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Laura Medioli

O pão deles de cada dia

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PUBLICADO EM 12/11/17 - 04h30

Minha mãe adora passarinhos! Naturalmente, os que voam livres em seu jardim. Todas as manhãs alimenta-os com canjiquinha e pedaços de frutas.

E vem me contar as novidades:

– Filha! Está vendo aquele amarelinho? Há dois dias que o seu companheiro sumiu e ele anda piando diferente. Nem come direito.

E fico aqui, pensando com meus botões, se passarinho sente saudades ou tem depressão. Minha mãe garante que sim, conhece todos, chama-os quase pelo nome. Basta ela chegar à varanda, tocar o sino, que eles aparecem. De cores, cantos e espécies variadas. E eu me encanto.

Como de costume, sempre que vou visitá-la, levo minha pit-lata Vlora, que, empolgada, segue na frente.

Um dia desses, conversando com minha mãe na sala de TV, percebo que a minha cachorra havia saído de perto – geralmente ela não desgruda de mim nem um segundo.

E a cozinheira vem me contar:

– Sua mãe deu pão para ela. Deve estar lá fora comendo.

– Mãe! Eu não disse que ela precisa emagrecer? E você dá pão pra ela comer?

– Filha, eu não dei pão, ela deve ter pegado o pão que dei pro rato.

– O QUÊ? – saí gritando e correndo pelo jardim. A Vlora vai comer o pão do rato e morrer envenenada, foi a primeira coisa que me passou pela cabeça.

– Mãe! Você está doida? Onde já se viu pôr veneno no pão, sendo que os cachorros não saem daqui?

– Mas, filha! Eu só dei o pão pro rato, não dei veneno.

A história começava a se complicar.

– Mãe! Não estou entendendo, você deu um pão pro rato?

– Isso! – me diz com naturalidade. – Todo dia eu dou pão e um pedaço de mamão pra ele. Ele mora no jardim e vem comer aqui, na varanda.

– Eu não acredito! – resmunguei, por resmungar, já que acreditava piamente que minha mãe, além dos passarinhos e dos cachorros, arrumou um rato de estimação.

– É um camundongo, filha! Uma gracinha…

E comecei a rir, afinal, também já tive bichos esquisitíssimos sob os meus cuidados. Um filhote de coruja que ficava no meu quarto, gambazinhos órfãos na gaiola, com direito a leite em conta-gotas, criação de rãs e sapos, além de um formigueiro gigante dentro de um vidro industrial de maionese. Enfim, quem era eu para questionar o ratinho de estimação de minha mãe?

Menos mau que o pão do rato não tinha veneno e que minha cachorra não corria risco de morte. Também! Se ela não morreu com o pão do Verde Mar, acho que não morre nunca mais.

Explico:  preparando-me para receber visitas em casa, comprei um pão italiano enorme e pesado, com farinha integral e sementinhas diversas, para servir com patês. Uma bomba calórica que mal cabia na cesta.

Próximo ao horário da chegada das visitas, cadê o pão que tinha deixado em cima da pia? No lugar, duas patinhas sujas de barro, ou melhor, patonas, e a cozinheira aflita me contando o ocorrido.

– Quando eu vi, já era tarde, ela saiu correndo pro jardim com o pão na boca. Não sobrou nem um grão de linhaça pra contar história…

Confesso que fiquei mais preocupada com a situação digestiva de minha cachorra do que com a falta de tira-gostos para as visitas. O pão realmente era uma bomba, massudo e pesado. Como coube aquilo tudo na barriga da pit-lata, só Deus!!!

E ela lá, esparramada no gramado, mal conseguindo se levantar.

– Quem comeu o pão das visitas? – já cheguei acusando.

E ela, com cara de culpa no cartório, pôs o rabo entre as pernas e baixou os olhos, se denunciando. O jeito foi rir. Tão cedo não vai querer saber de pão na sua vida, pensei.

No dia seguinte, na mesa do café, lá vem ela, minha pit-lata preferida, com seu latido irritante de “quero mais”. Vai entender…

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