amanhã recomeço: pacote trimestral com direito a um saradão no meu pé, ditando as regras do jogo. Se é pra começar, vamos começar direito. E, se por acaso vocês lerem no jornal sobre um personal trainer morto na academia com um haltere na cabeça, não se assustem. Juro que não fui eu.

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