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Laura Medioli

Rogoberto

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PUBLICADO EM 16/07/17 - 04h00

Há 13 anos escrevo neste jornal. No início, histórias inventadas, ultimamente, fatos pessoais ou ligados a pessoas próximas. Certa vez um amigo me disse:
– Laurinha, por que você não cria um blog? – E respondi:
– Mas eu já tenho um! Toda semana, por meio das crônicas, acabo falando de mim, da minha família, dos meus cachorros, dos meus amigos...

De vez em quando, perguntam-me se tudo o que escrevo é verdade. Se escrevo na primeira pessoa, digo que sim. Posso até florear um pouco, mas procuro ser o mais fiel possível. Felizmente, nasci numa família meio fora do padrão, o que me permitiu viver coisas inusitadas. Por isso, a dúvida: mas isso aconteceu mesmo?

Um dia fui convidada para um bate-papo com uma turma da pós-graduação da Faculdade de Letras da UFMG. Uma tarde prazerosa em que falamos sobre crônicas, autores e inspirações. Sei que cada escritor tem sua rotina para escrever. No meu caso, não tenho local, não marco horário e sequer penso na pauta. Posso estar no meio do banho ou numa noite insone, em que me levanto da cama e vou ao computador. Se ele me falta, pode até mesmo ser um lenço de papel a registrar as ideias. Atualmente, com este frio terrível, deixo um caderninho ao lado de minha cama, caso na madrugada me venha alguma inspiração. E é nos fins de semana, com tempo e disposição, que normalmente as repasso ao computador.

Às vezes penso em me organizar para tentar dar à escrita certa disciplina, deixando-a menos solta, menos ao deus-dará! Também pode acontecer que, quando eu me organizar, ela deixe de ser natural e passe a ser um simples cumprimento de tarefas. Sei lá.

Nesses anos todos de histórias, inventadas ou não, acabei criando um vínculo gostoso e gratificante com alguns leitores, que há anos escrevem-me quase toda semana para comentá-las ou compará-las a suas vivências pessoais. Mesmo não os conhecendo pessoalmente, tornaram-se meus amigos. O bom da crônica é isso. Por se tratar de histórias simples e comuns a tanta gente, as pessoas acabam se encontrando e, assim, cria-se com quem a escreve certa cumplicidade.

Também tem aqueles que escrevem aflitos querendo repassar suas experiências:
– Laura! Você precisa escrever sobre minha vida! – E por telefone mesmo, ou através de e-mails, desfiam infindáveis narrativas. Algumas repasso ao papel. Histórias que merecem ser divididas como a da jovem mãe, ex-viciada em crack, que conseguiu dar a volta por cima. Achei importante relatar sua trajetória, e assim o fiz.

Através da escrita, tenho a oportunidade de lidar com leitores divertidos, dramáticos, contestadores, românticos, curiosos, sensíveis. Uma gama de pessoas diferentes, cujos comportamentos acabam me inspirando.

Há também os idosos, pelos quais nutro um especial carinho. Não me mandam e-mails, mas cartas floreadas, muitas delas com letras trêmulas, que emocionam.

Mas hoje quero me lembrar de um dos meus leitores mais fiéis e queridos, que, por mais de quatro anos, semanalmente me escreveu. Mesmo com problemas de saúde, ele fazia questão de estar presente em ocasiões especiais para mim, como no lançamento de um livro.

Há três semanas, percebi que ele deixou de escrever. Da última vez que isso aconteceu, foi quando sofreu um infarto. Quando saiu do hospital, contou-me de sua internação, das dificuldades financeiras pelas quais passava devido ao sumiço dos clientes por causa da crise. Era um advogado com mais de 50 anos de experiência e mantinha um escritório no centro da cidade. Na sua doença, me falava dos filhos que o ajudavam e tantas outras coisas. Trocávamos ideias, ele desabafava sobre seus problemas, pois sabia que do outro lado da linha telefônica ou do computador havia alguém que lhe dava atenção.

Há três semanas deixei de receber seus e-mails. E foi com enorme pesar que li a notícia de sua irmã comunicando o seu falecimento. No fundo eu já sabia que aquela ausência seria para sempre.

Fica com Deus, meu amigo! Que nós continuamos aqui, na luta! Sentirei falta de suas mensagens, mas sinto-me feliz por lhe ter proporcionado um pouco de alegria e inspiração.

Ao Rogoberto, meu fiel e querido leitor, dedico esta crônica.

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