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Laura Medioli

Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar

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PUBLICADO EM 16/04/17 - 04h30

Domingo de Páscoa, e ela lá, em frente à TV, esbaldando-se de chocolate. Carecidíssima de serotonina, mandou pro espaço o regime e fez questão de comprar o maior, o mais crocante e apetitoso ovo que já se viu. Afinal, devido às circunstâncias, ela merecia dar-se esse presente.

Exatamente há um mês, havia planejado tudo: Semana Santa numa daquelas praias paradisíacas do Sul da Bahia, pousadinha básica, com rede na varanda, ventilador no teto e um peixinho frito à beira-mar. Não carecia de mais nada. Ela e ele, naturalmente. O problema é que depois de tudo resolvido, devidamente organizado, acabou faltando o básico: ele.

Já que o dito, durante uma crise existencial, preferiu isolar-se, enveredando-se num retiro espiritual em profunda harmonia com o sagrado, entremeado por consideráveis silêncios e duradouros jejuns: ele e Deus. Fazer o quê?

Ao perceber que sobrava nessa história, tentou argumentar, mas descobriu desalentada que suas ponderações não dariam nenhum resultado, afinal ter Deus como rival era uma coisa complicada e, sinceramente, era melhor deixar pra lá. Andou até cometendo certos sacrilégios, excomungando Deus e o diabo, até conversar com a amiga zen que, a tempo, interferiu no caso.

– Escuta aqui, Regininha, mil vezes ele estar num recanto isolado, conversando com Deus e buscando “seu eu interior”, do que estar na farra com amigos, bebendo todas, numa total falta de respeito com...

– Mas ele não estaria com os amigos na farra. Estaria comigo, num chalezinho em frente ao mar, só isso!

– Sim, com você. Tomando caipirinha, comendo peixe frito, torrando ao sol, falando amenidades e fazendo amor...

– Uai! Quer coisa melhor que isso?

– Você não entende...

– Entendo, sim. Aliás, não entendo de jeito nenhum...

– Amiga, dê graças a Deus...

– Ah! Não dou, não. Sente o drama: sozinha em pleno feriado, me empanturrando de chocolate, vendo filmes de mil novecentos e pedrada na TV, já que o DVD, claro, estragou na Sexta-Feira da Paixão... Isso pra não dizer do cheque especial estourado com a camisola supersexy, o roupão branco aveludado de cetim pós-banho, os trocentos cremes para antes, durante e depois do sol, o biquíni “despista-barriga” que rodei horrores para encontrar. Isso tudo pra quê? Pra viagem que não teve, droga!

– Nossa! Essa gastança toda só para passar alguns dias na praia deserta com o namorado bonitão?

– Desisto! Definitivamente não pertencemos ao mesmo mundo... Mas vai me dizer que não gostaria de ir com o Paulo a um lugar assim?

– ...

– Oiiii! Acorda! O que você está pensando aí?

– Nada, é que... bem... hum... Ô, Regininha, só por curiosidade, claro, mas onde mesmo que fica o tal chalezinho?

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