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Laura Medioli

O último ‘Ooh’ em Paris (2ª parte)

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PUBLICADO EM 06/08/17 - 04h30

Pois é, torrou o que tinha e o que não tinha para levar Gabi a Paris. No início foi o contratempo com o hotel. Também! Foi muito azar o motorista ter trocado as bolas e mandá-los para aquela coisa colossal, esplendorosa, chamada Mercory Boulevard! Imagina! O nome era praticamente o mesmo, a não ser pelo “Trois” do outro. Chato foi ter que pegar o táxi de volta, para chegar ao outro Mercory, um predinho de três andares descascado e sem gracinha, no final de uma rua escura e esquisita e, o pior, com uma francesa enfurecida que se recusava a entender o portunhol de ambos.

– Parlez-vous français? – repetia, pela quinta vez, a mulher.

– Non parlevamo nada, minha senhora. Já te dei os passaportes, o voucher, os diabos... O que mais a senhora quer?

Só queria ter a certeza de que o casal não lhe traria problemas, sendo necessário um depósito no cartão de crédito para sanar possíveis despesas. E ele:

– Quais despesas? Almoçar nessa espelunca é que não vou.

A mulher, ao vê-los juntos, instalou-os no 201, cama de casal.

– Non, non! – dizia a Gabi, impaciente.

E a outra explicando: era o melhor que tinha, com vista para a rua.

– Non, non! – continuava a Gabi. – I want two bedrooms.

– Comment?

– Two quartos, comprendes?

– Comment?

Ao perceber a confusão se formando, Carlinhos pegou sua mala e se dirigiu ao corredor. A mulher, ofendida, começou a reclamar. Afinal, seu hotel não era de luxo, mas era limpo, asseado, “de família”, e aquele quarto era o que tinha de melhor. Só depois verificou que na reserva constavam dois “single bedrooms”. Acabou instalando-o no 302, sem janelas. Ele queria trocar, mas estava cansado demais para reclamar alguma coisa.

Pelo interfone combinou com a Gabi de se encontrarem mais tarde, na portaria. O problema foi que ela, após o banho, apagou! E nada, nada a tiraria da cama naquele dia. Nem as milhões de interfonadas do Carlinhos, que, preocupado, tentava explicar à mulher que a amiga poderia ter morrido lá dentro, sei lá, ultimamente as coisas pro seu lado estavam tão complicadas, com a bruxa tão solta, que pra Gabi ter tido algum “troço” não custava. No decorrer da tarde continuou ligando, ligando, até bater à sua porta. Bateu, bateu, esmurrou, e nada. Desesperado, chamou a mulher novamente. Quis que ela, com a chave mestra, entrasse no quarto, mas a mulher não o entendia e sequer se esforçou para isso.

A noite chegou. Exausto, acabou dormindo. Um sono cheio de pesadelos: Gabi se jogando da janela, Gabi voando da Torre Eiffel, Gabi se afogando no Sena. Uma coisa horrorosa! Até que às três da manhã foi despertado pelo interfone.

– E aí, Carlinhos? Vamos sair?

– Como? Agora?

– É, uai! Tô morrendo de fome...

– Mas, Gabi, são três horas da manhã.

– O quê? E por que você não me chamou? Eu falei que queria sair...

Bom, já deu pra sentir o drama, né? Levantou-se de um pulo e foi se encontrar com a amiga na portaria. Tudo escuro, a não ser pela luzinha do balcão, onde roncava nas alturas um rapazinho.

– Ei! Psiu! Oiiiiii!

O garoto levantou assustado e, desorientado, foi abrir a porta. Tentou falar alguma coisa, mas, ao ver que não era compreendido, deixou pra lá. Na rua escura e deserta, ficaram meio assim... Encontrar um restaurante, um bar ou qualquer coisa nessas alturas do campeonato era querer demais. Entre gatos e latas viradas, acharam por bem retornar. Nem é preciso dizer que o rapazinho, cujo ronco nas alturas se escutava de longe, custou uma eternidade a aparecer. E não tinha “pardon madame” que acalmasse Gabi: cansada, esfomeada e no auge da TPM. Putz! Barraco em Paris às três e meia da manhã era a última coisa de que precisava, pensou desanimado, enquanto voltavam aos seus respectivos quartos. E foi assim a primeira noite deles em Paris.

No dia seguinte, na mesa do café, combinaram a programação. Gabi queria ir à Torre Eiffel, enquanto ele sugeria o Louvre. Pretendia deixar a Torre para o final, quando estivessem mais íntimos e ela pudesse ouvir suas declarações. E, envolvida pela atmosfera do lugar, descobrisse que era ele o homem da sua vida. Na sua cabeça já havia arquitetado tudo: o que dizer, como dizer, as caras, o olhar ensaiado no espelho, para no final, sob ares parisienses, viver o “gran finale”. “É tiro e queda”, havia lhe dito o amigo. E ele acreditou.

Acabaram indo passear no Sena. Depois, caminharam pelas calçadas, lojas e cafés. Ele, falando e falando. Ela, calada, indiferente à sua presença. Queria mesmo era curtir o local, não propriamente a companhia.

Esfomeados, entraram no primeiro restaurante que viram. Ela, observando tudo, nos mínimos detalhes; ele, observando o menu e os preços. Apavorado. Pediu um crepe, enquanto a Gabi, um “poisson à la Bourguignonne”.

Ficou indignado por ela ter comido apenas a metade – disse que o peixe estava “meio esquisito”. Imagina! Naquele preço a última coisa que ele poderia estar era esquisito. Claro, desperdiçar seria um absurdo. Apesar de satisfeitíssimo de tanto crepe, comeu a contragosto a outra metade.

E foi dentro do metrô que o “poisson” começou a fazer efeito. Com aquela cara de espanto ele olhava ao redor, enquanto procurava um toilette. Claro, “toilettes” não existiam em vagões de metrô. Pararam na primeira estação, ela perguntando o porquê, e ele, mal respirando, saiu em disparada. Não deu tempo. O desastre se concretizou ali mesmo. Quis morrer, pular na frente do trem. E ela, horrorizada, quis sumir, tipo “Não te conheço!”. Mas, como nada é por acaso, também nela o poisson foi dar o ar da sua graça. Ou melhor, da sua desgraça.

E foi numa enfermaria de hospital que Carlinhos e Gabi passaram sua segunda noite em Paris.

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